Duas coisas por vez

28/07/2010 às 5:11 | Publicado em Gestão de tempo, Neurociências | Deixe um comentário

Nunca lemos tanto. Aliás, lemos tanta coisa atualmente que, às vezes, é somente após semanas, quando o material já foi digerido e algo continua fresco na mente, percebemos o que é realmente importante.

Foi o que aconteceu com uma coluna da neurologista Suzana Herculano-Houzel publicada em 13 de julho. A docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desmonta a noção de que é produtivo fazer mais do que duas coisas ao mesmo tempo — algo do que nós, mulheres em particular, temos tanto orgulho. De fato, do ponto de vista evolutivo, não se sabe se por motivos biológicos ou culturais — provavelmente por conta de ambos –, o lado feminino da espécie aprendeu a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Trata-se do famoso fritar o peixe e espiar o gato. Algo como dar o peito para o bebê e ler um livro sobre puericultura enquanto se responde às mensagens mais importantes ao computador.

Una-se à isso o estímulo ao ativismo frenético da contemporaneidade e o avanço tecnológico, com suas formidáveis redes sociais, e está formado o quadro da confusão. Certa vez  ouvi de uma pessoa que, no trabalho, ficava conectada às múltiplas redes e ia digitando um ok aqui e ali para os amigos e clientes saberem que estava presente. Como não sabia o que os outros estavam compartilhando, ocorre que de fato a pessoa não estava presente. Confesso que fiquei com dó, pois me pareceu que a pessoa não era assertiva o suficiente para estabelecer limites e deixar claro o tempo que tinha para cada atividade, para cada amigo. O resultado era uma invasão do espaço pessoal e a angústia por não dar conta do recado.  Ao se fazer presente o tempo inteiro, sem estar realmente ali, se tornava um fantasma virtual.

Ao ler a coluna de Herculano-Houzel, tive a prova de que precisava para uma inquietação antiga. Se antes me orgulhava de fazer várias coisas ao mesmo tempo, agora tenho certeza de que é melhor fazer uma por vez, bem feita na medida do possível. No máximo, quando necessário, duas. Afinal, mais do que isso o cérebro não dá conta e o resultado é que as tarefas entram em fila, como no painel de controle de uma impressora.

Pode parecer prosaico, mas um passo por vez nos faz avançar em segurança, com risco menor de cair. E se o tombo vier, é mais rápido sacudir a poeira e ir em frente.

Abaixo, o artigo na íntegra, para futuras referências.

Monica

São Paulo, terça-feira, 13 de julho de 2010
   
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SUZANA HERCULANO-HOUZEL suzanahh@uol.com.br

Uma coisa de cada vez


Como diria Lavoisier, dois pensamentos não ocupam o foco de atenção do cérebro ao mesmo tempo


VOCÊ ACHA que dá para dirigir e falar ao celular ao mesmo tempo, ou responder a e-mails prestando atenção à reunião?
Pois não dá, e a culpa não é da internet ou da tecnologia, que colocam cada vez mais informações dividindo a mesma tela do computador.
Por uma limitação intrínseca do cérebro, tudo o que conseguimos fazer é dividir nossa atenção ao longo do tempo, alternando entre um objetivo e outro, mas sempre dando atenção a uma coisa de cada vez. Como diria Lavoisier, dois pensamentos não ocupam o foco de atenção do cérebro ao mesmo tempo.
Por outro lado, dois objetivos até conseguem ocupar o cérebro simultaneamente.
Não a mesma parte do cérebro, é verdade.
Segundo pesquisa recente da equipe de E. Koechlin, quando decidimos alternar entre duas tarefas julgadas importantes, regiões nos lados direito e esquerdo do córtex pré-frontal dividem o trabalho, uma cuidando do objetivo da vez (ler o jornal), de um lado, e a outra mantendo ativa a representação da tarefa em espera, do outro lado do cérebro (não deixar o leite ferver), sob a supervisão da parte mais frontal do córtex, que gerencia o esforço de alternar entre a execução atenta de tarefas.
Quer experimentar? Em www.cerebronosso.bio.br/multitask você pode testar sua habilidade de fazer duas coisas “ao mesmo tempo”, ou seja, dar atenção alternadamente a um de dois objetivos.
Comece usando as setas esquerda e direita do teclado para equilibrar uma bola.
Fácil, certo? Logo surge uma segunda tela, onde você deve usar as setas para cima e para baixo, com a mesma mão, para desviar de um ponto em movimento. Passar nos dois testes ao mesmo tempo requer um bocado de esforço pré-frontal para alternar a atenção entre os dois objetivos, mas ainda dá.
E então… surge uma terceira tarefa na tela, a executar com a outra mão. A essa altura, é preciso sorte para sobreviver mais que alguns segundos no jogo. Se por puro acaso você chegar à quarta tarefa simultânea, duvido que dure por muito tempo.
Por quê? Koechlin, novamente, explica: com apenas dois hemisférios confrontados com um terceiro objetivo simultâneo, o córtex se vê obrigado a abandonar um deles e cuidar apenas dos dois que considerar mais importantes. Três coisas ao mesmo tempo, nem pensar!


SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora de “Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor” (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com

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