A arte de reportar – perfis e outros escritos da The New Yorker
26/10/2011 às 15:08 | Publicado em Livros, perfis e biografias, Resenhas | Deixe um comentário
Dentro da Floresta (Companhia das Letras, 2006) é um dos seis livros escritos pelo jornalista David Remnick, o editor atual da revista The New Yorker (lançada em 1925, a publicação teve seletos cinco editores até agora, Remnick incluso).
Antes de comentar um livro, gosto de lê-lo e deixar passar um tempo, para que o conteúdo, digamos, assente dentro de mim. Tenho a sensação de que degustar uma leitura é algo muito próximo de saborear um bom vinho ou sentir um perfume de qualidade.
Em ambos, há aquela nota inicial, que nos faz gostar da obra de cara ou deixá-la na cabeceira à espera de um momento mais propício para leitura. Com suas 575 páginas, Dentro da Floresta ficou certo tempo me espiando, até que eu achasse que era hora de me debruçar sobre seu conteúdo.
O livro consiste em 23 perfis que Remnick escreveu para a The New Yorker, acrescido do posfácio de João Moreira Salles, o mentor da revista piauí! – ele também um refinado escritor de perfis.
Durante a leitura, há aquelas notas prazerosas que emergem ao saborear um bom tinto, quando se consegue identificar o terroir, isto é, os rastros da terra, do ar, da água, enfim, do meio ambiente que fazem o conteúdo de cada garrafa única. Neste caso, sentimos o repórter que trabalhou por anos no The Washington Post, aquele olhar atento de quem sabe que é a partir da pesquisa e da apuração que um bom texto emerge. Neste contexto, um dos destaques do perfil do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair é a constrangedora entrevista concedida a dois apresentadores mirins de um programa de televisão de variedades. O perfil, escrito em 2005, não por acaso é intitulado A Campanha do Masoquismo.
Há que se mencionar que em outros perfis de políticos, sobretudo os muito distantes da realidade brasileira, poderão considerados enfadonhos pelo leitor brasileiro médio. Claro que não o de Vladimir Putin, aqui magistralmente descrito como um sujeito visto pelo povo russo como um cara normal, que faz o que pode. Alias, é nítida a familiaridade que ele tem com a região (ele foi correspondente do Post na União Soviética até 1991 e ganhou um Pulitzer em 1994 pelo livro Lenin´s Tomb).
Mais recentemente tenho me fixado no efeito residual que a leitura de uma obra propicia. Como um vinho especial que deixa uma marca inesquecível. Esta marca pessoal de Remnick, neste livro, se faz notar pelos perfis de boxeadores e escritores.
Remnick registra o ocaso da paixão estadunidense pelo boxe, que produziu obras primorosas como o livro A Luta, de Norman Mailer, e perfis magistrais como o de Gay Talese, Joe Louis: o rei na meia idade (do livro Fama & Anonimato, ambos da Companhia das Letras). O livro de Remnick traz um perfil de Tyson, claro, mas destaco o sobre o treinador de boxe Teddy Atlas, talvez porque ele fuja do estereótipo do herói e seja apresentado como um mortal comum.
Como não poderia deixar de ser, Remnick perfila escritores. Entre eles, Philip Roth – atualmente considerado o principal escritor sênior estadunidense. Mas destaco o perfil feito de Don DeLillo, onde este filosofa sobre a notícia como a narrativa de nosso tempo.
Na ótima resenha de Dentro da Floresta feita para o jornal The New York Times, o escritor estadunidense Pete Hamill começa citando Ezra Pound que, em ABC of Reading, de 1934, dizia que “Literature is news that stays news”. Algo como literatura é notícia que permanece uma novidade. Ou seja, toca-se aqui no ponto central que une jornalismo e literatura, deixando ambos com aquele toque atemporal que encanta pessoas de todos os tempos. Seria como degustar um vinho mais do que especial.
Não é fácil escrever um texto de não ficção, bem apurado, que não seja apenas lido com prazer, mas que cative um espaço no coração e na memória do leitor. Em alguns casos Remnick consegue o feito. Por outro lado, a vantagem de uma coletânea de perfis é que o leitor fica muito à vontade para fazer sua própria seleção, concordando e, por que não, discordando do resenhista. Esta liberdade de escolha, aliás, não tem preço.
Confesso que não entendi o título, o tal Dentro da Floresta. O original, proposto pela decana Lilian Ross, é muito melhor: Reporting – Writings from The New Yorker. Ross, para quem não se lembra, é autora de Filme, também publicado na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras – livro que inspirou novos jornalistas como Truman Capote.
Monica Martinez
Nova pesquisa sobre Jornalismo Literário
17/10/2011 às 10:30 | Publicado em Jornalismo Literário, Pesquisa | 2 Comentários
Compartilho minha mais recente pesquisa científica publicada, escrita em parceria com José Eugenio de Oliveira Menezes, que integra o livro Jornalismo_Contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. A referência, o link e o artigo na íntegra encontram-se abaixo:
MENEZES, José Eugenio; MARTINEZ, Monica. Jornalismo e tempo profundo: o trabalho de Nelson Araújo no Globo Rural. In: Jornalismo_contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. SILVA, Gislene et al (Org.). Salvador: EDUFBA; Brasília : Compós, 2011, p. 182-202. Disponível em: <http://www.repositorio.ufba.br/ri/bitstream/123456789/1586/1/Jornalismo%20contemporaneo.pdf>. Acesso em: 17 out 2011.
Jornalismo e tempo profundo:
o trabalho de Nelson Araújo no Globo Rural
José Eugenio de Oliveira Menezes e Monica Martinez
Paradigmas jornalísticos em tensão
Neste trabalho analisamos uma reportagem veiculada pela televisão
que, mesmo em tempos de extrema velocidade de apuração e risco de
superficialidade na prática da reportagem, oferece indícios da possibilidade
de se captar, no trabalho jornalístico, sinais de uma temporalidade
diferente da descrição linear de acontecimentos. A partir de um modelo
de temporalidade que, como veremos abaixo, alguns autores denominam
“tempo profundo”, examinamos a experiência realizada pelo jornalista
Nelson Araújo na reportagem Buriti, veiculada pelo programa Globo Rural
em 22 de março de 2009, que compreendemos como um mergulho de
grande alcance na realidade.
A título de introdução lembramos que muitos pesquisadores têm se dedicado
aos estudos a respeito da crise de paradigmas que o jornalismo tem
enfrentado desde o final do século XX e, sobretudo, na virada do século
XXI, com a intensificação das mudanças tecnológicas. De modo genérico,
identificamos nos estudos atuais três perspectivas epistemológicas.
A primeira é marcada por uma postura quase que nostálgica, segundo
a qual as mudanças econômicas, sociais, tecnológicas e outras representam
praticamente um dano à práxis jornalística contemporânea, degenerada,
decerto, frente ao jornalismo praticado em décadas anteriores, como encontramos,
por exemplo, na avaliação de Ignacio Ramonet (2004).
No outro extremo está a segunda linha epistemológica, a dos estudiosos
que compartilham uma visão tecno-utópica que considera que os novos
ambientes de criação e cooperação proporcionados por plataformas digitais
interconectadas favorecem a prática dos jornalistas e de quem mais
queira compartilhar informações. Os novos ambientes digitais possibilitam
o “surgimento de funções conversacionais pós-massivas, permitindo,
a qualquer pessoa, consumir, produzir e distribuir informação sem ter
que movimentar grandes volumes financeiros ou pedir concessão a quem
quer que seja”. (LEMOS, 2009, p. 29) Estes pesquisadores não apenas
concentram seus esforços em tentar compreender o presente em constante
mutação, mas ainda usam toda sua capacidade intelectual numa tentativa
de detectar tendências e cenários futuros.
Na tensão entre as posturas brevemente indicadas encontram-se pensadores
cientes que vivemos no contexto da velocidade, como afirma Paul
Virilio (1996), e da conectividade da sociedade em rede, como diagnostica
Castells (1999). Um cenário no qual algumas práticas e aparatos mediáticos
caem em desuso tão rapidamente quanto outros surgem. Nem o passado
pode ser idealizado como perfeito, nem a tecnologia por si só resolverá
todos os problemas dos futuros profissionais e pensadores da área.
Esta noção de transitoriedade, aliás, é conhecida da história da comunicação
e dos aparatos técnicos que intensificam, ou não, a comunicação ou
a incomunicação. O fato não é a transformação em si, mas a rapidez com
que as mudanças se instalam. Do estabelecimento em pontos estacionários
e da prática da agricultura, ao redor de 10 mil a.C., a humanidade teria
levado seis mil anos até outra invenção significativa, a da escrita. A impressão
das primeiras publicações, conforme Ciro Marcondes Filho (2009, p. 18),
ocorre pouco mais de um século após o aparecimento dos tipos móveis
de Gutenberg. Tais fatos, de diferentes amplitudes temporais, nos ajudam
a compreender que na contemporaneidade também participamos, como
protagonistas, de novas mudanças na prática do trabalho jornalístico na
tensão entre as funções pós-massivas conversacionais que se adicionam
as “tradicionais funções massivas informacionais”. (LEMOS
, 2009, p. 29)
Para usar uma analogia, é como se a humanidade estivesse num momento
de parto que precede o nascimento: o período de nove meses no útero
materno está próximo a um fim, as contrações começaram, há uma enorme
tensão, mas nada ainda que permita saber que a vida continua, em geral
até melhor, após a enorme compressão e, posteriormente, desconfortável
passagem por um espaço diminuto em direção ao desconhecido.
O trajeto das transformações do conhecimento não pode mais ser
compreendido de forma linear, ainda que confortadora, no sentido de que
o ápice da complexidade estaria na contemporaneidade em contraposição
ao arcaico enquanto primevo e simplório. Várias visões caminham neste
sentido. Um exemplo é a teoria do cadarço de botas (bootstrap theory),
idealizada nos anos 1960 pelo físico estadunidense Geoffrey Chew, da
Universidade de Berkeley, que extrapolou sua área e passou a simbolizar
essa noção de cruzamento e interação de conceitos e práticas necessários
para a inovação em determinado campo do saber. No nosso caso, no
campo do jornalismo, estudamos uma prática de reportagem –
Buriti – para observarmos formas de captação e expressão de um tempo profundo,
marcado pela interconexão de posturas como a tradição do jornalismo
literário e a perspectiva epistemológica da chamada cultura do ouvir.
Do lixo ao luxo epistemológico
Nesse caminho histórico da epistemologia da comunicação, no entanto,
parte dos estudos mediáticos, ainda que consistentes, cai no esquecimento
por variados motivos. Em termos freudianos, seria como um conhecimento
que fica latente no inconsciente – não é usado no estado de vigília, isto é,
não consta dos manuais mais citados, contudo em circunstâncias especiais
ou necessárias, vem à tona, como se estivesse numa camada subjacente à
usada cotidianamente pelos pesquisadores da área.
O docente e pesquisador brasileiro de teoria da comunicação Norval
Baitello Junior, ao destacar os livros seminais do comunicólogo tchecobrasileiro
Vilém Flusser (1920-1991) – A História do Diabo e Língua e Realidade
– , lembra justamente que o teórico “não se cansava de lembrar a raiz da
palavra ‘história’ em alemão, Geschichte, sendo Schicht exatamente ‘camada’”.
Baitello Junior (2006, p. 13) chama a atenção para o fato de que a
deposição de camadas e camadas de detritos, entulhos, é o
que nos obriga hoje a nos debruçarmos sobre as ciências
arqueológicas, sobre o passado [...] e sobre o lixo soterrado,
como material valioso para a compreensão do presente.
Para o pesquisador, mais do que se preocupar com os estudos dos produtos
e da produção – com vistas a sua melhoria –, como feito atualmente,
uma Teoria das Mediações deveria subverter esta concepção instrumental
de pesquisa e ocupar-se da real dimensão dos meios de comunicação,
a saber, de suas raízes profundas. O pesquisador também enfatiza que
Flusser lembra que entre as ciências arqueológicas estão a Ecologia, a Psicanálise,
a Etimologia, a Mitologia etc. São as ciências que cuidam
de resgatar o passado descartado, desobstruindo o acesso
para uma relação saudável com as origens, esvaziando um
pouco a inflada ubris do presente. (BAITELLO JUNIOR,
2006, p. 13)
Baitello ressalta que essas raízes profundas, vitais para a compreensão
da comunicação e dos meios de comunicação no presente, são entendidas
como o tempo profundo na visão de Siegfreid Zielinski, professor de
Teoria dos Media da Universidade Técnica de Berlim. Em Arqueologia da
Mídia , Zielinski (2006) defende que os historiadores dos meios, apesar de
terem tido a chance de descobrir preciosidades descartadas e esquecidas
no refugo, têm-se mostrado negligentes do ponto de vista ideológico e
metodológico, rendendo-se “à idéia do progresso técnico inexorável, quase
natural”. (ZIELINSKI, 2006, p. 18)
Para o pesquisador alemão, essa noção evolucionista relaciona-se com
outras suposições, como a história do desenvolvimento da hegemonia
política, a passagem da organização hierárquica para a democrática dos
sistemas, o fundamento lógico da economia e a necessidade absoluta de
artefatos técnicos simples para o desenvolvimento de sistemas tecnológicos
complexos. Por isso, afirma que “em essência, tais genealogias são fábulas
confortantes sobre um futuro brilhante, onde tudo que já existiu está
subjugado à noção de tecnologia como um poder para ‘banir o medo’ e
como ‘força motora universal’”. (ZIELINSKI, 2006, p. 19)
Esta busca do novo no velho, sugerida por Zielinski, pode ser trabalhosa
e, certamente, demandar uma visão generalista mais do que especialista,
como muito aprecia parte da academia contemporânea. Contudo, com
dedicação e sorte, pode levar a resgates interessantes. Um destes aspectos
que analisaremos em seguida é a questão do tempo profundo, que permite
a um repórter um mergulho de grande alcance na realidade.
