Novo curso de escrita criativa

17/08/2014 às 10:04 | Publicado em Criatividade, Jornalismo Literário | Deixe um comentário
14a. Turma do curso de Redação Criativa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo

Dia 23 de agosto de 2014, sábado, das 9h às 18h

Quem pode participar: jornalistas, estudantes de Jornalismo e demais interessados

Dia: 23 de agosto, sábado, das 9h00 às 18h00 (com intervalo de 1 hora para almoço)

Vagas: 25

Local do curso: Ação Educativa, Rua General Jardim, 660 – Vila Buarque (a 15 minutos do metrô Santa Cecília)

Os interessados deverão encaminhar e-mail para cursos@sjsp.org.br

solicitando a pré-inscrição. No e-mail deverá constar nome completo, data de nascimento, formação (curso, faculdade e ano que se formou), MTb e telefones para contato

Os estudantes deverão informar o curso, instituição e período/semestre que estão cursando

A pré-inscrição garante a vaga até 18/08/2014, último dia para pagamento.

Mais informações: http://www.sjsp.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4981:redacao-criativa&catid=42:santos

Getúlio: do nascimento à ascenção ao poder

27/10/2013 às 21:08 | Publicado em Biografias, Jornalismo Literário, Livros, perfis e biografias | Deixe um comentário

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Gostei de ler Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930), do jornalista cearense Lira Neto. O livro é o primeiro de uma trilogia que promete biografar, de forma jornalística e objetiva, a vida de Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954).

Pontos Fortes:

1.  Bem escrito:  O primeiro capítulo serve como exemplo (e dos bons) de Jornalismo Literário.

2. Boa pesquisa: Ao longo de dois anos e meio, o jornalista vasculhou de cartas pessoais a marchinhas sobre Getúlio, fazendo também muitas entrevistas sobre ele.

3. Familiaridade com o tema: Lira Neto cobriu política por anos, tendo domínio sobre a temática.

Pontos Fracos:

1. Leitura arrastada: a mão do escritor está bem mais leve que em padre Cícero, que lançou em 2009. Ainda assim, às vezes o texto se prende em muitos detalhes, que podem não interessar a todos os leitores.

2. Vida pública em detrimento da pessoal: embora o subtítulo seja anos em formação, e à semelhança da biografia sobre o padre Cícero, o fato é que a obra pende mais para o homem público do que para o privado.

Noves fora, mesmo quem não é fã de biografias de políticos provavelmente gostará da obra.

A Companhia das Letras disponibiliza um trecho da obra em http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12979.pdf

Monica Martinez

Avaliação

**** Leitura  Recomendável

Título: Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882 – 1930)
Autor: Lira Neto
Formato: 16 x 23
Páginas:  664
Editora: Companhia das Letras

Quando sobreviver é preciso

16/09/2013 às 21:54 | Publicado em Jornalismo Literário, Literatura, Livros, Memórias, Resenhas | Deixe um comentário

Gostei de ler “O que os cegos estão sonhando”, de Noemi Jaffe. O livro é dividido em duas partes. A primeira traz o diário de Lili Jaffe, na época Stern, no período de 1944 a 1945. Esta parte registra o período passado como prisioneira dos nazistas em Auschwitz. Hoje com 86 anos, Lili narra de forma comoventemente singela o cotidiano do terrível campo de extermínio, onde trabalhou na cozinha dos prisioneiros, bem como quando foi salva pela Cruz Vermelha e levada à Suécia — onde redigiu o diário que hoje se encontra no Museu do Holocausto em Jerusalém.

Chama a atenção a solidariedade praticada mesmo sob extrema vigilância, como quando levou quinino para um conhecido doente ou quando assumiu a culpa pelo roubo de um pouco de margarina em nome das três primas que com ela estavam. Acima de tudo, impressiona a aceitação dos fatos: “Não tínhamos medo do alarme, porque da morte não tínhamos medo, apenas do sofrimento” (p. 32). Como um rochedo, Lili parece aguentar as tormentas de um modo quase zen, como se não houvesse o que fazer senão agir com humanidade num ambiente desumano, enquanto esperava o turbilhão passar. E ele felizmente passou.

A segunda parte traz as reflexões da filha, a professora de literatura e crítica literária da Folha de S. Paulo Noemi Jaffe, sobre o diário da mãe, bem como as impressões dela e da filha, Leda, sobre a visita que fizeram em 2009 a Auschwitz. Mesmo depois de passar a vida ouvindo o relato materno (ela é nascida em 1962), Noemi ainda se impressiona com a força moral da mãe. Deve ser difícil se comparar, dia após dia, com um rochedo.

Monica Martinez

Avaliação

**** Leitura  Recomendável

Título: O que os Cegos estão Sonhando
Autor: Noemi Jaffe
Formato: 14 x 21
Páginas:  240
Editora: 34

Release do livro Professor de Ilusões, de Monica Martinez

16/12/2012 às 16:07 | Publicado em Autores, Literatura, Monica Martinez | 8 Comentários

Editora Prumo lança livro Professor de Ilusões, de Monica Martinez

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Romance marca a estreia da jornalista e professora universitária Monica Martinez na literatura de ficção. Obra é ambientada no mundo acadêmico e traz reflexões profundas de um professor que sente um forte impulso de se reinventar

Professora universitária e pesquisadora na área de Comunicação Social, com diversos livros acadêmicos publicados, entre eles, Tive uma ideia o que é criatividade e como desenvolvê-la, de 2010, Monica Martinez lança seu primeiro romance, Professor de ilusões, pela Editora Prumo. E é justamente em um ambiente familiar à autora, a academia, que a história se desenrola. Em sua primeira obra ficcional, Monica Martinez dá vida ao personagem Sidney, um professor universitário que, aos 44 anos, passa a refletir profundamente sobre a própria existência, e sobre sua profissão. O leitor é conduzido ao universo do denso protagonista e suas circunstâncias a partir do momento em que ele decide se reinventar.

O ensino superior em Comunicação Social é o mote da história contada pela autora, que aborda percepções observadas dentro da universidade e a transição do jornalismo para o mundo acadêmico. “Com a mudança ocorrida no cenário da área jornalística nas últimas décadas, o professor Sidney reflete um grupo significativo de profissionais criativos que encontrou na academia uma possibilidade muito interessante de dar continuidade à carreira escolhida na área de Comunicação”, afirma Monica Martinez. “Além disso, enquanto as redações enxugaram, a oferta de empregos no ensino superior se ampliou nos últimos anos, incluindo a visibilidade internacional devido ao processo de globalização acadêmico”, completa.

Como em uma autoanálise, o personagem Sidney, envolto em problemas pessoais – sofre ainda com o divórcio e com a traição da ex-mulher – e em questões da vida prática, emaranha-se em uma rede de pensamentos sobre sua insatisfação com a atual profissão: “O fato é que continuava tendo a sua frente, a cada semestre, um pelotão de alunos egressos de um sistema de educação falho, que não haviam conseguido vaga nas instituições públicas ou particulares de excelência. Falava de técnicas sofisticadas de jornalismo, para o qual havia sido treinado no doutorado, para uma plateia que não lia livros, tinha poucas referências culturais e escrevia pior que seu filho de treze anos, quando escrevia alguma coisa.”

Mas ele constata que, como diamante no cascalho, às vezes aparecia um aluno talentoso, ao qual ele perscrutava com a curiosidade que um geneticista dedicaria a uma mutação genética. “Contra todas as probabilidades — a educação falha, famílias desestruturadas, situação econômica precária, doenças físicas ou psicológicas, falta de disciplina e muitas vezes de metas –, emergia um ou outro que se destacava naquele mar de jovens. Era um mistério para ele como tinham conseguido, e um mistério ainda maior saber o que a vida reservava a estas pequenas joias que tinham escapado do sistema”, divaga o personagem.

Sidney sabia que precisava se reinventar, sentia necessidade de mudança.Tinha sido muitas coisas na vida, as mais recentes jornalista e professor, mas, insistentemente, se perguntava o que seria depois e além disso. “Sabia que não havia outra resposta que não a de escritor. Coçou a cabeça. Está certo: adorava escrever. Não via problema em ficar horas sozinho (…)”. Entre outras observações a respeito do ofício de escritor, o próprio personagem sugere a disciplina como algo fundamental para fazer a passagem do jornalismo para a literatura. “Contudo, a meu ver, os jornalistas que transitam pelas duas áreas podem contribuir com uma narrativa realista, uma vez que são treinados a observar a realidade e interpretá-la para relatá-la bem”, comenta a autora.

Monica Martinez afirma que escrever um romance foi uma experiência totalmente nova, diferente de tudo o que já tinha feito. Ela conta que sempre ficava intrigada ao ouvir grandes nomes da literatura nacional e internacional, como o colombiano Gabriel García Márquez, falar que a partir de um determinado ponto os personagens de um livro ganham vida própria. O mesmo acontece com o personagem de Professor de Ilusões: toda vez que ela planejava uma sequência, lá vinha ele conduzir seus dedos e levar a história para outro lado. Como diz o escritor português José Saramago (1922 – 2010), citado na obra, o autor precisa ter uma sensibilidade enorme para ajudar o livro a ser o que ele quer ser.

Segundo a autora, o personagem central é composto a partir de características de vários indivíduos, que foram amalgamadas ao longo do tempo por sua imaginação. Sidney é um homem contemporâneo, em trânsito, ela afirma. “Eu imagino Professor de Ilusões como uma trilogia, mas a característica inquieta de Sidney, de querer sempre mais, estará sempre com ele.”

A  orelha do livro é assinada pelo repórter José Hamilton Ribeiro. O então correspondente da revista Realidade foi o único brasileiro a cobrir a Guerra do Vietnã. O jornalista atualmente faz parte da equipe do programa Globo Rural.

Sobre a autora

Monica Martinez é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e pós-doutorada em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente desenvolve estágio de pesquisa pós-doutoral junto à Universidade do Texas, em Austin. É docente do Programa de Mestrado em Comunicação e Cultura da Uniso, da pós-graduação em nível de lato sensu da FMU e da Associação Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL), dá aulas de jornalismo no FIAM-FAAM Centro Universitário e de redação criativa e jornalismo literário no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. É co-criadora do Núcleo Granja Viana-SP da Joseph Campbell Foundation. Como escritora, publicou Tive uma ideia – o que é criatividade e como desenvolvê-la (Paulinas, 2010), Jornada do Herói – estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo (Annablume/Fapesp, 2008), Martin Luther King (Salesiana, 2007), Gandhi (Salesiana, 2006), entre outros livros. Como jornalista, foi editora em publicações de circulação nacional, entre elas a revista Saúde.

Sobre a Prumo

Fundada por Paulo Rocco, responsável pela editora Rocco, a Prumo tem sede em São Paulo com equipe própria e independente. A linha editorial é bem diversificada, inclui títulos nas áreas de ficção, não ficção e infantojuvenil. O objetivo é oferecer ao leitor um catálogo amplo, com o melhor da literatura nacional e estrangeira, além de títulos de referência e livros atraentes para o público jovem e infantil.

Ficha técnica

Professor de Ilusões

Editora Prumo

Selo: leia

Autora: Monica Martinez

Formato: 14 X 21 cm

No de páginas: 248

ISBN: 978-85-7927-244-8

Acabamento: brochura

Preço: R$ 29,90

 Informações à Imprensa

A4 Comunicação

www.a4com.com.br

Tel: 55 11 3897-4122

Neila Carvalho – neilacarvalho@a4com.com.br

Alexandre Michelacci – alexandremichelacci@a4com.com.br

Tatiana Dias – tatianadias@a4com.com.br

Julia Saleme – juliasaleme@a4com.com.br

 

Lançamento de Professor de Ilusões, de Monica Martinez

20/11/2012 às 8:35 | Publicado em Autores, Literatura, Monica Martinez | 2 Comentários
Caros,
 
Tenho o prazer de convidá-los para o lançamento de meu novo livro de ficção, Professor de Ilusões (Prumo). Será amanhã, 21/11, quarta-feira,  das 17h30 às 22h, na Fnac Paulista (Av. Paulista, 901 – próximo à estação Brigadeiro do metrô). 
 
Agradeço desde já pela presença e divulgação.
 
Breve apresentação do livro:
 
Com um abraço,
Monica
– – – – –
Profa. Dra. Monica Martinez
Programa de Mestrado em Comunicação e Cultura
Universidade de Sorocaba – UNISO
www.twitter.com/escritacriativa
www.twitter.com/monicamartinez1
www.facebook.com/monicamartinezbr

Uma história real por Phillip Roth

12/10/2012 às 11:12 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

O subtítulo Uma História Real” me chamou a atenção. Escrito por Phillip Roth, um dos grandes escritores estadunidenses da contemporaneidade, parecia ser uma boa opção de leitura. Comprei Patrimônio e o trouxe para casa, onde ficou na cabeceira de minha cama até surgir a oportunidade de leitura.a História Real” me chamou a atenção.

Em poucas palavras, a obra trata do período em que o escritor acompanha o pai, Herman, então com 86 anos, em sua luta contra um tumor cerebral.

Como se sabe, a prosa de Roth é impecável. Nascido em 1933 em Newark, Estados Unidos, ele é filho de imigrantes judeu e se tornou conhecido por pertencer à escola do romance judaico-americano na qual se inserem escritores como Saul Bellow – Nobel de Literatura de 1976.

Quem conhece o trabalho do cineasta estadunidense Wood Allen sabe a profundidade das reflexões feitas sobre a questão da identidade dos judeus dos Estados Unidos. Diferente da visão carinhosa com que Allen descreve as idiossincrasias que vê desenrolar à sua frente, Roth é conhecido pela abordagem mais ácida. Enfatizada, aliás, pela racionalidade característica dos povos anglo-saxões.

Esta visão crítica é bastante prestigiada, tanto que em junho deste ano Roth foi agraciado com o prêmio Príncipe Astúrias da Literatura pelo conjunto de seu trabalho, que temem O Complexo de Portnoy (1969), um de seus marcos. Naquela época, descrever uma cena de masturbação e caprichar nos monólogos era romper um paradigma literário.

Isto posto, não espere verter lágrimas ao ler o livro. Elas não cairão. De forma impecável, Roth vai dissecando o comportamento do seu genitor, faz questão de registrar toda e qualquer ação em que ele próprio é o protagonista, em particular aquela em que os intestinos do pai se soltam e ele tem de limpar o banheiro de cima a baixo. Aliás, o tal do legado ao qual o título se refere é este: “Ali estava o meu patrimônio: não era o dinheiro, não os telefins, não a tigela de barbear, mas a merda” (p. 141).

Há, portanto, gente que achará a leitura demasiadamente incômoda, até porque Roth não incentiva o pai a fazer a cirurgia para extração do tumor recomendada pelo médico, que poderia não salvá-lo, mas ao menos melhorar sua qualidade de vida. Ou piorá-la de vez, é verdade, afinal os especialistas não estavam seguros do que aconteceria. A medicina não é uma ciência exata.

Eu tenho duas estantes nas quais coloco livros. A primeira são os que usarei em aulas e pesquisas científicas. Na segunda acomodo os livros que não gostei muito, mas que sei que são importantes. Patrimônio decididamente ficará nesta segunda. Bem escrito demais para ser dado embora, mas inquietante o suficiente para permanecer lá, de tocaia, a me lembrar de como pode ser boa uma anti-história de sucesso. Como o tumor de Herman Roth, que a família decidiu não remover.

Decididamente, para me confortar, agora vou ler Noites Azuis, da escritora estadunidense Joan Didion. A batalha com a morte é a mesma – só que no caso dela foi do marido e, posteriormente, da filha. Só que o envolvimento da história – dela e nosso – é outro, bem outro.

Monica Martinez

Avaliação

* Você decide.

Título: Patrimônio
Autor: Phillip Roth
Tradução: Jorio Dauster
Formato: 14 x 21 cm

Páginas: 192

Editora: Companhia das Letras

Saiba mais sobre o autor

Em 1997, Philip Roth ganhou o prêmio Pulitzer por Pastoral americana. Em 1998, recebeu a National Medal of Arts na Casa Branca e, em 2002, conquistou a mais alta distinção da American Academy of Arts and Letters, a Gold Medal in Fiction. Recebeu duas vezes o National Book Award e o National Book Critics Circle Award, e três vezes o prêmio PEN/Faulkner. Complô contra a América foi premiado pela Society of American Historians em 2005. Roth recebeu dois prestigiosos prêmios da PEN: O PEN/Nabokov (2006) e o PEN/Saul Bellow (2007). E, em 2011, ganhou o Man Booker International Prize. É o único escritor americano vivo a ter sua obra publicada em edição completa pela Library of America.

