Literatura em perigo

27/02/2010 às 17:05 | Publicado em Literatura | Deixe um comentário
” Não lemos para nos tornar especialistas em teoria literária, mas para aprender mais sobre a existência humana. Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às idéias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade”. Por esta e por outras profundas observações, vale a pena a leitura da entrevista publicada na edição de fevereiro da revista Bravo! com o linguista Tzvetan Todorov. Segue o texto  na íntegra, disponível no site da revista (http://bravonline.abril.com.br/conteudo/literatura/tzvetan-todorov-literatura-nao-teoria-paixao-531493.shtml):
Fevereiro/2010

Tzvetan Todorov – “Literatura não é Teoria, é Paixão”

O filósofo Tzvetan Todorov afirma que o excesso de “ismos” afasta os jovens da leitura, e diz que a principal função de um professor é ensinar o aluno a amar os livros

Por Anna Carolina Mello e André Nigri

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O avanço do e-book

23/02/2010 às 10:34 | Publicado em Livros | Deixe um comentário

Uma entrevista com o dono da livraria Cultura, Pedro Herz, publicada na Ilustrada de domingo da Folha de S. Paulo, faz duas observações interessantes sobre o mercado do livro digital.

A primeira é a de que “quem não lê livro de papel, não vai ler por causa do livro eletrônico”. A segunda é a de que “jovens leitores são filhos de leitores”.  Parece óbvio, mas o exemplo segue sendo o melhor caminho para estimular filhos e, porque não, alunos na prazerosa arte da leitura.

Abaixo, a íntegra da entrevista, disponível em www.folha.com.br/100495):

21/02/2010

07h42

Ameaça ao livro não é e-reader, mas falta de novos leitores, diz dono da Livraria Cultura

FABIO VICTOR
da Folha de S.Paulo

Numa viagem recente a Nova York, o dono da Livraria Cultura, Pedro Herz, fez um teste: ao andar de metrô pela cidade, observou quantos passageiros portavam e-readers. Em dez dias, encontrou um único leitor com o novo equipamento.

Herz diz já ter visto burburinho semelhante em outros tempos, avalia que tudo não passa de “uma nuvem” e atribui tanto barulho à sede da indústria eletrônica por escoar os novos produtos que cria em velocidade incontrolável. A ameaça real ao futuro do livro, opina, é ausência de novos leitores entre os jovens.

Apesar do ceticismo quanto à nova coqueluche do mercado, ele informa que em março a Cultura passará a vender 150 mil títulos de e-books em suas lojas.

Neste ano, a rede, que tem nove unidades (cinco em São paulo e as outras em Campinas, Recife, Porto Alegre e Brasília), abrirá mais três: Salvador, Fortaleza e uma segunda na capital federal.

Com mais de 3 milhões de títulos em catálogo e 1.400 funcionários (serão mais 400 para as três novas lojas), a Cultura teve faturamento de R$ 274 milhões em 2009, crescimento de 18% em relação a 2008.

Segundo Herz, está mantida a decisão de pôr fim à empresa familiar na terceira geração (ou seja, a de seus filhos) e de abrir em breve o capital. Por ora deu apenas o primeiro passo, se associando no ano passado ao fundo de investimento Capital Mezanino. O fundo tem hoje 16% da empresa e família Herz, 84% –Pedro é o presidente do Conselho de Administração.

Leia a seguir a entrevista que ele deu à Folha num restaurante paulistano.

Folha – Quando a internet surgiu como uma ameaça ao mercado de livros, você começou antes a vender online. Agora, que o livro eletrônico paira como ameaça ao livro de papel, o que a Cultura vai fazer?

Pedro Herz – Em março vamos disponibilizar 150 mil títulos em formatos para e-readers. Eu acho que é uma opção a mais para o leitor. Não vamos vender o hardware, só conteúdo. Os formatos são tantos que pode ser que você compre num formato que o seu leitor [equipamento] não leia. A Amazon fez isso com o Kindle, se você comprar um e-book na [livraria] Barnes & Noble e tem um Kindle, não conseguirá ler. Foi um tiro no pé da Amazon, obrigar o leitor a comprar no seu formato. É o carregador de celular que só serve no seu, uma ideia totalmente superada.

Os formatos são vários, dependerá de como cada editora vai digitalizar seus livros.