Tempo profundo: origens do conceito
Segundo Zielinski (2006, p. 20), na transição do século XVIII para o XIX,
a noção de que a Terra era muito mais antiga do que se supunha até então
despertou interesse nos círculos burgueses, num momento de incerteza
territorial em que as próprias “fronteiras nacionais eram redesenhadas em
intervalos cada vez menores”. Ao longo dos séculos posteriores, a escala
cronológica do planeta passa a ser estimada dos 6 mil a milhões de anos,
sendo que hoje a datação aceita é a de 4.6 bilhões de anos.
Um dos naturalistas responsável pela implantação desta noção de tempo
geológico profundo foi o escocês James Hutton (1726–1797). Nascido
em uma próspera família de negociantes e envolvido na venda de
compostos químicos, Hutton era também dotado de grande curiosidade
intelectual e dispunha de recursos financeiros para realizar pesquisas
e as viagens necessárias. Como era comum na época, ele se tornou um
geólogo independente, isto é, sem filiar-se a nenhuma instituição. Seus
achados empíricos, que descreviam a evolução da Terra como um processo
dinâmico baseado em erosões, sedimentações e soerguimento de camadas
tectônicas, seguidos novamente de erosões, foram publicados em
Theory of the Earth, de 1778, posteriormente ampliado na segunda edição.
O conceito de tempo profundo e, consequentemente, da história da
vida, demanda uma compreensão temporal que pode ser desconcertante.
Zielinski (2006, p. 21) cita o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-
2002), da Universidade de Harvard, que afirmava que “a idéia de tempo
profundo geológico é tão estranha para nós que apenas podemos entendêla
como metáfora”.
E qual seria a aplicação prática deste conceito do tempo profundo no
jornalismo contemporâneo, num contexto em que as práticas da área – e,
convenhamos, muitos dos estudos – estão marcadas pela superficialidade
e pela fragmentação? Ainda segundo Zielinski, o livro Basin and Range,
do estadunidense John McPhee (1981), introduz o conceito de tempo
profundo no jornalismo. Ora, ao citar McPhee o docente de Teoria dos
Media alemão estabelece um diálogo com outra área de pesquisa importante:
o Jornalismo Literário, no sentido de uma pesquisa temática
verdadeiramente profunda que deleite pela redação primorosa, inspirada
em elementos da escritura literária. (MARTINEZ, 2010, p. 26)
Antes de avaliarmos suas contribuições, no entanto, falemos de
McPhee. Nascido em 1931, o jornalista estadunidense é considerado um
dos pioneiros da não-ficção. Sua carreira começou na revista
Time e, de 1965 até os dias atuais, é colaborador da
The New Yorker. Em 1999, ganhou o
Pulitzer Prize de não-ficção por Annals of the Former World. Graduado
pela Universidade Princeton, ele é docente de escrita naquela instituição,
tendo ensinado gerações de escritores, como David Remnick, também
ele ganhador de um Pulitzer e atual editor da The New Yorker. Remnick
(1996, p. xi, tradução nossa), um dos seus pupilos, tece um breve perfil de
McPhee na introdução de The Second McPhee Reader:
A reputação de McPhee é substancial, longe de ser secreta.
Ele é um favorito entre outros escritores, o tipo de figura
que é tão bom que está além da inveja, e em anos recentes
vendeu livros suficientes para incitar seu editor a reimprimir
todos seus livros em bonitas séries de brochuras. Seu
clássico sobre o Alasca, Coming into the Country,
e seus quatro livros sobre geologia estão entre seus best-sellers. Ainda
assim, a reputação de McPhee deveria ser ainda maior. Enquanto
muito do Novo Jornalismo dos (anos) 1960 e 1970
parece artificial ou histérico em releituras, o trabalho de
McPhee tem a qualidade da permanência.1
Para efeito de ilustração, empregamos um trecho da abertura do livro
Basin and Range McPHEE (1996, p. 97-98) em tradução livre de Edvaldo
Pereira Lima (2008, p. 363), docente e pesquisador em Jornalismo
Literário:
Os pólos da Terra se moveram. O Equador mudou de lugar,
aparentemente. Os continentes, pousados em suas
placas, já foram carregados para tão longe e são deslocados
em tantas direções, que parece um ato de quase arrogância
afirmar que um certo lugar conhecido do nosso mundo
está situado a 73 graus, 57 minutos e 53 segundos de
longitude a oeste e a 40 graus, 51 minutos e 13 segundos
José Eugenio de Oliveira Menezes e Monica Martine z
de latitude norte – uma descrição temporária, na melhor
das hipóteses, como a de um barco no mar. Contudo, essas
coordenadas o trarão – até o que se pode considerar como
futuro previsível – com absoluta precisão à rampa oeste da
Ponte George Washington. Nove da manhã. Um dia de semana.
O tráfego é uma aula grosseira de física de partículas.
Ele arrebenta, como enxurrada, vindo de suas fontes alimentadoras
em Chicago, Cheyenne, Sacramento, passando
pelos altos atalhos escuros da soleira – ou sill – conhecida
como Palisades Sill. Uma jovem, a pé, é pressionada contra
o muro de rochas pelo ribombo das jamantas – Com
Weimar Bulk Transportation, Fruehauf Long Ranger.
O rosto é nórdico, os olhos são marrons escuros e latinos –
heranças de avós dos extremos da Europa. Ela usa botas de
montanhas, jeans. Carrega um martelo de geólogo. O que
os caminhoneiros parecem notar, porém, é sua juventude,
sua longa cabeleira norueguesa dourada; e eles flertam com
ela apertando as buzinas que soam como agulhas em seus
ouvidos. O nome dela é Karen Kleinspehn. Ela é geóloga,
estudante de pós-graduação prestes a terminar o doutorado
e não tem nenhuma dúvida que ela e a estrada e a rocha sob
os seus pés, e a ponte enorme e sua espantosa cidade – aliás,
quase todo o Canadá e os Estados Unidos continentais e
o México, para completar – estão majestosamente movendo-
se em direção aos caminhões. Ela não veio aqui, porém,
para avaliar os movimentos tectônicos, embora Deus sabe
que ela poderia, já que o “sill” é, em teoria, uma prova dos
eventos que criaram o Atlântico.2
Para Lima (2008, p. 365), “a soberba abordagem de McPhee a um tema
aparentemente tão intragável como esse começa em território distante
do mundo conhecido da maioria dos leitores: a deriva dos continentes”.
O que poderia eventualmente parecer chato e distante a um leitor não
iniciado nas artes da Geologia, se apresentado com os jargões da área,
ganha matizes da era da incerteza.
Imediatamente, porém, o autor traduz o que isso significa:
é um milagre – senão arrogância – utilizarmos com precisão
uma invenção humana disseminada como absolutamente
verdadeira nos bancos escolares, impregnada na nossa
cultura como certeira, aceita sem questionamento.
Finalmente, analisa Lima, McPhee (1966 apud LIMA 2008, p. 365)
integra a questão ao cotidiano do leitor:
Essa invenção, a das coordenadas geográficas, é o cartão
de visitas que John nos apresenta. Através dela, quase sem
perceber, somos conduzidos para um ponto específico do
nosso planeta, numa certa manhã, e colocados diante de uma
ponte que recebe um fluxo contínuo e pesado de carros.
Nesta intersecção entre ciência e narrativas contemporâneas, Cremilda
Medina lembra que “a ciência é um sistema de dúvidas; a ideologia,
certezas. O diálogo entre saberes especializados e sabedorias humanas
favorece a posição científica da dúvida”. (MEDINA, 2003, p. 56)
Finalmente, Lima (2008, p. 365) chama a atenção para a maestria da
escrita de McPhee na construção de cenas:
Como um cineasta habilidoso ao começar um filme de longa
metragem, McPhee vai descortinando com maestria o
cenário que nos aguarda, gradativamente guiando o nosso
olhar para os elementos que o compõem. Os veículos
trafegam sobre uma base de rochas e ali, inesperadamente,
nos deparamos com uma bela mulher batendo martelo
em pedra, indiferente às provocações dos caminhoneiros
que passam, mas não imune ao barulho ensurdecedor do
ambiente. A loira atraente é a narradora da história que o
autor tem a contar, onde o pequeno e o grande, o perto e o
distante, o antigo e o novo integram-se como num processo
interativo dinâmico e esclarecedor. De súbito, aquele mundo
da história geológica e termos difíceis já não é mais estranho.
Faz sentido para o aqui e o agora. Descobrimos belezas
insuspeitas. E entendemos, especialmente se conhecemos
Nova York e New Jersey, o laborioso trabalho construtivo
da Natureza oculto nos penhascos que dão um charme todo
especial ao panorama descortinado da ilha de Manhattan.
O tempo profundo, claro, não é o único na compreensão da realidade,
ainda que seja o mais esquecido atualmente. O historiador francês Fernand
Braudel (1902-1985), um dos expoentes da Nova História Francesa
3, defende a ideia de que, no mar, há três camadas históricas e não apenas
uma única. Segundo esta ideia, a superfície representaria os acontecimen
tos cotidianos, mais rápidos e buliçosos; o leito do mar representaria as
décadas, que mudam mais lentamente e, portanto, são mais fáceis de serem
percebidas pelo sujeito histórico; já as profundas camadas marítimas,
abissais, representam as grandes transformações sociais que levam séculos
ou mesmo milênios para ocorrerem e, consequentemente, serem notadas.
O historiador francês sintetiza sua visão: “Assim chegamos a uma decomposição
da história em planos escalonados. Ou, se quisermos, no tempo
da história, de um tempo geográfico, de um tempo social, e de um tempo
individual”. (BRAUDEL, 1978, p. 15)
Norval Baitello também ressalta a relevância deste tempo em relação
à escrita: “O tempo lento da escrita é o tempo que não apenas permite a
reflexão mas também a retrospecção. E, com isso, abre as portas para uma
outra escrita, a escrita da história”. (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 82-83)
Ou como ele diz em seu livro A era da iconofagia:
Com a escrita e seus precursores (as imagens gravadas sobre
suportes duráveis) impõe-se o homem sobre a morte e seu
tempo irreversível, vencendo simbolicamente seu maior e
mais poderoso adversário. O grande trunfo da escrita não
é a velocidade, mas a lentidão que permite cifrar e decifrar
enigmas. O tempo lento da escrita e da leitura permite alongar
a percepção do tempo da vida.
A aplicação desta noção do tempo profundo, lento, contudo, demanda
outro aporte teórico para sua compreensão e prática: a cultura do ouvir.
O som na práxis e reflexão jornalísticas
Para percebermos as perspectivas da cultura do ouvir no contexto da
área da Comunicação, bem como suas aplicações possíveis, é vital estudarmos
a questão do som. No desenvolvimento do ser humano, por exemplo,
o ouvir é o sentido que primeiro se manifesta. Para compreender a
importância do ouvir na perspectiva ontogenética, Christoph Wulf, do
Centro Interdisciplinar para Antropologia Histórica da Universidade Livre
de Berlim, explica que já aos quatro meses e meio o feto tem condições
de reagir a estímulos acústicos, uma vez que o ouvido se desenvolve antes
da vista. Segundo ele, o ouvir é condição prévia para que se desenvolvam
os sentimentos de segurança e pertencimento. “No ambiente sonoro,
muito antes das palavras com significados específicos, um bebê percebe o
timbre da voz, o seu tom, a sua articulação, fundamentais na relação com
os interlocutores”. (WULF, 2002)
A repetição de determinados sons do ambiente familiar, em formas de
ritos sempre renovados, com os mesmos rumores e os mesmos tons de
voz, favorece a ambientação do bebê em uma rede de sons. Na escuta de si
mesmo e na escuta do outro, “o ouvido desenvolve um papel fundamental
na constituição da subjetividade e da sociabilidade”. (WULF, 2002, p. 463)
As repetições linguísticas ritualizadas e articuladas em ritmos, bem como
as imitações dos sons conhecidos, estimulam a capacidade mimética.