Trecho da obra (disponibilizado no site da editora)

1. Muito bem, o que voce acha?

Meu pai havia perdido a maior parte da visão no olho direito

ao chegar aos oitenta e seis anos, mas, fora isso, parecia gozar

de uma saúde excepcional para um homem de sua idade,

quando um medico da Florida diagnosticou, erroneamente, que

ele sofria da paralisia de Bell, uma infecção virótica que causa

um torpor, em geral temporário, num dos lados da face.

A paralisia se manifestou, de forma súbita, um dia após ele

ter voado de Nova Jersey para West Palm Beach a fim de passar

os meses de inverno num apartamento cujo aluguel ele dividia

com uma contadora aposentada de setenta anos, Lillian Beloff,

que morava no andar acima do dele em Elizabeth e com quem

se envolvera romanticamente um ano depois da morte de minha

mãe, em 1981. No aeroporto de West Palm, ele havia se sentido

tão bem que nem se preocupou em pedir a ajuda de um carregador

(ao qual, alem do mais, seria obrigado a dar uma gorjeta),

levando ele mesmo as malas da área de entrega de bagagens até

a fila de taxi. E então, na manha seguinte, viu no espelho do banheiro

que metade de seu rosto já não lhe pertencia. O que na

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véspera se assemelhava a ele exibia agora as feições de um estranho

— a pálpebra inferior do olho ruim cedera, revelando a parte

interna; a bochecha daquele lado ficara frouxa, sem vida, como

se o osso que a sustentava houvesse sido removido, enquanto

os lábios não eram mais retos, passando a formar uma linha diagonal

no meio do rosto.

Com a mão, ele empurrou a bochecha direita, pondo-a de

volta onde estivera na noite anterior e mantendo-a ali enquanto

contava ate dez. Fez isso várias vezes naquela manhã — e nos

dias que se seguiram —, porém, ao largar a bochecha, ela voltava

a desabar. Tentou se convencer de que deitara do lado errado

na cama, de que a pele havia simplesmente amassado durante o

sono, mas achava mesmo e que tinha tido um derrame. Seu pai

ficara inutilizado após sofrer um acidente vascular no início da

década de 1940 e, quando ele próprio envelheceu, me disse muitas

vezes: “Não quero ir como ele foi. Não quero ficar jogado numa

cama daquele jeito. Esse e o meu maior medo. Contou-me

que costumava ver o pai no hospital bem cedo pela manhã, a caminho

do escritório no centro da cidade, e ao voltar para casa a

tarde. Duas vezes ao dia, acendia cigarros e os colocava na boca

do pai e na segunda visita sentava-se ao lado da cama e lia para

ele as notícias do jornal em iidiche. Imobilizado e impotente, contando

apenas com os cigarros para confortá-lo, Sender Roth durou

ainda quase um ano, e, até que um segundo derrame o liquidasse

numa noite em 1942, meu pai, duas vezes ao dia, sentava-se

ao lado dele e o observava morrer.

O médico que disse a meu pai que ele sofria da paralisia de

Bell assegurou que em pouco tempo a maior parte do torpor facial,

senão todo ele, iria desaparecer. E, nos dias seguintes, esse

prognóstico foi confirmado por três vizinhos no vasto condomínio

onde ele alugara o apartamento, os quais haviam tido o mesmo

problema e se recuperado. Um deles precisou esperar quase

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quatro meses, porém certo dia a paralisia tinha sumido tão misteriosamente

como surgira.

A dele não desapareceu.

Logo ele perdeu a audição no ouvido direito. O medico da

Florida examinou o ouvido e mediu a perda auditiva, dizendo-

-lhe que aquilo nada tinha a ver com a paralisia de Bell. Era apenas

algo que acontecia com a idade — ele provavelmente vinha

perdendo a audição no ouvido direito de forma tão gradual quanto

perdera a visão no olho direito, embora só então houvesse reparado

naquilo. Na consulta, quando papai perguntou quanto

tempo ainda teria de esperar ate a paralisia de Bell desaparecer,

o medico disse que, em casos como o dele, em que ela se prolongava

tanto, às vezes nunca desaparecia. De acordo com o médico,

ele devia se dar por muito satisfeito: a não ser por um olho cego,

um ouvido surdo e uma metade de rosto paralisado, ele era tão

saudável quanto um homem vinte anos mais moco.

Quando eu lhe telefonava aos domingos, ficava claro que,

devido a queda da boca, ele pronunciava mal as palavras, tornando-

se difícil entender o que dizia: as vezes soava como alguém

que acabara de sair da cadeira do dentista ainda sob os

efeitos da novocaína. Quando tomei um avião para visitá-lo na

Florida, fiquei surpreso ao ver que ele talvez não fosse capaz de

falar mais nada.

“Muito bem”, ele disse no vestíbulo do meu hotel, onde eu

me encontrara com ele e Lil para jantarmos, “o que você acha?”

Essas foram suas primeiras palavras, enquanto eu ainda me abaixava

para beijá-lo. Ele estava afundado ao lado de Lil num sofá

de dois lugares com forro alcatifado, mas me encarava para que

eu pudesse ver o que tinha acontecido. No último ano, passara a

usar de vez em quando uma venda preta para evitar que a luz e

o vento irritassem seu olho cego, e essa venda, somada à bochecha

e a boca caídas, bem como ao fato de haver emagrecido um

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bocado, o havia transformado horrivelmente: em cinco semanas,

desde que o vira pela ultima vez em Elizabeth, ele se tornara

um velho alquebrado. Difícil acreditar que somente uns seis

anos antes, no inverno seguinte a morte de mamãe, quando dividia

o apartamento de Bal Harbour com seu velho amigo Bill

Weber, ele não encontrara dificuldade em convencer as viúvas

ricas do prédio (as quais tinham se interessado imediatamente

pelo gregário senhor recém-enviuvado que usava um paletó novo

riscado de azul e branco e calcas pastel) que acabara de fazer

setenta anos, embora toda a família houvesse se reunido no verão

anterior em minha casa de Connecticut para comemorar seus

oitenta anos.

Durante o jantar no hotel, comecei a entender como a paralisia

de Bell impunha limites que iam alem dos efeitos sobre

suas feições. Ele agora so conseguia beber usando um canudinho,

pois de outra forma o líquido escorria pela metade paralisada

de sua boca. E comer exigia um esforco grande a cada mordida,

acompanhada de muita frustração e vergonha. Após manchar a

gravata com sopa, ele aceitou com relutância que Lil lhe amarrasse

um guardanapo em volta do pescoço, já tendo outro no

colo para proteger as calcas tanto quanto possível. Às vezes Lil

usava seu próprio guardanapo para remover, contra a vontade

dele, um pedaço de comida que caíra da boca e ficara grudado

no queixo sem que papai notasse. Frequentemente, ela o lembrava

de por menos comida no garfo e tentar mastigar um volume

menor do que estava acostumado. “Esta bem”, ele murmurava,

olhando desconsolado para o prato, “esta bem, já entendi”,

e depois de duas ou três garfadas se esquecia disso. Comer se

transformara numa provação deprimente, por isso ele tinha perdido

tanto peso e parecia pateticamente subnutrido.

O que tornava tudo ainda mais difícil e que a catarata em

ambos os olhos havia avançado nos últimos meses, fazendo com

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que ate mesmo a visão no olho bom ficasse embaçada. Durante

vários anos, meu oftalmologista em Nova York, David Krohn,

vinha monitorando a evolução das cataratas de papai e sua perda

gradual de visão; quando, em marco, ele voltou de sua estada

infeliz na Florida, foi a Nova York pedir a David que removesse

a catarata do olho bom. Incapaz de fazer qualquer coisa acerca

da paralisia de Bell, estava especialmente ansioso para que alguma

providência fosse tomada a fim de lhe devolver a visão. No

entanto, ao final da tarde seguinte a consulta, David me telefonou

para dizer que relutava em operar o olho do meu pai antes

que exames complementares determinassem a causa da paralisia

facial e da perda de audição. Ele não estava convencido de que

se tratava da paralisia de Bell.

E tinha razão de não estar. Harold Wasserman, o médico

de meu pai em Nova Jersey, providenciou ali mesmo a ressonância

magnética solicitada por David e, ao receber os resultados do

laboratório, me chamou no começo da tarde para transmitir o

diagnóstico. Papai tinha um tumor cerebral, segundo ele “um

tumor bem grande”; conquanto as imagens da ressonância não

permitissem a distinção entre um tumor benigno ou maligno, Harold

disse que “de toda forma, esses tumores são fatais”. O próximo

passo consistia em consultar um neurocirurgião para precisar

de que tipo de tumor se tratava e o que caberia fazer, se e que

havia algo a ser feito. “Não estou otimista”, disse Harold, “e acho

que você também não deve ficar.”

Consegui levar papai ao neurocirurgião sem lhe contar o

que a ressonância magnética já revelara. Menti, dizendo que os

exames não haviam mostrado nada, mas que David, por excesso

de zelo, queria obter uma ultima opinião sobre a paralisia facial

antes de remover a catarata. Nesse meio-tempo, mandei que as

imagens do exame de ressonância fossem entregues no hotel Essex

House, em Nova York. Claire Bloom e eu estávamos morando lá

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provisoriamente, enquanto procurávamos um apartamento —

planejávamos encontrar um lugar em Manhattan depois de passarmos

dez anos dividindo nossa vida entre a casa dela em Londres

e a minha em Connecticut.

Na verdade, mais ou menos uma semana antes que as imagens

do cérebro de papai e o relatório do radiologista houvessem

chegado ao hotel num enorme envelope, Claire tinha voltado a

Londres para ver a filha e acompanhar as reformas em sua casa,

além de se encontrar com o contador que a auxiliava numa arrastada

negociação com as autoridades fiscais inglesas. Como ela

vinha sentindo uma falta imensa de Londres, a visita de um mês

tinha por objetivo permitir não apenas que ela cuidasse dessas

questões praticas, mas também que matasse as saudades da cidade.

Suponho que se o tumor houvesse sido descoberto mais cedo,

quando Claire se encontrava comigo, a preocupação com papai

não teria sido tão extraordinariamente intensa, e — pelo menos

à noite — eu não teria ficado tão deprimido com a doença dele

quanto fiquei por estar sozinho. No entanto, mesmo naquela

época me pareceu que a ausência de Claire — bem como o fato

de que eu, por estar num hotel e me sentir desenraizado, não conseguia

escrever — era uma circunstancia auspiciosa: sem nenhuma

outra responsabilidade, eu podia me dedicar a ele por inteiro.

Estar sozinho também me possibilitava expressar toda a emoção

que eu sentia sem necessidade de assumir uma postura máscula,

madura ou filosófica. A sós, eu chorava quando me dava

vontade de chorar, e nunca essa vontade foi tão grande como

quando tirei do envelope a série de imagens do cérebro dele —

não porque eu fosse capaz de identificar com facilidade o tumor

que lhe invadia o cérebro, mas simplesmente porque se tratava

do cérebro dele, do cérebro do meu pai, daquilo que o fazia pensar

da forma curta e grossa com que pensava, falar da forma enfática

com que falava, raciocinar da forma emotiva com que ra-

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ciocinava, decidir da forma impulsiva com que decidia. Aquele

era o tecido que produzira seu conjunto de infindáveis preocupações

e por mais de oito décadas sustentara sua teimosa autodisciplina,

a fonte de tudo que me havia frustrado tanto como

filho adolescente, a coisa que comandara nossos destinos nos tempos

em que ele era todo-poderoso e ditava os propósitos da familia

— tudo isso agora estava sendo comprimido, deslocado e

destruido devido a “uma grande massa localizada predominantemente

na região dos ângulos cerebelopontinos e das cisternas

prepontinas. Ha uma extensão da massa na direção do sino cavernoso

direito cingindo a carótida…” Eu não sabia onde encontrar

os ângulos cerebelopontinos ou as cisternas prepontinas, mas

tomar conhecimento, no laudo do radiologista, de que a artéria

carótida estava circundada pelo tumor foi como ler sua sentença

de morte. “Ha também uma destruição aparente do ápice

petroso direito. Verifica-se um deslocamento substancial posterior

e a compressão da ponte e do pedúnculo cerebelar direito

por essa massa…”

Como eu estava sozinho e nada me inibia, não fiz o menor

esforço para me defender de coisa alguma enquanto as imagens

de seu cérebro, fotografado de todos os ângulos, se espalhavam

pela cama do hotel. Talvez o impacto não tivesse sido tao forte

quanto se eu estivesse segurando aquele cérebro em minhas

mãos, porem foi bem parecido. A vontade de Deus um dia irrompera

numa sarça ardente e, de modo não menos milagroso,

a vontade de Herman Roth fora gerada ao longo de todos aqueles

anos pelo órgão bulboso que eu tinha diante de mim. Eu havia

visto o cérebro de meu pai, tudo e nada fora revelado. Um

mistério muito, muito próximo do divino: o cérebro, mesmo que

de um mero corretor de seguros aposentado que havia completado

apenas o curso primário na escola da Décima Terceira Avenida

em Newark.

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* * *

Meu sobrinho Seth levou papai ate Millburn para ver o

neurocirurgião, o dr. Meyerson, no consultório que mantinha

no subúrbio. Eu arranjara para que ele fosse atendido lá, e não no

Hospital Universitário de Nova Jersey, imaginando que a mera

localização do consultório do médico no hospital, que me disseram

ficava na ala ontológica, o alertaria para o fato de estar com

câncer, quando tal diagnostico não havia sido feito e ele ainda

nem sabia que tinha um tumor. Dessa forma, não ficaria apavorado,

ao menos por algum tempo.

Quando, depois, conversei com o dr. Meyerson pelo telefone,

ele me disse que um tumor como o de papai, localizado na

frente do tronco cerebral, era benigno em cerca de noventa e

cinco por cento dos casos. Segundo Meyerson, possivelmente o

tumor vinha crescendo ao longo dos últimos dez anos, mas o surgimento

recente da paralisia facial e a surdez no ouvido direito

sugeriam que “num prazo relativamente curto”, como ele disse,

“a coisa vai piorar”. Contudo, ainda era possível remove-lo cirurgicamente.

Explicou que setenta e cinco por cento dos pacientes

operados sobreviviam e acusavam melhora, dez por cento morriam

na mesa de cirurgia e outros quinze por cento morriam pouco

após a intervenção ou ficavam em situação pior.

“Se ele sobreviver”, perguntei, “como sera a convalescença?”

“Difícil. Vai ficar numa clinica para convalescentes durante

um mês — talvez dois ou três meses.”

“Quer dizer, um inferno.”

“É duro”, ele disse, “mas se nada for feito pode ser pior.”

Como eu não queria lhe transmitir as notícias de Meyerson

por telefone, na manhã seguinte, quando liguei para papai por

volta das nove da manhã, disse que iria visitá-lo em Elizabeth.

“Então é ruim mesmo”, ele disse.

15

“Vou até aí e conversamos sobre isso.”

“Eu estou com câncer?”, ele me perguntou.

“Não, não está.”

“Então é o que?”

“Tenha paciência por mais uma hora e, quando eu chegar

aí, explico qual e exatamente a situação.”

“Quero saber agora.”

“E só mais uma hora, menos de uma hora”, insisti, convencido

de que era melhor para ele esperar, por mais assustado que

estivesse, do que eu contar sem rodeios pelo telefone e deixá-lo

sozinho, em estado de choque, até minha chegada.

Dada à tarefa que me cabia cumprir, não e de estranhar que,

ao sair da autoestrada em Elizabeth, eu tenha perdido a entrada

que me levaria a North Avenue e diretamente ao prédio de apartamentos

de meu pai a alguns quarteirões de distancia. Em vez

disso, fui parar numa estrada de Nova Jersey que, uns três quilômetros

adiante, ladeava o cemitério onde minha mãe fora enterrada

sete anos antes. Não imaginei que houvesse nada de místico

no fato de eu ter ido parar lá, mas, de qualquer modo, era incrível

ver ate onde me levara uma viagem de carro de vinte minutos

iniciada em Manhattan.

Eu só tinha ido a esse cemitério duas vezes: a primeira, no

dia do funeral de mamãe, em 1981, e a segunda quando levei

papai para visitar o túmulo dela um ano depois. Em ambas as

ocasiões, por ter saído de Elizabeth e não de Manhattan, eu

nem sabia que era possível chegar ao cemitério pela autoestrada.