Vai ser uma barafunda, porque se você tem um formato e teu e-reader não lê, onde o leitor vai reclamar? É o que está acontecendo um pouco nos EUA, com a MacMillan e a Amazon, mas pela guerra de preços [por discordância sobre o valor dos livros, títulos da editora foram retirados do catálogo da Amazon, mas depois elas chegaram a acordo].

Não sei bem, está tudo muito cru, muito no início, e não sei bem como serão as vendas. Acho que bem pequenas.

Acho o e-reader uma ferramenta fantástica, mas daí a virar o substituto do livro… Já vi esse filme antes, já vi o VHS chegar e dizer que ia acabar com o cinema. Já vi, na Feira de Frankfurt, dizerem que o mundo ia virar CD-ROM, e o mundo não virou CD-ROM. Dois anos depois não se falava nisso, as editoras me falavam: “Pô, perdemos um dinheirão, admitimos um monte de gente e não deu em nada”. A sensação que eu tenho é que a gente está vendo uma nuvem, que vai passar. Pode ser que chova, mas, num curto prazo, não vai acontecer nada.

Folha – O sr. tem e-reader, usa para ler?

Herz – Não, tem um monte na livraria, mas eu não uso.

Folha – E tem um monte para quê?

Herz – Pra conhecer. Eu estive em Nova York há pouco, passei dez dias, e fiquei muito atento a quantas pessoas eu ia ver lendo em e-reader. Gastei mais de US$ 80 em metrô, pra cima e pra baixo. Se eu te disser que vi um único cidadão com um na mão, você acredita? Em dez dias em Nova York, andando de metrô, onde todo mundo lia –ou uma revista, ou um jornal ou um livro–, eu vi uma pessoa com um e-reader. Um detalhe que me chamou a atenção foi que esse leitor lia segurando o aparelho com as duas mãos, e as pessoas que liam livros usavam uma mão apenas. São coisas interessantes. Dos leitores que entrevistei informalmente nas livrarias, 100% disseram que não vão trocar.

Folha – Em que medida o rebuliço em torno do e-reader se deve ao poder de marketing da indústria eletrônica?

Herz – Não só o marketing é tão forte como a indústria, qualquer indústria, tem necessidade de criar modelos novos, seja do que for, e escoar os modelos novos. E existem coisas paradoxais: todo mundo trabalha para ter mais tempo de lazer, aí chega a indústria e desenvolve um computador que é um centésimo de milésimo de segundo mais rápido do que aquele que você tem e tenta te convencer a comprar o desgraçado. Peraí, mas se eu quero ter mais tempo, por que meu computador tem que ser Fórmula 1? Eu não tenho certeza se as pessoas querem essa velocidade toda. Eu troco de carro a cada cinco anos, e sou um cara que ando pouco, quando compro um carro algum amigo já diz: “Esse carro é meu quando você vender”. Se você me perguntar por que que eu troquei, eu não sei te responder direito.

Folha – Qual a principal desvantagem do livro de papel?

Herz – Imagina um advogado que vai fazer uma audiência no Acre e tem que levar aquela papelada do processo. Um editor de uma grande editora de livros, que recebe 50 livros novos por semana de todo mundo, para resolver se vai publicar ou não, ter isso digitalizado e num voo de 12 horas para a Europa ir dando uma olhada no que interessa ou não. É de uma utilidade fantástica, mas não sei se é a melhor ferramenta para o leitor de livros. E tem outra pergunta que eu faço: fará novos leitores? Quem não lê livro de papel, não vai passar a ler por causa do livro eletrônico. Eu não sei como reagirão os que estão na maternidade.

Acredito que quem faz leitor são os pais, inegavelmente. Os jovens leitores são filhos de leitores. Dificilmente aparece uma criança ou adolescente que não tenha os pais leitores. A grande campanha que na minha opinião deveria ser feita pelo governo é mais ou menos assim: “Se você não lê, como quer que seu filho leia?”. Essa é a pergunta que deve ser feita. Porque os meus filhos “liam” sem ser alfabetizados, pegavam o livro na mão para imitar os meus gestos.

Folha – As vendas de livros pela internet representam quanto do total de vendas da Livraria Cultura?

Herz – É a nossa segunda loja. A primeira é a da Paulista. [As vendas pela internet] representam 16% do faturamento [em 2009].

Folha – Esse índice vem crescendo nos últimos anos?

Herz – Vem, mas as vendas das lojas físicas também.

Folha – Proporcionalmente, qual cresceu mais?

