Nova pesquisa sobre Jornalismo Literário
17/10/2011 às 10:30 | Publicado em Jornalismo Literário, Pesquisa | 2 Comentários
Compartilho minha mais recente pesquisa científica publicada, escrita em parceria com José Eugenio de Oliveira Menezes, que integra o livro Jornalismo_Contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. A referência, o link e o artigo na íntegra encontram-se abaixo:
MENEZES, José Eugenio; MARTINEZ, Monica. Jornalismo e tempo profundo: o trabalho de Nelson Araújo no Globo Rural. In: Jornalismo_contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. SILVA, Gislene et al (Org.). Salvador: EDUFBA; Brasília : Compós, 2011, p. 182-202. Disponível em: <http://www.repositorio.ufba.br/ri/bitstream/123456789/1586/1/Jornalismo%20contemporaneo.pdf>. Acesso em: 17 out 2011.
Jornalismo e tempo profundo:
o trabalho de Nelson Araújo no Globo Rural
José Eugenio de Oliveira Menezes e Monica Martinez
Paradigmas jornalísticos em tensão
Neste trabalho analisamos uma reportagem veiculada pela televisão
que, mesmo em tempos de extrema velocidade de apuração e risco de
superficialidade na prática da reportagem, oferece indícios da possibilidade
de se captar, no trabalho jornalístico, sinais de uma temporalidade
diferente da descrição linear de acontecimentos. A partir de um modelo
de temporalidade que, como veremos abaixo, alguns autores denominam
“tempo profundo”, examinamos a experiência realizada pelo jornalista
Nelson Araújo na reportagem Buriti, veiculada pelo programa Globo Rural
em 22 de março de 2009, que compreendemos como um mergulho de
grande alcance na realidade.
A título de introdução lembramos que muitos pesquisadores têm se dedicado
aos estudos a respeito da crise de paradigmas que o jornalismo tem
enfrentado desde o final do século XX e, sobretudo, na virada do século
XXI, com a intensificação das mudanças tecnológicas. De modo genérico,
identificamos nos estudos atuais três perspectivas epistemológicas.
A primeira é marcada por uma postura quase que nostálgica, segundo
a qual as mudanças econômicas, sociais, tecnológicas e outras representam
praticamente um dano à práxis jornalística contemporânea, degenerada,
decerto, frente ao jornalismo praticado em décadas anteriores, como encontramos,
por exemplo, na avaliação de Ignacio Ramonet (2004).
No outro extremo está a segunda linha epistemológica, a dos estudiosos
que compartilham uma visão tecno-utópica que considera que os novos
ambientes de criação e cooperação proporcionados por plataformas digitais
interconectadas favorecem a prática dos jornalistas e de quem mais
queira compartilhar informações. Os novos ambientes digitais possibilitam
o “surgimento de funções conversacionais pós-massivas, permitindo,
a qualquer pessoa, consumir, produzir e distribuir informação sem ter
que movimentar grandes volumes financeiros ou pedir concessão a quem
quer que seja”. (LEMOS, 2009, p. 29) Estes pesquisadores não apenas
concentram seus esforços em tentar compreender o presente em constante
mutação, mas ainda usam toda sua capacidade intelectual numa tentativa
de detectar tendências e cenários futuros.
Na tensão entre as posturas brevemente indicadas encontram-se pensadores
cientes que vivemos no contexto da velocidade, como afirma Paul
Virilio (1996), e da conectividade da sociedade em rede, como diagnostica
Castells (1999). Um cenário no qual algumas práticas e aparatos mediáticos
caem em desuso tão rapidamente quanto outros surgem. Nem o passado
pode ser idealizado como perfeito, nem a tecnologia por si só resolverá
todos os problemas dos futuros profissionais e pensadores da área.
Esta noção de transitoriedade, aliás, é conhecida da história da comunicação
e dos aparatos técnicos que intensificam, ou não, a comunicação ou
a incomunicação. O fato não é a transformação em si, mas a rapidez com
que as mudanças se instalam. Do estabelecimento em pontos estacionários
e da prática da agricultura, ao redor de 10 mil a.C., a humanidade teria
levado seis mil anos até outra invenção significativa, a da escrita. A impressão
das primeiras publicações, conforme Ciro Marcondes Filho (2009, p. 18),
ocorre pouco mais de um século após o aparecimento dos tipos móveis
de Gutenberg. Tais fatos, de diferentes amplitudes temporais, nos ajudam
a compreender que na contemporaneidade também participamos, como
protagonistas, de novas mudanças na prática do trabalho jornalístico na
tensão entre as funções pós-massivas conversacionais que se adicionam
as “tradicionais funções massivas informacionais”. (LEMOS
, 2009, p. 29)
Para usar uma analogia, é como se a humanidade estivesse num momento
de parto que precede o nascimento: o período de nove meses no útero
materno está próximo a um fim, as contrações começaram, há uma enorme
tensão, mas nada ainda que permita saber que a vida continua, em geral
até melhor, após a enorme compressão e, posteriormente, desconfortável
passagem por um espaço diminuto em direção ao desconhecido.
O trajeto das transformações do conhecimento não pode mais ser
compreendido de forma linear, ainda que confortadora, no sentido de que
o ápice da complexidade estaria na contemporaneidade em contraposição
ao arcaico enquanto primevo e simplório. Várias visões caminham neste
sentido. Um exemplo é a teoria do cadarço de botas (bootstrap theory),
idealizada nos anos 1960 pelo físico estadunidense Geoffrey Chew, da
Universidade de Berkeley, que extrapolou sua área e passou a simbolizar
essa noção de cruzamento e interação de conceitos e práticas necessários
para a inovação em determinado campo do saber. No nosso caso, no
campo do jornalismo, estudamos uma prática de reportagem –
Buriti – para observarmos formas de captação e expressão de um tempo profundo,
marcado pela interconexão de posturas como a tradição do jornalismo
literário e a perspectiva epistemológica da chamada cultura do ouvir.
