A arte de reportar – perfis e outros escritos da The New Yorker

26/10/2011 às 15:08 | Publicado em Livros, perfis e biografias, Resenhas | Deixe um comentário

Dentro da Floresta (Companhia das Letras, 2006) é um dos seis livros escritos pelo jornalista David Remnick, o editor atual da revista The New Yorker (lançada em 1925, a publicação teve seletos cinco editores até agora, Remnick incluso).

Antes de comentar um livro, gosto de lê-lo e deixar passar um tempo, para que o conteúdo, digamos, assente dentro de mim. Tenho a sensação de que degustar uma leitura é algo muito próximo de saborear um bom vinho ou sentir um perfume de qualidade.

Em ambos, há aquela nota inicial, que nos faz gostar da obra de cara ou deixá-la na cabeceira à espera de um momento mais propício para leitura. Com suas 575 páginas, Dentro da Floresta ficou certo tempo me espiando, até que eu achasse que era hora de me debruçar sobre seu conteúdo.

O livro consiste em 23 perfis que Remnick escreveu para a The New Yorker, acrescido do posfácio de João Moreira Salles, o mentor da revista piauí! – ele também um refinado escritor de perfis.

Durante a leitura, há aquelas notas prazerosas que emergem ao saborear um bom tinto, quando se consegue identificar o terroir, isto é, os rastros da terra, do ar, da água, enfim, do meio ambiente que fazem o conteúdo de cada garrafa única. Neste caso, sentimos o repórter que trabalhou por anos no The Washington Post, aquele olhar atento de quem sabe que é a partir da pesquisa e da apuração que um bom texto emerge. Neste contexto, um dos destaques do perfil do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair  é a constrangedora entrevista concedida a dois apresentadores mirins de um programa de televisão de variedades. O perfil, escrito em 2005, não por acaso é intitulado A Campanha do Masoquismo.

Há que se mencionar que em outros perfis de políticos, sobretudo os muito distantes da realidade brasileira, poderão considerados enfadonhos pelo leitor brasileiro médio.  Claro que não o de Vladimir Putin, aqui magistralmente descrito como um sujeito visto pelo povo russo como um cara normal, que faz o que pode. Alias, é nítida a familiaridade que ele tem com a região (ele foi correspondente do Post na União Soviética até 1991 e ganhou um Pulitzer em 1994 pelo livro Lenin´s Tomb).

Mais recentemente tenho me fixado no efeito residual que a leitura de uma obra propicia. Como um vinho especial que deixa uma marca inesquecível.  Esta marca pessoal de Remnick, neste livro, se faz notar pelos perfis de boxeadores e escritores.

Remnick registra o ocaso da paixão estadunidense pelo boxe, que produziu obras primorosas como o livro A Luta, de Norman Mailer, e perfis magistrais como o de Gay Talese, Joe Louis: o rei na meia idade (do livro Fama & Anonimato, ambos da Companhia das Letras). O livro de Remnick traz um perfil de Tyson, claro, mas destaco o sobre o treinador de boxe Teddy Atlas, talvez porque ele fuja do estereótipo do herói e seja apresentado como um mortal comum.

Como não poderia deixar de ser, Remnick perfila escritores. Entre eles, Philip Roth – atualmente considerado o principal escritor sênior estadunidense. Mas destaco o perfil feito de Don DeLillo, onde este filosofa sobre a notícia como a narrativa de nosso tempo.

Na ótima resenha de Dentro da Floresta feita para o jornal The New York Times, o escritor estadunidense Pete Hamill começa citando Ezra Pound que, em ABC of Reading, de 1934, dizia que “Literature is news that stays news”. Algo como literatura é notícia que permanece uma novidade. Ou seja, toca-se aqui no ponto central que une jornalismo e literatura, deixando ambos com aquele toque atemporal que encanta pessoas de todos os tempos. Seria como degustar um vinho mais do que especial.

Não é fácil escrever um texto de não ficção, bem apurado, que não seja apenas lido com prazer, mas que cative um espaço no coração e na memória do leitor. Em alguns casos Remnick consegue o feito. Por outro lado, a vantagem de uma coletânea de perfis é que o leitor fica muito à vontade para fazer sua própria seleção, concordando e, por que não, discordando do resenhista. Esta liberdade de escolha, aliás, não tem preço.

Confesso que não entendi o título, o tal Dentro da Floresta. O original, proposto pela decana Lilian Ross, é muito melhor: Reporting – Writings from The New Yorker. Ross, para quem não se lembra, é autora de Filme, também publicado na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras – livro que inspirou novos jornalistas como Truman Capote.