Se eu estivesse querendo ir de carro ao cemitério naquele dia,

Muito provavelmente teria me perdido no emaranhado de saídas

para o aeroporto de Newark, o porto de Newark, o porto de Elizabeth

e para o retorno ao centro de Newark. Apesar de eu não

estar consciente nem inconscientemente procurando o cemitério

na manhã em que teria de falar com papai sobre o tumor cere-

16

bral que o mataria, eu havia percorrido o trajeto mais curto entre

meu hotel em Manhattan e a sepultura de minha mãe, ao lado

da qual ele seria enterrado.

Não queria deixá-lo aguardando por mais tempo do que seria

absolutamente necessário, porem, ao chegar lá, fui incapaz

de seguir em frente como se nada fora do comum houvesse acontecido.

Não esperava aprender nada de novo ao descer do carro

e me postar diante da sepultura de mamãe naquela manhã; não

esperava ser reconfortado ou fortalecido pela lembrança dela, ou

de algum modo me preparar melhor para ajudar papai em seu

sofrimento; nem imaginava que me sentiria fragilizado ao ver o

espaço para a sepultura dele ao lado da dela. O acaso de eu ter

enveredado por uma saída errada me levara ate lá, e tudo que fiz

ao descer do carro e procurar sua sepultura no cemitério foi dobrar-

me a uma forca imperativa. Minha mãe e os outros defuntos

haviam sido levados para lá pela forca imperativa do que, no

final das contas, era um acidente ainda mais improvável — o fato

de um dia terem vivido.

Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos

mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência,

não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao

contemplar o crânio de Yorick. Ha muito pouco para se pensar

ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros

mil vezes”. Num cemitério, a gente costuma se dar conta de

como são limitados e banais nossos pensamentos sobre o assunto.

Ah, pode-se tentar conversar com o morto, caso você acredite

que isso possa ser útil; pode-se começar, como fiz naquela manha,

dizendo: “Muito bem, mamãe…”, porém é difícil não pensar

— mesmo que se tenha ido alem da primeira frase — que

você poderia, do mesmo modo, estar conversando com a coluna

vertebral pendurada no consultório de algum osteopata. Você pode

fazer promessas a eles, pô-los a par das últimas notícias, im-

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plorar que o compreendam, que o desculpem ou que lhe deem

seu amor — ou pode optar por uma abordagem oposta, mais efetiva,

arrancando as ervas daninhas, ajeitando os cascalhos, passando

o dedo pelas letras gravadas na lapide; pode ate se abaixar

e por as mãos diretamente sobre os vestígios deles — tocando a

terra, a terra deles, pode fechar os olhos e recordar-se de como

eram quando ainda estavam a seu lado. Mas nada se modifica

com tais recordações, exceto que os mortos parecem ainda mais

distantes e fora do alcance do que estavam quando você dirigia

o carro dez minutos antes. Se não há ninguém no cemitério para

observá-lo, você pode fazer algumas coisas bem doidas a fim

de conseguir que os mortos pareçam algo mais do que são. Mas,

mesmo que você tenha êxito e se motive suficientemente para

sentir a presença deles, ainda assim ira embora sem eles. O que

os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os

mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram,

enquanto nós, por enquanto, não fomos. Isso e fundamental e,

embora inaceitável, bem fácil de compreender.

No rastro centenário de Roald Amundsen

06/02/2012 às 18:11 | Publicado em Jornalismo Literário, Narrativas de Viagem | Deixe um comentário

São Paulo, Domingo, 29 de Janeiro de 2012

CAPA revista serafina

Uma aventura no fim do mundo

por ivan finotti, do polo sul

Treze viajantes e nossos dois enviados especiais chegam ao polo Sul  cem anos depois de o primeiro grupo botar os pés no último lugar da terra

Tínhamos esquiado 12 quilômetros. Ainda faltavam oito e mais um dia inteiro. Tentei dormir, mas estava cansado demais. Levantei e fui até a barraca verde dos guias. Lá dentro, Rick e Dirk haviam preparado uma cozinha interessante. A tenda era sustentada por uma estaca central. Em torno dessa estaca, ficavam dois fogareiros. E, ao redor de todo esse centro, eles cavaram um fosso circular de forma que você podia enfiar o pé nele e sentar em volta. A neve retirada do fosso era a que iria virar água nas chaleiras.

O dia era 13 de dezembro de 2011 e tínhamos um plano: chegar à marca do polo no dia seguinte, refazendo os passos do explorador norueguês ?Roald Amundsen (1872-1928), o primeiro a atingir o local, cem anos atrás.

Nossa viagem havia começado cinco dias antes, no Chile. Rick Sweitzer, o dono e guia da empresa turística norte-americana Polar Explorers, reuniu a turma em Punta Arenas, extremo sul do continente americano, para uma rodada de pisco sour.

Meu grupo é formado por 17 pessoas. Além dos dois guias, eu e o fotógrafo João Wainer viemos a trabalho. Os outros são magnatas, industriais, financistas, negociantes de petróleo, milionários em geral. Cada um pagou US$ 52,5 mil (R$ 92 mil) por oito dias na Antártida, sem contar o voo para o Chile, os exames médicos e os seguros obrigatórios. ?Esses 13 turistas, sendo duas mulheres, podem passar férias em qualquer lugar do mundo. Preferiram encarar uma viagem desconfortável, mas com uma recompensa rara: ser um dos poucos seres vivos a visitar este lugar.

Um deles, o norte-americano Daniel Pena, 66, veio se casar. Trouxe sua mulher, Sally Hall, 48, e um de seus funcionários, William Smith, 41, que fez um curso pela internet especialmente para poder oficializar o casamento no gelo. Daniel é um gigante de 100 kg e de quase 1,90 m, daquele tipo a que você obedece sem pensar, só de ouvir a voz de trovão. Um cara singular: comprou um castelo na Escócia para jogar golfe (“O esporte foi inventado lá”), escreveu o livro “Your First 100 Million” (“Seus Primeiros Cem Milhões”, não lançado no Brasil) e carregou para a Antártida seis quilos de vitaminas (“Tomo 120 pílulas por dia: vitaminas A, B, C, D, E, zinco, cálcio, magnésio, minerais, suplementos etc. Por isso não pareço ter 66 anos”).

A japonesa Mieko Kugizaki tem 73 anos e parece tê-los. Apoia-se numa bengala desde que fez uma cirurgia para recompor a bacia há alguns anos. Em uma excursão agregada à nossa, Mieko trouxe (e pagou pela viagem de) um guia exclusivo, que também serve de tradutor. “No ano passado, fui para o polo Norte. Para 2012, reservei uma passagem num avião espacial que sai da atmosfera.” O tíquete custa US$ 200 mil e a viagem dura apenas duas horas, com direito a quatro minutos de gravidade zero. O marido nunca a acompanha. “Ele tem medo”, sorri.

O texano James Ryffel, 52, trabalha com imóveis e ergue shopping centers nos Estados do Texas, ?do Arizona e da Georgia. Às vezes, fica com eles. “Tenho cerca de 45”, conta. Jim Finley, 55, é do ramo do petróleo. Possui 900 torres extratoras, espalhadas por 13 Estados norte-americanos. James (quatro filhos) e Jim (três) são amigos há 15 anos, assim como suas mulheres e as crianças. Há ainda Jim Johnson, 50, que constrói prédios comerciais no Colorado. Hospitais, hotéis e escritórios estão em sua lista, mas a demanda nos EUA levou sua empresa a se especializar em… cadeias. “Estamos concluindo nossa 16ª prisão”, diz. Os três foram juntos ao polo Norte em 2009, quando aquela região comemorou os seus cem anos de conquista.

RUMO À ANTÁRTIDA

Dois dias depois daqueles pisco sours em Punta Arenas, embarcamos num avião de carga russo ?IL-76, aparentemente caindo aos pedaços. As poltronas não reclinam, a porta do único banheiro não tranca e não há cabine separando os passageiros da área de carga. A tripulação veio com o aparelho após o desmantelamento da União Soviética: são todos russos e parecem vilões do 007. Na hora do lanche, cada um dos passageiros se levanta e monta seu próprio sanduíche de pão de forma, presunto e maionese, apoiado num isopor no chão. E pensar que pelo menos quatro desses meus colegas têm aviões particulares em seus países de origem.

“O importante de uma viagem dessas é fazer você apreciar as coisas básicas, como a água, o ar, um abrigo do frio”, resume Avantika Dalmia, 35, filha de um industrial na Índia, que comemora os 15 anos de seu casamento com Puneet Dalmia, 39. “Minha família está nas áreas de cimento, açúcar, eletricidade e cerâmicas industriais”, conta o marido. ?Coisas básicas.

O trunfo desse avião é que ele consegue descer em locais não asfaltados, como a pista de gelo azul da Antártida, onde pousa 3.000 km e quatro horas depois. Logo estamos em Union Glacier, base da empresa que opera os aviões antárticos, tomando sopa de legumes num barracão aquecido. E, surpresa, servem vinho chileno, tinto e branco.

Um de meus novos amigos, o norte-americano Anton Valukas, passa com uma garrafa térmica e oferece: é uísque “single malt”. Anton é um advogado de 68 anos, nomeado pela Justiça dos EUA em 2008 para investigar a falência do banco Lehman Brothers. Hoje, comanda uma firma de 500 advogados e sempre quis vir à Antártida. “Acabo de me divorciar e achei que era a hora. Liguei para a agência e disse: ‘Tenho 68 anos, faço duas horas de bicicleta por dia. Tenho condições de ir” É evidente que Anton está em muito melhores condições físicas do que eu. Aos 41, eu havia passado todo o ano de 2011 adiando meu ingresso em uma academia. Acabei me inscrevendo um mês antes da viagem e fiz exercícios apenas no dia da matrícula. Um check-up completo na primeira semana de dezembro, porém, atestou que eu e João Wainer estávamos saudáveis o suficiente para o desafio.

Aproveito para entrevistar um dos reis do aço de Chicago, Dave Nelsen, 53. Descubro que ele tem 30 carros antigos, todos Chevrolet. “Dezenove são Corvettes, sendo eles de 1953, 57, 59, dois de 63, três de 67, 68, 69, 72, 78, 90, 01, 08, 09 e 2012”, recita, na ponta da língua, mas pulando dois exemplares. Embalados pelo uísque, conversamos sobre a agradável sensação de dirigir Corvettes pelas ruas de Chicago (em sonho, no meu caso). Pisei na Antártida há apenas três horas e já estou rodeado de copos, garrafas e chegados milionários. Deveria ter trazido meus cigarros…

Passamos três dias no acampamento Union Glacier, aguardando tempo bom para voar ao polo Sul. Ainda estamos a mil quilômetros de lá, e os ?aviões não conversam muito bem com gelo e neve. É impossível voar por instrumentos, já que a aparelhagem não consegue medir a água solidificada tão bem como se fosse terra. Me acostumo a usar dentifrício em pó (a pasta dental congelaria) e a escrever com lápis (a tinta ficaria dura).

Uma cadeia de montanhas negras, salpicadas de neve branca, cercam nossas barracas coloridas, nos lembrando a todo instante de que estamos num lugar único. Mas o mais marcante no acampamento é a discrepância entre o banheiro e o orgulho que o pessoal que trabalha lá sente dele. Realmente, outrora devia ser duro, porque “agora temos privadas”, vangloriam-se. Mas não têm descarga. E é preciso separar sólidos e líquidos para facilitar o manejo posterior, já que tudo isso voará para ser descartado no Chile. Não há água corrente. Banho, portanto, nem pensar. Pergunto a Daniel Pena, o dono do castelo, como ele enfrenta a dura experiência do banheiro. “Sou o primeiro a acordar e faço tudo antes de todo o mundo.” Fica a dica.

RUMO AO POLO

A primeira coisa que acontece quando você pisa na região polar é  seu nariz começar a escorrer. A 35 abaixo de zero, o muco congela e cada gota vira ?uma miniestalactite que te alfineta por dentro das narinas. Havíamos acabado de descer com o pequeno DC-3 na pista de gelo azul próxima ao polo Sul, tão assustados com as histórias de necroses causadas pelo frio que cobrimos todos os milímetros do corpo com o máximo de tecido disponível. A temperatura é de 35 graus negativos. Estou encapotado como uma cebola, com cinco camadas de roupa. Um exagero, percebo em dois minutos.

Nove turistas de nosso grupo, inclusive eu e João, havíamos escolhido esquiar os últimos 20 quilômetros em direção ao polo. Os dois guias nos acompanhariam. A intenção era chegar à marca no dia seguinte, 14 de dezembro, mesma data de Amundsen em 1911. Passei os primeiros minutos dessa nova jornada me perguntando o que fazia ali. Xingando a situação, coloquei meus esquis, prendi o trenó no cinturão e comecei a puxar. Cada um de nós dez carregava um trenó igual, de 15 kg a 25 kg, entre roupas, saco de dormir, comida, chocolate, barracas, fogareiros etc.

Logo senti o dedão do meu pé direito gelado. Pensei em trocar as meias, mas vi que seria impossível. O simples ato de beber um gole de água exigia voltar com o esqui de ré até emparelhar com o trenó, dobrar os dois joelhos, quase sentando (o esqui te impede de levantar o calcanhar), tirar as luvas externas, achar um lugar para colocá-las sem derrubá-las na neve, abrir a mochila, achar a garrafa, abri-la, beber sem se desequilibrar nessa posição dos infernos e, quando acabar, fazer tudo de novo ao contrário. Enquanto isso, a expedição caminha e você vai ficando para trás. Trocar de meia, portanto, estava fora de cogitação.

Vale dizer que nossa esquiada não tem nada a ver com estações recreativas como Bariloche ou Aspen. Não deslizávamos pela neve, já que não existem descidinhas no planalto do polo Sul. Estávamos caminhando, levantando um esqui após o outro e dando passos. Era como andar de pé de pato na praia. João sofria mais que eu porque, além do trenó, tinha o equipamento fotográfico pendurado no corpo -e precisava parar para fotografar de vez em quando. Logo se formaram dois grupos. Atrás, andávamos eu, os amigos texanos James Ryffel e Jim Finley e Arjun Gupta, 51, um indiano morador da Califórnia que se especializou em bancar novas empresas no Vale do Silício e depois vendê-las. Já fez isso com 61 delas.

Quinze minutos depois, meu dedão já se aquietou, mas os dedos da mão esquerda passaram a doer demais. Estavam em processo de congelamento, certeza absoluta. A sensação era de quente, não de frio. Parecia que tinha colocado os dedos na boca de um fogão. Reclamei para o guia Dirk Jensen, mais amigável que Rick. Ele arrancou minha luva externa e a de baixo. Disse que era só frio, nada demais, mas reclamou que estavam muito apertadas. “É preciso espaço para o ar. É o ar quente que mantém sua mão aquecida.” Coloquei saquinhos de aquecedores químicos dentro das luvas, mas, 15 minutos depois, a dor tinha aumentado.

Ficar a 30 graus negativos enquanto se vai do hotel para o restaurante é uma coisa, mas ficar o tempo todo a 30 graus negativos era outra bem diferente. Lembrei-me da passagem de “Solar” (2010), de Ian McEwan, em que o protagonista, que está numa viagem semelhante, faz xixi ao ar livre no polo Norte e acha que seu pênis congelou. O risco de ficar quieto me pareceu grande demais e, quando reclamei pela terceira vez, Dirk me deu suas luvas externas e ficou sem. Salvou minha mão (acho) e parte do meu humor (certeza).

DIFICULDADES

Minutos depois, uma moto de neve se aproximou, com um dos funcionários do acampamento. Trazia uma lata de combustível, que tinha ficado para trás. Rick gritou para todos: “Se alguém quiser desistir, é agora”, oferecendo a garupa. Jim Finley se adiantou: “Não estou me dando bem com estes esquis, as botas ficam torcendo o tempo todo e talvez eu não esteja gostando muito disso”. Invejei, de verdade.

Após algum tempo, já me equilibrava sem esforço no esqui (nunca havia visto um na vida). Mesmo assim, estava no fim da fila. Arjun e James Ryffel iam comigo, mas os dois paravam um bocado para ganhar fôlego. Estávamos a quase 3.000 m de altitude. Respirar fica mais difícil; há menos oxigênio no ar. A partir do oitavo quilômetro, o cansaço tornou-se insuportável. O trenó parecia cada vez mais pesado. Para não perdermos tempo, nem havíamos almoçado naquele dia. Comecei a sentir frio, apesar do exercício constante, e coloquei mais uma jaqueta. Senti que me aproximava do esgotamento quando, em vez de fincar os espetos para ajudar no equilíbrio sobre os esquis, comecei a usá-los como muletas, jogando meu peso sobre eles a cada passo. De 50 em 50 metros, parávamos durante um ou dois minutos, curvados sobre nós mesmos, mãos no joelho, arfando.