Herz – Não tenho a informação, teria de separar isso, ver quanto a internet cresceu sem abertura de lojas. Vi uma coisa interessante: abri uma loja em Brasília, que vai super bem. A [venda pela] internet na região fez isso [faz com a mão gesto de subida]. É de alguma forma um símbolo de segurança para o comprador. E muita gente usa a internet para pesquisa, e realiza a compra fisicamente. É muito comum você ver o cara chegar na livraria com o que ele imprimiu na internet.

Folha – Li numa reportagem, com dados da Associação Britânica de Livreiros, que houve uma queda de 27% no número de lojas de rua em dez anos no Reino Unido –só em 2009 foram fechadas 102 lojas. É uma tendência inevitável também no Brasil? O sr. tem dados?

Herz – São dados poucos confiáveis, não são representativos do mercado. Nós não somos sócios de nenhuma das entidades de classe. Os números de consumo de livros divulgados no Brasil embutem compras do governo, e eu não sei se são confiáveis.

Folha – Mas uma pesquisa de 2009 encomendada por CBL (Câmara Brasileira do Livro) e Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) fazia a separação entre essas compras…

Herz – Eu não sou fornecedor do governo, não sei se o governo comprou mais ou menos, tenho que acreditar naquilo que dizem. Acho que falta nesta pesquisa um ingrediente que, não sei por que razão, fica fora, que é o fabricante de papel. Quanto foi vendido para publicar livro, que é isento de imposto. Os fabricantes de papel concordam com esse aumento? Houve um aumento de quantas toneladas de papel para livro? Eu não sei.

Folha – Mas o fechamento das chamadas livrarias de rua parece inexorável, as lojas novas que a própria Livraria Cultura abrem são todas em shoppings…

Herz – É, tem uma série de componentes. Por que se prefere o shopping? Por que é mais seguro, facilidade de estacionar. São poucas lojas de rua que oferecem essa comodidade. Numa cidade como São Paulo, onde o transporte público é ruim, você tem que andar não sei quantas quadras para deixar o carro numa loja de rua, o medo toma conta, os pais não deixam os filhos, isso no Brasil. Em Nova York ou Londres é um pouco diferente.

Folha – Como a crise de 2008/2009 atingiu o mercado?

Herz – O mercado eu não sei, a nós não atingiu. Nós crescemos legal, 18%. Acho que a solução continua nos livros, então as pessoas começaram a ler, procurando explicações [para a crise], porque não aconteceu nada de novo, nós já vimos isso outras vezes.

Folha – O sr. vê algum novo nicho a ameaçar as vendas de livros nas livrarias?

Herz – A grande ameaça que existe é a não-formação de novos leitores. As famílias [ricas] que tinham cinco filhos há um século, hoje ou não têm nenhum ou têm um, no máximo dois. O número de leitores cresce pouco, se é que cresce. Se você pegar o universo da classe D, esse pai não tem orgulho nenhum do que faz, nem a mãe. Então a compra de um lápis significa para ele um investimento na educação de um filho. Acho isso extremamente bacana, é um raciocínio válido, mas sabemos que é insuficiente. O apagão do ensino taí, a dificuldade que temos de admitir gente é homérica. A gente aplica testes básicos dos básico de conhecimentos gerais razoáveis. A gente quer que o candidato leia jornais, uma revista, que seja atualizado. Você pergunta para ele quem escreveu “Dom Casmurro”, metade levante e vai embora. E são todos universitários formados. E não sou o único que tem esse tipo de problema. Falei com outros empresários, de outras áreas, que têm exatamente o mesmo problema. Gente que não encontra engenheiros, que não encontra médicos. Veja o resultado do Enem. Está difícil acreditar. Esse crescimento anunciado é sustentado? Ou é um momento de paternalismo que está aí? Estou procurando gente [para as lojas] no Nordeste, tem gente que não quer ser registrada. Perguntamos por que, e dizem: “Ah, porque eu recebo a Bolsa [Família], minha mulher recebe a Bolsa. E a população cresce nesses lugares do Nordeste. E gente esclarecida que pode ter filhos está tendo cada vez menos, se é que está tendo. Conheço casais de amigos, leitores, muito bem casados, felizes, que preferiram não ter filhos.

Folha – O aumento da oferta de livros nos supermercados e expansão do comércio de livros usados online, por exemplo, podem ameaçar as vendas nas livrarias?