Monica Martinez

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Nova pesquisa sobre Jornalismo Literário

17/10/2011 às 10:30 | Publicado em Jornalismo Literário, Pesquisa | 4 Comentários

Compartilho minha mais recente pesquisa científica publicada, escrita em parceria com José Eugenio de Oliveira Menezes, que integra o livro Jornalismo_Contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. A referência, o link e o artigo na íntegra encontram-se abaixo:

MENEZES, José Eugenio; MARTINEZ, Monica. Jornalismo e tempo profundo: o trabalho de Nelson Araújo no Globo Rural. In: Jornalismo_contemporâneo: figurações, impasses e perspectivas. SILVA, Gislene et al (Org.). Salvador: EDUFBA; Brasília : Compós, 2011, p. 182-202. Disponível em: <http://www.repositorio.ufba.br/ri/bitstream/123456789/1586/1/Jornalismo%20contemporaneo.pdf>. Acesso em: 17 out 2011.

 

Jornalismo e tempo profundo:

o trabalho de Nelson Araújo no Globo Rural

José Eugenio de Oliveira Menezes e Monica Martinez

 

Paradigmas jornalísticos em tensão

 Neste trabalho analisamos uma reportagem veiculada pela televisão

 que, mesmo em tempos de extrema velocidade de apuração e risco de

 superficialidade na prática da reportagem, oferece indícios da possibilidade

 de se captar, no trabalho jornalístico, sinais de uma temporalidade

 diferente da descrição linear de acontecimentos. A partir de um modelo

de temporalidade que, como veremos abaixo, alguns autores denominam

 “tempo profundo”, examinamos a experiência realizada pelo jornalista

 Nelson Araújo na reportagem Buriti, veiculada pelo programa Globo Rural

em 22 de março de 2009, que compreendemos como um mergulho de

 grande alcance na realidade.

A título de introdução lembramos que muitos pesquisadores têm se dedicado

 aos estudos a respeito da crise de paradigmas que o jornalismo tem

 enfrentado desde o final do século XX e, sobretudo, na virada do século

 XXI, com a intensificação das mudanças tecnológicas. De modo genérico,

 identificamos nos estudos atuais três perspectivas epistemológicas.

A primeira é marcada por uma postura quase que nostálgica, segundo

 a qual as mudanças econômicas, sociais, tecnológicas e outras representam

 praticamente um dano à práxis jornalística contemporânea, degenerada,

 decerto, frente ao jornalismo praticado em décadas anteriores, como encontramos,

 por exemplo, na avaliação de Ignacio Ramonet (2004).

No outro extremo está a segunda linha epistemológica, a dos estudiosos

que compartilham uma visão tecno-utópica que considera que os novos

ambientes de criação e cooperação proporcionados por plataformas digitais

 interconectadas favorecem a prática dos jornalistas e de quem mais

 queira compartilhar informações. Os novos ambientes digitais possibilitam

 o “surgimento de funções conversacionais pós-massivas, permitindo,

 a qualquer pessoa, consumir, produzir e distribuir informação sem ter

 que movimentar grandes volumes financeiros ou pedir concessão a quem

 quer que seja”. (LEMOS, 2009, p. 29) Estes pesquisadores não apenas

 concentram seus esforços em tentar compreender o presente em constante

 mutação, mas ainda usam toda sua capacidade intelectual numa tentativa

 de detectar tendências e cenários futuros.

Na tensão entre as posturas brevemente indicadas encontram-se pensadores

 cientes que vivemos no contexto da velocidade, como afirma Paul

 Virilio (1996), e da conectividade da sociedade em rede, como diagnostica

 Castells (1999). Um cenário no qual algumas práticas e aparatos mediáticos

 caem em desuso tão rapidamente quanto outros surgem. Nem o passado

 pode ser idealizado como perfeito, nem a tecnologia por si só resolverá

 todos os problemas dos futuros profissionais e pensadores da área.

Esta noção de transitoriedade, aliás, é conhecida da história da comunicação

 e dos aparatos técnicos que intensificam, ou não, a comunicação ou

  a incomunicação. O fato não é a transformação em si, mas a rapidez com

 que as mudanças se instalam. Do estabelecimento em pontos estacionários

 e da prática da agricultura, ao redor de 10 mil a.C., a humanidade teria

 levado seis mil anos até outra invenção significativa, a da escrita. A impressão

 das primeiras publicações, conforme Ciro Marcondes Filho (2009, p. 18),

 ocorre pouco mais de um século após o aparecimento dos tipos móveis

 de Gutenberg. Tais fatos, de diferentes amplitudes temporais, nos ajudam

 a compreender que na contemporaneidade também participamos, como

 protagonistas, de novas mudanças na prática do trabalho jornalístico na

 tensão entre as funções pós-massivas conversacionais que se adicionam

 as “tradicionais funções massivas informacionais”. (LEMOS

, 2009, p. 29)

 

Para usar uma analogia, é como se a humanidade estivesse num momento

 de parto que precede o nascimento: o período de nove meses no útero

 materno está próximo a um fim, as contrações começaram, há uma enorme

 tensão, mas nada ainda que permita saber que a vida continua, em geral

até melhor, após a enorme compressão e, posteriormente, desconfortável

 passagem por um espaço diminuto em direção ao desconhecido.