Quando o primeiro grupo finalmente parou, sete horas depois do início, eles estavam uns 500 metros à nossa frente. Venci dolorosamente os últimos passos e desabei em cima do meu trenó. O islandês Bjarn Ármannsson, 43, estava bem à vontade. Com quatro filhos e quatro empresas (chocolate, gás propano, armazenamento de dados e seguros), o maratonista acostumado com o gelo de seu país ajudou os guias a montar as barracas. Como ele, Jim Johnson, Dave Nelsen e Anton Valukas mantinham a energia e o bom humor. Apesar disso, Anton me disse depois: “Enfrentei desafios físicos em vários lugares do mundo, mas este foi o dia mais brutal da minha vida”.

Entrei na barraca e João estava no mesmo clima de sofrimento. “Como fomos nos meter nessa?”, indagou, e adormeceu instantaneamente. Eram 22h, mas o maldito sol nunca se punha, portanto, nem dava para perceber… Não há noite no verão antártico. O sol está lá o tempo todo, a uma altura de 30 graus em relação ao horizonte. Passa o tempo todo rodopiando sobre nossas cabeças. Às vezes, quando o tempo abre, o sol brilha e o céu fica tão azul quanto o de uma praia do Nordeste. Mas, quando está nublado, a vastidão de neve lisa que domina a região do polo, sem montanhas ou colinas, se encontra no horizonte com o céu embaçado e tudo se transforma numa massa branca sem fim.

Deixei João dormindo e entrei na barraca verde que os guias haviam erguido para cozinhar, aquela com um fosso no meio. De repente, aquela tortura toda começou a fazer sentido. Dava para ver a felicidade daqueles homens ao redor do fogo, cortando nacos de salame de um centímetro de espessura e tomando cappuccinos instantâneos, satisfeitos consigo mesmos, a milhares de quilômetros de distância de seus funcionários, mansões, mulheres, filhos e outros dramas.

Havia pacotes e mais pacotes de comida desidratada, tipo carne com arroz, mas eles preferiram beliscar linguiças e tortilhas com queijo. Era como o clube do Bolinha dos gibis, uma casinha onde menina não entra. Estavam quase todos lá, inclusive ?James Ryffel, que parecia exausto, não conseguiu comer nada e logo foi se deitar. Ele sentia os efeitos da altitude e, naquela noite, mal conseguiria descansar, teria náusea, calafrios e enjoos. Já Arjun, meu outro companheiro do grupo de trás, nem sequer apareceu para o salaminho.

O POLO

Na manhã seguinte, voltei para a fila da caminhada como se estivesse andando na prancha de um navio pirata, pronto para o abate. Mas o dia acabou não sendo tão ruim quanto o primeiro: o cansaço deixara de ser novidade. Após quatro quilômetros, entramos numa área de pesquisa da estação norte-americana. Os guias comandaram um desvio à esquerda, até encontrarmos a estrada, para vencer os últimos quatro quilômetros seguindo as marcas de pneu. Mas James Ryffel não desviou junto com a gente. Estava tão esgotado que, apesar de ser o último da fila, não percebeu a mudança de rota. O islandês Bjarn teve que ir buscá-lo e, a partir de então, puxar também o seu trenó.

Chegamos ao polo momentos antes do casamento de Daniel e Sally. Casaram-se entre as bandeiras dos EUA e do Reino Unido (ela é inglesa) que circundam a marca cerimonial do polo Sul. Todos brindamos com vodca. Era 14 de dezembro, o mesmo dia de Amundsen, há cem anos. Havia noruegueses por toda parte, inclusive o primeiro-ministro do país, Jens Stoltenberg, que participou de uma cerimônia para 500 pessoas, um recorde no lugar.

Aqui e ali, eu revia os colegas de nossa expedição que não haviam participado da caminhada. A senhora Mieko, apoiada em sua bengala, e seu guia particular vindo do Alasca. O casal Dalmia, da Índia. E Peter Lui, 53, um chinês interessado numa distinção bem específica: ser o primeiro escoteiro de Hong Kong a estar no polo Sul. “Há alguns anos, um escoteiro inglês veio. Ou eu teria sido o primeiro do mundo”, lamentou.

Há gente bem diferenciada circulando por aqui. Um senhor norueguês de 60 anos, chamado Asle T. Johansen, conta que veio esquiando com dois colegas desde a costa, por mais de mil quilômetros, durante 40 dias, usando roupas e equipamentos idênticos aos de Amundsen. “Matamos 30 renas para juntar a pele necessária para os casacos, luvas etc.” Outro é Jann Pettersen, 78, neto do carpinteiro da expedição vitoriosa de 1911. Passeia exibindo o relógio de ouro que Amundsen em pessoa ofereceu a seu avô.

E o norte-americano aposentado Don Parrish está caminhando em volta da marca polar, uma, duas, dez, 20 vezes. Parrish, 67, é o quarto homem mais viajado do planeta. Já esteve em 787 lugares dos 872 listados pelo site Most Travelled People (pessoas mais viajadas). “Mas também sou sócio de um clube de circum-navegações e aqui tenho a oportunidade de dar várias voltas no globo.” É isso mesmo, Don está dando microvoltinhas ao redor da Terra em torno do eixo do polo Sul, andando só dez metros a cada círculo. “Decidi circum-navegar cem vezes, em homenagem aos cem anos. Mas, para não haver risco de errar na conta, dei 110 voltas.”

O comportamento de Don me chama a atenção para duas questões específicas do último lugar da Terra. Caminho até o polo, paro exatamente na marca e respiro profundamente. Se eu der um passo para a frente, irei para o norte. Até aí, tudo bem. Mas aqui, ao contrário de todos os outros lugares do planeta, se eu der um passo para trás, também estarei indo para o norte. Qualquer passo que eu dê em qualquer direção será para o norte. Então, me dou conta de outra situação: um passo à direita me coloca no dia 15 de dezembro, 8h horário da Nova Zelândia. Mas, ali, naquele fim de mundo, onde todas as latitudes e fusos horários se encontram, um passo à esquerda me leva para o dia anterior: 14 de dezembro, 20h no horário do Chile.

Volto para o refeitório, onde estão meus colegas de expedição. Arjun dormiria cerca de 20 horas para se recuperar do cansaço. James, cerca de 15. Jim Finley comenta que pretende voltar no ano que vem. “Sinto que falhei.” James Ryffel diz ao amigo: “Se você precisar vir, voltarei com você”. Os outros turistas apenas aguardam o tempo abrir para poder voar de volta ao acampamento, depois ao Chile e aí cada um para sua vida. Enquanto isso, passam o tempo no refeitório jogando Banco Imobiliário, com dinheiro de mentira.

Dos diários dos exploradores

LEIA TRECHOS DOS CADERNOS QUE ROALD AMUNDSEN E ROBERT FALCON SCOTT ESCREVERAM EM 1911 E 1912

Roald Amundsen (1872-1928)

19/10/1911

” Finalmente partimos. Atrelamos os cachorros, 13 para cada um dos quatro trenós. De repente, parte do chão se abriu ao nosso lado e expôs um terrível abismo -grande o suficiente para engolir todos nós. Todos se salvaram.

24/10/1911

Dia de descanso. Armamos um depósito para a volta com 200 kg de carne processada para os cachorros, 30 litros de combustível, duas latas de biscoito e três unidades completas de comida para 100 dias. Levamos conosco cinco focas, 15 kg de filé, uma caixa de carne para cachorro e oito pacotes de chocolate.

10/11/1911

Avanço magnífico sobre terreno liso. Os cachorros chegaram a galopar. Tempo excelente.

20/11/1911

Chegamos ao platô polar, a ?3.000 metros de altitude. Foi um dia duro, especialmente para os cães: 24 de nossos bravos companheiros receberam o pagamento amargo da morte. Ao chegarmos ao platô, eles foram baleados e eviscerados. Amanhã, vamos tirar suas peles. Ainda temos 18 -os melhores. Nós os dividimos em três times de seis.

4/12/1911

Vi a lua. Acho que nunca tinha visto a lua e o sol da meia-noite ao mesmo tempo.

14/12/1911

Conseguimos. Cravamos nossa bandeira no polo Sul geográfico. Graças a Deus. Eram 15h. Chegamos com três trenós e 17 cães e fizemos nossa refeição celebratória: um pequeno pedaço de foca para cada um. Depois de amanhã iremos embora com dois trenós. Vamos deixar um para trás e também uma tenda com a bandeira norueguesa.

3/2/1912

Comoção geral. Chegamos de volta e havia dois navios, em vez de apenas nosso solitário Fram. O outro é o inglês Terra Nova. Eles foram excepcionalmente amigáveis. Ficamos todos resfriados após encontrarmos os ingleses.”

Robert Falcon Scott (1868-1912)

17/1/1912

” O polo. Sim, mas sob circunstâncias bem diferentes das esperadas. Passamos um dia horrível. Oh, Deus!

8/1/1912

Encontramos uma tenda e o registro de que cinco noruegueses estiveram aqui… Agora devemos encarar 1.300 km de volta, arrastando coisas.

17/2/1912

Dia terrível. Depois do almoço, com Edgar Evans sumido, voltamos para procurá-lo. Fiquei chocado com sua aparência. Estava de joelhos, com as roupas desarrumadas, mãos sem luvas e congeladas e um olhar selvagem. Morreu serenamente às 12h30.

16 ou 17/3/1912

Estou perdido nas datas, mas acho que hoje é 17. No almoço de anteontem, o pobre Titus Oates disse que não poderia continuar. Ele suportou sofrimentos intensos por semanas sem reclamar. Dormiu esperando não acordar ontem, mas acordou. Havia uma nevasca. Ele disse: “Vou dar uma volta, devo levar algum tempo”. Saiu e não o vimos mais.

21/3/1912

Estamos a 18 km do depósito desde anteontem à noite; tivemos que ficar parados ontem por causa da forte tempestade de neve. Hoje temos uma vã esperança: Wilson e Bowers irão ao depósito atrás de combustível para o fogareiro.

22 e 23/3/1912

Não conseguimos sair. Amanhã é nossa última chance.

29/03/1912

O vendaval continua, desde o dia 21. No dia 20, tínhamos combustível para duas xícaras de chá e comida para dois dias. Todos os dias desde então estamos prontos a avançar para o depósito a 18 km, mas fora da tenda a cena é a de um redemoinho. Não acho que possamos mais esperar por algo melhor. É uma pena, mas acho que não posso mais escrever.

R. Scott

Um último registro: Pelo amor de Deus, cuide de nosso povo.”

Magnatas da neve

conheça Alguns dos aventureiros que estiveram no polo sul

Jim Johnson, 50

Constrói prisões no Arizona e, há dois anos, acampou no polo Norte durante o centenário de lá

Arjun Gupta, 51

Indiano, que mora na Califórnia, investiu em 61 novas empresas do Vale do Silício, para vendê-las depois

Dave Nelsen, 53

Tem 19 Corvettes e outros 11 Chevrolets. Tornou-se único dono da empresa da família ao comprá-la de 40 parentes

James Ryffel, 52

Dono de 45 shoppings em três Estados norte-americanos, sofreu efeitos da altitude e do cansaço

Anton Valukas, 68

Jurista nomeado para investigar o escândalo do Lehman Brothers, comanda empresa de 500 advogados

Jim Finley, 55

Proprietário de 900 torres de petróleo nos EUA, largou a caminhada de 20 km após as primeiras duas horas

Bjarn Ármannsson, 43

O islandês, que possui empresas de chocolate e gás propano, é maratonista e venceu os 20 km como se fossem um passeio

Evolucão do Equipamento

Compare as roupas e os apetrechos usados hoje com aqueles da época da conquista do polo

Em 1911, o norueguês Roald Amundsen e o inglês Robert Falcon Scott empreenderam uma corrida dramática pela conquista do polo Sul. Amundsen venceu, e Scott e sua equipe morreram congelados na volta.

Confira nestas páginas o equipamento usado por eles na ocasião e os avanços tecnológicos que permitem uma viagem mais segura hoje.

transporte

Do Chile para o acampamento Union Glacier, viaja-se no russo IL-76 (1). Depois, até o polo, usa-se o DC-3 (2)

Amundsen usou o Fram (3). Scott foi com o Terra Nova (4)

MEIAS

Alternam materiais que mantêm a temperatura, deixam o pé seco e trazem conforto. A canela tem um reforço, já que essa parte fica o tempo todo esfregando no limite da bota

De quatro a seis pares de meias de lã eram usados ao mesmo tempo

LUVAS

São de material corta-vento e recheadas com penas de ganso. As luvas para caminhada (6) são como as de boxeador, sem separações, para os dedos aquecerem uns aos outros. Para montar barracas, trocam-se pelas luvas de trabalho (5). Luvas base são usadas o tempo todo

Primeiro vinha a luva comum, feita de lã  (7). Sobre ela eram usadas as de pelo de rena, sem dedos e largas (8)

na cabeça

Chapéu (9), capuz (10 e 12), máscara de nariz (11) e pescoceira (13) contam com proteção corta-vento

O gorro era feito de pele de rena. Já o cachecol e o capuz eram de lã. O uso das renas foi inspirado em uma pesquisa com os esquimós do Alasca, que usavam outro animal de pelos grossos: lobo. A excursão de Robert Scott apostou exclusivamente na lã

ÓCULOS

Um óculos de sol comum (15), com boa proteção UV, é fundamental. Para mais tempo exposto ao ar livre, usam-se os óculos de esqui (14), que também protegem o rosto do frio

Eram modelos para esqui com lentes amareladas, que protegiam dos raios UV. Para minimizar os riscos de cegueira, a equipe preferia viajar com o sol às costas e descansar quando a incidência seria direta nos olhos

PRIMEIRA CAMADA

Cueca, blusa (16) e calça justinhas, feitas de tecido sintético bem leve e com uma tecnologia que não retém a umidade (tudo que é úmido pode congelar). As mais caras têm um truque antiodor: íons de prata na composição do tecido, que impedem a proliferação das bactérias -importante porque usa-se a mesma roupa vários dias seguidos

Cada explorador costumava viajar carregando três conjuntos de cueca, ceroula e camiseta de manga comprida, tudo feito de flanela fina

SEGUNDA CAMADA

A jaqueta (17) e a calça (22) são de um tecido sintético chamado fleece. Espécie de moletom felpudo, que repele a água, expandindo-a pelo tecido e forçando sua evaporação. É feito de PET, igual às garrafas plásticas de refrigerante, e pode ser reciclado

Os viajantes levavam dois suéteres de lã, um com gola comum e outro com gola comprida, mais um par de calças de veludo

TERCEIRA CAMADA

De fleece 300 (18 e 21), mais grossa que as anteriores, de fleece 100. A ideia é usar ambas as camadas quando estiver muito frio, apenas o 300 quando o frio baixar e só o 100 quando esquentar mais

Composta por uma calça e uma jaqueta (com gorro) de gabardine, um tecido mpermeável que ajuda a barrar o vento. Ela podia ser substituída por calça e jaqueta feitas de pele de foca, mais grossa, ou de rena

quarta CAMADA

É a armadura corta-vento. São três microcamadas de tecidos sintéticos, que permitem que a transpiração saia, mas nada entre. Têm zíperes à prova d’água embaixo do braço e ao longo das pernas, para que você deixe entrar um ventinho se estiver com calor. O blusão (19)tem capuz e a calça, suspensórios (20).