Segundo Wulf (2002, p. 463), através de variações imitativas o bebê
começa a falar e a compreender; com a possibilidade de se “fazer ouvir,
adquire uma nova competência social graças a qual sua personalidade pode
se desenvolver”. (MENEZES, 2008, p. 162)
A questão do som é tão poderosa na espécie humana quanto na formação
de um indivíduo. Tanto que encontramos ecos fortes das experiências
sonoras provindos do plano do mito. O mais conhecido, talvez, seja o mito
bíblico da criação narrado no primeiro capítulo do Gênesis. A narrativa
convida o leitor a cultivar a memória de que Deus, no espaço de seis dias,
cria paulatinamente todo o universo, concluindo com o ser humano criado
à sua imagem e semelhança.
O mito associado ao som que aqui se destacará é relacionado a este
poderoso processo criativo narrado pelo mitólogo estadunidense Joseph
Campbell (2000, p. 122-123):
Uma das mais surpreendentes imagens de amor que eu
conheço é persa – uma representação mística persa de Satã
como o mais leal amante de Deus. Vocês devem ter ouvido
a velha lenda de como, quando Deus criou os anjos, ele
ordenou que não prestassem culto a mais ninguém exceto a
ele próprio; mas então, ao criar o homem, ele lhes ordenou
que se curvassem em reverência a essa que era a mais
nobre de suas obras, e Lúcifer recusou-se – como sabemos,
devido ao seu orgulho. No entanto, de acordo com essa
leitura muçulmana, sua atitude foi devida ao fato de amar
e adorar Deus tão profunda e intensamente que ele não
podia inclinar-se diante de mais nada. E é por isso que ele
foi lançado no Inferno, condenado a existir ali para sempre,
apartado de seu amor.
Ora, diz-se que de todas as dores do Inferno, a pior não é
o fogo nem o mau cheiro, mas a privação eterna da visão
beatífica de Deus. Quão infinitamente doloroso, pois, deve
ser o exílio desse grande amante, que não poderia levá-lo
nem mesmo sob o comando da própria palavra de Deus,
a inclinar-se perante qualquer outro ser!
Os poetas persas perguntaram: “Por qual poder Satã é sustentado?”
E a resposta que encontraram é esta: “Pela memória
do som da voz de Deus quando ele disse: “Afaste-
se”. Que imagem dessa intensa agonia espiritual que é,
simultaneamente, o êxtase e a angústia do amor!
Na dimensão mítica, portanto, o som da expressão “Vá para o inferno”
é tão poderoso que sustenta nas trevas a vida do inimigo do mais destacado
personagem da mitologia do Oriente Próximo.
Na passagem da mentalidade mítica para a histórica, há paulatinamente
um esvaziamento do poder na transmissão oral da narrativa em detrimento
da escritura, da mesma forma que houvera antes um esvaziamento do
conteúdo religioso na esfera dos mitos. Em A Letra e a Voz, o historiador
literário e medievalista suíço Paul Zumthor (1993, p. 155) estuda o
fenômeno:
Até por volta do século XII, a escritura é o único veículo
do saber mais elevado: o poder passa pela voz. A partir dos
séculos XII e XIII, a relação se inverte: ao escrito, o poder; à
voz, a transmissão viva do saber. Mas na virada dos séculos
XV e XVI, ou até XVI e XVII, nenhum desses dois feixes
de forças e de valores conseguiu eliminar inteiramente o
outro. Não se pode deixar de estar aí a poesia comum a todas
as redes de comunicação constitutivas de um estado da
cultura.
O valor do som, no entanto, parece diminuído desde então, no contexto
da sociedade da imagem. Na visão de Baitello Junior (2005, p. 99):
Se fizermos uma avaliação sobre o que vale mais hoje: a palavra
ou o documento? O que custa mais caro, a televisão
ou o rádio? O que tem maior valor, o que se fala ou o que
se publica? – em todas as esferas da atividade e da cultura
contemporâneas detecta-se um predomínio do visual sobre
o auditivo. Na vida e no trabalho acadêmico, tem mais peso
quem escreve um livro do que quem dá bons cursos.
Os sistemas de avaliação são todos fundados sobre a escrita,
que pertence ao reino da visualidade, a mesma escrita
que nasceu das formas mais arcaicas de conservação de
informação. [...]
A cultura e a sociedade contemporâneas tratam o som como
forma menos nobre, um tipo de primo pobre, no espectro
dos códigos da comunicação humana. Por isso a minha
pergunta se não estamos nos tornando surdos intencionais?
Surdos que ouvem. Surdos que têm a capacidade de ouvir,
mas que não querem ouvir, não tem tempo ou então não
dão atenção ao que ouvem? Literalmente não dão ouvidos
ao que de fato ouvem?
Baitello Junior defende que na contemporaneidade estamos assolados
pela cultura do ver, imersos numa era da iconofagia, em que o sentido
da visão está tão sobrecarregado de imagens que paradoxalmente não
mais conseguimos enxergar a realidade à nossa frente. Segundo ele, há
a demanda de se resgatar “uma nova cultura do ouvir. E de uma outra
temporalidade. E de um novo desenvolvimento da percepção humana
para as relações profundas, para os nexos profundos, para os sentidos e
para o sentir”. (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 109)
O trabalho do jornalista Nelson Araújo
Haveria, portanto, algum espaço mediático ou algum profissional contemporâneo
nos ambientes audiovisuais, ocupado não apenas com suas
instâncias mais superficiais, mas igualmente com esta contraparte jornalística
profunda, que engloba tanto o contexto teórico da cultura do ouvir
quanto o instrumental técnico das entrevistas de profundidade? Temos experiências
relevantes de entrevistas dialógicas, como estudadas e praticadas
laboratorialmente por Cremilda Medina (1990)?
Depois de dois anos de investigações (MARTINEZ, 2009; 2010) sobre
a temática, observamos o exemplo do jornalista Nelson Araújo, do programa
Globo Rural, enquanto uma produção de excelência que se insere
no escopo acima.
Araújo é paulista da cidade de Ribeirão Preto, tendo nascido em 20 de
novembro de 1951. É o primogênito de uma família de agricultores, tendo
tido desde cedo contato com o campo. Começou a trabalhar aos oito anos.
Sou fruto da primeira geração de bóias-frias criada em 1945
quando os fazendeiros dispensaram muitos trabalhadores
rurais devido às leis trabalhistas criadas pelo então presidente
Getúlio Vargas. Meu pai arranjou emprego de leiteiro e eu
acordava às duas da manhã para ajudá-lo a entregar leite em
Ribeirão Preto. (ARAÚJO, 2010)
Em 1967, com 16 anos, por conta de sua bela voz, de seu amor à música
e pela necessidade financeira, conseguiu seu primeiro emprego, como
locutor de noticiário em uma emissora de rádio local. Formou-se em
Letras e no início dos anos 1970 já trabalhava em um jornal de sua cidade
natal. Neste época, como ele diz, “foi atropelado por um fenômeno que se
instalou no jornal concorrente: a equipe formada por Zé Hamilton Ribeiro
e Sérgio de Souza, ex-jornalistas da revista Realidade, que buscavam no
interior do Estado espaços mais livres de atuação que não encontravam
na capital premida pela ditadura militar.” Ao redor de 1976, atuou como
assessor de imprensa na prefeitura municipal de Ribeirão Preto. Não
gostou. “Pude ver toda a sordidez do mundo político”. Arriscou-se na
vida de docente em curso de jornalismo em Bauru, ensinando semiótica
por meio de livros como Análise Estrutural da Narrativa do francês Roland
Barthes. “Mas achava aborrecido ter de repetir as aulas e dava um trabalhão
preparar material novo para cada uma delas”.
Em 1980, depois de ter atuado como repórter, redator e correspondente de
jornais como O Globo, foi convidado a trabalhar na Rede Globo de Televisão,
fazendo reportagens para vários telejornais. Encantou-se. “A câmera é um
instrumento poderoso, pois permite desenvolver várias linguagens: a gestual,
a musical, a visual, a gráfica, até a do silêncio”. A carreira universitária foi
deixada de lado, mas o telejornalismo cotidiano ainda não era o que queria.
“Não é de minha natureza ficar apontando defeitos”.
Em 1986 foi transferido para a TV Globo de São Paulo e, quatro anos
depois, para o programa Globo Rural. “Tive a felicidade de que aqui minha
carreira ganhou um trilho”. Humberto Pereira, editor-chefe do programa
desde que foi criado, em 1980, diz em depoimento concedido por correio
eletrônico, que Nelson Araújo é um artesão. “Como jornalista, nasceu
artesão e vai morrer artesão. Justamente no Globo Rural ele tem campo
para exercer essa virtude”.
Do ponto de vista da práxis jornalística, este trabalho artesanal é dividido
em três partes: a seleção cuidadosa da pauta, a coleta de informações e
a edição do material. Durante a seleção da pauta, amparado em muita
pesquisa, ele busca manifestar suas visão sobre um dado tema. “O
Globo Rural não é um programa de debates, mas posso dizer o que penso por
meio das minhas matérias”. Aprovada a ideia, parte para a colheita de
informações, quando vai a campo. Nesse momento, segundo suas palavras,
ele é o “repórter curioso, enxerido”. Quem está acostumado com suas
reportagens percebe que ele ouve com extrema atenção seu interlocutor,
estabelecendo um diálogo profundo com suas fontes. Uma vez bateu em
retirada, como se diz na linguagem do interior paulista, ao notar que um
fazendeiro estava humilhando um funcionário. Não ficou para conferir
o resultado. Justificou-se e simplesmente partiu com a equipe. Quando
volta à redação, torna-se o editor que procura dar corpo e consistência
ao material colhido. “Tem gente que trabalha com um modelo. Eu não
consigo fazer assim. A reportagem vai me dizendo o que ela é – não parto
de nada pré-concebido”.
A edição criteriosa do material é parte integrante de seu método de
construção da reportagem. Em uma pequena sala na redação, ele assiste
os CDs gravados com as entrevistas e transcreve cuidadosamente fala
por fala para o papel. Ao final, tem uma apostila com, dependendo do
material apurado, cerca de cem folhas digitadas, que manda encadernar
com espiral. A partir daí, para montar a matéria, Araújo não volta mais à
gravação original, recorrendo apenas à sua apostila.
Faz parte do modelo do programa uma apresentação prévia da reportagem
editada para toda a equipe, na quarta-feira que antecede o
domingo no qual será veiculada. Neste momento, críticas e sugestões são
incorporadas. Não há unanimidade, em particular no quesito que o torna
tão único no jornalismo brasileiro: o uso de poesia nas reportagens.
Como se sabe, a escolha da palavra exata faz toda a diferença na construção
poética. A também jornalista Maria Antonia Demasi (2010), hoje
na TV Gazeta, com quem Nelson está unido há mais de 20 anos, conta
que Araújo escreve suas reportagens em casa. Ao redigi-la, ele mune-se
de vários dicionários, procurando neles as palavras perfeitas. Caso sinta-se
bloqueado, recorre ao violão – que, segundo ela, toca muito bem. Embora
não se considere um poeta, ele explica que não se trata de usar o verso pelo
verso. Além da sensibilidade pessoal, também há técnica ali. “Descobri que
a sonoridade da redondilha maior, de sete sílabas, fica perfeita no vídeo”.
Redondilhas, é melhor explicar, são estrofes de quatro versos, onde o
primeiro rima com o último e o segundo com o terceiro.
Finalmente, Araújo defende que uma das funções do repórter é propiciar
ao telespectador um repertório para que ele entenda melhor o
tema e, para isso, quanto maior a bagagem do jornalista sobre o universo
abordado, mais fácil será explicá-lo para os interlocutores que assistem o
Globo Rural
A reportagem especial buriti
Do ponto de vista empírico, o corpus deste trabalho é Buriti, reportagem
especial que ocupou os quatro blocos do programa da edição comemorativa
de número 1500, exibida em 22 de março de 2009. No contexto da televisão,
trata-se de um espaço enorme, quase 1 hora, neste sentido sendo maior do
que muitos documentários contemporâneos.
O motivo da escolha é o pioneirismo da reportagem, que mescla prosa
e poesia. O autor já havia cometido a ousadia tempos antes, em 1991, em
outra reportagem televisiva, O Pequinizeiro, também narrada em versos.
Entendemos que a reportagem pode ser considerada uma experiência
do que acima estudamos como tempo profundo. Faz parte da proposta
do programa Globo Rural a contextualização caprichada. Logo de início, o
repórter cumpre sua função de relatar as origens históricas e geográficas
do tema.