Herz – Minha mãe começou a livraria achando que muito livro valia a pena ser lido e não ser comprado. Ela começou alugando livro. Sou francamente favorável ao comércio de livros usados. E há espaço para todo mundo. A rua da Consolação está cheia de loja de lustres. Peraí, o Brasil é muito grande. Sou francamente favorável. O que eu condeno é que um irmão mais novo não possa aproveitar o livro do irmão mais velho na escola. O que é que mudou na aritmética e na geografia? Por que tem que jogar fora esse livro. Hoje o governo até faz uma campanha para o aproveitamento [do livro didático], extremamente salutar, mas não é só. Por que o livro novo tem que ter um leitor por exemplar? Não tem biblioteca. Um livro, um leitor, é pouco.

Supermercado não me afeta em nada. Eu acho que contribui para a formação do leitor. Eu não quero fazer uma venda, eu quero um cliente. Se ele começar a gostar de ler, o próximo passo daquele que comprou um livro no supermercado será a livraria.

Folha – O que achou da Biblioteca de São Paulo, cujo modelo foi inspirado, segundo a Secretaria Estadual de Cultura, em livrarias tipo megastores?

Herz – O [secretário estadual de Cultura, João] Sayad me falou que eles se inspiraram muito no modelo da [Livraria Cultura da avenida] Paulista, que é um local onde as pessoas ficam. Fiquei orgulhoso. É possível criar um lugar onde as pessoas se entretêm, têm opções para aprender e ver alguma coisa de concreto. A coisa mais bacana que achei é que ela vai funcionar nos fins de semana. Gente, o Brasil é o único país em que as bibliotecas fecham no fim de semana, quando os pais podem levar os filhos.

Folha – Por que a Livraria Cultura resiste a entrar nas entidades de classe?

Herz – Não vejo o porquê. Não vejo muito sentido para as entidades de classe em meu ramo. Não acredito muito no que eles estão fazendo ou fizeram em benefício [do setor].

Folha – Já sofreu represália por isso?

Herz – Não, nunca sofri. E nós nos falamos, numa boa, com a Câmara [Brasileira do Livro], a ANL [Associação Nacional de Livrarias], o sindicato [nacional de editores de livros, o Snel]. A relação é muito cordial. Mas não participo de reuniões, nem de feiras, nem de bienais. Acho que qualquer feira é um lugar de plantio, não de colheita. E as bienais são de colheita, mas é impossível colher alguma coisa na bienal. Todo mundo diz que perde dinheiro. Então está na hora de repensar esse modelo.

E tem coisas de que a indústria não tem interesse. Por que o livro do irmão mais velho não pode ser aproveitado pelo mais novo?

Folha – Numa entrevista em 2006, o sr. afirmou que a indústria editorial era defasada, não tinha visão e não tratava o livro como negócio. Permanece assim?

Herz – Bastante. Quando comecei [a vender livros] na internet [em 1995], a gente desenvolveu um software para as editoras nos mandarem os seus catálogos num formatinho já pronto, txt, com informações básicas (autor, título, sinopse), para alimentar a internet. Se eu te disse que zero respondeu. Tive que fazer tudo eu. Para divulgar o livro de uma editora xis. Ninguém viu o potencial da internet do qual falo há 15 anos. Está tudo pronto lá, autor, página, preço, medidas. Não quero informação confidencial, quero informação que eu não tenha que sacar funcionários para fazer uma coisa que já está pronta. Hoje uma grande queixa dos internautas é a falta de resenhas [sinopses] dos livros. Eu que tenho que fazer a resenha do livro que você editou? Pô, me entrega isso pronto, amigo. Muitas mandam, mas muitas não.

Folha – Qual o cronograma de abertura das novas lojas?

Herz – Brasília será a primeira, entre abril e maio. Fortaleza está marcado para 19 de maio. E Salvador em julho. Estamos procurando um lugar no Rio de Janeiro, mas está dificílimo. Não acho lugar, não tem um espaço. O Rio tem uma geografia que não nos ajuda. O problema de espaço é tão complicado que um prédio encosta no outro. Tenho que chegar ao Rio com a mesma identidade, não posso chegar com um posto de serviços. Preciso de pelo menos 1.800 m2, com um pé direito que permita um mezanino. Não acho nem para discutir o valor.

Folha – De início o sr. resistiu a vender outros produtos e virar megastore. O que mais poderá ser agregado às vendas nas suas lojas?