O trajeto das transformações do conhecimento não pode mais ser

 compreendido de forma linear, ainda que confortadora, no sentido de que

 o ápice da complexidade estaria na contemporaneidade em contraposição

 ao arcaico enquanto primevo e simplório. Várias visões caminham neste

 sentido. Um exemplo é a teoria do cadarço de botas (bootstrap theory),

idealizada nos anos 1960 pelo físico estadunidense Geoffrey Chew, da

 Universidade de Berkeley, que extrapolou sua área e passou a simbolizar

 essa noção de cruzamento e interação de conceitos e práticas necessários

 para a inovação em determinado campo do saber. No nosso caso, no

 campo do jornalismo, estudamos uma prática de reportagem –

Buriti para observarmos formas de captação e expressão de um tempo profundo,

 marcado pela interconexão de posturas como a tradição do jornalismo

 literário e a perspectiva epistemológica da chamada cultura do ouvir.

 

Do lixo ao luxo epistemológico

 Nesse caminho histórico da epistemologia da comunicação, no entanto,

parte dos estudos mediáticos, ainda que consistentes, cai no esquecimento

por variados motivos. Em termos freudianos, seria como um conhecimento

que fica latente no inconsciente – não é usado no estado de vigília, isto é,

não consta dos manuais mais citados, contudo em circunstâncias especiais

ou necessárias, vem à tona, como se estivesse numa camada subjacente à

usada cotidianamente pelos pesquisadores da área.

 

O docente e pesquisador brasileiro de teoria da comunicação Norval

Baitello Junior, ao destacar os livros seminais do comunicólogo tchecobrasileiro

Vilém Flusser (1920-1991) – A História do Diabo e Língua e Realidade

, lembra justamente que o teórico “não se cansava de lembrar a raiz da

palavra ‘história’ em alemão, Geschichte, sendo Schicht exatamente ‘camada’”.

Baitello Junior (2006, p. 13) chama a atenção para o fato de que a

deposição de camadas e camadas de detritos, entulhos, é o

que nos obriga hoje a nos debruçarmos sobre as ciências

arqueológicas, sobre o passado […] e sobre o lixo soterrado,

como material valioso para a compreensão do presente.

 

Para o pesquisador, mais do que se preocupar com os estudos dos produtos

e da produção – com vistas a sua melhoria –, como feito atualmente,

uma Teoria das Mediações deveria subverter esta concepção instrumental

de pesquisa e ocupar-se da real dimensão dos meios de comunicação,

a saber, de suas raízes profundas. O pesquisador também enfatiza que

Flusser lembra que entre as ciências arqueológicas estão a Ecologia, a Psicanálise,

a Etimologia, a Mitologia etc. São as ciências que cuidam

de resgatar o passado descartado, desobstruindo o acesso

para uma relação saudável com as origens, esvaziando um

pouco a inflada ubris  do presente. (BAITELLO JUNIOR,

2006, p. 13)

 

 

Baitello ressalta que essas raízes profundas, vitais para a compreensão

da comunicação e dos meios de comunicação no presente, são entendidas

como o tempo profundo na visão de Siegfreid Zielinski, professor de

Teoria dos Media da Universidade Técnica de Berlim. Em Arqueologia da

Mídia , Zielinski (2006) defende que os historiadores dos meios, apesar de

terem tido a chance de descobrir preciosidades descartadas e esquecidas

no refugo, têm-se mostrado negligentes do ponto de vista ideológico e

metodológico, rendendo-se “à idéia do progresso técnico inexorável, quase

natural”. (ZIELINSKI, 2006, p. 18)

 

Para o pesquisador alemão, essa noção evolucionista relaciona-se com

outras suposições, como a história do desenvolvimento da hegemonia

política, a passagem da organização hierárquica para a democrática dos

sistemas, o fundamento lógico da economia e a necessidade absoluta de

artefatos técnicos simples para o desenvolvimento de sistemas tecnológicos

complexos. Por isso, afirma que “em essência, tais genealogias são fábulas

confortantes sobre um futuro brilhante, onde tudo que já existiu está

subjugado à noção de tecnologia como um poder para ‘banir o medo’ e

como ‘força motora universal’”. (ZIELINSKI, 2006, p. 19)

Esta busca do novo no velho, sugerida por Zielinski, pode ser trabalhosa

e, certamente, demandar uma visão generalista mais do que especialista,

como muito aprecia parte da academia contemporânea. Contudo, com

dedicação e sorte, pode levar a resgates interessantes. Um destes aspectos 

que analisaremos em seguida é a questão do tempo profundo, que permite

a um repórter um mergulho de grande alcance na realidade.