O buriti é uma palmeira nativa das Américas Central e do Sul. No Brasil,
ele ocorre, basicamente, na região de cerrado. Tem larga distribuição
por dez estados do Brasil Central, Centro-oeste e parte do Sudeste.
Além da grande importância econômica e social, o buriti é vital para a
vereda, o caminho das águas no sertão. (ARAÚJO, 2009a)
Em seguida, Araújo usa da poesia para situar a localização das veredas
ao telespectador: “Prende a suspiração / Cena assim tão linda / Palmeira
que não se finda / Em 40 quilômetros de extensão. Esta é a vereda do gibão
/ Quase no ponto do mapa / Em que três Estados dão a mão. Minas, Goiás
e Bahia / Onde o cerrado enfeita o chão”. (ARAÚJO, 2009a)
Depois de sabermos que o local abordado encontra-se no norte de
Minas Gerais, onde o Estado está mais próximo da Bahia, Araújo insere a
entrevista do professor Altair Barbosa, da Universidade Católica de Goiás,
campus de Goiânia, que há 40 anos estuda o cerrado. Araújo mergulha no
tempo geológico para explicar a complexidade ambiental do fenômeno das
veredas:
A aula é sobre os depósitos subterrâneos de água chamados
de aqüíferos. Os principais são o Guarani, o Urucuia
e o Bambui. Eles se encontram no coração do cerrado, a
quina do telhado no Planalto Central. Da vertente sul, brotam
as águas da bacia Paraná; a leste, as que alimentam o
São Francisco; ao norte, os que alimentam parte da Bacia
Amazônica.
Formados há milhões e milhões de anos, os aqüíferos são
continuamente reabastecidos pelas chuvas. O solo poroso
do cerrado facilita a infiltração. Cheio, o aqüífero vaza pelas
nascentes, garantindo a água dos rios mesmo no longo
período seco. E a água iria embora rapidamente se não
fosse uns reguladores, umas válvulas com que a natureza
presenteou o cerrado: são as veredas. Essas áreas alagadiças
onde se destaca o palmeiral [...]
‘Os buritizais e as veredas são basicamente da mesma idade
do cerrado, ou o capítulo inicial da história do cerrado’,
explica Altair Barbosa, professor da Universidade Católica
de Goiás.
Segundo o professor Altair, essa espécie de buriti das veredas,
que leva o nome científico de “mauritia flexuosa”, pode
estar no grupo dos seres vivos mais antigos do planeta. Viria
lá da remota, longínqua da formação do cerrado.
‘O buriti, junto com as veredas, começaram a se formar por
volta de 65 milhões de anos’, diz o professor. (ARAÚJO,
2009a)
À semelhança do jornalista estadunidense John McPhee, tampouco
Araújo emprega jargões complicados. Antes, usa vocabulário próprio do
público que tão bem conhece: “Imagine se o país / feito uma casa de morar
/ tivesse telha assim em quina / modo da água escoar / pois isso que nos
fascina / daqui dessas alturas / tem função de cobertura / é um gigantesco
cantil. Esta é a cumeeira do Brasil”. (ARAÚJO, 2009a)
À descrição botânica acresce-se o charme da oralidade regional:
O buriti é de crescimento lento. Se alça do chão não por
um caule, mas, pelas folhas. Pode passar anos para soltar
o tufo de folhagem, primeiro; e levar décadas para expor
todo o tronco e frutificar. Alcança altura média de vinte
e cinco metros. Na coroa do poste, abre as palmas, um
leque gracioso que dá vida à brisa. Às rajadinhas suaves que
encanam na vereda um murmúrio como se fosse de praia.
O coquim do buriti / você já viu um mais / bonitim?
Redondo pro ovalado / tem escama de desenho quadriculado
/ polpa amarela e o caroço amendoado / a castanha que é um
banquete / pros bichos do cerrado.
Buriti é morada / ponto de passagem, de espreita / esconderijo,
restaurante de uma fauna numerosa / especialmente, os
que voam / os papagaios, as maritacas / a maracanã, a jandaia,
a cacué.
E, principalmente as araras / tanto a azul, como a vermelha,
e a Canindé.
Pros bichos que andam no chão / Vereda não é um ambiente
fácil de se entrar, não. (ARAUJO, 2009a)
No segundo bloco da reportagem, Araújo assume a “ousadia de tratar
em verso e prosa de um assunto que virou arte nas mãos de João Guimarães
Rosa” (1908-1967), referindo-se, como não poderia deixar de fazer, ao
escritor mineiro autor de
Grande Sertão Veredas.
Infelizmente nem tudo é poesia nesta reportagem. É com visível desolação
que Araújo ouve respeitosamente os causos da destruição das
198 _
Jornalismo e tempo profundo: o trabalho de Nelson Araújo no
Globo Rural
veredas,
alavancada na década de 1970 pela política governamental de
ocupação do território, que incentivava o plantio de eucaliptos na área.
E das incongruências na vida do pequeno proprietário local, que vive em
condição de miséria por não poder estabelecer bases autossustentáveis
com o buritizal – sequer tirar folhas verdes para cobrir o telhado, como
seus antepassados faziam. Neste sentido, o jornalista, pró-ativo, entrevista
Rômulo Melo, presidente do Instituto Chico Mendes, que confessa que
neste caso da cobertura “não é necessária uma autorização”. Não fica claro,
no entanto, se o pequeno proprietário teve acesso a esta informação que
melhoraria sua vida. O jornalista finaliza a reportagem especial:
Um grande diz que diz vamos ter com certeza para que as
regras do país levem em conta a natureza tanto da nossa
pobreza e riqueza como dos nossos buritis. Assim, quem
sabe, um dia possa o Grande Sertão: Veredas ter um final
feliz. (ARAÚJO, 2009d)
Fica a impressão de que o tempo histórico e social seja ainda insuficiente
para apresentar um relato de preservação ambiental e proteção social, como
uma vida mais digna para os moradores da área. Talvez, neste caso, apenas
o tempo mais extenso e geológico, o denominado tempo profundo, para
propiciar o amadurecimento dos elementos envolvidos, trazendo com ele
a consciência da importância de uma visão mais clara e ações concretas
tanto para o cenário narrado na reportagem como para o aperfeiçoamento
das reportagens na contemporaneidade.
Considerações finais
No contexto contemporâneo, como observamos no início deste trabalho,
marcado pela extrema velocidade na apuração e consequente risco
de superficialidade nas reportagens, a atuação de Nelson Araújo como
repórter “curioso e enxerido” ou como “jornalista que nasceu artesão e vai
morrer artesão” merece atenção especial.
Sua postura de escuta atenciosa dos protagonistas das reportagens
permite a construção de cenários sonoros e imagéticos que cultivam o
tempo lento e profundo, vão muito além de simples descrições repletas
de imagens captadas sob regime de urgência e prontas para consumo.
Seu trabalho possibilita, diante da televisão ou dos vídeos disponíveis
na internet, o envolvimento criativo dos interlocutores, muitas vezes
ainda limitadamente chamados de telespectadores, em cenários sonoros
e imagéticos que entrelaçam a postura profissional dos que produzem a
reportagem com os saberes ou sabedorias dos protagonistas entrevistados.
O jornalista, que cautelosamente assiste a todos os CDs gravados durante
a reportagem para dar corpo e consistência ao material colhido,
inspira-se, como observarmos, também em elementos da escritura literária
e redige primorosamente seus textos. Seu trabalho, como na reportagem
Buriti, indica que mesmo no atual contexto de velocidade na produção
de reportagens, há espaço na televisão brasileira para experiências que
possibilitam o acesso ao tempo profundo.
Notas
1 Mchee’s reputation is substantial, far from a secret. He is a favorite of other writers,
the sort of figure who is so good that he is beyond envying, and in recent years he
has sold enough books to compel his publisher to reissue all his books in a handsome
paperback series. His classic account of life in Alaska,
Coming into the Country,
and his
four books on geology are among his best-sellers. All the same, McPhee’s reputation
should be greater still. While much of the New Journalism of the sixties and seventies
has long felt mannered of hysterical in the rereading, McPhee’s work has the quality
of permanence.
2
The poles of the earth have wandered. The equator has apparently moved. The
continents, perched on their plates, are thought to have been carried so very far and to
be going in so many directions that it seems in act of almost pure hubris to assert that
some landmark of our world is fixed at 73 degrees 51 minutes and 53 seconds west
longitude and 40 degrees 51 minutes and 14 seconds north latitude – a temporary
description, at any rate, as if for a boat on the sea. Nevertheless, these coordinates
will, for what is generally described as the foreseeable future, bring you with absolute
precision to the west apron of the George Washington Bridge. Nine A.M. A weekday
morning. The traffic is some gross demonstration in particle physics. It bursts from its
confining source, aimed at Chicago, Cheyenne, Sacramento, through the high dark
roadcuts of the Palisades Sill. A young woman, on foot, is being pressed up against
the rockwall by the wind booms of the big semis – Con Weimar Bulk Transportation,
Fruehauf Long Ranger. Her face is Nordic, her eyes dark brown and Latin – the
bequests of grandparents from the extremes of Europe. She wears mountain boots,
bluejeans. She carries a single-jack sledgehammer. What the truckers seem to notice,
though, is her youth, her long bright Norwegian hair; and they flirt by air horn,
driving needles into her ears. Her name is Karen Kleinspehn. She is a geologist,
a graduate student nearing her Ph.D., and there is little doubt in her mind that she
and the road and the rock before her, and the big bridge and its awesome city – in
fact, nearly the whole of the continental United States and Canada and Mexico to
boot – are in stately manner moving in the direction of the trucks. She has not come
here, however, to ponder global tectonics, although goodness knows she could, the
sill being, in theory, a signature of the events that created the Atlantic.
3 A Nova História Francesa também é conhecida como Escola dos Annales
por estar ligada ao periódico académico Revue des Annales
. A “escola” incorporou métodos de outras áreas das Ciências Sociais como a abertura para os depoimentos orais em adição aos documentos escritos ou oficiais e questinou o foco nas elites e nos conflitos geopolíticos.
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A cidade mais alemã do Brasil
02/09/2011 às 13:58 | Publicado em Jornalismo Literário, Narrativas de Viagem, Textos de alunos, Turma do Curso de Jornalismo Literário, Turmas do Curso de Redação Criativa | 6 ComentáriosPomerode é linda! A cidade foi fundada em 1861, quando algumas famílias vindas da província da Pomerânia, no norte da Alemanha, se instalaram ao longo do rio do Testo, no médio Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Quando o Campeonato Mundial de Futebol foi sediado pela Alemanha, em 2006, muitas reportagens aconteceram também nesse encanto de lugar.
Desmembrada de Blumenau em 1959, Pomerode mantém o fascínio de uma pequena comunidade, com pouco mais de 25 mil habitantes. A forte influência alemã se preserva em seus costumes, como a dedicação ao trabalho, o respeito à fé religiosa, as sociedades de caça e de tiro, as danças folclóricas, as bandinhas e as delícias culinárias que só são encontradas na cidade.
A arquitetura enxaimel é um destaque à parte. Nesta técnica de construção, as paredes são feitas com hastes de madeira encaixadas, sendo que os vãos resultantes são preenchidos por pedras ou tijolos. A famosa Rota do Enxaimel, o maior acervo de edificações nesse estilo fora da Alemanha, consiste de 70 casas ao longo do trajeto de paisagem bucólica, que torna o passeio pela região inesquecível.
A maioria dos moradores fala em alemão, língua que também é ensinada nas escolas. Isso fez com que durante o último Censo, realizado em 2010, o recenseador tivesse de falar e escrever com desenvoltura o idioma para realizar bem o seu trabalho. Por isso, ela é sempre referida como a cidade mais alemã do Brasil! Muitas das pessoal da melhor idade que moram lá, aliás, falam, e muito mal!, o português. Tanto que desenvolveram um dialeto próprio, o Plattdeutsch, falado até hoje principalmente quando os mais velhos querem falar a respeito de algo que os filhos não podem saber.
É nesse pedacinho germânico que moram meus sogros, cunhados e toda a família do lado materno do meu marido. Seu avô, Rodolpho Achterberg, e sua avó, Anna Achterberg (que dá nome a rua onde toda a sua família mora), nasceram ali e ajudaram na colonização de Pomerode. Minha sogra, Lisellotte, conta que na época da Segunda Guerra Mundial eles precisaram queimar muitos livros para fugir às perseguições feitas aos judeus. Por isso, tornaram-se luteranos. É por isso que na cidade é mais comum ver igrejas dessa religião do que católicas ou evangélicas.
Pomerode possui um parque industrial bem diversificado, com destaque para indústrias de confecção e porcelana, como a Karsten e a Porcelanas Schmidt.