Do lixo ao luxo epistemológico
Nesse caminho histórico da epistemologia da comunicação, no entanto,
parte dos estudos mediáticos, ainda que consistentes, cai no esquecimento
por variados motivos. Em termos freudianos, seria como um conhecimento
que fica latente no inconsciente – não é usado no estado de vigília, isto é,
não consta dos manuais mais citados, contudo em circunstâncias especiais
ou necessárias, vem à tona, como se estivesse numa camada subjacente à
usada cotidianamente pelos pesquisadores da área.
O docente e pesquisador brasileiro de teoria da comunicação Norval
Baitello Junior, ao destacar os livros seminais do comunicólogo tchecobrasileiro
Vilém Flusser (1920-1991) – A História do Diabo e Língua e Realidade
– , lembra justamente que o teórico “não se cansava de lembrar a raiz da
palavra ‘história’ em alemão, Geschichte, sendo Schicht exatamente ‘camada’”.
Baitello Junior (2006, p. 13) chama a atenção para o fato de que a
deposição de camadas e camadas de detritos, entulhos, é o
que nos obriga hoje a nos debruçarmos sobre as ciências
arqueológicas, sobre o passado [...] e sobre o lixo soterrado,
como material valioso para a compreensão do presente.
Para o pesquisador, mais do que se preocupar com os estudos dos produtos
e da produção – com vistas a sua melhoria –, como feito atualmente,
uma Teoria das Mediações deveria subverter esta concepção instrumental
de pesquisa e ocupar-se da real dimensão dos meios de comunicação,
a saber, de suas raízes profundas. O pesquisador também enfatiza que
Flusser lembra que entre as ciências arqueológicas estão a Ecologia, a Psicanálise,
a Etimologia, a Mitologia etc. São as ciências que cuidam
de resgatar o passado descartado, desobstruindo o acesso
para uma relação saudável com as origens, esvaziando um
pouco a inflada ubris do presente. (BAITELLO JUNIOR,
2006, p. 13)
Baitello ressalta que essas raízes profundas, vitais para a compreensão
da comunicação e dos meios de comunicação no presente, são entendidas
como o tempo profundo na visão de Siegfreid Zielinski, professor de
Teoria dos Media da Universidade Técnica de Berlim. Em Arqueologia da
Mídia , Zielinski (2006) defende que os historiadores dos meios, apesar de
terem tido a chance de descobrir preciosidades descartadas e esquecidas
no refugo, têm-se mostrado negligentes do ponto de vista ideológico e
metodológico, rendendo-se “à idéia do progresso técnico inexorável, quase
natural”. (ZIELINSKI, 2006, p. 18)
Para o pesquisador alemão, essa noção evolucionista relaciona-se com
outras suposições, como a história do desenvolvimento da hegemonia
política, a passagem da organização hierárquica para a democrática dos
sistemas, o fundamento lógico da economia e a necessidade absoluta de
artefatos técnicos simples para o desenvolvimento de sistemas tecnológicos
complexos. Por isso, afirma que “em essência, tais genealogias são fábulas
confortantes sobre um futuro brilhante, onde tudo que já existiu está
subjugado à noção de tecnologia como um poder para ‘banir o medo’ e
como ‘força motora universal’”. (ZIELINSKI, 2006, p. 19)
Esta busca do novo no velho, sugerida por Zielinski, pode ser trabalhosa
e, certamente, demandar uma visão generalista mais do que especialista,
como muito aprecia parte da academia contemporânea. Contudo, com
dedicação e sorte, pode levar a resgates interessantes. Um destes aspectos
que analisaremos em seguida é a questão do tempo profundo, que permite
a um repórter um mergulho de grande alcance na realidade.
Tempo profundo: origens do conceito
Segundo Zielinski (2006, p. 20), na transição do século XVIII para o XIX,
a noção de que a Terra era muito mais antiga do que se supunha até então
despertou interesse nos círculos burgueses, num momento de incerteza
territorial em que as próprias “fronteiras nacionais eram redesenhadas em
intervalos cada vez menores”. Ao longo dos séculos posteriores, a escala
cronológica do planeta passa a ser estimada dos 6 mil a milhões de anos,
sendo que hoje a datação aceita é a de 4.6 bilhões de anos.
Um dos naturalistas responsável pela implantação desta noção de tempo
geológico profundo foi o escocês James Hutton (1726–1797). Nascido
em uma próspera família de negociantes e envolvido na venda de
compostos químicos, Hutton era também dotado de grande curiosidade
intelectual e dispunha de recursos financeiros para realizar pesquisas
e as viagens necessárias. Como era comum na época, ele se tornou um
geólogo independente, isto é, sem filiar-se a nenhuma instituição. Seus
achados empíricos, que descreviam a evolução da Terra como um processo
dinâmico baseado em erosões, sedimentações e soerguimento de camadas
tectônicas, seguidos novamente de erosões, foram publicados em
Theory of the Earth, de 1778, posteriormente ampliado na segunda edição.
O conceito de tempo profundo e, consequentemente, da história da
vida, demanda uma compreensão temporal que pode ser desconcertante.
Zielinski (2006, p. 21) cita o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-
2002), da Universidade de Harvard, que afirmava que “a idéia de tempo
profundo geológico é tão estranha para nós que apenas podemos entendêla
como metáfora”.
