A arte do perfil

09/05/2011 às 10:50 | Publicado em perfis e biografias, Teoria sobre Narrativas em Jornalismo | Deixe um comentário

Ao mexer em arquivos antigos reencontrei um texto de 2008 sobre perfis escrito pelo Sérgio Vilas Boas. Aproveito, portanto, para postá-lo aqui, pois vale a pena lê-lo (quem ainda não o conhece) ou relê-lo (para quem já o havia visto e quer refrescar a memória).

Com um abraço,

Monica Martinez

A arte do perfil *
Sergio Vilas-Boas **

Um dos gêneros mais nobres do Jornalismo Literário, o perfil é um tipo de texto biográfico sobre uma – uma única – pessoa, famosa ou não, mas viva, de preferência. Texto biográfico não significa exatamente biografia, que é outro gênero. Nem tudo o que é biográfico é biografia, aliás. A biografia é uma composição superdetalhada de vários “textos” biográficos (facetas, episódios, convivas, pertences, legados, o feito, o não-feito etc.). Enquanto um biógrafo se detém em um extenso conjunto de inputs, o autor de um perfil se concentra em apenas alguns aspectos do personagem central.

O personagem central – assim é melhor que “perfilado” (palavra horrível) – é a razão de ser de um perfil. Se a individualidade fosse banida do mundo e os humanos não passassem de robôs programáveis, sem estilo nem identidade, o gênero perfil simplesmente não existiria. O perfil se atém à individualidade, mas não ao individualismo vulgar.

Embora andem colocando a palavra perfil antes de qualquer coisa por aí, o fato é que não existe perfil de cidade, perfil de bairro, perfil de um edifício, perfil de época. Sinto muito, mas perfil é de um ser humano. Cada ser humano tem um perfil, assim como cada perfil só pode ser sobre um ser humano – um sujeito singular que pode eventualmente estar vivendo em um edifício, num bairro, numa cidade e numa certa época.

O perfil tem grande relevância como produção jornalística, mesmo que meses ou anos depois da publicação do texto o personagem central tenha mudado suas opiniões, conceitos, atitudes e estilos de vida. Paciência. Não há por que sofrer com o fato de que até as convicções são mutantes. A durabilidade de um texto-perfil, na verdade, está na capacidade do autor de trabalhar bem as cristas e vales inerentes à trajetória humana.

Perfis têm aparecido ocasionalmente em periódicos (mas não apenas em periódicos) há mais de um século. Mas foi a partir da década de 1930 que jornais e revistas começaram a apostar mais neles. No início, os personagens mais retratados eram os olimpianos do mundo das artes, da política, dos esportes e dos negócios. Esperava-se que a matéria lançasse luzes sobre a fase atual, o comportamento, os valores, a visão de mundo e alguns episódios da vida da pessoa para que sua personalidade e atitudes pudessem ser compreendidas num contexto maior.

Com esse espírito, os perfis se tornaram marca registrada de revistas norte-americanas como The New Yorker, Esquire, Vanity Fair, Harper’s e Atlantic, entre outras. No Brasil, O Cruzeiro e Realidade também o valorizaram em suas épocas áureas. Acho interessantes em Realidade os textos de Luiz Fernando Mercadante sobre Oscar Niemeyer (jul./1967) e Francisco Matarazzo Sobrinho (out./1967);  e o do recém-falecido psicoterapeuta Roberto Freire sobre o jovem Roberto Carlos (nov./1968).

O time de bons autores de perfis é enorme. É o caso de você procurar algo de Lincoln Barnett, Joseph Mitchell, Janet Flanner, Lilian Ross, Calvin Trillin, Susan Orlean, David Remnick, John McPhee e muitos outros. Vários praticantes do New Journalism, período áureo do Jornalismo Literário, na década de 1960, honraram o gênero. Entre todos, o mais representativo é certamente Gay Talese, por sua segurança, delicadeza e versatilidade.

Talvez pelo espaço que até hoje tem reservado aos perfis, a New Yorker (fundada em 1925) ficou com o crédito de “principal difusora”. O grande passo da New Yorker nessa direção foi a contratação de Joseph Mitchell no final da década de 1930. Mitchell retratou estivadores, índios, operários, pescadores e agricultores. Está entre os maiores jornalistas literários de todos os tempos. Os dois textos que escreveu sobre o folclórico, boêmio e pirado Joe Gould são primorosos.

Lincoln Barnett, repórter da Life entre 1937 e 1946, é outro cara memorável. Barnett contribuiu muito para a consolidação do perfil como modalidade jornalística. Na única coletânea em livro que publicou – The World We Live In: Sixteen Close-Ups (1951) -, ele comenta por que e como escreveu alguns de seus principais textos. Segundo Barnett, o autor de perfis tem de se preocupar com “a transitoriedade dos atributos”, diferentemente de um biógrafo trabalhando com um morto.

Inspirado em Barnett e Mitchell, pergunto: quem merece um perfil? Antes de tentarmos responder, tome nota de algumas dicotomias muito em voga nestes tempos de culto patológico à celebrização fácil. Primeiro, a idéia de conhecido versus desconhecido. Mas, afinal, a pessoa é conhecida de quem? É anônima para quem? Segundo, o comum versus o incomum. Mais produtivo talvez seja você admitir que o comum e o incomum habitam toda e qualquer pessoa. Terceiro, o simples versus o complexo. Quem já conheceu uma pessoa não-complexa levante a mão!