Bem ao lado de Blumenau, a cidade recebe muitos turistas por ocasião da Oktoberfest e também no mês de janeiro, durante a Festa Pomerada, que dura o mês todinho. Se for para lá nessa época, poderá apreciar a música de bandinha tradicional, bailes, danças folclóricas e gastronomia típica. Também há concursos de culinária e competições tradicionais da antiga Pomerânia, com destaque para a Exposição Agro-Industrial. Em julho tem a Festa do Rei do Tiro Municipal e, em novembro, a da Rainha. Em alguns dos 16 clubes, as festas do Rei e da Rainha do Tiro Municipal são realizadas nos fins de semana.
Gostosuras pomeranas
Meus sogros e minha cunhada moraram praticamente a vida toda aqui em São Paulo, com uma ida para lá por ocasião da doença da avó do meu marido. Por isso, desde sempre, pude conhecer as delícias de Pomerode: a linguiça defumada feita de maneira artesanal; a cuca alemã, bolo com farofa crocante (a receita está logo abaixo); o Strudel, torta doce, sendo a mais conhecida de maçã, o Apfelstrudel; o Mohn Brötchen, pãozinho redondo polvilhado com semente de papoula; e o Hering Brot, pão de forma com sardinha, margarina e ovo cozido.
O prato mais tradicional é o marreco recheado, além é claro das especialidades alemãs como as salsichas e o joelho de porco. De sobremesa, a deliciosa torta de ricota. Desde que conheci a feita lá, nunca encontrei outra igual em nenhuma parte do Brasil. E olhe que tenho procurado em toda padaria que entro e até nas melhores delicatéssens paulistanas.
Estive muitas vezes lá, por ocasião de festas que variavam de batizados, casamentos e confirmações, evento religioso protestante que ocorre por ocasião dos 15 anos do jovem e, por isso mesmo, é feita uma festa à altura da grandiosidade da ocasião, como se fosse uma festa de debutante.
Em todas vezes, sem exceção, não me preparei para comer tanto (e ai de você se não o fizer! É pior que xingar a mãe de alguém!). Pratos típicos misturam-se a todas as especialidades de carnes de boi, porco, carneiro, frango, marreco e alguns peixes, preparadas de todas as maneiras possíveis, além de todas as guarnições existentes na face da Terra. Cerveja ou chope muito gelado e sucos e refrigerantes também. De sobremesa, um pouco de tudo que a região oferece e mais todas as gostosuras, como tortinhas de morango, bolos de todos os recheios e coberturas e, claro, para completar todas as refeições pomeranas, uma bela e grande xícara de café com leite. Café beeem fraco, que fique claro! Quando vamos para lá, durante as visitas às casas de parentes (temos de ir a todas da Rua Anna Achterberg, sem nos esquecermos de ninguém) eles nos preparam o que chamam de “café de paulista”, mais forte. Amém!
Cuca da Lisellotte – receita legítima alemã de Pomerode
Ingredientes
1 xícara (chá) de margarina sem sal
1 xícara (chá) de açúcar
2 ovos – bater as claras em neve
2 xícaras (chá) de farinha de trigo
1 xícara (chá) de leite
1 colher (sopa) de fermento em pó
Modo de fazer
Misture todos os ingredientes na batedeira e as claras em neve por último, até a massa ficar homogênea. Despeje na assadeira untada
Farofa doce
Ingredientes
1 xícara (chá) de açúcar
1 e 1/2 xícara (chá) de farinha de trigo
100 gde margarina sem sal
1 colher (sopa) de fermento em pó
Baunilha
Noz moscada
Raspas de casca de laranja
Modo de fazer
Despeje todos os ingredientes em uma tigela e mistura com as mãos, joga por cima da massa pronta. Asse em forno pré-aquecido por 30 minutos.
Curiosidades pomeranas
- O bairro onde a família Achterberg mora fica uns 7 Km distante do centro. O ônibus passa em três horários por lá: pela manhã, uma vez e duas à tarde. Perdeu, vá a pé. Ou de bicicleta, um meio de transporte muito comum que, nos últimos anos, vem dando lugar á motocicleta.
- Ali perto existe uma única mercearia, daquelas à moda antiga, de secos e molhados. Por isso, o padeiro que possui padaria no centro vai até o bairro, chamado de Testo Alto, vez ou outra na semana. Ele dirige uma Kombi antiga, na qual leva de tudo um pouco. É possível também fazer encomendas antecipadas por telefone.
- Todos os dias, às 5 horas, a “moça do leite” passa pela rua pedalando sua bike. No bagageiro, os litros e mais litros de leite tirados há poucas horas de suas vaquinhas e envazados diretamente para o consumo. Como a maioria das pessoas ainda está dormindo nesse horário, ela deixa o litro cheio em um cachepô, no murinho da varanda, e leva o vazio, devidamente limpo, esterilizado e personalizado.
- Outro hábito dos moradores, principalmente dessa rua da nossa família, é deixar os sapatos do lado de fora e calçar um chinelo limpo para circular dentro de casa. Isso acontece porque a rua ainda não é asfaltada e, principalmente quando chove, fica tudo enlameado.
- A maioria das casas não possui portão e um lindo jardim sempre enfeita a entrada.
- A população é formada por praticamente 90% de pessoas loiras de olhos azuis, mas já se observa a presença de outras mais morenas.
- A convivência é ótima e a hospitalidade, a despeito de tudo o que se fala a respeito de alemães, é muito calorosa. Se existe um pessoal para lá de animado, são os pomeranos! Tudo é motivo de festa!
- Todos, sem exceção, ouvem a rádio Pomerode e lêem o jornal da cidade. Teve uma ocasião que fomos para lá de carro, que havíamos comprado na cidade paulista de Sorocaba, onde mora a minha família. Lá pra hora do almoço ouvimos o locutor: “Nossa cidade tem recebido turistas de várias partes do Brasil. Ontem mesmo, na praça da prefeitura (jamais dizem o nome que batiza o local), pudemos observar carros de vários lugares, tinha um inclusive de Sorocaba, interior de São Paulo”. Foi gargalhada geral, e os telefonemas dos familiares se estenderam até a noite.
- Ah, e o sotaque! É muito bonitinho! Eles jamais pronunciam uma palavra que contenha dois erres, sempre é como se ela tivesse apenas um. O prato típico da região, por exemplo, é ‘mareco recheado e uma garafa de cerveja”… Liebelich!
Pontos turísticos
- A arquitetura encanta por todas as partes da cidade. Vale a pena andar a pé, de carro ou alugar charretes em frente ao Jardim Zoológico de Pomerode. A cidade é tão pequena que você não vai demorar nada! Por falar no Zoo, saiba que é um dos mais antigos do Brasil – foi inaugurado em 1932. Atualmente, mantém aproximadamente 600 animais de mais de 120 espécies.
- Visite o Museu Pomerano, o Museu Ervin Kurt Theichmann e o grande número de construções em estilo enxaimel, todas cuidadosamente preservadas.
- Conheça a Praça Jorge Lacerda e o Centro de Arte e Artesanato, que expõe e comercializa peças em madeira, palha, pintura em porcelana, bordado, crochê e bonecas típicas, além de geléias, licores e biscoitos caseiros.
- Se você curte a natureza, destine um dia para visitar o Morro da Turquia, de onde se descortina uma bonita vista panorâmica de Pomerode e que é ideal para a prática de asa-delta e parapente. Outro passeio imperdível são as cascatas Cristalina e do Hauth.
- Se você gosta de um bom chope artesanal, a dica é visitar a Cervejaria Schornstein. Fundada em junho de 2006, está sediada em um prédio tombado pelo patrimônio histórico, com cerca de 50 anos de existência. A chaminé de 30 metros de altura de tijolos maciços é sua principal referência e está na logomarca e no significado do nome da fábrica. De tão bom que é o chope feito ali, a Cervejaria Schornstein expandiu sua atuação para o mercado paulista, inaugurando uma segunda fábrica na cidade de Holambra, no interior do Estado.
- Em Pomerode, visite o bar da fábrica, Schornstein Kneipe. Os dois locais (em Santa Catarina e São Paulo) servem petiscos tradicionais das culinárias holandesa e alemã e ainda sugerem harmonizações gastronômicas para cada tipo de chope. Além de conhecer os bares de fábrica, as pessoas têm a possibilidade de conhecer o seu processo de produção por meio de uma visita monitorada às fabricas, que inclui a degustação dos produtos – pilsen natural, pilsen cristal, weiss, pale ale, bock e imperial stout – tirados direto do tanque. Prosit!
Maria Helena Bellini, autora do texto, é aluna do curso de Jornalismo Literário ministrado pela professora Monica Martinez no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo em agosto/setembro de 2011. A fotografia é de uma ex-aluna de graduação, Selma Tronco, que desenvolveu trabalho de conclusão de curso de Comunicação Social sobre a cidade pela FIAMFAAM.
Meia-noite em Paris
05/08/2011 às 16:21 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário
O perfil mais memorável que já li de Woody Allen foi escrito pela jornalista brasileira Teté Ribeiro para a Serafina, a revista semanal do jornal Folha de S. Paulo. Publicado em maio de 2009, ficamos face a face a face com o cineasta: “Ele usa os mesmos óculos de aros pretos de sempre, mas os cabelos estão mais brancos e mais ralos no cocoruto. (…) Noto que ele chacoalha um pouco a cabeça entre uma pergunta e outra, e isso me deixa triste. Por quanto tempo ainda poderemos usufruir do imenso luxo de ter um filme novo do Woody Allen para ver por ano”.
Pois é, em 2011 não só pudemos nos dar a este luxo, como ainda nos regalar com Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris), certamente um dos melhores filmes de um cineasta que tem produção tão vasta que tem uma página exclusivamente dedicada à sua cinegrafia na Wikepedia.
O protagonista, o escritor Gil – como sempre o alter ego de Allen –, é interpretado por Owen Wilson. Ele viaja para a cidade de seus sonhos, Paris, com a noiva e os endinheirados pais dela. Gil está bem de vida, escrevendo roteiros para Hollywood, mas frustra-se por achar que não está sendo o escritor que poderia ser. Sim, a ideia de ter seu próprio grande romance ronda a mente dele.
Woody não nos explica como isto acontece – o que aliás não faz falta alguma ao filme –, mas de uma forma mágica Gil voltará aos loucos anos 1920 e conhecerá os artistas da geração perdida que estavam fazendo história em Paris na época. Para citar apenas escritores, ficamos com F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, que, não querendo ler o romance do jovem para não correr o risco de ficar com inveja, o encaminha para ninguém menos que Gertrude Stein (numa ótima interpretação de Kathy Bates).
Referências ajudam a decodificar o filme, como a cena en passant pela livraria Shakespeare and Company, aberta no Quartier Latin em 1919 por Sylvia Beach, que emprestava livros a pobretões anônimos como Hemingway e tornou-se um ponto de encontro de intelectuais, como William S. Burroughs e James Joyce. Também tem seu charme saber que a guia do museu é Carla Bruni – a atual esposa do presidente da França, Nicolas Sarkozy.
O curioso do filme é que aceitação dos limites e desafios do presente superam a vontade nostálgica de permanecer no passado. É aprender o que for possível com ele e seguir em frente. Lição que, aliás, parece ter sido bem aprendida por Allen, que não se prende aos louros e segue em sua abençoada cadência produtiva a cada ano – ou, como bem precisou Teté Ribeiro, enquanto tivermos sorte.
Monica Martinez
Jornalismo Literário para todas as idades
01/08/2011 às 10:11 | Publicado em E-Books, Jornalismo Literário, Livros | Deixe um comentário
A princípio endereçado para um público jovem, Jornalismo Literário para Iniciantes certamente agradará profissionais em início ou a pleno vapor na carreira, bem como interessados em escrever bem em geral.
Neste contexto, Jornalismo Literário é o texto elaborado com qualidade. Não é a forma mais conhecida do jornalismo, que tem como carro-chefe os relatos noticiosos, nem a mais praticada. Mas, certamente, é a mais cobiçada por jornalistas-escritores e leitores que querem se aprofundar em algum assunto de seu interesse.
O autor é referência na área desde 1993, quando publicou Páginas Ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Lima não está falando apenas do jornalismo romântico praticado na primeira metade do século XX, quando inspirados autores buscavam nas redações o ganha-pão mais imediato. Ele é mestre nos autores contemporâneos, sobretudo americanos, aqueles que publicam hoje livros-reportagem que serão transformados em filmes pelos grandes estúdios amanhã.
A obra é facilmente adquirida pelo sistema online do Clube dos Autores, que há pouco tempo lançou a prática opção de e-book (que tem a vantagem do preço mais acessível).
Ficha técnica
Avaliação
**** Ótima Leitura
Título: Jornalismo Literário para Iniciantes
Editora: Clube de Autores
Autor: Edvaldo Pereira Lima
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 148.