Não tinha

QUINTA CAMADA

Usada quando a pessoa não está se exercitando, é formada por um blusão e uma calça recheadas de pena de ganso. Versões mais baratas usam penas de pato

Não tinha

trenós

Na nossa expedição, cada um puxou um trenó com uma mochilona, com cerca de 20 kg

Amundsen usou a força dos cães (23). Scott tentou usar pôneis e trenós motorizados (24). Acabou tendo que usar homens

GARRAFAS

Uma térmica (25), uma de plástico para água fria (26) e uma terceira para fazer xixi sem sair da barraca, com funil para as meninas (idêntica à 26). Caneca de metal para manter a temperatura (27)

De metal

BOTAS

De borracha dura, recheadas com lã (28). Aguentam até -70°C. Acoplada, há uma botinha interna feita de mistura de lã e tecidos sintéticos. Surpreendentemente confortável

Feitas sob medida (29), eram largas, para comportar muitas meias, tinham cobertura de pele de rena e um suporte de madeira preso por correias, para facilitar as caminhadas na neve

AQUECEDORES DE MÃO

Saquinho (30) com um pó “mágico” que, uma vez sacudido, produz óxido ?de ferro e libera calor por horas. Serve pra ficar segurando, dentro da luva

Não tinha

REMÉDIO

O Diamox é uma droga que alivia os efeitos da altitude ao ajudar a metabolizar o escasso oxigênio nas alturas

Vinho ajudava a afastar o frio

localização

O GPS indica a posição com uma margem de erro de até 20 m. Substitui o astrolábio (invenção do século 4º a.C.), a bússola (séc. 3º a.C.), o sextante (séc. 17) e o giroscópio (séc. 19)

Amundsen usava uma versão do sextante (31) presa a um dos trenós. Parecido com uma roda de bicicleta, ele apontava latitude e longitude com margem de erro de 250 m

KIT SONO

Além do saco de dormir com pena de ganso, usa-se um saco de malha que aumenta a temperatura em até 15 graus (32). Um colchão de ar inflável (31) é o ponto de contato com o gelo e uma camada de borracha aluminizada garante o isolamento térmico. Capas de alumínio (33 e 34) são usadas em emergências

As barracas eram duplas e escuras, cobertas por uma capa de gabardine. Os sacos de dormir também eram duplos

COMIDA

Desidratada, basta acrescentar água, fechar o pacote e esperar cinco minutos. Há escolhas como carne cozida na cerveja preta

A equipe de Amundsen (tanto homens quanto cães) comia focas e pinguins caçados no caminho. Os cães mais fracos eram sacrificados e comidos por homens e cachorros sobreviventes. Os cães de Scott eram alimentados com peixe desidratado, que estragava com facilidade. Muitos morreram de fome e foram usados como alimento pelos sobreviventes

SACO DE COCÔ

É isso mesmo, ninguém pode fazer necessidades e deixá-las na Antártida. Um saco cheio de um pó que transforma as fezes em sólido seco é exigido nas viagens ao local. Os organizadores das expedições se encarregam de transportar os restos para a civilização

O dilema da Antártida

Reinaldo José Lopes editor de Ciência e Saúde da Folha

Continente gelado vive situação inusitada: o buraco na camada de ozônio, localizado em cima dele, o protege das consequências mais dramáticas do aquecimento solar

Se você viajar entre 10 km e 50 km em direção ao céu, em qualquer lugar do planeta, vai chegar na camada de ozônio, um gás produzido quando os raios ultravioletas, vindos do Sol, se encontram com o oxigênio que a gente respira. As moléculas de ozônio (O3) são formadas por três átomos de oxigênio; as de oxigênio (O2) têm dois. E, apesar de ser gerado pelos raios ultravioletas, o ozônio equivale a um filtro solar planetário, absorvendo a radiação.

Bem em cima da Antártida, o continente em que fica o polo Sul, foi descoberto um rombo na camada de ozônio em 1985, que continuou aumentando até 2006, quando atingiu seu tamanho máximo, 27,5 milhões de quilômetros quadrados (área equivalente a três brasis). A causa mais provável do buraco é a emissão de compostos chamados CFCs, sigla para clorofluorcarbonos, usados até a década de 1980 em ar-condicionados e sprays. Paradoxalmente, no entanto, o enfraquecimento do ozônio acima da Antártida protegeu, até agora, o continente gelado dos efeitos mais severos do aquecimento global. Salvar o planeta não é fácil, mas destruí-lo também não. A luta contra o buraco na camada de ozônio, uma das maiores (e únicas) histórias de sucesso do ambientalismo global, caminha para tapar o rombo até o fim deste século. O problema, contudo, é o provável efeito colateral dessa vitória: o aumento da temperatura no interior da Antártida e, por tabela, dos níveis dos oceanos, graças ao gelo derretido extra que chegará ao mar.

Mas manter o buraco aberto pelo bem de Copacabana não é uma opção. O rombo antártico só tem um efeito resfriador local, e os gases que atacam o ozônio também provocam aquecimento quando se pensa no planeta como um todo -isso sem falar nos riscos à saúde humana. É preciso achar outro caminho para resolver o dilema.

A história da interação entre o ozônio e o clima da Antártida, que os cientistas estão desvendando em detalhes nos últimos anos, é um exemplo de como o clima da Terra é controlado por conexões que fogem do senso comum e de como perturbá-las leva a resultados insuspeitos.

POLUENTE E ESCUDO

Aqui embaixo, no nível do solo, não interessa a ninguém ter contato com o ozônio. A substância é bem mais instável que o oxigênio que respiramos. Essa instabilidade faz com que o O3 se “quebre” com mais facilidade, e o produto dessa quebra pode reagir com as moléculas do organismo, atrapalhando o funcionamento delas. Por isso o ozônio é considerado um poluente.

No ar de uma grande cidade, ele surge a partir de reações envolvendo radiação ultravioleta -trazida o tempo todo pela luz do Sol- e os gases liberados por indústrias ou pelo escapamento dos carros. O ozônio assim criado tem efeitos sérios sobre os pulmões quando inalado, por exemplo -asmáticos que o digam.

Mas, na estratosfera, o ozônio é necessário. Sem essa linha de defesa, todos os seres vivos receberiam taxas elevadíssimas de radiação. Em humanos, um dos resultados desse tipo de dano ao material genético é o câncer. Foi justamente essa a palavra mágica responsável pelo sucesso indiscutível do Protocolo de Montréal, acordo internacional assinado em 1987 cujo objetivo é reverter a fresta aberta na armadura atmosférica por certos compostos criados pelo homem.

Pode se dizer que o buraco na camada de ozônio está perto da estabilidade, mas a recuperação ainda vai demorar, devido à longa persistência dos derivados dos CFCs na atmosfera. A normalização do buraco antártico deve acontecer, no mínimo, em torno de 2070. Talvez depois.

A arte de reportar – perfis e outros escritos da The New Yorker

26/10/2011 às 15:08 | Publicado em Livros, perfis e biografias, Resenhas | Deixe um comentário

Dentro da Floresta (Companhia das Letras, 2006) é um dos seis livros escritos pelo jornalista David Remnick, o editor atual da revista The New Yorker (lançada em 1925, a publicação teve seletos cinco editores até agora, Remnick incluso).

Antes de comentar um livro, gosto de lê-lo e deixar passar um tempo, para que o conteúdo, digamos, assente dentro de mim. Tenho a sensação de que degustar uma leitura é algo muito próximo de saborear um bom vinho ou sentir um perfume de qualidade.

Em ambos, há aquela nota inicial, que nos faz gostar da obra de cara ou deixá-la na cabeceira à espera de um momento mais propício para leitura. Com suas 575 páginas, Dentro da Floresta ficou certo tempo me espiando, até que eu achasse que era hora de me debruçar sobre seu conteúdo.

O livro consiste em 23 perfis que Remnick escreveu para a The New Yorker, acrescido do posfácio de João Moreira Salles, o mentor da revista piauí! – ele também um refinado escritor de perfis.

Durante a leitura, há aquelas notas prazerosas que emergem ao saborear um bom tinto, quando se consegue identificar o terroir, isto é, os rastros da terra, do ar, da água, enfim, do meio ambiente que fazem o conteúdo de cada garrafa única. Neste caso, sentimos o repórter que trabalhou por anos no The Washington Post, aquele olhar atento de quem sabe que é a partir da pesquisa e da apuração que um bom texto emerge. Neste contexto, um dos destaques do perfil do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair  é a constrangedora entrevista concedida a dois apresentadores mirins de um programa de televisão de variedades. O perfil, escrito em 2005, não por acaso é intitulado A Campanha do Masoquismo.

Há que se mencionar que em outros perfis de políticos, sobretudo os muito distantes da realidade brasileira, poderão considerados enfadonhos pelo leitor brasileiro médio.  Claro que não o de Vladimir Putin, aqui magistralmente descrito como um sujeito visto pelo povo russo como um cara normal, que faz o que pode. Alias, é nítida a familiaridade que ele tem com a região (ele foi correspondente do Post na União Soviética até 1991 e ganhou um Pulitzer em 1994 pelo livro Lenin´s Tomb).

Mais recentemente tenho me fixado no efeito residual que a leitura de uma obra propicia. Como um vinho especial que deixa uma marca inesquecível.  Esta marca pessoal de Remnick, neste livro, se faz notar pelos perfis de boxeadores e escritores.

Remnick registra o ocaso da paixão estadunidense pelo boxe, que produziu obras primorosas como o livro A Luta, de Norman Mailer, e perfis magistrais como o de Gay Talese, Joe Louis: o rei na meia idade (do livro Fama & Anonimato, ambos da Companhia das Letras). O livro de Remnick traz um perfil de Tyson, claro, mas destaco o sobre o treinador de boxe Teddy Atlas, talvez porque ele fuja do estereótipo do herói e seja apresentado como um mortal comum.

Como não poderia deixar de ser, Remnick perfila escritores. Entre eles, Philip Roth – atualmente considerado o principal escritor sênior estadunidense. Mas destaco o perfil feito de Don DeLillo, onde este filosofa sobre a notícia como a narrativa de nosso tempo.

Na ótima resenha de Dentro da Floresta feita para o jornal The New York Times, o escritor estadunidense Pete Hamill começa citando Ezra Pound que, em ABC of Reading, de 1934, dizia que “Literature is news that stays news”. Algo como literatura é notícia que permanece uma novidade. Ou seja, toca-se aqui no ponto central que une jornalismo e literatura, deixando ambos com aquele toque atemporal que encanta pessoas de todos os tempos. Seria como degustar um vinho mais do que especial.

Não é fácil escrever um texto de não ficção, bem apurado, que não seja apenas lido com prazer, mas que cative um espaço no coração e na memória do leitor. Em alguns casos Remnick consegue o feito. Por outro lado, a vantagem de uma coletânea de perfis é que o leitor fica muito à vontade para fazer sua própria seleção, concordando e, por que não, discordando do resenhista. Esta liberdade de escolha, aliás, não tem preço.

Confesso que não entendi o título, o tal Dentro da Floresta. O original, proposto pela decana Lilian Ross, é muito melhor: Reporting – Writings from The New Yorker. Ross, para quem não se lembra, é autora de Filme, também publicado na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras – livro que inspirou novos jornalistas como Truman Capote.

Monica Martinez

Nova pesquisa sobre Jornalismo Literário

17/10/2011 às 10:30 | Publicado em Jornalismo Literário, Pesquisa | 4 Comentários

Compartilho minha mais recente pesquisa científica publicada, escrita em parceria com José Eugenio de Oliveira Menezes, que integra o livro Jornalismo_Contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. A referência, o link e o artigo na íntegra encontram-se abaixo:

MENEZES, José Eugenio; MARTINEZ, Monica. Jornalismo e tempo profundo: o trabalho de Nelson Araújo no Globo Rural. In: Jornalismo_contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. SILVA, Gislene et al (Org.). Salvador: EDUFBA; Brasília : Compós, 2011, p. 182-202. Disponível em: <http://www.repositorio.ufba.br/ri/bitstream/123456789/1586/1/Jornalismo%20contemporaneo.pdf>. Acesso em: 17 out 2011.

 

Jornalismo e tempo profundo:

o trabalho de Nelson Araújo no Globo Rural

José Eugenio de Oliveira Menezes e Monica Martinez

 

Paradigmas jornalísticos em tensão

 Neste trabalho analisamos uma reportagem veiculada pela televisão

 que, mesmo em tempos de extrema velocidade de apuração e risco de

 superficialidade na prática da reportagem, oferece indícios da possibilidade

 de se captar, no trabalho jornalístico, sinais de uma temporalidade

 diferente da descrição linear de acontecimentos. A partir de um modelo

de temporalidade que, como veremos abaixo, alguns autores denominam

 “tempo profundo”, examinamos a experiência realizada pelo jornalista

 Nelson Araújo na reportagem Buriti, veiculada pelo programa Globo Rural

em 22 de março de 2009, que compreendemos como um mergulho de

 grande alcance na realidade.

A título de introdução lembramos que muitos pesquisadores têm se dedicado

 aos estudos a respeito da crise de paradigmas que o jornalismo tem

 enfrentado desde o final do século XX e, sobretudo, na virada do século

 XXI, com a intensificação das mudanças tecnológicas. De modo genérico,

 identificamos nos estudos atuais três perspectivas epistemológicas.

A primeira é marcada por uma postura quase que nostálgica, segundo

 a qual as mudanças econômicas, sociais, tecnológicas e outras representam

 praticamente um dano à práxis jornalística contemporânea, degenerada,

 decerto, frente ao jornalismo praticado em décadas anteriores, como encontramos,

 por exemplo, na avaliação de Ignacio Ramonet (2004).

No outro extremo está a segunda linha epistemológica, a dos estudiosos

que compartilham uma visão tecno-utópica que considera que os novos

ambientes de criação e cooperação proporcionados por plataformas digitais

 interconectadas favorecem a prática dos jornalistas e de quem mais

 queira compartilhar informações. Os novos ambientes digitais possibilitam

 o “surgimento de funções conversacionais pós-massivas, permitindo,

 a qualquer pessoa, consumir, produzir e distribuir informação sem ter

 que movimentar grandes volumes financeiros ou pedir concessão a quem

 quer que seja”. (LEMOS, 2009, p. 29) Estes pesquisadores não apenas

 concentram seus esforços em tentar compreender o presente em constante

 mutação, mas ainda usam toda sua capacidade intelectual numa tentativa

 de detectar tendências e cenários futuros.

Na tensão entre as posturas brevemente indicadas encontram-se pensadores

 cientes que vivemos no contexto da velocidade, como afirma Paul

 Virilio (1996), e da conectividade da sociedade em rede, como diagnostica

 Castells (1999). Um cenário no qual algumas práticas e aparatos mediáticos

 caem em desuso tão rapidamente quanto outros surgem. Nem o passado

 pode ser idealizado como perfeito, nem a tecnologia por si só resolverá

 todos os problemas dos futuros profissionais e pensadores da área.

Esta noção de transitoriedade, aliás, é conhecida da história da comunicação

 e dos aparatos técnicos que intensificam, ou não, a comunicação ou

  a incomunicação. O fato não é a transformação em si, mas a rapidez com

 que as mudanças se instalam. Do estabelecimento em pontos estacionários

 e da prática da agricultura, ao redor de 10 mil a.C., a humanidade teria

 levado seis mil anos até outra invenção significativa, a da escrita. A impressão

 das primeiras publicações, conforme Ciro Marcondes Filho (2009, p. 18),

 ocorre pouco mais de um século após o aparecimento dos tipos móveis

 de Gutenberg. Tais fatos, de diferentes amplitudes temporais, nos ajudam

 a compreender que na contemporaneidade também participamos, como

 protagonistas, de novas mudanças na prática do trabalho jornalístico na

 tensão entre as funções pós-massivas conversacionais que se adicionam

 as “tradicionais funções massivas informacionais”. (LEMOS

, 2009, p. 29)

 

Para usar uma analogia, é como se a humanidade estivesse num momento

 de parto que precede o nascimento: o período de nove meses no útero

 materno está próximo a um fim, as contrações começaram, há uma enorme

 tensão, mas nada ainda que permita saber que a vida continua, em geral

até melhor, após a enorme compressão e, posteriormente, desconfortável

 passagem por um espaço diminuto em direção ao desconhecido.

O trajeto das transformações do conhecimento não pode mais ser

 compreendido de forma linear, ainda que confortadora, no sentido de que

 o ápice da complexidade estaria na contemporaneidade em contraposição

 ao arcaico enquanto primevo e simplório. Várias visões caminham neste

 sentido. Um exemplo é a teoria do cadarço de botas (bootstrap theory),

idealizada nos anos 1960 pelo físico estadunidense Geoffrey Chew, da

 Universidade de Berkeley, que extrapolou sua área e passou a simbolizar

 essa noção de cruzamento e interação de conceitos e práticas necessários

 para a inovação em determinado campo do saber. No nosso caso, no

 campo do jornalismo, estudamos uma prática de reportagem –

Buriti para observarmos formas de captação e expressão de um tempo profundo,

 marcado pela interconexão de posturas como a tradição do jornalismo

 literário e a perspectiva epistemológica da chamada cultura do ouvir.

 

Do lixo ao luxo epistemológico

 Nesse caminho histórico da epistemologia da comunicação, no entanto,

parte dos estudos mediáticos, ainda que consistentes, cai no esquecimento

por variados motivos. Em termos freudianos, seria como um conhecimento

que fica latente no inconsciente – não é usado no estado de vigília, isto é,

não consta dos manuais mais citados, contudo em circunstâncias especiais

ou necessárias, vem à tona, como se estivesse numa camada subjacente à

usada cotidianamente pelos pesquisadores da área.