E qual seria a aplicação prática deste conceito do tempo profundo no
jornalismo contemporâneo, num contexto em que as práticas da área – e,
convenhamos, muitos dos estudos – estão marcadas pela superficialidade
e pela fragmentação? Ainda segundo Zielinski, o livro Basin and Range,
do estadunidense John McPhee (1981), introduz o conceito de tempo
profundo no jornalismo. Ora, ao citar McPhee o docente de Teoria dos
Media alemão estabelece um diálogo com outra área de pesquisa importante:
o Jornalismo Literário, no sentido de uma pesquisa temática
verdadeiramente profunda que deleite pela redação primorosa, inspirada
em elementos da escritura literária. (MARTINEZ, 2010, p. 26)
Antes de avaliarmos suas contribuições, no entanto, falemos de
McPhee. Nascido em 1931, o jornalista estadunidense é considerado um
dos pioneiros da não-ficção. Sua carreira começou na revista
Time e, de 1965 até os dias atuais, é colaborador da
The New Yorker. Em 1999, ganhou o
Pulitzer Prize de não-ficção por Annals of the Former World. Graduado
pela Universidade Princeton, ele é docente de escrita naquela instituição,
tendo ensinado gerações de escritores, como David Remnick, também
ele ganhador de um Pulitzer e atual editor da The New Yorker. Remnick
(1996, p. xi, tradução nossa), um dos seus pupilos, tece um breve perfil de
McPhee na introdução de The Second McPhee Reader:
A reputação de McPhee é substancial, longe de ser secreta.
Ele é um favorito entre outros escritores, o tipo de figura
que é tão bom que está além da inveja, e em anos recentes
vendeu livros suficientes para incitar seu editor a reimprimir
todos seus livros em bonitas séries de brochuras. Seu
clássico sobre o Alasca, Coming into the Country,
e seus quatro livros sobre geologia estão entre seus best-sellers. Ainda
assim, a reputação de McPhee deveria ser ainda maior. Enquanto
muito do Novo Jornalismo dos (anos) 1960 e 1970
parece artificial ou histérico em releituras, o trabalho de
McPhee tem a qualidade da permanência.1
Para efeito de ilustração, empregamos um trecho da abertura do livro
Basin and Range McPHEE (1996, p. 97-98) em tradução livre de Edvaldo
Pereira Lima (2008, p. 363), docente e pesquisador em Jornalismo
Literário:
Os pólos da Terra se moveram. O Equador mudou de lugar,
aparentemente. Os continentes, pousados em suas
placas, já foram carregados para tão longe e são deslocados
em tantas direções, que parece um ato de quase arrogância
afirmar que um certo lugar conhecido do nosso mundo
está situado a 73 graus, 57 minutos e 53 segundos de
longitude a oeste e a 40 graus, 51 minutos e 13 segundos
José Eugenio de Oliveira Menezes e Monica Martine z
de latitude norte – uma descrição temporária, na melhor
das hipóteses, como a de um barco no mar. Contudo, essas
coordenadas o trarão – até o que se pode considerar como
futuro previsível – com absoluta precisão à rampa oeste da
Ponte George Washington. Nove da manhã. Um dia de semana.
O tráfego é uma aula grosseira de física de partículas.
Ele arrebenta, como enxurrada, vindo de suas fontes alimentadoras
em Chicago, Cheyenne, Sacramento, passando
pelos altos atalhos escuros da soleira – ou sill – conhecida
como Palisades Sill. Uma jovem, a pé, é pressionada contra
o muro de rochas pelo ribombo das jamantas – Com
Weimar Bulk Transportation, Fruehauf Long Ranger.
O rosto é nórdico, os olhos são marrons escuros e latinos –
heranças de avós dos extremos da Europa. Ela usa botas de
montanhas, jeans. Carrega um martelo de geólogo. O que
os caminhoneiros parecem notar, porém, é sua juventude,
sua longa cabeleira norueguesa dourada; e eles flertam com
ela apertando as buzinas que soam como agulhas em seus
ouvidos. O nome dela é Karen Kleinspehn. Ela é geóloga,
estudante de pós-graduação prestes a terminar o doutorado
e não tem nenhuma dúvida que ela e a estrada e a rocha sob
os seus pés, e a ponte enorme e sua espantosa cidade – aliás,
quase todo o Canadá e os Estados Unidos continentais e
o México, para completar – estão majestosamente movendo-
se em direção aos caminhões. Ela não veio aqui, porém,
para avaliar os movimentos tectônicos, embora Deus sabe
que ela poderia, já que o “sill” é, em teoria, uma prova dos
eventos que criaram o Atlântico.2
Para Lima (2008, p. 365), “a soberba abordagem de McPhee a um tema
aparentemente tão intragável como esse começa em território distante
do mundo conhecido da maioria dos leitores: a deriva dos continentes”.
O que poderia eventualmente parecer chato e distante a um leitor não
iniciado nas artes da Geologia, se apresentado com os jargões da área,
ganha matizes da era da incerteza.
Imediatamente, porém, o autor traduz o que isso significa:
é um milagre – senão arrogância – utilizarmos com precisão
uma invenção humana disseminada como absolutamente
verdadeira nos bancos escolares, impregnada na nossa
cultura como certeira, aceita sem questionamento.
Finalmente, analisa Lima, McPhee (1966 apud LIMA 2008, p. 365)
integra a questão ao cotidiano do leitor:
Essa invenção, a das coordenadas geográficas, é o cartão
de visitas que John nos apresenta. Através dela, quase sem
perceber, somos conduzidos para um ponto específico do
nosso planeta, numa certa manhã, e colocados diante de uma
ponte que recebe um fluxo contínuo e pesado de carros.