Um manto vermelho cobre a cidade
22/06/2011 às 4:08 | Publicado em Monica Martinez | Deixe um comentárioTags: Monica Martinez
O texto abaixo integra o projeto 3Meia5:
25 de Maio, Um manto vermelho cobre a cidade
São 5h15. O despertador toca. Eu gosto de acordar cedo – desde que tenha ido dormir cedo. Ouço um plec – o entregador de jornais acaba de passar e jogar a edição do dia no quintal. Desço para preparar o café. Lá fora, os pássaros ainda estão silenciosos e o céu escuro não permite saber como será o dia. O aroma invade a cozinha, enquanto descasco o mamão e faço algumas torradas.
Ouço os demais despertadores da casa tocando, um por um, e os sons conhecidos de camas rangendo, portas batendo, comentários nem sempre bem humorados sendo trocados. Logo todos estão na mesa da sala, falando animada, mas brevemente, sobre o dia.
Outros plecs se seguem, de portas sendo chaveadas, portas de carro batendo, portões travando. Morar nos arredores de São Paulo tem seus charmes, mas o inconveniente da procissão matinal que segue em direção à cidade para trabalhar. Cada minuto desperdiçado em casa significa quilômetros de congestionamentos.
Mas esta manhã a cidade flui surpreendentemente bem. Não há motoqueiros pelo chão, batidas, nem ambulâncias zunindo pelo caminho. Enquanto dirijo penso no que farei hoje. Um papelzinho deixado propositadamente no banco do passageiro ajuda a registrar as tarefas. Levei anos para desenvolver este método, que não é muito sofisticado, mas funciona bem. Logo a mente está livre para fazer haicais. O sol está surgindo e, como não chove há alguns dias, há uma camada vermelha espessa cobrindo o horizonte.
Um manto vermelho
A se erguer com o sol –
Manhã de outono
Acho mágico ficar construindo histórias em 17 sílabas – embora os haicais verdadeiramente bons sejam difíceis de acontecer. Às vezes eles nascem por si mesmos, como o acima. Outros levam meses para amadurecer. Recentemente eu estava pensando numa teoria sobre a natureza dos haicais. Num primeiro nível haveria os descritivos, que sugerem uma imagem, uma situação, uma cena. Num segundo nível, mais elevado, estariam os relacionais, que sugerem de forma muito interativa uma sensação, uma lembrança, uma emoção. Quanto mais elas forem universais, mais o leitor é tocado. Para mim, os haicais mais comoventes são aqueles que falam das questões inexoráveis da vida: o nascer, a finitude e a efemeridade de tudo. E, claro, da insensatez deste nosso mundo coisa, com seu individualismo e consumismo exacerbados.
O manto vermelho vai se dispersando. “Será que os outros motoristas também o notam?”, penso. Fico algo zen, o que, por algum motivo inexplicável, me leva a pegar as pistas que fluem melhor, a me desviar dos obstáculos. Uma vez li em algum lugar que quando a gente se mantém neste estado mental é como se formasse uma redoma protetora à nossa volta. “Será que isso tem alguma evidência científica?”, é a pergunta que me ocorre.
Faz pouco tempo que descobri que amo o início do outono – eu nem prestava atenção nele. Não há as chuvas ferozes do verão, tampouco o frio do inverno ou a secura do começo da primavera. Deve ser a tal da sabedoria que, dizem, surge depois que a gente faz 40 anos. Não me sinto particularmente mais sábia em nada, contudo. Ao contrário. A cada dia descubro que sei menos do que gostaria ou deveria saber. O outono é lindo também por que logo o período letivo se encerrará. Mais uma vez. Logo outros alunos chegarão em ondas, sempre da mesma idade, 17, 18 anos.
Me ocorre que nunca tive o sonho de ser professora. Escrever sim, tanto que fui jornalista daquelas de redação por mais de 20 anos. Ainda me lembro da confusão das redações, das pretinhas — as teclas das máquinas de escrever –, com seu barulho característico e os copos descartáveis de café frio ao lado que iam sendo sorvidos aos poucos. Mas ser professora foi algo que a vida me levou a ser, de mansinho. No começo eu achava que era algo transitório. Hoje não sei mais. A cada dia, contudo, sinto uma imensa gratidão aos alunos. Por algum motivo inexplicável, ensinar me humanizou. E também me fez descobrir onde acaba minha paciência…
O sol se ergue de vez. Ligo o rádio e tudo volta ao normal, com as notícias das barbaridades que são cometidas, todos os dias, há milênios. Suspiro. Felizmente, em algumas horas, estarei no meu quilo japonês favorito. As melhores coisas da vida, vamos descobrindo pelo caminho, são as mais simples.
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Monica Martinez é jornalista, pesquisadora da área de Comunicação Social, professora universitária, haicaista e, a cada dia mais, escritora.
Para ler os demais textos, clique aqui.
Honra teu pai, de Gay Talese: uma história de pais e filhos
09/06/2011 às 10:53 | Publicado em Gay Talese, Jornalismo Literário, Livros | Deixe um comentárioUm dos livros mais marcantes para mim foi O Poderoso Chefão, de Mário Puzzo. Talvez porque fosse um livro para adultos que eu, na época, não deveria estar escondendo em caixas de sapato debaixo da cama para lê-lo à noite, depois que todos fossem dormir. Talvez porque é bem escrito. Talvez porque seja sobre descendentes de italianos, como eu. Talvez simplesmente porque eu goste de ler. Eu não sei o motivo, mas sei que senti a mesma sensação de estar diante de uma grande obra ao ler Honta Teu Pai, de Gay Talese, lançado este ano pela Companhia das Letras (a edição anterior, de 1971, chamada Honrados Mafiosos, só podia ser garimpada em sebos).
Mas é um livro diferente. Mais do que contar a história das vendetas dos imigrantes sicilianos que foram para os Estados Unidos, a obra é um tratado sobre a relação entre pais e filhos.
O protagonista, Bill, é filho de Joseph Bonanno, que controlava uma das cinco famílias de Nova York. Em vez de integrar-se à sociedade, como os demais integrantes da geração nascida na América, ele opta por manter-se nos, digamos, negócios escusos do pai. É por meio dos reveses que Bill enfrenta que acompanhamos o ocaso da Máfia naquele país. Tudo no melhor estilo de Jornalismo Literário.
O curioso é que o livro já adianta uma tendência que o escritor estadunidense Gay Talese adotaria: ao invés de dedicar-se às celebridades no auge da carreira, ele sempre deu preferência aos personagens que estão no ocaso ou em momentos difíceis da vida.
Hoje, quase 80 anos, Gay Talese dedica-se à escrever a história de seu matrimônio com a editora Nan.
Texto: Monica Martinez
Foto: divulgação.
Abaixo, o trecho inicial do livro, divulgado pela Companhia das Letras.
Trecho
parte I
o desaparecimento
1.
Os porteiros de Nova York sabem que uma pessoa pode ver demais e por
isso a maioria deles adquiriu uma extraordinária capacidade de visão seletiva:
sabem o que devem ver e o que ignorar, quando é conveniente ser bisbilhoteiro
ou, ao contrário, displicente; se ocorrem acidentes ou discussões bem na
frente de seus edifícios, a maior parte das vezes estão lá dentro e nada veem; e,
quando ladrões fogem pelo saguão, quase sempre estão procurando um táxi
para alguém. Um porteiro pode desaprovar suborno ou adultério, mas, ainda
assim, está invariavelmente de costas quando o síndico passa uma propina ao
fiscal do Corpo de Bombeiros, ou quando um morador cuja mulher está fora
entra com uma moça no elevador. Não pretendo com isso acusar os porteiros
de hipocrisia ou covardia, mas tão somente dar a entender que eles sabem
perfeitamente, por instinto, que é bem melhor não se meter, e conjecturar que
talvez eles tenham aprendido, pela experiência, que a pessoa não ganha nada
por ser testemunha ocular das coisas feias da vida ou das loucuras da cidade.
Sendo assim, não é de estranhar que na noite em que Joseph Bonanno, um dos
chefes da Máfia em Nova York, foi agarrado por dois capangas diante de um
luxuoso edifício de apartamentos na Park Avenue, perto da rua 36, pouco depois da meia‑noite de uma chuvosa terça‑feira de outubro, o porteiro estivesse conversando com o ascensorista no saguão e nada tivesse visto.
Tudo aconteceu com incrível rapidez. Voltando de um restaurante, Bonanno
desceu de um táxi depois de seu advogado, William P. Maloney, que
saiu correndo na frente, sob a chuva, para resguardar‑se embaixo do toldo.
Nesse momento, os pistoleiros surgiram da escuridão, puxando Bonanno pelos
braços em direção a um automóvel. Bonanno tentou se livrar, mas não
conseguiu. Encarou os homens, furioso e perplexo — desde o tempo da Lei
Seca não era tratado com tanta brutalidade, e daquela vez quem o maltratara
fora a polícia, porque ele se recusara a responder a certas perguntas. Desta vez
estava sendo brutalizado por homens de seu próprio mundo, dois grandalhões
de sobretudo e chapéu preto, um dos quais lhe disse: “Vamos, Joe, meu chefe
quer ver você”.
Bonanno, um homem vistoso e grisalho, de 59 anos, nada respondeu.
Saíra naquela noite sem guarda‑costas e desarmado, e mesmo que a avenida
estivesse cheia de gente não teria pedido socorro, pois considerava aquilo um
assunto pessoal. Tentou recuperar a dignidade, pensar com clareza enquanto
os homens o conduziam pela calçada, os braços já dormentes por causa
da força com que os apertavam. Tremia sob a chuva fria e o vento, sentindo‑a
penetrar através do terno de seda cinza, e nada enxergava na neblina
que tomava conta da Park Avenue, exceto as lanternas de seu táxi, que desaparecia na direção do Central Park, nem nada ouvia além da respiração
ofegante dos homens que o puxavam. De repente, às suas costas, Bonanno
escutou os passos rápidos e a voz de Maloney, que gritava: “Ei, que diabo
está acontecendo?”.
Um dos pistoleiros virou‑se e avisou: “Deixe para lá, volte!”.
“Vão embora”, respondeu Maloney, ainda correndo. Era um homem de
sessenta anos, de cabelos brancos, e agitava os braços. “Ele é meu cliente!”
Uma bala de automática foi disparada para o chão, perto de Maloney. O
advogado parou, recuou e por fim escondeu‑se na entrada de seu edifício. Os
homens empurraram Bonanno para dentro de um sedã bege estacionado na
esquina da rua 36, com o motor ligado. Bonanno deitou‑se no chão, como lhe
havia sido ordenado, e o carro partiu em direção à avenida Lexington. Foi
então que o porteiro foi ter com Maloney na calçada, chegando tarde demais
para ver qualquer coisa. Posteriormente declarou que não tinha escutado tiro
nenhum.
* * *
Bill Bonanno, um homem alto e corpulento de 31 anos, cujo cabelo escuro
cortado à escovinha e a camisa de colarinho abotoado indicavam o universitário que ele fora na década de 1950, mas com um bigode recém‑cultivado para ajudar a ocultar sua identidade, estava num apartamento escassamente mobiliado do Queens. Escutou com atenção a campainha do telefone. Mas não atendeu.
O telefone tocou mais três vezes, parou, tocou novamente e parou. Era o
código de Labruzzo. Ele devia estar numa cabine telefônica, dando sinal de
que retornara ao apartamento. Ao chegar ao edifício, Labruzzo repetiria o sinal
na campainha do saguão e o jovem Bonanno apertaria outra campainha
para soltar a tranca da porta. Depois Bonanno esperaria, de arma em punho,
olhando pelo olho mágico para ter certeza de que era Labruzzo quem saía do
elevador. O apartamento mobiliado que os dois homens dividiam ficava no
último andar de um edifício de tijolinhos num bairro de classe média e, como
a porta do apartamento dava para o fim do corredor, podiam observar todos
os que entravam e saíam do único elevador, sem ascensorista.
Essas precauções estavam sendo tomadas não somente por Bill Bonanno
e Frank Labruzzo, mas também por dezenas de outros membros da organização
de Joseph Bonanno, que durante as últimas semanas vinham se escondendo
em apartamentos semelhantes no Queens, no Brooklyn e no Bronx. Era
uma época de tensão para todos eles. Sabiam que a qualquer momento poderia
ocorrer um confronto com quadrilhas rivais, dispostas a matá‑los, ou com
agentes do governo, que desejavam prendê‑los e interrogá‑los a respeito dos
boatos de vendetas e conspirações violentas que circulavam pelo mundo do
crime. O governo havia concluído recentemente, em grande medida com base
em informações obtidas através de telefones grampeados e dispositivos eletrônicos, que até mesmo os chefões da Máfia estavam envolvidos nessa dissensão interna, e que Joseph Bonanno, chefe poderoso havia trinta anos, era o pivô da controvérsia. Outros chefes suspeitavam que ele era demasiado ambicioso ou que desejava aumentar — às custas deles, talvez sobre seus cadáveres — a influência que já exercia em várias partes de Nova York, do Canadá e do sudoeste dos Estados Unidos. A recente promoção de seu filho, Bill, ao terceiro posto da hierarquia da organização também era vista com alarme e ceticismo por alguns líderes de outras organizações, bem como por membros da própria organização Bonanno, que reunia cerca de trezentos homens no Brooklyn.