Herz – Chegamos à conclusão de que o leitor também ouve música e vê filme.

Folha – Mas, por esse raciocínio, esse mesmo leitor assiste a TVs de plasma, compra aparelhos eletrônicos… Significa que outros produtos poderão ser vendidos também?

Herz – Dessa linha não.

Folha – Então de que outra linha?

Herz – Não sei. Temos alguma coisa de produtos educativos, uma pequena parte de Lego. E começamos uma pequena coisa agora [no final do ano passado] com games, mas não hardware.

Adeus a Tomás Eloy Martínez

22/02/2010 às 10:54 | Publicado em Autores | 2 Comentários

Um dos principais expoentes de sua geração, o jornalista-escritor argentino Tomás Eloy Martínez (1934-2009) faleceu no dia 31 de janeiro, depois de longa batalha contra o câncer.

No contexto do Jornalismo Literário, ele não era um purista como defende a escola estadunidense contemporânea, que prega livros-reportagem com cada dado absolutamente apurado e checado, como o livro Z, a Cidade Perdida, de David Grann, lançado em 2009 no Brasil pela Cia das Letras.

Antes, Martínez era um mestre na arte de pescar da realidade dados concretos — ou paradoxais — para nutrir sua literatura. Exemplos magistrais são O Vôo da Rainha (Objetiva), inspirado no caso do crime passional cometido pelo jornalista brasileiro Pimenta Neves, e Santa Evita (Cia das Letras).

Neste contexto, vale a leitura do artigo sobre Tomás Eloy Martínez feito pelo jornalista espanhol Juan Cruz, diretor-adjunto do jornal El País, publicado na Folha de S. Paulo de 4 de fevereiro de 2009:

ANÁLISE

O homem que desafiou Hemingway

JUAN CRUZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

O escritor argentino Tomás Eloy Martínez, morto no último domingo, aos 75, gostava de coincidências. “O Voo da Rainha” (ed. Objetiva), romance com o qual ganhou o Prêmio Alfaguara em 2002, nasceu de um acaso, neste caso brasileiro.
Andava pelo Brasil e topou com uma extravagante história de amor protagonizada por um não menos extravagante diretor de jornal; nela estavam todos os elementos de soberba de que é capaz a alma humana, e ele guardou os detalhes do mesmo modo como tomava nota dos gestos e dados de suas crônicas: para quando essa história entrasse nas histórias que lhe fossem ocorrendo.
Um dia se propôs a gestar um romance com esses dados, e daí saiu a espetacular excursão imaginativa pela alma dos homens que é esse livro singular.
“O Voo da Rainha” nasceu como anedota e converteu-se em metáfora da soberba. Como se fez o milagre? Com a escrita.
Martínez era o melhor jornalista-escritor da América ibérica deste último meio século; sua morte é uma amputação grave de nosso sistema narrativo.
Foi um mestre singular, pois não proclamou seu magistério dizendo o que se devia fazer.
Apresentou-o fazendo. Foi cronista, jornalista, escritor de diários. E fez tudo isso trabalhando, ao pé da pena com a qual se anotam as coincidências…
Se sabia algo, os leitores teriam que sabê-lo. Não se demorou procurando coisas no lixo, mas contou o lixo. Quando teve que contar o sublime, usou também as armas de uma sensibilidade que agora subsiste, na história, como arte maior do jornalismo e da literatura.
Desafiou Hemingway, que dizia que uma só pessoa não podia ser jornalista e escritor.
Nesse livro, assim como em “Purgatório” ou em “O Romance de Perón” (ambos lançados aqui pela Companhia das Letras), Martínez é as duas coisas ao mesmo tempo, mas sempre tem claro (tinha claro -é difícil escrever sobre ele no passado) onde estão as armas do que conta para fabular e onde estão as armas do que conta para que os fatos fiquem claros.
Essas duas funções, a do jornalista e a do escritor, as exerceu com uma vontade férrea para colocar as fronteiras em seus lugares. Os fatos e as coincidências lhe serviram para os dois ofícios, e isso o manteve atento a tudo o que se movia.
A coincidência, na literatura e no jornalismo, existe para ser trabalhada. Martínez levava pelo mundo sua memória pronta, e aquela história do Brasil grudou nele, assim como grudaram no amigo Gabriel García Márquez as borboletas que iam atrás dos personagens de Aracataca. Martínez memorizava os fatos, que já habitavam em sua memória refinada até que se convertiam em fábulas extraordinárias. Foi esse o caso de “O Voo da Rainha”, talvez seu melhor livro de ficção.
Mas o prazer de lê-lo, de ler esse livro tão brasileiro, embora o tenha feito tão argentino, era equivalente ao prazer de escutá-lo. Por trás desse romance está a anedota, quase uma categoria, daquele jornalista ambicioso que desrespeita todas as regras para apoderar-se da vontade das mulheres que ama.
Mas a própria escrita, o desenvolvimento em código de ficção daquele anedotário suculento e inacreditável, está no livro como o voo de um romance. Não se pode confundir em momento algum o relato do que lhe ocorreu com o que de fato ocorreu. Algumas vezes eu o ouvi dizer que escrevia como se houvesse alguém no assento ao lado em um trem, que tivesse acabado de conhecer esse alguém e sentisse a necessidade inadiável de lhe relatar algo que acabava de lhe ocorrer.
Ouvi muitas vezes Martínez contar a história do personagem Camargo, de nome e sobrenome bem brasileiros. Há uma foto dele com o espanhol Jorge Semprún em que está lhe contando essa história. E Semprún ri, assim como eu mesmo, que também estou na foto.
Agora leremos seu livro “Lugar Común la Muerte” (lugar comum a morte; inédito no Brasil) e nos perguntaremos outra vez de onde viria esse motor narrativo que convertia em objeto de memória e escrita tudo o que tocava. Um escritor excepcional que pulverizou lugares comuns de Hemingway.
Quem me deu a notícia de sua morte foi Mercedes Barcha, mulher de Gabriel García Márquez, em Cartagena de Índias.
Gabo disse: “Era um amigo. O melhor de todos nós”. Era de sua estirpe, da estirpe dos escritores que vão ouvindo para poder contar. E nessa habilidade em ouvir o ritmo interior da terra, portanto da alma humana, estava a chave de sua capacidade de encantar, fabulando.
A coincidência era seu material: estar ali para ouvir. Hemingway teria gostado que um narrador assim o desafiasse.