Nesta intersecção entre ciência e narrativas contemporâneas, Cremilda
Medina lembra que “a ciência é um sistema de dúvidas; a ideologia,
certezas. O diálogo entre saberes especializados e sabedorias humanas
favorece a posição científica da dúvida”. (MEDINA, 2003, p. 56)
Finalmente, Lima (2008, p. 365) chama a atenção para a maestria da
escrita de McPhee na construção de cenas:
Como um cineasta habilidoso ao começar um filme de longa
metragem, McPhee vai descortinando com maestria o
cenário que nos aguarda, gradativamente guiando o nosso
olhar para os elementos que o compõem. Os veículos
trafegam sobre uma base de rochas e ali, inesperadamente,
nos deparamos com uma bela mulher batendo martelo
em pedra, indiferente às provocações dos caminhoneiros
que passam, mas não imune ao barulho ensurdecedor do
ambiente. A loira atraente é a narradora da história que o
autor tem a contar, onde o pequeno e o grande, o perto e o
distante, o antigo e o novo integram-se como num processo
interativo dinâmico e esclarecedor. De súbito, aquele mundo
da história geológica e termos difíceis já não é mais estranho.
Faz sentido para o aqui e o agora. Descobrimos belezas
insuspeitas. E entendemos, especialmente se conhecemos
Nova York e New Jersey, o laborioso trabalho construtivo
da Natureza oculto nos penhascos que dão um charme todo
especial ao panorama descortinado da ilha de Manhattan.
O tempo profundo, claro, não é o único na compreensão da realidade,
ainda que seja o mais esquecido atualmente. O historiador francês Fernand
Braudel (1902-1985), um dos expoentes da Nova História Francesa
3, defende a ideia de que, no mar, há três camadas históricas e não apenas
uma única. Segundo esta ideia, a superfície representaria os acontecimen
tos cotidianos, mais rápidos e buliçosos; o leito do mar representaria as
décadas, que mudam mais lentamente e, portanto, são mais fáceis de serem
percebidas pelo sujeito histórico; já as profundas camadas marítimas,
abissais, representam as grandes transformações sociais que levam séculos
ou mesmo milênios para ocorrerem e, consequentemente, serem notadas.
O historiador francês sintetiza sua visão: “Assim chegamos a uma decomposição
da história em planos escalonados. Ou, se quisermos, no tempo
da história, de um tempo geográfico, de um tempo social, e de um tempo
individual”. (BRAUDEL, 1978, p. 15)
Norval Baitello também ressalta a relevância deste tempo em relação
à escrita: “O tempo lento da escrita é o tempo que não apenas permite a
reflexão mas também a retrospecção. E, com isso, abre as portas para uma
outra escrita, a escrita da história”. (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 82-83)
Ou como ele diz em seu livro A era da iconofagia:
Com a escrita e seus precursores (as imagens gravadas sobre
suportes duráveis) impõe-se o homem sobre a morte e seu
tempo irreversível, vencendo simbolicamente seu maior e
mais poderoso adversário. O grande trunfo da escrita não
é a velocidade, mas a lentidão que permite cifrar e decifrar
enigmas. O tempo lento da escrita e da leitura permite alongar
a percepção do tempo da vida.
A aplicação desta noção do tempo profundo, lento, contudo, demanda
outro aporte teórico para sua compreensão e prática: a cultura do ouvir.
O som na práxis e reflexão jornalísticas
Para percebermos as perspectivas da cultura do ouvir no contexto da
área da Comunicação, bem como suas aplicações possíveis, é vital estudarmos
a questão do som. No desenvolvimento do ser humano, por exemplo,
o ouvir é o sentido que primeiro se manifesta. Para compreender a
importância do ouvir na perspectiva ontogenética, Christoph Wulf, do
Centro Interdisciplinar para Antropologia Histórica da Universidade Livre
de Berlim, explica que já aos quatro meses e meio o feto tem condições
de reagir a estímulos acústicos, uma vez que o ouvido se desenvolve antes
da vista. Segundo ele, o ouvir é condição prévia para que se desenvolvam
os sentimentos de segurança e pertencimento. “No ambiente sonoro,
muito antes das palavras com significados específicos, um bebê percebe o
timbre da voz, o seu tom, a sua articulação, fundamentais na relação com
os interlocutores”. (WULF, 2002)
A repetição de determinados sons do ambiente familiar, em formas de
ritos sempre renovados, com os mesmos rumores e os mesmos tons de
voz, favorece a ambientação do bebê em uma rede de sons. Na escuta de si
mesmo e na escuta do outro, “o ouvido desenvolve um papel fundamental
na constituição da subjetividade e da sociabilidade”. (WULF, 2002, p. 463)
As repetições linguísticas ritualizadas e articuladas em ritmos, bem como
as imitações dos sons conhecidos, estimulam a capacidade mimética.
Segundo Wulf (2002, p. 463), através de variações imitativas o bebê
começa a falar e a compreender; com a possibilidade de se “fazer ouvir,
adquire uma nova competência social graças a qual sua personalidade pode
se desenvolver”. (MENEZES, 2008, p. 162)
A questão do som é tão poderosa na espécie humana quanto na formação
de um indivíduo. Tanto que encontramos ecos fortes das experiências
sonoras provindos do plano do mito. O mais conhecido, talvez, seja o mito
bíblico da criação narrado no primeiro capítulo do Gênesis. A narrativa
convida o leitor a cultivar a memória de que Deus, no espaço de seis dias,
cria paulatinamente todo o universo, concluindo com o ser humano criado
à sua imagem e semelhança.