 

O docente e pesquisador brasileiro de teoria da comunicação Norval

Baitello Junior, ao destacar os livros seminais do comunicólogo tchecobrasileiro

Vilém Flusser (1920-1991) – A História do Diabo e Língua e Realidade

, lembra justamente que o teórico “não se cansava de lembrar a raiz da

palavra ‘história’ em alemão, Geschichte, sendo Schicht exatamente ‘camada’”.

Baitello Junior (2006, p. 13) chama a atenção para o fato de que a

deposição de camadas e camadas de detritos, entulhos, é o

que nos obriga hoje a nos debruçarmos sobre as ciências

arqueológicas, sobre o passado […] e sobre o lixo soterrado,

como material valioso para a compreensão do presente.

 

Para o pesquisador, mais do que se preocupar com os estudos dos produtos

e da produção – com vistas a sua melhoria –, como feito atualmente,

uma Teoria das Mediações deveria subverter esta concepção instrumental

de pesquisa e ocupar-se da real dimensão dos meios de comunicação,

a saber, de suas raízes profundas. O pesquisador também enfatiza que

Flusser lembra que entre as ciências arqueológicas estão a Ecologia, a Psicanálise,

a Etimologia, a Mitologia etc. São as ciências que cuidam

de resgatar o passado descartado, desobstruindo o acesso

para uma relação saudável com as origens, esvaziando um

pouco a inflada ubris  do presente. (BAITELLO JUNIOR,

2006, p. 13)

 

 

Baitello ressalta que essas raízes profundas, vitais para a compreensão

da comunicação e dos meios de comunicação no presente, são entendidas

como o tempo profundo na visão de Siegfreid Zielinski, professor de

Teoria dos Media da Universidade Técnica de Berlim. Em Arqueologia da

Mídia , Zielinski (2006) defende que os historiadores dos meios, apesar de

terem tido a chance de descobrir preciosidades descartadas e esquecidas

no refugo, têm-se mostrado negligentes do ponto de vista ideológico e

metodológico, rendendo-se “à idéia do progresso técnico inexorável, quase

natural”. (ZIELINSKI, 2006, p. 18)

 

Para o pesquisador alemão, essa noção evolucionista relaciona-se com

outras suposições, como a história do desenvolvimento da hegemonia

política, a passagem da organização hierárquica para a democrática dos

sistemas, o fundamento lógico da economia e a necessidade absoluta de

artefatos técnicos simples para o desenvolvimento de sistemas tecnológicos

complexos. Por isso, afirma que “em essência, tais genealogias são fábulas

confortantes sobre um futuro brilhante, onde tudo que já existiu está

subjugado à noção de tecnologia como um poder para ‘banir o medo’ e

como ‘força motora universal’”. (ZIELINSKI, 2006, p. 19)

Esta busca do novo no velho, sugerida por Zielinski, pode ser trabalhosa

e, certamente, demandar uma visão generalista mais do que especialista,

como muito aprecia parte da academia contemporânea. Contudo, com

dedicação e sorte, pode levar a resgates interessantes. Um destes aspectos 

que analisaremos em seguida é a questão do tempo profundo, que permite

a um repórter um mergulho de grande alcance na realidade.

 

Tempo profundoorigens do conceito

 Segundo Zielinski (2006, p. 20), na transição do século XVIII para o XIX,

a noção de que a Terra era muito mais antiga do que se supunha até então

despertou interesse nos círculos burgueses, num momento de incerteza

territorial em que as próprias “fronteiras nacionais eram redesenhadas em

intervalos cada vez menores”. Ao longo dos séculos posteriores, a escala

cronológica do planeta passa a ser estimada dos 6 mil a milhões de anos,

sendo que hoje a datação aceita é a de 4.6 bilhões de anos.

 

Um dos naturalistas responsável pela implantação desta noção de tempo

geológico profundo foi o escocês James Hutton (1726–1797). Nascido

em uma próspera família de negociantes e envolvido na venda de

compostos químicos, Hutton era também dotado de grande curiosidade

intelectual e dispunha de recursos financeiros para realizar pesquisas

e as viagens necessárias. Como era comum na época, ele se tornou um

geólogo independente, isto é, sem filiar-se a nenhuma instituição. Seus

achados empíricos, que descreviam a evolução da Terra como um processo

dinâmico baseado em erosões, sedimentações e soerguimento de camadas

tectônicas, seguidos novamente de erosões, foram publicados em

Theory of the Earth, de 1778, posteriormente ampliado na segunda edição.

O conceito de tempo profundo e, consequentemente, da história da

vida, demanda uma compreensão temporal que pode ser desconcertante.

Zielinski (2006, p. 21) cita o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-

2002), da Universidade de Harvard, que afirmava que “a idéia de tempo

profundo geológico é tão estranha para nós que apenas podemos entendêla

como metáfora”.

 

E qual seria a aplicação prática deste conceito do tempo profundo no

jornalismo contemporâneo, num contexto em que as práticas da área – e,

convenhamos, muitos dos estudos – estão marcadas pela superficialidade

e pela fragmentação? Ainda segundo Zielinski, o livro Basin and Range,

do estadunidense John McPhee (1981), introduz o conceito de tempo

profundo no jornalismo. Ora, ao citar McPhee o docente de Teoria dos

Media alemão estabelece um diálogo com outra área de pesquisa importante:

o Jornalismo Literário, no sentido de uma pesquisa temática

verdadeiramente profunda que deleite pela redação primorosa, inspirada

em elementos da escritura literária. (MARTINEZ, 2010, p. 26)

 

Antes de avaliarmos suas contribuições, no entanto, falemos de

McPhee. Nascido em 1931, o jornalista estadunidense é considerado um

dos pioneiros da não-ficção. Sua carreira começou na revista

Time e, de 1965 até os dias atuais, é colaborador da

The New Yorker. Em 1999, ganhou o

Pulitzer Prize de não-ficção por Annals of the Former World. Graduado

pela Universidade Princeton, ele é docente de escrita naquela instituição,

tendo ensinado gerações de escritores, como David Remnick, também

ele ganhador de um Pulitzer e atual editor da The New Yorker. Remnick

(1996, p. xi, tradução nossa), um dos seus pupilos, tece um breve perfil de

McPhee na introdução de The Second McPhee Reader:

 

A reputação de McPhee é substancial, longe de ser secreta.

Ele é um favorito entre outros escritores, o tipo de figura

que é tão bom que está além da inveja, e em anos recentes

vendeu livros suficientes para incitar seu editor a reimprimir

todos seus livros em bonitas séries de brochuras. Seu

clássico sobre o Alasca, Coming into the Country,

e seus quatro livros sobre geologia estão entre seus best-sellers. Ainda

 assim, a reputação de McPhee deveria ser ainda maior. Enquanto

 muito do Novo Jornalismo dos (anos) 1960 e 1970

 parece artificial ou histérico em releituras, o trabalho de

 McPhee tem a qualidade da permanência.1

 

Para efeito de ilustração, empregamos um trecho da abertura do livro

Basin and Range McPHEE (1996, p. 97-98) em tradução livre de Edvaldo

Pereira Lima (2008, p. 363), docente e pesquisador em Jornalismo

Literário:

 

Os pólos da Terra se moveram. O Equador mudou de lugar,

aparentemente. Os continentes, pousados em suas

placas, já foram carregados para tão longe e são deslocados

em tantas direções, que parece um ato de quase arrogância

afirmar que um certo lugar conhecido do nosso mundo

está situado a 73 graus, 57 minutos e 53 segundos de

longitude a oeste e a 40 graus, 51 minutos e 13 segundos

José Eugenio de Oliveira Menezes e Monica Martine z

 de latitude norte – uma descrição temporária, na melhor

das hipóteses, como a de um barco no mar. Contudo, essas

coordenadas o trarão – até o que se pode considerar como

futuro previsível – com absoluta precisão à rampa oeste da

Ponte George Washington. Nove da manhã. Um dia de semana.

O tráfego é uma aula grosseira de física de partículas.

Ele arrebenta, como enxurrada, vindo de suas fontes alimentadoras

em Chicago, Cheyenne, Sacramento, passando

pelos altos atalhos escuros da soleira – ou sill – conhecida

como Palisades Sill. Uma jovem, a pé, é pressionada contra

o muro de rochas pelo ribombo das jamantas – Com

Weimar Bulk Transportation, Fruehauf Long Ranger.

O rosto é nórdico, os olhos são marrons escuros e latinos –

heranças de avós dos extremos da Europa. Ela usa botas de

montanhas, jeans. Carrega um martelo de geólogo. O que

os caminhoneiros parecem notar, porém, é sua juventude,

sua longa cabeleira norueguesa dourada; e eles flertam com

ela apertando as buzinas que soam como agulhas em seus

ouvidos. O nome dela é Karen Kleinspehn. Ela é geóloga,

estudante de pós-graduação prestes a terminar o doutorado

e não tem nenhuma dúvida que ela e a estrada e a rocha sob

os seus pés, e a ponte enorme e sua espantosa cidade – aliás,

quase todo o Canadá e os Estados Unidos continentais e

o México, para completar – estão majestosamente movendo-

se em direção aos caminhões. Ela não veio aqui, porém,

para avaliar os movimentos tectônicos, embora Deus sabe

que ela poderia, já que o “sill” é, em teoria, uma prova dos

eventos que criaram o Atlântico.2

 

Para Lima (2008, p. 365), “a soberba abordagem de McPhee a um tema

aparentemente tão intragável como esse começa em território distante

do mundo conhecido da maioria dos leitores: a deriva dos continentes”.

O que poderia eventualmente parecer chato e distante a um leitor não

iniciado nas artes da Geologia, se apresentado com os jargões da área,

ganha matizes da era da incerteza.

 

Imediatamente, porém, o autor traduz o que isso significa:

é um milagre – senão arrogância – utilizarmos com precisão

uma invenção humana disseminada como absolutamente

verdadeira nos bancos escolares, impregnada na nossa

cultura como certeira, aceita sem questionamento.

 

Finalmente, analisa Lima, McPhee (1966 apud LIMA 2008, p. 365)

integra a questão ao cotidiano do leitor:

Essa invenção, a das coordenadas geográficas, é o cartão

de visitas que John nos apresenta. Através dela, quase sem

perceber, somos conduzidos para um ponto específico do

nosso planeta, numa certa manhã, e colocados diante de uma

ponte que recebe um fluxo contínuo e pesado de carros.

Nesta intersecção entre ciência e narrativas contemporâneas, Cremilda

Medina lembra que “a ciência é um sistema de dúvidas; a ideologia,

certezas. O diálogo entre saberes especializados e sabedorias humanas

favorece a posição científica da dúvida”. (MEDINA, 2003, p. 56)

Finalmente, Lima (2008, p. 365) chama a atenção para a maestria da

escrita de McPhee na construção de cenas:

 

Como um cineasta habilidoso ao começar um filme de longa

metragem, McPhee vai descortinando com maestria o

cenário que nos aguarda, gradativamente guiando o nosso

olhar para os elementos que o compõem. Os veículos

trafegam sobre uma base de rochas e ali, inesperadamente,

nos deparamos com uma bela mulher batendo martelo

em pedra, indiferente às provocações dos caminhoneiros

que passam, mas não imune ao barulho ensurdecedor do

ambiente. A loira atraente é a narradora da história que o

autor tem a contar, onde o pequeno e o grande, o perto e o

distante, o antigo e o novo integram-se como num processo

interativo dinâmico e esclarecedor. De súbito, aquele mundo

da história geológica e termos difíceis já não é mais estranho.

Faz sentido para o aqui e o agora. Descobrimos belezas

insuspeitas. E entendemos, especialmente se conhecemos

Nova York e New Jersey, o laborioso trabalho construtivo

da Natureza oculto nos penhascos que dão um charme todo

especial ao panorama descortinado da ilha de Manhattan.

 

O tempo profundo, claro, não é o único na compreensão da realidade,

ainda que seja o mais esquecido atualmente. O historiador francês Fernand

Braudel (1902-1985), um dos expoentes da Nova História Francesa

3, defende a ideia de que, no mar, há três camadas históricas e não apenas

uma única. Segundo esta ideia, a superfície representaria os acontecimen

tos cotidianos, mais rápidos e buliçosos; o leito do mar representaria as

décadas, que mudam mais lentamente e, portanto, são mais fáceis de serem

percebidas pelo sujeito histórico; já as profundas camadas marítimas,

abissais, representam as grandes transformações sociais que levam séculos

ou mesmo milênios para ocorrerem e, consequentemente, serem notadas.

O historiador francês sintetiza sua visão: “Assim chegamos a uma decomposição

da história em planos escalonados. Ou, se quisermos, no tempo

da história, de um tempo geográfico, de um tempo social, e de um tempo

individual”. (BRAUDEL, 1978, p. 15)

 

Norval Baitello também ressalta a relevância deste tempo em relação

à escrita: “O tempo lento da escrita é o tempo que não apenas permite a

reflexão mas também a retrospecção. E, com isso, abre as portas para uma

outra escrita, a escrita da história”. (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 82-83)

Ou como ele diz em seu livro A era da iconofagia:

Com a escrita e seus precursores (as imagens gravadas sobre

suportes duráveis) impõe-se o homem sobre a morte e seu

tempo irreversível, vencendo simbolicamente seu maior e

mais poderoso adversário. O grande trunfo da escrita não

é a velocidade, mas a lentidão que permite cifrar e decifrar

enigmas. O tempo lento da escrita e da leitura permite alongar

a percepção do tempo da vida.

 

A aplicação desta noção do tempo profundo, lento, contudo, demanda

outro aporte teórico para sua compreensão e prática: a cultura do ouvir.

 

O som na práxis e reflexão jornalísticas

 Para percebermos as perspectivas da cultura do ouvir no contexto da

área da Comunicação, bem como suas aplicações possíveis, é vital estudarmos

a questão do som. No desenvolvimento do ser humano, por exemplo,

o ouvir é o sentido que primeiro se manifesta. Para compreender a

importância do ouvir na perspectiva ontogenética, Christoph Wulf, do

Centro Interdisciplinar para Antropologia Histórica da Universidade Livre

de Berlim, explica que já aos quatro meses e meio o feto tem condições

de reagir a estímulos acústicos, uma vez que o ouvido se desenvolve antes

da vista. Segundo ele, o ouvir é condição prévia para que se desenvolvam

os sentimentos de segurança e pertencimento. “No ambiente sonoro,

muito antes das palavras com significados específicos, um bebê percebe o

timbre da voz, o seu tom, a sua articulação, fundamentais na relação com

os interlocutores”. (WULF, 2002)

 

A repetição de determinados sons do ambiente familiar, em formas de

ritos sempre renovados, com os mesmos rumores e os mesmos tons de

voz, favorece a ambientação do bebê em uma rede de sons. Na escuta de si

mesmo e na escuta do outro, “o ouvido desenvolve um papel fundamental

na constituição da subjetividade e da sociabilidade”. (WULF, 2002, p. 463)

As repetições linguísticas ritualizadas e articuladas em ritmos, bem como

as imitações dos sons conhecidos, estimulam a capacidade mimética.

Segundo Wulf (2002, p. 463), através de variações imitativas o bebê

começa a falar e a compreender; com a possibilidade de se “fazer ouvir,

adquire uma nova competência social graças a qual sua personalidade pode

se desenvolver”. (MENEZES, 2008, p. 162)

 

A questão do som é tão poderosa na espécie humana quanto na formação

de um indivíduo. Tanto que encontramos ecos fortes das experiências

sonoras provindos do plano do mito. O mais conhecido, talvez, seja o mito

bíblico da criação narrado no primeiro capítulo do Gênesis. A narrativa

convida o leitor a cultivar a memória de que Deus, no espaço de seis dias,

cria paulatinamente todo o universo, concluindo com o ser humano criado

à sua imagem e semelhança.

 

O mito associado ao som que aqui se destacará é relacionado a este

poderoso processo criativo narrado pelo mitólogo estadunidense Joseph

Campbell (2000, p. 122-123):

 

Uma das mais surpreendentes imagens de amor que eu

conheço é persa – uma representação mística persa de Satã

como o mais leal amante de Deus. Vocês devem ter ouvido

a velha lenda de como, quando Deus criou os anjos, ele

ordenou que não prestassem culto a mais ninguém exceto a

ele próprio; mas então, ao criar o homem, ele lhes ordenou

que se curvassem em reverência a essa que era a mais

nobre de suas obras, e Lúcifer recusou-se – como sabemos,

devido ao seu orgulho. No entanto, de acordo com essa

leitura muçulmana, sua atitude foi devida ao fato de amar

e adorar Deus tão profunda e intensamente que ele não

podia inclinar-se diante de mais nada. E é por isso que ele

foi lançado no Inferno, condenado a existir ali para sempre,

apartado de seu amor.