Tradução de Clara AllainJUAN CRUZ é escritor e jornalista espanhol, diretor-adjunto do jornal “El País”

Escritos com sabor

09/02/2010 às 7:54 | Publicado em Autores, Gastronomia | Deixe um comentário

Pode-se notar nos livros de gastronomia grandes textos, escritos de forma autoral, com criatividade e sabor. Essa tradição começa há muito tempo. No Brasil, A História da Alimentação, por exemplo, do folclorista Câmara Cascudo (1898-1986), se deixa ler com prazer. Na Inglaterra dos anos 1950, outro expoente é Elizabeth David (1913-1992), em Cozinha Italiana, obra que se pode ler no Brasil pela Companhia das Letras. Para leitores da Folha de S. Paulo, ler Nina Horta toda quinta-feira é um must.

Agora o jornalista Mino Carta recomenda a leitura de L´Ingrediente Secreto, do chef bávaro Heinz Beck, lançado na coleção de não-ficção da editora Mondadori em 2009. Na revista Carta Capital desta semana há um trecho da obra para “degustação”:

:: Pensamentos e confissões 
O que é cozinha, os prazeres do mercado, quando o prato está “sentado”. Ideias esparsas de um mestre

Cozinha (cucina, em italiano) para mim é um acrônimo: Como Unir Comunicação, Encantamento, Natureza e Harmonia. Cozinha é interpretação, história e filosofia dos sabores, loucura disciplinada e rigor mediterrâneo. Cozinha é vida, a minha, que saboreio em doses pequenas e intensas, para aproveitá-la por inteiro. Para mim, cozinha é gosto, sabor, memória, prazer, participação de todos os sentidos. Cozinha não é comer. É muito, muito mais.Nihil posse creare de nihilo, nada se cria do nada, como diz Lucrécio. Tenho de encontrar algo que seja meu princípio. Algo que eu veja, ou sinta, ou fareje, ou recorde. Algo que me atinja, me toque por dentro e desperte o som de uma resposta: será a minha primeira nota, meu primeiro passo. Devo ter uma ideia.