O mito associado ao som que aqui se destacará é relacionado a este
poderoso processo criativo narrado pelo mitólogo estadunidense Joseph
Campbell (2000, p. 122-123):
Uma das mais surpreendentes imagens de amor que eu
conheço é persa – uma representação mística persa de Satã
como o mais leal amante de Deus. Vocês devem ter ouvido
a velha lenda de como, quando Deus criou os anjos, ele
ordenou que não prestassem culto a mais ninguém exceto a
ele próprio; mas então, ao criar o homem, ele lhes ordenou
que se curvassem em reverência a essa que era a mais
nobre de suas obras, e Lúcifer recusou-se – como sabemos,
devido ao seu orgulho. No entanto, de acordo com essa
leitura muçulmana, sua atitude foi devida ao fato de amar
e adorar Deus tão profunda e intensamente que ele não
podia inclinar-se diante de mais nada. E é por isso que ele
foi lançado no Inferno, condenado a existir ali para sempre,
apartado de seu amor.
Ora, diz-se que de todas as dores do Inferno, a pior não é
o fogo nem o mau cheiro, mas a privação eterna da visão
beatífica de Deus. Quão infinitamente doloroso, pois, deve
ser o exílio desse grande amante, que não poderia levá-lo
nem mesmo sob o comando da própria palavra de Deus,
a inclinar-se perante qualquer outro ser!
Os poetas persas perguntaram: “Por qual poder Satã é sustentado?”
E a resposta que encontraram é esta: “Pela memória
do som da voz de Deus quando ele disse: “Afaste-
se”. Que imagem dessa intensa agonia espiritual que é,
simultaneamente, o êxtase e a angústia do amor!
Na dimensão mítica, portanto, o som da expressão “Vá para o inferno”
é tão poderoso que sustenta nas trevas a vida do inimigo do mais destacado
personagem da mitologia do Oriente Próximo.
Na passagem da mentalidade mítica para a histórica, há paulatinamente
um esvaziamento do poder na transmissão oral da narrativa em detrimento
da escritura, da mesma forma que houvera antes um esvaziamento do
conteúdo religioso na esfera dos mitos. Em A Letra e a Voz, o historiador
literário e medievalista suíço Paul Zumthor (1993, p. 155) estuda o
fenômeno:
Até por volta do século XII, a escritura é o único veículo
do saber mais elevado: o poder passa pela voz. A partir dos
séculos XII e XIII, a relação se inverte: ao escrito, o poder; à
voz, a transmissão viva do saber. Mas na virada dos séculos
XV e XVI, ou até XVI e XVII, nenhum desses dois feixes
de forças e de valores conseguiu eliminar inteiramente o
outro. Não se pode deixar de estar aí a poesia comum a todas
as redes de comunicação constitutivas de um estado da
cultura.
O valor do som, no entanto, parece diminuído desde então, no contexto
da sociedade da imagem. Na visão de Baitello Junior (2005, p. 99):
Se fizermos uma avaliação sobre o que vale mais hoje: a palavra
ou o documento? O que custa mais caro, a televisão
ou o rádio? O que tem maior valor, o que se fala ou o que
se publica? – em todas as esferas da atividade e da cultura
contemporâneas detecta-se um predomínio do visual sobre
o auditivo. Na vida e no trabalho acadêmico, tem mais peso
quem escreve um livro do que quem dá bons cursos.
Os sistemas de avaliação são todos fundados sobre a escrita,
que pertence ao reino da visualidade, a mesma escrita
que nasceu das formas mais arcaicas de conservação de
informação. [...]
A cultura e a sociedade contemporâneas tratam o som como
forma menos nobre, um tipo de primo pobre, no espectro
dos códigos da comunicação humana. Por isso a minha
pergunta se não estamos nos tornando surdos intencionais?
Surdos que ouvem. Surdos que têm a capacidade de ouvir,
mas que não querem ouvir, não tem tempo ou então não
dão atenção ao que ouvem? Literalmente não dão ouvidos
ao que de fato ouvem?
Baitello Junior defende que na contemporaneidade estamos assolados
pela cultura do ver, imersos numa era da iconofagia, em que o sentido
da visão está tão sobrecarregado de imagens que paradoxalmente não
mais conseguimos enxergar a realidade à nossa frente. Segundo ele, há
a demanda de se resgatar “uma nova cultura do ouvir. E de uma outra
temporalidade. E de um novo desenvolvimento da percepção humana
para as relações profundas, para os nexos profundos, para os sentidos e
para o sentir”. (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 109)
O trabalho do jornalista Nelson Araújo
Haveria, portanto, algum espaço mediático ou algum profissional contemporâneo
nos ambientes audiovisuais, ocupado não apenas com suas
instâncias mais superficiais, mas igualmente com esta contraparte jornalística
profunda, que engloba tanto o contexto teórico da cultura do ouvir
quanto o instrumental técnico das entrevistas de profundidade? Temos experiências
relevantes de entrevistas dialógicas, como estudadas e praticadas
laboratorialmente por Cremilda Medina (1990)?
Depois de dois anos de investigações (MARTINEZ, 2009; 2010) sobre
a temática, observamos o exemplo do jornalista Nelson Araújo, do programa
Globo Rural, enquanto uma produção de excelência que se insere
no escopo acima.
Araújo é paulista da cidade de Ribeirão Preto, tendo nascido em 20 de
novembro de 1951. É o primogênito de uma família de agricultores, tendo
tido desde cedo contato com o campo. Começou a trabalhar aos oito anos.
