Meia-noite em Paris
05/08/2011 às 16:21 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário
O perfil mais memorável que já li de Woody Allen foi escrito pela jornalista brasileira Teté Ribeiro para a Serafina, a revista semanal do jornal Folha de S. Paulo. Publicado em maio de 2009, ficamos face a face a face com o cineasta: “Ele usa os mesmos óculos de aros pretos de sempre, mas os cabelos estão mais brancos e mais ralos no cocoruto. (…) Noto que ele chacoalha um pouco a cabeça entre uma pergunta e outra, e isso me deixa triste. Por quanto tempo ainda poderemos usufruir do imenso luxo de ter um filme novo do Woody Allen para ver por ano”.
Pois é, em 2011 não só pudemos nos dar a este luxo, como ainda nos regalar com Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris), certamente um dos melhores filmes de um cineasta que tem produção tão vasta que tem uma página exclusivamente dedicada à sua cinegrafia na Wikepedia.
O protagonista, o escritor Gil – como sempre o alter ego de Allen –, é interpretado por Owen Wilson. Ele viaja para a cidade de seus sonhos, Paris, com a noiva e os endinheirados pais dela. Gil está bem de vida, escrevendo roteiros para Hollywood, mas frustra-se por achar que não está sendo o escritor que poderia ser. Sim, a ideia de ter seu próprio grande romance ronda a mente dele.
Woody não nos explica como isto acontece – o que aliás não faz falta alguma ao filme –, mas de uma forma mágica Gil voltará aos loucos anos 1920 e conhecerá os artistas da geração perdida que estavam fazendo história em Paris na época. Para citar apenas escritores, ficamos com F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, que, não querendo ler o romance do jovem para não correr o risco de ficar com inveja, o encaminha para ninguém menos que Gertrude Stein (numa ótima interpretação de Kathy Bates).
Referências ajudam a decodificar o filme, como a cena en passant pela livraria Shakespeare and Company, aberta no Quartier Latin em 1919 por Sylvia Beach, que emprestava livros a pobretões anônimos como Hemingway e tornou-se um ponto de encontro de intelectuais, como William S. Burroughs e James Joyce. Também tem seu charme saber que a guia do museu é Carla Bruni – a atual esposa do presidente da França, Nicolas Sarkozy.
O curioso do filme é que aceitação dos limites e desafios do presente superam a vontade nostálgica de permanecer no passado. É aprender o que for possível com ele e seguir em frente. Lição que, aliás, parece ter sido bem aprendida por Allen, que não se prende aos louros e segue em sua abençoada cadência produtiva a cada ano – ou, como bem precisou Teté Ribeiro, enquanto tivermos sorte.
Monica Martinez
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