E, por último, o rotineiro versus o mirabolante. Ah, eis o ponto: o problema de narrar não é do personagem, e sim do autor. Decisivo para que o narrar biográfico (perfil, no caso) seja bom ou ruim não é o personagem em si e sim a competência do autor em lidar com o personagem e com a narrativa. Escapismo dizer que o personagem é isso, aquilo, fraco, simples, comum; que a história dele/dela é boba, sem graça, igual. O problema de narrar com qualidade é sempre, sempre do autor. De ninguém mais.

Condição sine qua non em um perfil, portanto, é a interação do autor com o personagem, seja quem for. Você deve estar pensando: “Ah, mas o Gay Talese fez aquele antológico perfil do Frank Sinatra (Esquire, abril de 1966) sem falar com o Frank Sinatra”. Certo, certo. Mas considere que Talese queria muito falar com o Frank, e foi o Frank quem se recusou; no mais, cite, se for capaz, outro perfil (antológico) em que o autor não interagiu com o sujeito em foco.

Difícil, não? Talvez você encontre algum em um obituário, seção muito valorizada na imprensa anglo-saxônica. Mas as seções de obituários são (têm de ser) sobre mortos. Sobre um morto, tudo é possível. Já morreu mesmo. Sobre um vivo, não. E é exatamente aí (na vida presente) que reside a arte do perfil – arte no sentido de um fazer tal que quando faz, altera o fazer, pois não é uma fórmula.

Para fazer um bom perfil (aprendi isso com meus próprios erros) é preciso pesquisar, conversar, movimentar, observar e refletir. Você tem de pesquisar os contextos socioculturais da pessoa; conversar com ela e com os convivas dela; movimentar-se com ela por diversos locais, evitando o simples “de frente” (pingue-pongue trivial transformado depois em texto corrido); tem de observar as linguagens verbais e não-verbais da pessoa; e examinar com carinho as reflexões que ela lhe oferece sobre o passado, mas também, e principalmente, sobre a fase atual.

Autores que ficam paradões diante do personagem só fazendo “perguntas intelectuais às vezes irrespondíveis” talvez devam reavaliar seus métodos. Os perfis só podem elucidar, indagar, apreciar a vida num dado instante, e são mais atraentes quando atiçam em nós reflexões sobre aspectos universais da existência, como vitória, derrota, expectativa, frustração, amizade, solidariedade, coragem, perda, separação etc.

Os perfis cumprem um papel importante que é exatamente gerar empatias no leitor. Empatia é a preocupação com a experiência do outro, a tendência a tentar sentir o que sentiria se estivesse nas mesmas situações e circunstâncias do outro; compartilhar as alegrias e tristezas do outro; imaginar as situações do ponto de vista do outro. Acredito que a escrita do perfil também pode levar ao autoconhecimento do próprio autor, e não apenas do leitor.

O Brasil está engatinhando em termos de Jornalismo Literário. E a maioria das produções do tipo perfil, aqui, ainda é meio rasa. Mas bons sinais já podem ser captados na revista Piauí, como nos ótimos textos produzidos por João Moreira Salles sobre o ex-presidente FHC (nº 11) e sobre o jornalista futebolístico Paulo Vinícius Coelho, o PVC (nº 17). A recém-lançada Brasileiros ainda patina, mas investe bem, e em breve saltará do perfil basicão para o perfil rico, ao estilo JL.

Outro bom ateliê de perfis é coordenado pela Academia Brasileira do Jornalismo Literário (ABJL), ONG da qual sou co-fundador. A maioria das produções de nossos alunos estão disponíveis no textovivo.com.br. Outras estão no livro Jornalistas Literários (Summus, 2007), que organizei. Não é uma coletânea só de perfis, mas, entre os incluídos, destaco dois encantadores: Marcos Faerman (falecido jornalista literário) por Isabel Vieira e Marino Streck (pescador do litoral catarinense) por Manuela Colla.

Quando prima pela humanização, com tudo o que isso implica, o texto-perfil é irresistível. Humanizar não é um mistério, não. O primeiro passo para humanizar é evitar pensamentos binários do tipo “santo ou demônio”, “algoz ou vítima”, “melancólico ou eufórico”…

Em vez de formular hipóteses, entre no mundo da pessoa sem preconceitos; conheça-a em suas grandezas, fraquezas e rotinas; freqüente os lugares que ela freqüenta; capte sua visão de mundo e suas marcas de temperamento. Não fique preso a abstrações (dados curriculares, números, performances). Mais importante é o que os personagens e seus convivas exprimem de dentro para fora. Ops, importantíssimo: não idealize ninguém. As pessoas são o que são. E que assim sejam.

* Publicado na revista Especial Biblioteca EntreLivros / Literatura x Jornalismo, edição n.11, ago/2008.

* Escritor e professor; autor de “Perfis” e “Biografismo: Reflexões sobre as Escritas da Vida” (Editora Unesp, 2008), entre outros. Co-fundador da ABJL e editor do portal TextoVivo. Site-blog: http://www.sergiovilasboas.com.br.

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