Sou fruto da primeira geração de bóias-frias criada em 1945
quando os fazendeiros dispensaram muitos trabalhadores
rurais devido às leis trabalhistas criadas pelo então presidente
Getúlio Vargas. Meu pai arranjou emprego de leiteiro e eu
acordava às duas da manhã para ajudá-lo a entregar leite em
Ribeirão Preto. (ARAÚJO, 2010)
Em 1967, com 16 anos, por conta de sua bela voz, de seu amor à música
e pela necessidade financeira, conseguiu seu primeiro emprego, como
locutor de noticiário em uma emissora de rádio local. Formou-se em
Letras e no início dos anos 1970 já trabalhava em um jornal de sua cidade
natal. Neste época, como ele diz, “foi atropelado por um fenômeno que se
instalou no jornal concorrente: a equipe formada por Zé Hamilton Ribeiro
e Sérgio de Souza, ex-jornalistas da revista Realidade, que buscavam no
interior do Estado espaços mais livres de atuação que não encontravam
na capital premida pela ditadura militar.” Ao redor de 1976, atuou como
assessor de imprensa na prefeitura municipal de Ribeirão Preto. Não
gostou. “Pude ver toda a sordidez do mundo político”. Arriscou-se na
vida de docente em curso de jornalismo em Bauru, ensinando semiótica
por meio de livros como Análise Estrutural da Narrativa do francês Roland
Barthes. “Mas achava aborrecido ter de repetir as aulas e dava um trabalhão
preparar material novo para cada uma delas”.
Em 1980, depois de ter atuado como repórter, redator e correspondente de
jornais como O Globo, foi convidado a trabalhar na Rede Globo de Televisão,
fazendo reportagens para vários telejornais. Encantou-se. “A câmera é um
instrumento poderoso, pois permite desenvolver várias linguagens: a gestual,
a musical, a visual, a gráfica, até a do silêncio”. A carreira universitária foi
deixada de lado, mas o telejornalismo cotidiano ainda não era o que queria.
“Não é de minha natureza ficar apontando defeitos”.
Em 1986 foi transferido para a TV Globo de São Paulo e, quatro anos
depois, para o programa Globo Rural. “Tive a felicidade de que aqui minha
carreira ganhou um trilho”. Humberto Pereira, editor-chefe do programa
desde que foi criado, em 1980, diz em depoimento concedido por correio
eletrônico, que Nelson Araújo é um artesão. “Como jornalista, nasceu
artesão e vai morrer artesão. Justamente no Globo Rural ele tem campo
para exercer essa virtude”.
Do ponto de vista da práxis jornalística, este trabalho artesanal é dividido
em três partes: a seleção cuidadosa da pauta, a coleta de informações e
a edição do material. Durante a seleção da pauta, amparado em muita
pesquisa, ele busca manifestar suas visão sobre um dado tema. “O
Globo Rural não é um programa de debates, mas posso dizer o que penso por
meio das minhas matérias”. Aprovada a ideia, parte para a colheita de
informações, quando vai a campo. Nesse momento, segundo suas palavras,
ele é o “repórter curioso, enxerido”. Quem está acostumado com suas
reportagens percebe que ele ouve com extrema atenção seu interlocutor,
estabelecendo um diálogo profundo com suas fontes. Uma vez bateu em
retirada, como se diz na linguagem do interior paulista, ao notar que um
fazendeiro estava humilhando um funcionário. Não ficou para conferir
o resultado. Justificou-se e simplesmente partiu com a equipe. Quando
volta à redação, torna-se o editor que procura dar corpo e consistência
ao material colhido. “Tem gente que trabalha com um modelo. Eu não
consigo fazer assim. A reportagem vai me dizendo o que ela é – não parto
de nada pré-concebido”.
A edição criteriosa do material é parte integrante de seu método de
construção da reportagem. Em uma pequena sala na redação, ele assiste
os CDs gravados com as entrevistas e transcreve cuidadosamente fala
por fala para o papel. Ao final, tem uma apostila com, dependendo do
material apurado, cerca de cem folhas digitadas, que manda encadernar
com espiral. A partir daí, para montar a matéria, Araújo não volta mais à
gravação original, recorrendo apenas à sua apostila.
Faz parte do modelo do programa uma apresentação prévia da reportagem
editada para toda a equipe, na quarta-feira que antecede o
domingo no qual será veiculada. Neste momento, críticas e sugestões são
incorporadas. Não há unanimidade, em particular no quesito que o torna
tão único no jornalismo brasileiro: o uso de poesia nas reportagens.
Como se sabe, a escolha da palavra exata faz toda a diferença na construção
poética. A também jornalista Maria Antonia Demasi (2010), hoje
na TV Gazeta, com quem Nelson está unido há mais de 20 anos, conta
que Araújo escreve suas reportagens em casa. Ao redigi-la, ele mune-se
de vários dicionários, procurando neles as palavras perfeitas. Caso sinta-se
bloqueado, recorre ao violão – que, segundo ela, toca muito bem. Embora
não se considere um poeta, ele explica que não se trata de usar o verso pelo
verso. Além da sensibilidade pessoal, também há técnica ali. “Descobri que
a sonoridade da redondilha maior, de sete sílabas, fica perfeita no vídeo”.
Redondilhas, é melhor explicar, são estrofes de quatro versos, onde o
primeiro rima com o último e o segundo com o terceiro.
Finalmente, Araújo defende que uma das funções do repórter é propiciar
ao telespectador um repertório para que ele entenda melhor o
tema e, para isso, quanto maior a bagagem do jornalista sobre o universo
abordado, mais fácil será explicá-lo para os interlocutores que assistem o
Globo Rural
A reportagem especial buriti
Do ponto de vista empírico, o corpus deste trabalho é Buriti, reportagem
especial que ocupou os quatro blocos do programa da edição comemorativa
de número 1500, exibida em 22 de março de 2009. No contexto da televisão,
trata-se de um espaço enorme, quase 1 hora, neste sentido sendo maior do
que muitos documentários contemporâneos.