Diz-se ser possível comer também com os olhos. Para mim isto é tão verdadeiro a ponto de valer para alimentos ainda não cozinhados. Ao dar voltar pelo mercado (o da praça Campo de Fiori, onde Giordano Bruno morreu queimado pela Inquisição) como com os olhos fruta e verdura. Gozo da luz que emana da casca das berinjelas, o verde brilhante das abobrinhas, o esplendor dos tomates e das laranjas. São pequenos sóis.

A cor é voz extraordinária para contar a harmonia do prato: é um poeta mudo. A forma necessita
de uma porção maior de tempo do que a cor para ser assimilada, entendida, saboreada. O trabalho
do chef está ligado diretamente ao tempo. É preciso que o hóspede disponha dele para apreciar, com todos os sentidos, cada pormenor.

Imagine uma mulher belíssima que vista tamanho 40: suas formas não serão valorizadas, certamente, se for trajar roupa de tamanho 36: da mesma maneira tem de ser dosada a porção: aumentar a superfície do prato serve para não oprimir seu conteúdo. A nossa matéria-prima tem de viver, precisa de espaço, caso contrário, não se criam obras de arte culinária. Assim como a arquitetura vive de áreas vazias e áreas cheias, o prato não deve parecer pesado, oprimido, feio de se ver. A matéria-prima deve viver entre espaços livres e espaços cheios, com luz e sombra.

Um prato está “sentado” quando oprimido, carregado, cheio demais. Desta maneira, “não respira”. Para arejá-lo, tem de ser eliminado tudo aquilo que o faz pesar demais ou encobre a fragrância, a vivacidade do sabor.

Um gesto nobre satisfaz sobretudo o seu autor. Da mesma forma, nós temos uma obrigação em relação a cada comensal: merece ser tratado como um rei. Hospitalidade significa máximo cuidado para quem escolhe dedicar-lhe seu tempo, sua atenção, suas expectativas de prazer.

De que maneira o luxo tem a ver com comida? Está, talvez, na rica decoração do restaurante, no emprego de matérias-primas notoriamente exclusivas: por exemplo, a trufa branca? Esta é visão óbvia, banal. Exclui as emoções. Não me pertence. Luxo, para mim, significa antes de mais nada disponibilidade para as experiências. Neste sentido, é luxuoso um prato de pasta al pesto. Luxo não é proporcional necessariamente a um grande investimento. Não é rito opulento, a jorrar riqueza. Não é o “mais, mais, mais”, e sim o que é limpo, palatável, essencial. Para mim, menos quer dizer mais.

E por falar em massa, consideremos o prato aparentemente mais fácil do mundo: espaguete com molho de tomates. Para mim, é uma felicidade saborear este prato, pois se forem bem cuidadas a escolha da matéria-prima e a execução, encerra todos os perfumes da terra.

Minha fraqueza, confesso, são as massas recheadas. Para mim, sic itur ad astra, assim vai-se no rumo das estrelas, como diz Virgílio. Não creio em comida afrodisíaca, mas acredito na erótica. Trata-se de uma criação que desafia os sentidos dos comensais, obrigados a aceitar a apetibilidade convidativa de um invólucro e a se arriscarem na surpresa do recheio: pode ser macio e sedutor como lábios de mulher, ou amargo e frio como o beijo recusado. 

A entrevista de Mino Carta com Heinz Beck pode ser lida na íntegra em  http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=6&i=5964

A mentira não compensa

01/02/2010 às 8:10 | Publicado em Ética, Escrita Criativa | Deixe um comentário

Há um limite para se escrever de forma criativa?

Acredito que sim. A resposta para esta questão é uma palavra bem curta, mas muito profunda: ética.

Talvez o maior alerta  sobre o assunto continue sendo o vivido nos Estados Unidos em 2003, quando o tradicional jornal The New York Times demitiu Jason Blair ao descobrir que boa parte das reportagens por ele escritas continha viagens e entrevistas inventados ou, no mínimo, plagiados.