No mundo do crime, Bill Bonanno era visto mais ou menos como um
tipo excêntrico, um privilegiado que havia estudado numa escola secundária
e numa universidade particulares, cujas atitudes e métodos, embora não deixassem de revelar coragem, tinham alguma coisa do espírito rebelde de um
ativista universitário. Parecia impaciente com o sistema, não se impressionando com as maneiras indiretas e a finesse do Velho Mundo que faziam parte da tradição da Máfia. Dizia o que pensava. Não mudava de tom ao se dirigir a um mafioso mais graduado e não perdia a autoconfiança juvenil nem mesmo quando usava o anacrônico dialeto siciliano que aprendera quando menino, com o avô, no Brooklyn. O fato de medir 1,88 metro, pesar mais de noventa quilos e ter uma postura ereta e raciocínio rápido aumentava bastante a impressão que causava com sua presença e conferia substância à alta opinião que fazia de si mesmo — a de que era igual ou melhor que qualquer um dos homens a que estava ligado, com a possível exceção de seu pai. Perto dele, Bill parecia perder um pouco de sua segurança, tornando‑se mais calado, hesitante, como se o pai estivesse testando severamente cada uma de suas palavras e pensamentos. Parecia distante e formal em relação ao pai, não tomava mais liberdades do que teria com um estranho. Mas era também atento às necessidades do pai, parecendo ter muito prazer em agradá‑lo. Era evidente que o pai lhe infundia muita admiração e respeito e, embora sem dúvida ele o tivesse temido quando criança (e talvez ainda temesse), também o adorava.
Durante as últimas semanas, em nenhum momento ele estivera longe de
Joseph Bonanno, mas na noite anterior, sabendo que o pai queria jantar sozinho com seus advogados e dormir no apartamento de Maloney, Bill Bonanno passou uma noite tranquila no apartamento com Labruzzo, vendo televisão, lendo os jornais e esperando uma comunicação. Sem que soubesse exatamente por quê, estava meio nervoso. Talvez uma das razões fosse a matéria que lera no Daily News, segundo a qual a vida para os mafiosos estava cada vez mais perigosa e que o velho Bonanno planejara, pouco tempo atrás, o assassinato de dois chefes rivais, Carlo Gambino e Thomas (Brown Três‑Dedos) Lucchese, plano que teria falhado porque um dos pistoleiros traiu Bonanno e avisou uma das vítimas. Mesmo que isso fosse pura invencionice, baseada talvez em conversas captadas pelo fbi entre subalternos da Máfia, Bill estava preocupado com a publicidade dada ao assunto, pois sabia que aquilo poderia intensificar a suspeita que realmente existia entre as várias quadrilhas que controlavam a contravenção (jogos de azar, corretagem de apostas em cavalos, agiotagem, lenocínio, contrabando e venda de proteção). Poderia ainda despertar protestos de políticos, provocar uma vigilância mais rigorosa da polícia e resultar em maior número de intimações dos tribunais.
A intimação judicial era agora mais temida do que anteriormente no mundo
da contravenção devido a uma nova lei federal segundo a qual um suspeito
teria de depor quando chamado a fazê‑lo, desde que o tribunal lhe concedesse
imunidade, ou se arriscaria a uma condenação por desacato à justiça.
Isso tornava imperativo que os homens da Máfia se mantivessem pouco visíveis para evitar intimações a cada vez que os jornais noticiavam alguma coisa.
A nova lei também dificultava que os líderes da Máfia controlassem os passos
de seus homens, pois, como tinham de ter muito cuidado, nem sempre estavam
onde deveriam estar na hora marcada para cumprir alguma missão; muitas
vezes não conseguiam receber, em cabines telefônicas designadas e em horários precisos, comunicações combinadas com seus chefes que desejavam saber como iam as coisas. Numa sociedade secreta em que a precisão era fundamental, o novo problema das comunicações estava acabando com os nervos já tensos de muitos chefes.
Mais progressista do que a maioria das outras “famílias”, devido aos métodos
empresariais modernos adotados pelo jovem Bonanno, a organização
Bonanno até certo ponto resolvera o problema de comunicação mediante um
código de número de toques de campainha e também com a utilização de
um serviço de recados telefônicos. A família Bonanno talvez fosse a única a
usar esse tipo de serviço. O contrato fora feito em nome de um fictício sr.
Baxter, codinome de Bill Bonanno, e estava ligado ao telefone da casa de uma
tia solteira de um dos membros da organização, que mal falava inglês e era
quase surda. Durante todo o dia vários membros chamavam o serviço e se
identificavam por meio de codinomes, deixando mensagens cifradas com as
quais confirmavam que estavam bem e que os negócios seguiam normalmente.
Uma mensagem com a sigla ibm — “aconselho que você compre mais
ibm” — significava que Frank Labruzzo, que já trabalhara para a ibm, estava
entrando em contato. Se a mensagem falava em “monge”, identificava outro
membro da organização, um homem de cabeça tonsurada que muitas vezes
ocultava sua identidade em público usando um hábito de frade. Qualquer referência a “vendedor” indicava um dos capitães de Bonanno que trabalhava
também como vendedor de joias, e “flor” designava um pistoleiro cujo pai era
florista na Sicília. “Sr. Boyd” era um membro cuja mãe morava na rua Boyd,
em Long Island, e uma referência a “charuto” identificava certo membro que
estava sempre com um charuto na boca. Joseph Bonanno era conhecido no
serviço de recados como “sr. Shepherd”.
Frank Labruzzo tinha saído do apartamento que dividia com Bill Bonanno
a fim de ligar para o serviço de recados de um telefone público nas vizinhanças,
e também para comprar os vespertinos, para saber se havia acontecido
alguma coisa de especial. Como de costume, saiu com seu cão, que ficava
com eles no apartamento. Bill Bonanno tinha sugerido que todos os membros
da organização que se achavam escondidos tivessem cachorros nos apartamentos.
Embora no começo isso lhes tornasse difícil conseguir alojamentos,
uma vez que alguns senhorios faziam objeção a animais, mais tarde os homens
concordaram que um cão os tornava mais alertas a sons nos corredores, além
de ser um companheiro útil quando tinham de sair — um homem com um
cachorro despertava poucas suspeitas na rua.
Bonanno e Labruzzo gostavam de cães, o que era uma das muitas coisas
que tinham em comum e contribuíam para viverem bem no pequeno apartamento.
Frank Labruzzo era um homem calmo e bonachão de 53 anos, um
tanto atarracado, que usava óculos e cujo cabelo escuro começava a branquear. Era membro graduado da organização de Joseph Bonanno, de quem era parente afim — a irmã de Labruzzo, Fay, era casada com Joseph Bonanno e mãe de Bill Bonanno; além disso, Labruzzo estava ligado ao sobrinho de uma
maneira diferente do pai. Não havia entre os dois nenhuma tensão, nenhum
problema de competição, de ciúme. Labruzzo, que não era movido por uma
avassaladora ambição pessoal, nem era impetuoso como Joseph Bonanno ou
inquieto como o filho, contentava‑se com sua posição secundária no mundo,
que via como um lugar muito maior do que qualquer um dos dois Bonanno
parecia julgar que fosse.
Labruzzo tinha feito curso superior e se dedicara a várias ocupações, nenhuma
por muito tempo. Além de trabalhar para a ibm, administrara uma loja,
vendera apólices de seguro e fora agente funerário. Em certa época possuíra,
em sociedade com Joseph Bonanno, uma agência funerária no Brooklyn, per-
to do quarteirão onde nascera, no centro de um bairro em que milhares de
sicilianos haviam se instalado no começo do século. Fora ali que o velho Bonanno cortejara Fay Labruzzo, filha de um próspero açougueiro que fabricara vinho durante a Lei Seca. O açougueiro orgulhou‑se de ter Bonanno como genro, embora a data do casamento, em 1930, tivesse de ser adiada por treze meses devido a uma guerra entre centenas de sicilianos e outros italianos recém‑chegados — entre os quais Bonanno — que davam continuidade a desavenças provincianas, transplantadas para os Estados Unidos, mas que tinham origem longínqua nas antigas aldeias montanhesas que só haviam abandonado fisicamente. Esses homens trouxeram para Nova York suas velhas rixas e costumes, suas amizades, medos e suspeitas tradicionais, e não só se consumiam nessas coisas como as transmitiam aos filhos e, às vezes, aos filhos dos filhos. E entre tais herdeiros havia homens como Frank Labruzzo e Bill Bonanno, que, em meados dos anos 1960, uma época de foguetes e viagens espaciais, travavam ainda uma guerra feudal.
Aos dois homens parecia absurdo e extraordinário que nunca tivessem
conseguido escapar aos costumes estreitos do mundo de seus pais, tema que
haviam discutido durante as muitas horas de confinamento, analisando‑o em
geral em tons de brincadeira e despreocupação, embora às vezes com tristeza
e até amargura. “É, somos vendedores de rodas de carroças”, dissera Bonanno
uma vez, suspirando, e Labruzzo concordara: eram homens modernos, mas
perdidos no tempo, alimentando velhos rancores. Isso era estranho sobretudo
no caso de Bill Bonanno: deixara o Brooklyn ainda muito jovem para estudar
em internatos do Arizona, sendo criado fora da família, aprendendo a montar
a cavalo e a ferrar gado, saindo com moças louras, filhas de fazendeiros; mais
tarde, como estudante na Universidade do Arizona, comandara um pelotão de
cadetes do rotc que hasteava a bandeira americana a cada jogo de futebol,
antes da execução do hino nacional. O fato de ter subitamente trocado o ambiente universitário pelo precário mundo de seu pai em Nova York devia‑se a uma série de bizarras circunstâncias, talvez fora de seu controle, talvez não.
Um passo importante para isso fora decerto seu casamento, em 1956, com Rosalie Profaci, uma bela morena de olhos escuros, sobrinha de Joseph Profaci, o importador milionário que era também membro da comissão nacional da Máfia. Bill Bonanno conheceu Rosalie Profaci quando ela era ainda muito jovem
e estudava com a irmã numa escola conventual no estado de Nova York. Na-
quela época tinha uma namorada no Arizona, uma moça americana descontraída e um tanto rebelde; embora Rosalie fosse atraente, era também recatada e reservada. Os dois encontraram‑se muitas vezes, durante os meses de verão e nas férias, em grande parte por causa de seus pais, que eram amigos íntimos e cuja aprovação era expressada de maneiras sutis, sempre que Rosalie e Bill conversavam ou simplesmente sentavam‑se um perto do outro em salas
com muita gente. Numa grande reunião de família, meses antes do noivado,
Joseph Bonanno levou sua filha Catherine, de 21 anos, para um canto e lhe
perguntou o que pensava da possibilidade de Bill vir a se casar com Rosalie.
Catherine Bonanno, uma moça de espírito independente, pensou um momento
e respondeu que pessoalmente gostava muito de Rosalie, mas não julgava
que ela fosse a moça indicada para Bill. Faltava‑lhe a necessária firmeza
de caráter para aceitar Bill como ele era e poderia vir a ser, disse, e estava prestes a dizer mais alguma coisa quando, de repente, sentiu um forte tapa no
rosto. Caiu para trás atônita, perplexa, rompeu em lágrimas e saiu correndo.
Nunca vira o pai tão furioso, com os olhos fuzilando daquela maneira. Mais
tarde ele tentou consolá‑la, desculpar‑se a seu modo, mas ela se manteve distante durante dias, embora entendesse agora, como não tinha percebido antes, o desejo do pai de que o casamento se realizasse. Era um desejo compartilhado pelo pai e pelo tio de Rosalie. E se concretizaria no ano seguinte, um acontecimento que Catherine Bonanno sempre encararia como um casamento arranjado pelos pais.