Ora, diz-se que de todas as dores do Inferno, a pior não é

o fogo nem o mau cheiro, mas a privação eterna da visão

beatífica de Deus. Quão infinitamente doloroso, pois, deve

ser o exílio desse grande amante, que não poderia levá-lo

nem mesmo sob o comando da própria palavra de Deus,

a inclinar-se perante qualquer outro ser!

Os poetas persas perguntaram: “Por qual poder Satã é sustentado?”

E a resposta que encontraram é esta: “Pela memória

do som da voz de Deus quando ele disse: “Afaste-

se”. Que imagem dessa intensa agonia espiritual que é,

simultaneamente, o êxtase e a angústia do amor!

 

Na dimensão mítica, portanto, o som da expressão “Vá para o inferno”

é tão poderoso que sustenta nas trevas a vida do inimigo do mais destacado

personagem da mitologia do Oriente Próximo.

 

Na passagem da mentalidade mítica para a histórica, há paulatinamente

um esvaziamento do poder na transmissão oral da narrativa em detrimento

da escritura, da mesma forma que houvera antes um esvaziamento do

conteúdo religioso na esfera dos mitos. Em A Letra e a Voz, o historiador

literário e medievalista suíço Paul Zumthor (1993, p. 155) estuda o

fenômeno:

 

Até por volta do século XII, a escritura é o único veículo

do saber mais elevado: o poder passa pela voz. A partir dos

séculos XII e XIII, a relação se inverte: ao escrito, o poder; à

voz, a transmissão viva do saber. Mas na virada dos séculos

XV e XVI, ou até XVI e XVII, nenhum desses dois feixes

de forças e de valores conseguiu eliminar inteiramente o

outro. Não se pode deixar de estar aí a poesia comum a todas

as redes de comunicação constitutivas de um estado da

cultura.

 

O valor do som, no entanto, parece diminuído desde então, no contexto

da sociedade da imagem. Na visão de Baitello Junior (2005, p. 99):

 

Se fizermos uma avaliação sobre o que vale mais hoje: a palavra

ou o documento? O que custa mais caro, a televisão

ou o rádio? O que tem maior valor, o que se fala ou o que

se publica? – em todas as esferas da atividade e da cultura

contemporâneas detecta-se um predomínio do visual sobre

o auditivo. Na vida e no trabalho acadêmico, tem mais peso

quem escreve um livro do que quem dá bons cursos.

Os sistemas de avaliação são todos fundados sobre a escrita,

que pertence ao reino da visualidade, a mesma escrita

que nasceu das formas mais arcaicas de conservação de

informação. […]

 

A cultura e a sociedade contemporâneas tratam o som como

forma menos nobre, um tipo de primo pobre, no espectro

dos códigos da comunicação humana. Por isso a minha

pergunta se não estamos nos tornando surdos intencionais?

Surdos que ouvem. Surdos que têm a capacidade de ouvir,

mas que não querem ouvir, não tem tempo ou então não

dão atenção ao que ouvem? Literalmente não dão ouvidos

ao que de fato ouvem?

 

Baitello Junior defende que na contemporaneidade estamos assolados

pela cultura do ver, imersos numa era da iconofagia, em que o sentido

da visão está tão sobrecarregado de imagens que paradoxalmente não

mais conseguimos enxergar a realidade à nossa frente. Segundo ele, há

a demanda de se resgatar “uma nova cultura do ouvir. E de uma outra

temporalidade. E de um novo desenvolvimento da percepção humana

para as relações profundas, para os nexos profundos, para os sentidos e

para o sentir”. (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 109)

 

O trabalho do jornalista Nelson Araújo

 

Haveria, portanto, algum espaço mediático ou algum profissional contemporâneo

nos ambientes audiovisuais, ocupado não apenas com suas

instâncias mais superficiais, mas igualmente com esta contraparte jornalística

profunda, que engloba tanto o contexto teórico da cultura do ouvir

quanto o instrumental técnico das entrevistas de profundidade? Temos experiências

relevantes de entrevistas dialógicas, como estudadas e praticadas

laboratorialmente por Cremilda Medina (1990)?

 

Depois de dois anos de investigações (MARTINEZ, 2009; 2010) sobre

a temática, observamos o exemplo do jornalista Nelson Araújo, do programa

Globo Rural, enquanto uma produção de excelência que se insere

no escopo acima.

 

Araújo é paulista da cidade de Ribeirão Preto, tendo nascido em 20 de

novembro de 1951. É o primogênito de uma família de agricultores, tendo

tido desde cedo contato com o campo. Começou a trabalhar aos oito anos.

Sou fruto da primeira geração de bóias-frias criada em 1945

quando os fazendeiros dispensaram muitos trabalhadores

rurais devido às leis trabalhistas criadas pelo então presidente

Getúlio Vargas. Meu pai arranjou emprego de leiteiro e eu

acordava às duas da manhã para ajudá-lo a entregar leite em

Ribeirão Preto. (ARAÚJO, 2010)

 

Em 1967, com 16 anos, por conta de sua bela voz, de seu amor à música

e pela necessidade financeira, conseguiu seu primeiro emprego, como

locutor de noticiário em uma emissora de rádio local. Formou-se em

Letras e no início dos anos 1970 já trabalhava em um jornal de sua cidade

natal. Neste época, como ele diz, “foi atropelado por um fenômeno que se

instalou no jornal concorrente: a equipe formada por Zé Hamilton Ribeiro

e Sérgio de Souza, ex-jornalistas da revista Realidade, que buscavam no

interior do Estado espaços mais livres de atuação que não encontravam

na capital premida pela ditadura militar.” Ao redor de 1976, atuou como

assessor de imprensa na prefeitura municipal de Ribeirão Preto. Não

gostou. “Pude ver toda a sordidez do mundo político”. Arriscou-se na

vida de docente em curso de jornalismo em Bauru, ensinando semiótica

por meio de livros como Análise Estrutural da Narrativa do francês Roland

Barthes. “Mas achava aborrecido ter de repetir as aulas e dava um trabalhão

preparar material novo para cada uma delas”.

 

Em 1980, depois de ter atuado como repórter, redator e correspondente de

jornais como O Globo, foi convidado a trabalhar na Rede Globo de Televisão,

fazendo reportagens para vários telejornais. Encantou-se. “A câmera é um

instrumento poderoso, pois permite desenvolver várias linguagens: a gestual,

a musical, a visual, a gráfica, até a do silêncio”. A carreira universitária foi

deixada de lado, mas o telejornalismo cotidiano ainda não era o que queria.

“Não é de minha natureza ficar apontando defeitos”.

 

Em 1986 foi transferido para a TV Globo de São Paulo e, quatro anos

depois, para o programa Globo Rural. “Tive a felicidade de que aqui minha

carreira ganhou um trilho”. Humberto Pereira, editor-chefe do programa

desde que foi criado, em 1980, diz em depoimento concedido por correio

eletrônico, que Nelson Araújo é um artesão. “Como jornalista, nasceu

artesão e vai morrer artesão. Justamente no Globo Rural ele tem campo

para exercer essa virtude”.

 

Do ponto de vista da práxis jornalística, este trabalho artesanal é dividido

em três partes: a seleção cuidadosa da pauta, a coleta de informações e

a edição do material. Durante a seleção da pauta, amparado em muita

pesquisa, ele busca manifestar suas visão sobre um dado tema. “O

Globo Rural não é um programa de debates, mas posso dizer o que penso por

meio das minhas matérias”. Aprovada a ideia, parte para a colheita de

informações, quando vai a campo. Nesse momento, segundo suas palavras,

ele é o “repórter curioso, enxerido”. Quem está acostumado com suas

reportagens percebe que ele ouve com extrema atenção seu interlocutor,

estabelecendo um diálogo profundo com suas fontes. Uma vez bateu em

retirada, como se diz na linguagem do interior paulista, ao notar que um

fazendeiro estava humilhando um funcionário. Não ficou para conferir

o resultado. Justificou-se e simplesmente partiu com a equipe. Quando

volta à redação, torna-se o editor que procura dar corpo e consistência

ao material colhido. “Tem gente que trabalha com um modelo. Eu não

consigo fazer assim. A reportagem vai me dizendo o que ela é – não parto

de nada pré-concebido”.

 

A edição criteriosa do material é parte integrante de seu método de

construção da reportagem. Em uma pequena sala na redação, ele assiste

os CDs gravados com as entrevistas e transcreve cuidadosamente fala

por fala para o papel. Ao final, tem uma apostila com, dependendo do

material apurado, cerca de cem folhas digitadas, que manda encadernar

com espiral. A partir daí, para montar a matéria, Araújo não volta mais à

gravação original, recorrendo apenas à sua apostila.

 

Faz parte do modelo do programa uma apresentação prévia da reportagem

editada para toda a equipe, na quarta-feira que antecede o

domingo no qual será veiculada. Neste momento, críticas e sugestões são

incorporadas. Não há unanimidade, em particular no quesito que o torna

tão único no jornalismo brasileiro: o uso de poesia nas reportagens.

 

Como se sabe, a escolha da palavra exata faz toda a diferença na construção

poética. A também jornalista Maria Antonia Demasi (2010), hoje

na TV Gazeta, com quem Nelson está unido há mais de 20 anos, conta

que Araújo escreve suas reportagens em casa. Ao redigi-la, ele mune-se

de vários dicionários, procurando neles as palavras perfeitas. Caso sinta-se

bloqueado, recorre ao violão – que, segundo ela, toca muito bem. Embora

não se considere um poeta, ele explica que não se trata de usar o verso pelo

verso. Além da sensibilidade pessoal, também há técnica ali. “Descobri que

a sonoridade da redondilha maior, de sete sílabas, fica perfeita no vídeo”.

Redondilhas, é melhor explicar, são estrofes de quatro versos, onde o

primeiro rima com o último e o segundo com o terceiro.

 

Finalmente, Araújo defende que uma das funções do repórter é propiciar

ao telespectador um repertório para que ele entenda melhor o

tema e, para isso, quanto maior a bagagem do jornalista sobre o universo

abordado, mais fácil será explicá-lo para os interlocutores que assistem o

Globo Rural

 

A reportagem especial buriti

 

Do ponto de vista empírico, o corpus deste trabalho é Buriti, reportagem

especial que ocupou os quatro blocos do programa da edição comemorativa

de número 1500, exibida em 22 de março de 2009. No contexto da televisão,

trata-se de um espaço enorme, quase 1 hora, neste sentido sendo maior do

que muitos documentários contemporâneos.

 

O motivo da escolha é o pioneirismo da reportagem, que mescla prosa

e poesia. O autor já havia cometido a ousadia tempos antes, em 1991, em

outra reportagem televisiva, O Pequinizeiro, também narrada em versos.

Entendemos que a reportagem pode ser considerada uma experiência

do que acima estudamos como tempo profundo. Faz parte da proposta

do programa Globo Rural a contextualização caprichada. Logo de início, o

repórter cumpre sua função de relatar as origens históricas e geográficas

do tema.

 

O buriti é uma palmeira nativa das Américas Central e do Sul. No Brasil,

ele ocorre, basicamente, na região de cerrado. Tem larga distribuição

por dez estados do Brasil Central, Centro-oeste e parte do Sudeste.

 

Além da grande importância econômica e social, o buriti é vital para a

vereda, o caminho das águas no sertão. (ARAÚJO, 2009a)

Em seguida, Araújo usa da poesia para situar a localização das veredas

ao telespectador: “Prende a suspiração / Cena assim tão linda / Palmeira

que não se finda / Em 40 quilômetros de extensão. Esta é a vereda do gibão

/ Quase no ponto do mapa / Em que três Estados dão a mão. Minas, Goiás

e Bahia / Onde o cerrado enfeita o chão”. (ARAÚJO, 2009a)

 

Depois de sabermos que o local abordado encontra-se no norte de

Minas Gerais, onde o Estado está mais próximo da Bahia, Araújo insere a

entrevista do professor Altair Barbosa, da Universidade Católica de Goiás,

campus de Goiânia, que há 40 anos estuda o cerrado. Araújo mergulha no

tempo geológico para explicar a complexidade ambiental do fenômeno das

veredas:

 

A aula é sobre os depósitos subterrâneos de água chamados

de aqüíferos. Os principais são o Guarani, o Urucuia

e o Bambui. Eles se encontram no coração do cerrado, a

quina do telhado no Planalto Central. Da vertente sul, brotam

as águas da bacia Paraná; a leste, as que alimentam o

São Francisco; ao norte, os que alimentam parte da Bacia

Amazônica.

Formados há milhões e milhões de anos, os aqüíferos são

continuamente reabastecidos pelas chuvas. O solo poroso

do cerrado facilita a infiltração. Cheio, o aqüífero vaza pelas

nascentes, garantindo a água dos rios mesmo no longo

período seco. E a água iria embora rapidamente se não

fosse uns reguladores, umas válvulas com que a natureza

presenteou o cerrado: são as veredas. Essas áreas alagadiças

onde se destaca o palmeiral […]

‘Os buritizais e as veredas são basicamente da mesma idade

do cerrado, ou o capítulo inicial da história do cerrado’,

explica Altair Barbosa, professor da Universidade Católica

de Goiás.

Segundo o professor Altair, essa espécie de buriti das veredas,

que leva o nome científico de “mauritia flexuosa”, pode

estar no grupo dos seres vivos mais antigos do planeta. Viria

lá da remota, longínqua da formação do cerrado.

‘O buriti, junto com as veredas, começaram a se formar por

volta de 65 milhões de anos’, diz o professor. (ARAÚJO,

2009a)

 

À semelhança do jornalista estadunidense John McPhee, tampouco

Araújo emprega jargões complicados. Antes, usa vocabulário próprio do

público que tão bem conhece: “Imagine se o país / feito uma casa de morar

/ tivesse telha assim em quina / modo da água escoar / pois isso que nos

fascina / daqui dessas alturas / tem função de cobertura / é um gigantesco

cantil. Esta é a cumeeira do Brasil”. (ARAÚJO, 2009a)

 

À descrição botânica acresce-se o charme da oralidade regional:

O buriti é de crescimento lento. Se alça do chão não por

um caule, mas, pelas folhas. Pode passar anos para soltar

o tufo de folhagem, primeiro; e levar décadas para expor

todo o tronco e frutificar. Alcança altura média de vinte

e cinco metros. Na coroa do poste, abre as palmas, um

leque gracioso que dá vida à brisa. Às rajadinhas suaves que

encanam na vereda um murmúrio como se fosse de praia.

O coquim do buriti / você já viu um mais / bonitim?

Redondo pro ovalado / tem escama de desenho quadriculado

/ polpa amarela e o caroço amendoado / a castanha que é um

banquete / pros bichos do cerrado.

Buriti é morada / ponto de passagem, de espreita / esconderijo,

restaurante de uma fauna numerosa / especialmente, os

que voam / os papagaios, as maritacas / a maracanã, a jandaia,

a cacué.

E, principalmente as araras / tanto a azul, como a vermelha,

e a Canindé.

Pros bichos que andam no chão / Vereda não é um ambiente

fácil de se entrar, não. (ARAUJO, 2009a)

 

No segundo bloco da reportagem, Araújo assume a “ousadia de tratar

em verso e prosa de um assunto que virou arte nas mãos de João Guimarães

Rosa” (1908-1967), referindo-se, como não poderia deixar de fazer, ao

escritor mineiro autor de

Grande Sertão Veredas.

Infelizmente nem tudo é poesia nesta reportagem. É com visível desolação

que Araújo ouve respeitosamente os causos da destruição das

198 _

Jornalismo e tempo profundo: o trabalho de Nelson Araújo no

Globo Rural

 

veredas,

alavancada na década de 1970 pela política governamental de

ocupação do território, que incentivava o plantio de eucaliptos na área.