Na edição de janeiro de 2010 da revista Serafina, da Folha de São Paulo, o jornalista brasileiro Sérgio D´Ávila faz uma garimpagem preciosa porque nos permite saber o que aconteceu com o jornalista americano. Pela leitura dá para garantir que a mentira em jornalismo não compensa. Veja o texto na íntegra e comente se concorda comigo:

JAYSON BLAIR

O homem que colocou em xeque a credibilidade do “New York Times” é encontrado na Virginia

por SÉRGIO DÁVILA, em Washington

A VOLTA DE JAYSON

Serafina encontra ex-repórter mentiroso do “New York Times” trabalhando como “consultor para vida”

Quando Jayson Blair pediu para remarcar novamente a sessão de fotos para a Serafina, a outra jornalista daqui de casa me sugeriu em tom de blague que eu perguntasse a ele: “Jayson, posso confiar em você?”. Para quem não se lembra, o ex-repórter norte-americano era uma jovem aposta do “New York Times” que ascendia em ritmo recorde na redação até ser pego inventando reportagens, entrevistas e viagens e plagiando textos. Foi demitido em 2003, num dos piores golpes à imagem do respeitado diário norte-americano.
Uma comissão independente, instalada no mesmo ano pela direção do jornal para averiguar o tamanho do estrago, descobriu que 36 das 73 reportagens de assuntos nacionais escritas por Blair entre outubro de 2002 e sua demissão traziam problemas. O resultado da investigação foi publicado na primeira página do jornal de 11 de maio de 2003, num texto dez vezes maior que o tamanho desta coluna, em que os autores diziam que o escândalo era “um ponto baixo nos 152 anos de existência do jornal”.
No ano seguinte, Blair escreveu um livro de memórias, “Burning Down My Masters’ House – My Life at the New York Times” (Queimando a Casa de Meus Senhores – Minha Vida no New York Times, New Millennium Press), em que acusa o jornal de racismo e atribui parte de seus problemas à bipolaridade de que dizia sofrer então. Dois anos depois, o livro tinha vendido 4.000 cópias, um número modesto para os padrões do mercado editorial norte-americano.
Localizei Jayson Blair trabalhando em Ashburn, na Virginia, Estado vizinho a Washington, como “consultor para vida” (“life coach”, no original), especializado em “avaliação de carreira, doença do deficit de atenção, transtorno invasivo do desenvolvimento, doenças do humor e doenças de abuso de substâncias”. Hoje com 33 anos, ele atende clientes e tem dado palestras para plateias interessadas nesses assuntos, que não necessariamente fazem a ligação do guru com o ex-jornalista do passado.
No final de 2009, ele começou a ensaiar voos mais altos. Fez uma palestra sobre ética no jornalismo a alunos de uma universidade de comunicação, levando US$ 3.000, segundo relatos de locais. O título era “Lições Aprendidas”. Um dos presentes disse que ele deveria ter resumido seu conselho a uma frase: “Não seja Jayson Blair”. Falei com Blair depois disso. Ele insistiu que a conversa fosse por e-mail. “Jayson prefere esse meio porque limita os potenciais erros de tradução”, disse seu assessor de imprensa, Ted Faraone.
Perguntei por que ele fez o que fez, qual o tamanho do estrago que julgava ter causado no “New York Times” e à credibilidade da mídia em geral, se ele se arrependia, se ele sentia falta do jornalismo e se ele sabia de outras pessoas ainda em ação fazendo o que ele fazia. “Eu estava doente, com problemas mentais, e também, separadamente, perdi meu sistema de navegação moral. Não estou em posição de julgar o estrago ao jornal. Arrependo-me. Sinto muita falta do jornalismo. E também não quero abrir velhas feridas e julgar outros.”
Perguntei qual o futuro do jornalismo, na opinião dele. “Não tenho certeza. Sou otimista como leitor e como telespectador.” Perguntei como ele se recriou nessa nova carreira, se era bem-sucedido, se as pessoas o reconheciam e se, quando isso acontecia, era uma vantagem ou desvantagem. “Um psicólogo clínico viu meu trabalho de liderar grupos de apoio no norte da Virginia e me convocou a me juntar a sua prática. Sinto-me bem-sucedido. As pessoas me reconhecem, às vezes. Isso não tem virtualmente nenhum impacto negativo, e um impacto muito positivo em clientes e outros que se sentem confortados pelo fato de eu saber como é chegar ao fundo do poço e que a recuperação não é só parte de contos de fadas.”
Perguntei se as pessoas têm de confiar nele para seguir seus conselhos e se elas confiam. “Sim, elas têm. E, sim, frequentemente elas confiam.” Perguntei se ele votou em Barack Obama e o que achava de sua gestão até agora. “Eu prefiro manter minha opinião política privadamente.”Por fim, perguntei se ele já tinha ido ao Brasil. “Não, mas irei em breve. Em maio, na verdade.”
Foi a única vez que ele usou a última palavra.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/serafina/inde31012010.htm

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