A cerimônia, em 18 de agosto de 1956, foi espetacular. Mais de 3 mil convidados compareceram à recepção na sala de baile do Hotel Astor, em Nova
York, depois da cerimônia religiosa no Brooklyn, e nenhuma despesa foi poupada para abrilhantar a ocasião. Para o baile foram contratadas orquestras de fama e artistas como os Four Lads e Tony Bennett. Um distribuidor de bebidas do Brooklyn mandou de presente um caminhão de champanhe e vinho;
vieram da Califórnia, pela Pan American, milhares de margaridas, a flor predileta de Rosalie e que na época não havia em Nova York. Além de homens
de negócios convencionais, políticos e religiosos, a lista de convidados incluía
todos os chefes da contravenção. Lá estavam Vito Genovese e Frank Costello,
que pediram e receberam mesas discretas junto à parede. Lá estava Albert
Anastasia (que no ano seguinte seria assassinado na barbearia do Hotel Park-
-Sheraton), bem como Joseph Barbara, cuja recepção para quase setenta…
A arte do perfil
09/05/2011 às 10:50 | Publicado em perfis e biografias, Teoria sobre Narrativas em Jornalismo | Deixe um comentárioAo mexer em arquivos antigos reencontrei um texto de 2008 sobre perfis escrito pelo Sérgio Vilas Boas. Aproveito, portanto, para postá-lo aqui, pois vale a pena lê-lo (quem ainda não o conhece) ou relê-lo (para quem já o havia visto e quer refrescar a memória).
Com um abraço,
Monica Martinez
Um dos gêneros mais nobres do Jornalismo Literário, o perfil é um tipo de texto biográfico sobre uma – uma única – pessoa, famosa ou não, mas viva, de preferência. Texto biográfico não significa exatamente biografia, que é outro gênero. Nem tudo o que é biográfico é biografia, aliás. A biografia é uma composição superdetalhada de vários “textos” biográficos (facetas, episódios, convivas, pertences, legados, o feito, o não-feito etc.). Enquanto um biógrafo se detém em um extenso conjunto de inputs, o autor de um perfil se concentra em apenas alguns aspectos do personagem central.
O personagem central – assim é melhor que “perfilado” (palavra horrível) – é a razão de ser de um perfil. Se a individualidade fosse banida do mundo e os humanos não passassem de robôs programáveis, sem estilo nem identidade, o gênero perfil simplesmente não existiria. O perfil se atém à individualidade, mas não ao individualismo vulgar.
Embora andem colocando a palavra perfil antes de qualquer coisa por aí, o fato é que não existe perfil de cidade, perfil de bairro, perfil de um edifício, perfil de época. Sinto muito, mas perfil é de um ser humano. Cada ser humano tem um perfil, assim como cada perfil só pode ser sobre um ser humano – um sujeito singular que pode eventualmente estar vivendo em um edifício, num bairro, numa cidade e numa certa época.
O perfil tem grande relevância como produção jornalística, mesmo que meses ou anos depois da publicação do texto o personagem central tenha mudado suas opiniões, conceitos, atitudes e estilos de vida. Paciência. Não há por que sofrer com o fato de que até as convicções são mutantes. A durabilidade de um texto-perfil, na verdade, está na capacidade do autor de trabalhar bem as cristas e vales inerentes à trajetória humana.
Perfis têm aparecido ocasionalmente em periódicos (mas não apenas em periódicos) há mais de um século. Mas foi a partir da década de 1930 que jornais e revistas começaram a apostar mais neles. No início, os personagens mais retratados eram os olimpianos do mundo das artes, da política, dos esportes e dos negócios. Esperava-se que a matéria lançasse luzes sobre a fase atual, o comportamento, os valores, a visão de mundo e alguns episódios da vida da pessoa para que sua personalidade e atitudes pudessem ser compreendidas num contexto maior.
Com esse espírito, os perfis se tornaram marca registrada de revistas norte-americanas como The New Yorker, Esquire, Vanity Fair, Harper’s e Atlantic, entre outras. No Brasil, O Cruzeiro e Realidade também o valorizaram em suas épocas áureas. Acho interessantes em Realidade os textos de Luiz Fernando Mercadante sobre Oscar Niemeyer (jul./1967) e Francisco Matarazzo Sobrinho (out./1967); e o do recém-falecido psicoterapeuta Roberto Freire sobre o jovem Roberto Carlos (nov./1968).
O time de bons autores de perfis é enorme. É o caso de você procurar algo de Lincoln Barnett, Joseph Mitchell, Janet Flanner, Lilian Ross, Calvin Trillin, Susan Orlean, David Remnick, John McPhee e muitos outros. Vários praticantes do New Journalism, período áureo do Jornalismo Literário, na década de 1960, honraram o gênero. Entre todos, o mais representativo é certamente Gay Talese, por sua segurança, delicadeza e versatilidade.
Talvez pelo espaço que até hoje tem reservado aos perfis, a New Yorker (fundada em 1925) ficou com o crédito de “principal difusora”. O grande passo da New Yorker nessa direção foi a contratação de Joseph Mitchell no final da década de 1930. Mitchell retratou estivadores, índios, operários, pescadores e agricultores. Está entre os maiores jornalistas literários de todos os tempos. Os dois textos que escreveu sobre o folclórico, boêmio e pirado Joe Gould são primorosos.
Lincoln Barnett, repórter da Life entre 1937 e 1946, é outro cara memorável. Barnett contribuiu muito para a consolidação do perfil como modalidade jornalística. Na única coletânea em livro que publicou – The World We Live In: Sixteen Close-Ups (1951) -, ele comenta por que e como escreveu alguns de seus principais textos. Segundo Barnett, o autor de perfis tem de se preocupar com “a transitoriedade dos atributos”, diferentemente de um biógrafo trabalhando com um morto.
Inspirado em Barnett e Mitchell, pergunto: quem merece um perfil? Antes de tentarmos responder, tome nota de algumas dicotomias muito em voga nestes tempos de culto patológico à celebrização fácil. Primeiro, a idéia de conhecido versus desconhecido. Mas, afinal, a pessoa é conhecida de quem? É anônima para quem? Segundo, o comum versus o incomum. Mais produtivo talvez seja você admitir que o comum e o incomum habitam toda e qualquer pessoa. Terceiro, o simples versus o complexo. Quem já conheceu uma pessoa não-complexa levante a mão!
E, por último, o rotineiro versus o mirabolante. Ah, eis o ponto: o problema de narrar não é do personagem, e sim do autor. Decisivo para que o narrar biográfico (perfil, no caso) seja bom ou ruim não é o personagem em si e sim a competência do autor em lidar com o personagem e com a narrativa. Escapismo dizer que o personagem é isso, aquilo, fraco, simples, comum; que a história dele/dela é boba, sem graça, igual. O problema de narrar com qualidade é sempre, sempre do autor. De ninguém mais.
Condição sine qua non em um perfil, portanto, é a interação do autor com o personagem, seja quem for. Você deve estar pensando: “Ah, mas o Gay Talese fez aquele antológico perfil do Frank Sinatra (Esquire, abril de 1966) sem falar com o Frank Sinatra”. Certo, certo. Mas considere que Talese queria muito falar com o Frank, e foi o Frank quem se recusou; no mais, cite, se for capaz, outro perfil (antológico) em que o autor não interagiu com o sujeito em foco.
Difícil, não? Talvez você encontre algum em um obituário, seção muito valorizada na imprensa anglo-saxônica. Mas as seções de obituários são (têm de ser) sobre mortos. Sobre um morto, tudo é possível. Já morreu mesmo. Sobre um vivo, não. E é exatamente aí (na vida presente) que reside a arte do perfil – arte no sentido de um fazer tal que quando faz, altera o fazer, pois não é uma fórmula.
Para fazer um bom perfil (aprendi isso com meus próprios erros) é preciso pesquisar, conversar, movimentar, observar e refletir. Você tem de pesquisar os contextos socioculturais da pessoa; conversar com ela e com os convivas dela; movimentar-se com ela por diversos locais, evitando o simples “de frente” (pingue-pongue trivial transformado depois em texto corrido); tem de observar as linguagens verbais e não-verbais da pessoa; e examinar com carinho as reflexões que ela lhe oferece sobre o passado, mas também, e principalmente, sobre a fase atual.
Autores que ficam paradões diante do personagem só fazendo “perguntas intelectuais às vezes irrespondíveis” talvez devam reavaliar seus métodos. Os perfis só podem elucidar, indagar, apreciar a vida num dado instante, e são mais atraentes quando atiçam em nós reflexões sobre aspectos universais da existência, como vitória, derrota, expectativa, frustração, amizade, solidariedade, coragem, perda, separação etc.
Os perfis cumprem um papel importante que é exatamente gerar empatias no leitor. Empatia é a preocupação com a experiência do outro, a tendência a tentar sentir o que sentiria se estivesse nas mesmas situações e circunstâncias do outro; compartilhar as alegrias e tristezas do outro; imaginar as situações do ponto de vista do outro. Acredito que a escrita do perfil também pode levar ao autoconhecimento do próprio autor, e não apenas do leitor.
O Brasil está engatinhando em termos de Jornalismo Literário. E a maioria das produções do tipo perfil, aqui, ainda é meio rasa. Mas bons sinais já podem ser captados na revista Piauí, como nos ótimos textos produzidos por João Moreira Salles sobre o ex-presidente FHC (nº 11) e sobre o jornalista futebolístico Paulo Vinícius Coelho, o PVC (nº 17). A recém-lançada Brasileiros ainda patina, mas investe bem, e em breve saltará do perfil basicão para o perfil rico, ao estilo JL.
Outro bom ateliê de perfis é coordenado pela Academia Brasileira do Jornalismo Literário (ABJL), ONG da qual sou co-fundador. A maioria das produções de nossos alunos estão disponíveis no textovivo.com.br. Outras estão no livro Jornalistas Literários (Summus, 2007), que organizei. Não é uma coletânea só de perfis, mas, entre os incluídos, destaco dois encantadores: Marcos Faerman (falecido jornalista literário) por Isabel Vieira e Marino Streck (pescador do litoral catarinense) por Manuela Colla.
Quando prima pela humanização, com tudo o que isso implica, o texto-perfil é irresistível. Humanizar não é um mistério, não. O primeiro passo para humanizar é evitar pensamentos binários do tipo “santo ou demônio”, “algoz ou vítima”, “melancólico ou eufórico”…
Em vez de formular hipóteses, entre no mundo da pessoa sem preconceitos; conheça-a em suas grandezas, fraquezas e rotinas; freqüente os lugares que ela freqüenta; capte sua visão de mundo e suas marcas de temperamento. Não fique preso a abstrações (dados curriculares, números, performances). Mais importante é o que os personagens e seus convivas exprimem de dentro para fora. Ops, importantíssimo: não idealize ninguém. As pessoas são o que são. E que assim sejam.
* Publicado na revista Especial Biblioteca EntreLivros / Literatura x Jornalismo, edição n.11, ago/2008.
* Escritor e professor; autor de “Perfis” e “Biografismo: Reflexões sobre as Escritas da Vida” (Editora Unesp, 2008), entre outros. Co-fundador da ABJL e editor do portal TextoVivo. Site-blog: www.sergiovilasboas.com.br.
Convite: 19 de março de 2011 a partir das 18h
15/04/2011 às 10:08 | Publicado em Criatividade, Livros | 1 ComentárioFérias
15/04/2011 às 10:02 | Publicado em Textos de alunos | Deixe um comentárioHomem: Ah! Finalmente férias. Significa distância enorme do Projeto Acelera, inventado pelo meu maldito chefe na empresa…
Mulher: Não se esqueça que é por causa dele que você tem férias.
Homem: Tá bom, ta bom… Esqueça o trabalho. Vamos fazer um check list. Não podemos esquecer passaportes, aliás, nenhum documento. E também os cartões de crédito. No mundo, com dinheiro e documento tudo se resolve. O restante, damos um jeito.
Filha: Mãe!!! Vou levar o urso azul.
Mulher: Melhor não filha. Ocupa muito espaço, você se cansa e no fim sou eu que tenho que carregar.
Filha: Então não vou.
Choro da filha.
Mulher: Ta bom. Mas vai no seu colo. Se perder azar o seu.
Continua a mulher:
Benheee!!!! Você pegou as passagens e as reservas?
Homem: Sim. Estão com o guia das cidades e também com as anotações de dicas dos amigos que já passaram férias lá. Sem dúvida teremos passeios e restaurantes bem interessantes para conhecer.
Vez do filho: Pai !!! Vou levar a espada do Jaspion.
Homem: Não pode filho. Vão confiscar no aeroporto.
Filho de novo: Mas o urso dela pode, não é? Sem a espada eu não vou.
Choro do filho.
Homem começa a ter saudades do chefe e vontade de participar do Projeto Acelera na empresa.
Homem prossegue:
Querida, já estamos atrasados. Pegue as malas de mão, as outras eu levo.
Filha repete: Mãe cadê o urso azul?
Filho repete: E a espada do Jaspion?
Mais choro.
Agora do pai e da mãe.
Carlos Alexandre Farsura é aluno da 16ª. turma do curso de Redação Criativa ministrado pela professora Monica Martinez no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo.
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