E das incongruências na vida do pequeno proprietário local, que vive em

condição de miséria por não poder estabelecer bases autossustentáveis

com o buritizal – sequer tirar folhas verdes para cobrir o telhado, como

seus antepassados faziam. Neste sentido, o jornalista, pró-ativo, entrevista

Rômulo Melo, presidente do Instituto Chico Mendes, que confessa que

neste caso da cobertura “não é necessária uma autorização”. Não fica claro,

no entanto, se o pequeno proprietário teve acesso a esta informação que

melhoraria sua vida. O jornalista finaliza a reportagem especial:

Um grande diz que diz vamos ter com certeza para que as

regras do país levem em conta a natureza tanto da nossa

pobreza e riqueza como dos nossos buritis. Assim, quem

sabe, um dia possa o Grande Sertão: Veredas ter um final

feliz. (ARAÚJO, 2009d)

 

Fica a impressão de que o tempo histórico e social seja ainda insuficiente

para apresentar um relato de preservação ambiental e proteção social, como

uma vida mais digna para os moradores da área. Talvez, neste caso, apenas

o tempo mais extenso e geológico, o denominado tempo profundo, para

propiciar o amadurecimento dos elementos envolvidos, trazendo com ele

a consciência da importância de uma visão mais clara e ações concretas

tanto para o cenário narrado na reportagem como para o aperfeiçoamento

das reportagens na contemporaneidade.

 

Considerações finais

 

No contexto contemporâneo, como observamos no início deste trabalho,

marcado pela extrema velocidade na apuração e consequente risco

de superficialidade nas reportagens, a atuação de Nelson Araújo como

repórter “curioso e enxerido” ou como “jornalista que nasceu artesão e vai

morrer artesão” merece atenção especial.

Sua postura de escuta atenciosa dos protagonistas das reportagens

permite a construção de cenários sonoros e imagéticos que cultivam o

tempo lento e profundo, vão muito além de simples descrições repletas

de imagens captadas sob regime de urgência e prontas para consumo.

Seu trabalho possibilita, diante da televisão ou dos vídeos disponíveis

na internet, o envolvimento criativo dos interlocutores, muitas vezes

ainda limitadamente chamados de telespectadores, em cenários sonoros

e imagéticos que entrelaçam a postura profissional dos que produzem a

reportagem com os saberes ou sabedorias dos protagonistas entrevistados.

O jornalista, que cautelosamente assiste a todos os CDs gravados durante

a reportagem para dar corpo e consistência ao material colhido,

inspira-se, como observarmos, também em elementos da escritura literária

e redige primorosamente seus textos. Seu trabalho, como na reportagem

Buriti, indica que mesmo no atual contexto de velocidade na produção

de reportagens, há espaço na televisão brasileira para experiências que

possibilitam o acesso ao tempo profundo.

 

Notas

 

1 Mchee’s reputation is substantial, far from a secret. He is a favorite of other writers,

the sort of figure who is so good that he is beyond envying, and in recent years he

 has sold enough books to compel his publisher to reissue all his books in a handsome

 paperback series. His classic account of life in Alaska,

 Coming into the Country,

and his

four books on geology are among his best-sellers. All the same, McPhee’s reputation

 should be greater still. While much of the New Journalism of the sixties and seventies

 has long felt mannered of hysterical in the rereading, McPhee’s work has the quality

 of permanence.

 

 2 

The poles of the earth have wandered. The equator has apparently moved. The

continents, perched on their plates, are thought to have been carried so very far and to

 be going in so many directions that it seems in act of almost pure hubris to assert that

 some landmark of our world is fixed at 73 degrees 51 minutes and 53 seconds west

 longitude and 40 degrees 51 minutes and 14 seconds north latitude – a temporary

 description, at any rate, as if for a boat on the sea. Nevertheless, these coordinates

will, for what is generally described as the foreseeable future, bring you with absolute

 precision to the west apron of the George Washington Bridge. Nine A.M. A weekday

 morning. The traffic is some gross demonstration in particle physics. It bursts from its

 confining source, aimed at Chicago, Cheyenne, Sacramento, through the high dark

 roadcuts of the Palisades Sill. A young woman, on foot, is being pressed up against

 the rockwall by the wind booms of the big semis – Con Weimar Bulk Transportation,

 Fruehauf Long Ranger. Her face is Nordic, her eyes dark brown and Latin – the

 bequests of grandparents from the extremes of Europe. She wears mountain boots,

 bluejeans. She carries a single-jack sledgehammer. What the truckers seem to notice,

 though, is her youth, her long bright Norwegian hair; and they flirt by air horn,

driving needles into her ears. Her name is Karen Kleinspehn. She is a geologist,

a graduate student nearing her Ph.D., and there is little doubt in her mind that she

and the road and the rock before her, and the big bridge and its awesome city – in

fact, nearly the whole of the continental United States and Canada and Mexico to

boot – are in stately manner moving in the direction of the trucks. She has not come

here, however, to ponder global tectonics, although goodness knows she could, the

sill being, in theory, a signature of the events that created the Atlantic.

3 A Nova História Francesa também é conhecida como Escola dos Annales

por estar ligada ao periódico académico Revue des Annales

. A “escola” incorporou métodos de outras áreas das Ciências Sociais como a abertura para os depoimentos orais em adição aos documentos escritos ou oficiais e questinou o foco nas elites e nos conflitos geopolíticos.

 

 

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______. Buriti: parte 3.

 

 

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______. Buriti: parte 4.

 

 

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3 mar. 2009d. Disponível em:

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BAITELLO JUNIOR, Norval. Siegfrid Zielinski, a escavação do tempo

 

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A cidade mais alemã do Brasil

02/09/2011 às 13:58 | Publicado em Jornalismo Literário, Narrativas de Viagem, Textos de alunos, Turma do Curso de Jornalismo Literário, Turmas do Curso de Redação Criativa | 8 Comentários
O estilo enxaimel, destaque da cidade

 Pomerode é linda! A cidade foi fundada em 1861, quando algumas famílias vindas da província da Pomerânia, no norte da Alemanha, se instalaram ao longo do rio do Testo, no médio Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Quando o Campeonato Mundial de Futebol foi sediado pela Alemanha, em 2006, muitas reportagens aconteceram também nesse encanto de lugar.

 Desmembrada de Blumenau em 1959, Pomerode mantém o fascínio de uma pequena comunidade, com pouco mais de 25 mil habitantes. A forte influência alemã se preserva em seus costumes, como a dedicação ao trabalho, o respeito à fé religiosa, as sociedades de caça e de tiro, as danças folclóricas, as bandinhas e as delícias culinárias que só são encontradas na cidade.

 A arquitetura enxaimel é um destaque à parte. Nesta técnica de construção, as paredes são feitas com hastes de madeira encaixadas, sendo que os vãos resultantes são preenchidos por pedras ou tijolos. A famosa Rota do Enxaimel, o maior acervo de edificações nesse estilo fora da Alemanha, consiste de 70 casas ao longo do trajeto de paisagem bucólica, que torna o passeio pela região inesquecível.

 A maioria dos moradores fala em alemão, língua que também é ensinada nas escolas. Isso fez com que durante o último Censo, realizado em 2010, o recenseador tivesse de falar e escrever com desenvoltura o idioma para realizar bem o seu trabalho. Por isso, ela é sempre referida como a cidade mais alemã do Brasil! Muitas das pessoal da melhor idade que moram lá, aliás, falam, e muito mal!, o português. Tanto que desenvolveram um dialeto próprio, o Plattdeutsch, falado até hoje principalmente quando os mais velhos querem falar a respeito de algo que os filhos não podem saber.

 É nesse pedacinho germânico que moram meus sogros, cunhados e toda a família do lado materno do meu marido. Seu avô, Rodolpho Achterberg, e sua avó, Anna Achterberg (que dá nome a rua onde toda a sua família mora), nasceram ali e ajudaram na colonização de Pomerode. Minha sogra, Lisellotte, conta que na época da Segunda Guerra Mundial eles precisaram queimar muitos livros para fugir às perseguições feitas aos judeus. Por isso, tornaram-se luteranos. É por isso que na cidade é mais comum ver igrejas dessa religião do que católicas ou evangélicas.

 Pomerode possui um parque industrial bem diversificado, com destaque para indústrias de confecção e porcelana, como a Karsten e a Porcelanas Schmidt.

 Bem ao lado de Blumenau, a cidade recebe muitos turistas por ocasião da Oktoberfest e também no mês de janeiro, durante a Festa Pomerada, que dura o mês todinho. Se for para lá nessa época, poderá apreciar a música de bandinha tradicional, bailes, danças folclóricas e gastronomia típica. Também há concursos de culinária e competições tradicionais da antiga Pomerânia, com destaque para a Exposição Agro-Industrial. Em julho tem a Festa do Rei do Tiro Municipal e, em novembro, a da Rainha. Em alguns dos 16 clubes, as festas do Rei e da Rainha do Tiro Municipal são realizadas nos fins de semana.

 Gostosuras pomeranas

Meus sogros e minha cunhada moraram praticamente a vida toda aqui em São Paulo, com uma ida para lá por ocasião da doença da avó do meu marido. Por isso, desde sempre, pude conhecer as delícias de Pomerode: a linguiça defumada feita de maneira artesanal; a cuca alemã, bolo com farofa crocante (a receita está logo abaixo); o Strudel, torta doce, sendo a mais conhecida de maçã, o Apfelstrudel; o Mohn Brötchen, pãozinho redondo polvilhado com semente de papoula; e o Hering Brot, pão de forma com sardinha, margarina e ovo cozido.

 O prato mais tradicional é o marreco recheado, além é claro das especialidades alemãs como as salsichas e o joelho de porco. De sobremesa, a deliciosa torta de ricota. Desde que conheci a feita lá, nunca encontrei outra igual em nenhuma parte do Brasil. E olhe que tenho procurado em toda padaria que entro e até nas melhores delicatéssens paulistanas.

 Estive muitas vezes lá, por ocasião de festas que variavam de batizados, casamentos e confirmações, evento religioso protestante que ocorre por ocasião dos 15 anos do jovem e, por isso mesmo, é feita uma festa à altura da grandiosidade da ocasião, como se fosse uma festa de debutante.

 Em todas vezes, sem exceção, não me preparei para comer tanto (e ai de você se não o fizer! É pior que xingar a mãe de alguém!). Pratos típicos misturam-se a todas as especialidades de carnes de boi, porco, carneiro, frango, marreco e alguns peixes, preparadas de todas as maneiras possíveis, além de todas as guarnições existentes na face da Terra. Cerveja ou chope muito gelado e sucos e refrigerantes também. De sobremesa, um pouco de tudo que a região oferece e mais todas as gostosuras, como tortinhas de morango, bolos de todos os recheios e coberturas e, claro, para completar todas as refeições pomeranas, uma bela e grande xícara de café com leite. Café beeem fraco, que fique claro! Quando vamos para lá, durante as visitas às casas de parentes (temos de ir a todas da Rua Anna Achterberg, sem nos esquecermos de ninguém) eles nos preparam o que chamam de “café de paulista”, mais forte. Amém!

 Cuca da Lisellotte – receita legítima alemã de Pomerode

 Ingredientes

1 xícara (chá) de margarina sem sal

1 xícara (chá) de açúcar

2 ovos – bater as claras em neve

2 xícaras (chá) de farinha de trigo

1 xícara (chá) de leite

1 colher (sopa) de fermento em pó

Modo de fazer

Misture todos os ingredientes na batedeira e as claras em neve por último, até a massa ficar homogênea. Despeje na assadeira untada

 Farofa doce

 Ingredientes

1 xícara (chá) de açúcar

1 e 1/2 xícara (chá) de farinha de trigo

100 gde margarina sem sal

1 colher (sopa) de fermento em pó

Baunilha

Noz moscada

Raspas de casca de laranja

 Modo de fazer

Despeje todos os ingredientes em uma tigela e mistura com as mãos, joga por cima da massa pronta. Asse em forno pré-aquecido por 30 minutos.

Curiosidades pomeranas

  • O bairro onde a família Achterberg mora fica uns 7 Km distante do centro. O ônibus passa em três horários por lá: pela manhã, uma vez e duas à tarde. Perdeu, vá a pé. Ou de bicicleta, um meio de transporte muito comum que, nos últimos anos, vem dando lugar á motocicleta.
  • Ali perto existe uma única mercearia, daquelas à moda antiga, de secos e molhados. Por isso, o padeiro que possui padaria no centro vai até o bairro, chamado de Testo Alto, vez ou outra na semana. Ele dirige uma Kombi antiga, na qual leva de tudo um pouco. É possível também fazer encomendas antecipadas por telefone.
  • Todos os dias, às 5 horas, a “moça do leite” passa pela rua pedalando sua bike. No bagageiro, os litros e mais litros de leite tirados há poucas horas de suas vaquinhas e envazados diretamente para o consumo. Como a maioria das pessoas ainda está dormindo nesse horário, ela deixa o litro cheio em um cachepô, no murinho da varanda, e leva o vazio, devidamente limpo, esterilizado e personalizado.
  • Outro hábito dos moradores, principalmente dessa rua da nossa família, é deixar os sapatos do lado de fora e calçar um chinelo limpo para circular dentro de casa. Isso acontece porque a rua ainda não é asfaltada e, principalmente quando chove, fica tudo enlameado.
  • A maioria das casas não possui portão e um lindo jardim sempre enfeita a entrada.
  • A população é formada por praticamente 90% de pessoas loiras de olhos azuis, mas já se observa a presença de outras mais morenas.
  • A convivência é ótima e a hospitalidade, a despeito de tudo o que se fala a respeito de alemães, é muito calorosa. Se existe um pessoal para lá de animado, são os pomeranos! Tudo é motivo de festa!
  • Todos, sem exceção, ouvem a rádio Pomerode e lêem o jornal da cidade. Teve uma ocasião que fomos para lá de carro, que havíamos comprado na cidade paulista de Sorocaba, onde mora a minha família. Lá pra hora do almoço ouvimos o locutor: “Nossa cidade tem recebido turistas de várias partes do Brasil. Ontem mesmo, na praça da prefeitura (jamais dizem o nome que batiza o local), pudemos observar carros de vários lugares, tinha um inclusive de Sorocaba, interior de São Paulo”. Foi gargalhada geral, e os telefonemas dos familiares se estenderam até a noite.
  • Ah, e o sotaque! É muito bonitinho! Eles jamais pronunciam uma palavra que contenha dois erres, sempre é como se ela tivesse apenas um. O prato típico da região, por exemplo, é ‘mareco recheado e uma garafa de cerveja”… Liebelich!

 Pontos turísticos

  • A arquitetura encanta por todas as partes da cidade. Vale a pena andar a pé, de carro ou alugar charretes em frente ao Jardim Zoológico de Pomerode. A cidade é tão pequena que você não vai demorar nada! Por falar no Zoo, saiba que é um dos mais antigos do Brasil – foi inaugurado em 1932. Atualmente, mantém aproximadamente 600 animais de mais de 120 espécies.
  • Visite o Museu Pomerano, o Museu Ervin Kurt Theichmann e o grande número de construções em estilo enxaimel, todas cuidadosamente preservadas.
  • Conheça a Praça Jorge Lacerda e o Centro de Arte e Artesanato, que expõe e comercializa peças em madeira, palha, pintura em porcelana, bordado, crochê e bonecas típicas, além de geléias, licores e biscoitos caseiros.
  • Se você curte a natureza, destine um dia para visitar o Morro da Turquia, de onde se descortina uma bonita vista panorâmica de Pomerode e que é ideal para a prática de asa-delta e parapente. Outro passeio imperdível são as cascatas Cristalina e do Hauth.
  • Se você gosta de um bom chope artesanal, a dica é visitar a Cervejaria Schornstein. Fundada em junho de 2006, está sediada em um prédio tombado pelo patrimônio histórico, com cerca de 50 anos de existência. A chaminé de 30 metros de altura de tijolos maciços é sua principal referência e está na logomarca e no significado do nome da fábrica. De tão bom que é o chope feito ali, a Cervejaria Schornstein expandiu sua atuação para o mercado paulista, inaugurando uma segunda fábrica na cidade de Holambra, no interior do Estado.
  • Em Pomerode, visite o bar da fábrica, Schornstein Kneipe. Os dois locais (em Santa Catarina e São Paulo) servem petiscos tradicionais das culinárias holandesa e alemã e ainda sugerem harmonizações gastronômicas para cada tipo de chope. Além de conhecer os bares de fábrica, as pessoas têm a possibilidade de conhecer o seu processo de produção por meio de uma visita monitorada às fabricas, que inclui a degustação dos produtos – pilsen natural, pilsen cristal, weiss, pale ale, bock e imperial stout – tirados direto do tanque. Prosit!

Maria Helena Bellini, autora do texto, é aluna do curso de Jornalismo Literário ministrado pela professora Monica Martinez no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo em agosto/setembro de 2011. A fotografia é de uma ex-aluna de graduação, Selma Tronco, que desenvolveu trabalho de conclusão de curso de Comunicação Social sobre a cidade pela FIAMFAAM.

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