O motivo da escolha é o pioneirismo da reportagem, que mescla prosa
e poesia. O autor já havia cometido a ousadia tempos antes, em 1991, em
outra reportagem televisiva, O Pequinizeiro, também narrada em versos.
Entendemos que a reportagem pode ser considerada uma experiência
do que acima estudamos como tempo profundo. Faz parte da proposta
do programa Globo Rural a contextualização caprichada. Logo de início, o
repórter cumpre sua função de relatar as origens históricas e geográficas
do tema.
O buriti é uma palmeira nativa das Américas Central e do Sul. No Brasil,
ele ocorre, basicamente, na região de cerrado. Tem larga distribuição
por dez estados do Brasil Central, Centro-oeste e parte do Sudeste.
Além da grande importância econômica e social, o buriti é vital para a
vereda, o caminho das águas no sertão. (ARAÚJO, 2009a)
Em seguida, Araújo usa da poesia para situar a localização das veredas
ao telespectador: “Prende a suspiração / Cena assim tão linda / Palmeira
que não se finda / Em 40 quilômetros de extensão. Esta é a vereda do gibão
/ Quase no ponto do mapa / Em que três Estados dão a mão. Minas, Goiás
e Bahia / Onde o cerrado enfeita o chão”. (ARAÚJO, 2009a)
Depois de sabermos que o local abordado encontra-se no norte de
Minas Gerais, onde o Estado está mais próximo da Bahia, Araújo insere a
entrevista do professor Altair Barbosa, da Universidade Católica de Goiás,
campus de Goiânia, que há 40 anos estuda o cerrado. Araújo mergulha no
tempo geológico para explicar a complexidade ambiental do fenômeno das
veredas:
A aula é sobre os depósitos subterrâneos de água chamados
de aqüíferos. Os principais são o Guarani, o Urucuia
e o Bambui. Eles se encontram no coração do cerrado, a
quina do telhado no Planalto Central. Da vertente sul, brotam
as águas da bacia Paraná; a leste, as que alimentam o
São Francisco; ao norte, os que alimentam parte da Bacia
Amazônica.
Formados há milhões e milhões de anos, os aqüíferos são
continuamente reabastecidos pelas chuvas. O solo poroso
do cerrado facilita a infiltração. Cheio, o aqüífero vaza pelas
nascentes, garantindo a água dos rios mesmo no longo
período seco. E a água iria embora rapidamente se não
fosse uns reguladores, umas válvulas com que a natureza
presenteou o cerrado: são as veredas. Essas áreas alagadiças
onde se destaca o palmeiral [...]
‘Os buritizais e as veredas são basicamente da mesma idade
do cerrado, ou o capítulo inicial da história do cerrado’,
explica Altair Barbosa, professor da Universidade Católica
de Goiás.
Segundo o professor Altair, essa espécie de buriti das veredas,
que leva o nome científico de “mauritia flexuosa”, pode
estar no grupo dos seres vivos mais antigos do planeta. Viria
lá da remota, longínqua da formação do cerrado.
‘O buriti, junto com as veredas, começaram a se formar por
volta de 65 milhões de anos’, diz o professor. (ARAÚJO,
2009a)
À semelhança do jornalista estadunidense John McPhee, tampouco
Araújo emprega jargões complicados. Antes, usa vocabulário próprio do
público que tão bem conhece: “Imagine se o país / feito uma casa de morar
/ tivesse telha assim em quina / modo da água escoar / pois isso que nos
fascina / daqui dessas alturas / tem função de cobertura / é um gigantesco
cantil. Esta é a cumeeira do Brasil”. (ARAÚJO, 2009a)
À descrição botânica acresce-se o charme da oralidade regional:
O buriti é de crescimento lento. Se alça do chão não por
um caule, mas, pelas folhas. Pode passar anos para soltar
o tufo de folhagem, primeiro; e levar décadas para expor
todo o tronco e frutificar. Alcança altura média de vinte
e cinco metros. Na coroa do poste, abre as palmas, um
leque gracioso que dá vida à brisa. Às rajadinhas suaves que
encanam na vereda um murmúrio como se fosse de praia.
O coquim do buriti / você já viu um mais / bonitim?
Redondo pro ovalado / tem escama de desenho quadriculado
/ polpa amarela e o caroço amendoado / a castanha que é um
banquete / pros bichos do cerrado.
Buriti é morada / ponto de passagem, de espreita / esconderijo,
restaurante de uma fauna numerosa / especialmente, os
que voam / os papagaios, as maritacas / a maracanã, a jandaia,
a cacué.
E, principalmente as araras / tanto a azul, como a vermelha,
e a Canindé.
Pros bichos que andam no chão / Vereda não é um ambiente
fácil de se entrar, não. (ARAUJO, 2009a)
No segundo bloco da reportagem, Araújo assume a “ousadia de tratar
em verso e prosa de um assunto que virou arte nas mãos de João Guimarães
Rosa” (1908-1967), referindo-se, como não poderia deixar de fazer, ao
escritor mineiro autor de
Grande Sertão Veredas.
Infelizmente nem tudo é poesia nesta reportagem. É com visível desolação
que Araújo ouve respeitosamente os causos da destruição das
198 _
Jornalismo e tempo profundo: o trabalho de Nelson Araújo no
Globo Rural
veredas,
alavancada na década de 1970 pela política governamental de
ocupação do território, que incentivava o plantio de eucaliptos na área.
E das incongruências na vida do pequeno proprietário local, que vive em
condição de miséria por não poder estabelecer bases autossustentáveis
com o buritizal – sequer tirar folhas verdes para cobrir o telhado, como
seus antepassados faziam. Neste sentido, o jornalista, pró-ativo, entrevista
Rômulo Melo, presidente do Instituto Chico Mendes, que confessa que
neste caso da cobertura “não é necessária uma autorização”. Não fica claro,
no entanto, se o pequeno proprietário teve acesso a esta informação que
melhoraria sua vida. O jornalista finaliza a reportagem especial:
Um grande diz que diz vamos ter com certeza para que as
regras do país levem em conta a natureza tanto da nossa
pobreza e riqueza como dos nossos buritis. Assim, quem
sabe, um dia possa o Grande Sertão: Veredas ter um final
feliz. (ARAÚJO, 2009d)
Fica a impressão de que o tempo histórico e social seja ainda insuficiente
para apresentar um relato de preservação ambiental e proteção social, como
uma vida mais digna para os moradores da área. Talvez, neste caso, apenas
o tempo mais extenso e geológico, o denominado tempo profundo, para
propiciar o amadurecimento dos elementos envolvidos, trazendo com ele
a consciência da importância de uma visão mais clara e ações concretas
tanto para o cenário narrado na reportagem como para o aperfeiçoamento
das reportagens na contemporaneidade.
Considerações finais
No contexto contemporâneo, como observamos no início deste trabalho,
marcado pela extrema velocidade na apuração e consequente risco
de superficialidade nas reportagens, a atuação de Nelson Araújo como
repórter “curioso e enxerido” ou como “jornalista que nasceu artesão e vai
morrer artesão” merece atenção especial.
Sua postura de escuta atenciosa dos protagonistas das reportagens
permite a construção de cenários sonoros e imagéticos que cultivam o
tempo lento e profundo, vão muito além de simples descrições repletas
de imagens captadas sob regime de urgência e prontas para consumo.
Seu trabalho possibilita, diante da televisão ou dos vídeos disponíveis
na internet, o envolvimento criativo dos interlocutores, muitas vezes
ainda limitadamente chamados de telespectadores, em cenários sonoros
e imagéticos que entrelaçam a postura profissional dos que produzem a
reportagem com os saberes ou sabedorias dos protagonistas entrevistados.
O jornalista, que cautelosamente assiste a todos os CDs gravados durante
a reportagem para dar corpo e consistência ao material colhido,
inspira-se, como observarmos, também em elementos da escritura literária
e redige primorosamente seus textos. Seu trabalho, como na reportagem
Buriti, indica que mesmo no atual contexto de velocidade na produção
de reportagens, há espaço na televisão brasileira para experiências que
possibilitam o acesso ao tempo profundo.
Notas
1 Mchee’s reputation is substantial, far from a secret. He is a favorite of other writers,
the sort of figure who is so good that he is beyond envying, and in recent years he
has sold enough books to compel his publisher to reissue all his books in a handsome
paperback series. His classic account of life in Alaska,
Coming into the Country,
and his
four books on geology are among his best-sellers. All the same, McPhee’s reputation
should be greater still. While much of the New Journalism of the sixties and seventies
has long felt mannered of hysterical in the rereading, McPhee’s work has the quality
of permanence.
2
The poles of the earth have wandered. The equator has apparently moved. The
continents, perched on their plates, are thought to have been carried so very far and to
be going in so many directions that it seems in act of almost pure hubris to assert that
some landmark of our world is fixed at 73 degrees 51 minutes and 53 seconds west
longitude and 40 degrees 51 minutes and 14 seconds north latitude – a temporary
description, at any rate, as if for a boat on the sea. Nevertheless, these coordinates
will, for what is generally described as the foreseeable future, bring you with absolute
precision to the west apron of the George Washington Bridge. Nine A.M. A weekday
morning. The traffic is some gross demonstration in particle physics. It bursts from its
confining source, aimed at Chicago, Cheyenne, Sacramento, through the high dark
roadcuts of the Palisades Sill. A young woman, on foot, is being pressed up against
the rockwall by the wind booms of the big semis – Con Weimar Bulk Transportation,
Fruehauf Long Ranger. Her face is Nordic, her eyes dark brown and Latin – the
bequests of grandparents from the extremes of Europe. She wears mountain boots,
bluejeans. She carries a single-jack sledgehammer. What the truckers seem to notice,
though, is her youth, her long bright Norwegian hair; and they flirt by air horn,
driving needles into her ears. Her name is Karen Kleinspehn. She is a geologist,
a graduate student nearing her Ph.D., and there is little doubt in her mind that she
and the road and the rock before her, and the big bridge and its awesome city – in
fact, nearly the whole of the continental United States and Canada and Mexico to
boot – are in stately manner moving in the direction of the trucks. She has not come
here, however, to ponder global tectonics, although goodness knows she could, the
sill being, in theory, a signature of the events that created the Atlantic.
3 A Nova História Francesa também é conhecida como Escola dos Annales
por estar ligada ao periódico académico Revue des Annales
. A “escola” incorporou métodos de outras áreas das Ciências Sociais como a abertura para os depoimentos orais em adição aos documentos escritos ou oficiais e questinou o foco nas elites e nos conflitos geopolíticos.
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Entradas e comentários feeds.
Parabéns texto bem escrito, profundo e detalhista, com uma postura ética.Revelou um universo que geralmente fica oculto nas entrelinhas das matérias cotidianas e apresentou um ponto de vista pessoal, sobre a realidade. Muito interessante..
Comment by Vandy Batista— 29/10/2011 #
Obrigada, Vandy!
Comentários como o seu são sempre grandes incentivos para novas pesquisas!
Com um abraço,
Monica Martinez
Comment by Escrita Criativa— 29/10/2011 #