 

Tempo profundoorigens do conceito

 Segundo Zielinski (2006, p. 20), na transição do século XVIII para o XIX,

a noção de que a Terra era muito mais antiga do que se supunha até então

despertou interesse nos círculos burgueses, num momento de incerteza

territorial em que as próprias “fronteiras nacionais eram redesenhadas em

intervalos cada vez menores”. Ao longo dos séculos posteriores, a escala

cronológica do planeta passa a ser estimada dos 6 mil a milhões de anos,

sendo que hoje a datação aceita é a de 4.6 bilhões de anos.

 

Um dos naturalistas responsável pela implantação desta noção de tempo

geológico profundo foi o escocês James Hutton (1726–1797). Nascido

em uma próspera família de negociantes e envolvido na venda de

compostos químicos, Hutton era também dotado de grande curiosidade

intelectual e dispunha de recursos financeiros para realizar pesquisas

e as viagens necessárias. Como era comum na época, ele se tornou um

geólogo independente, isto é, sem filiar-se a nenhuma instituição. Seus

achados empíricos, que descreviam a evolução da Terra como um processo

dinâmico baseado em erosões, sedimentações e soerguimento de camadas

tectônicas, seguidos novamente de erosões, foram publicados em

Theory of the Earth, de 1778, posteriormente ampliado na segunda edição.

O conceito de tempo profundo e, consequentemente, da história da

vida, demanda uma compreensão temporal que pode ser desconcertante.

Zielinski (2006, p. 21) cita o paleontólogo Stephen Jay Gould (1941-

2002), da Universidade de Harvard, que afirmava que “a idéia de tempo

profundo geológico é tão estranha para nós que apenas podemos entendêla

como metáfora”.

 

E qual seria a aplicação prática deste conceito do tempo profundo no

jornalismo contemporâneo, num contexto em que as práticas da área – e,

convenhamos, muitos dos estudos – estão marcadas pela superficialidade

e pela fragmentação? Ainda segundo Zielinski, o livro Basin and Range,

do estadunidense John McPhee (1981), introduz o conceito de tempo

profundo no jornalismo. Ora, ao citar McPhee o docente de Teoria dos

Media alemão estabelece um diálogo com outra área de pesquisa importante:

o Jornalismo Literário, no sentido de uma pesquisa temática

verdadeiramente profunda que deleite pela redação primorosa, inspirada

em elementos da escritura literária. (MARTINEZ, 2010, p. 26)

 

Antes de avaliarmos suas contribuições, no entanto, falemos de

McPhee. Nascido em 1931, o jornalista estadunidense é considerado um

dos pioneiros da não-ficção. Sua carreira começou na revista

Time e, de 1965 até os dias atuais, é colaborador da

The New Yorker. Em 1999, ganhou o

Pulitzer Prize de não-ficção por Annals of the Former World. Graduado

pela Universidade Princeton, ele é docente de escrita naquela instituição,

tendo ensinado gerações de escritores, como David Remnick, também

ele ganhador de um Pulitzer e atual editor da The New Yorker. Remnick

(1996, p. xi, tradução nossa), um dos seus pupilos, tece um breve perfil de

McPhee na introdução de The Second McPhee Reader:

 

A reputação de McPhee é substancial, longe de ser secreta.

Ele é um favorito entre outros escritores, o tipo de figura

que é tão bom que está além da inveja, e em anos recentes

vendeu livros suficientes para incitar seu editor a reimprimir

todos seus livros em bonitas séries de brochuras. Seu

clássico sobre o Alasca, Coming into the Country,

e seus quatro livros sobre geologia estão entre seus best-sellers. Ainda

 assim, a reputação de McPhee deveria ser ainda maior. Enquanto

 muito do Novo Jornalismo dos (anos) 1960 e 1970

 parece artificial ou histérico em releituras, o trabalho de

 McPhee tem a qualidade da permanência.1

 

Para efeito de ilustração, empregamos um trecho da abertura do livro

Basin and Range McPHEE (1996, p. 97-98) em tradução livre de Edvaldo

Pereira Lima (2008, p. 363), docente e pesquisador em Jornalismo

Literário:

 

Os pólos da Terra se moveram. O Equador mudou de lugar,

aparentemente. Os continentes, pousados em suas

placas, já foram carregados para tão longe e são deslocados

em tantas direções, que parece um ato de quase arrogância

afirmar que um certo lugar conhecido do nosso mundo

está situado a 73 graus, 57 minutos e 53 segundos de

longitude a oeste e a 40 graus, 51 minutos e 13 segundos

José Eugenio de Oliveira Menezes e Monica Martine z

 de latitude norte – uma descrição temporária, na melhor

das hipóteses, como a de um barco no mar. Contudo, essas

coordenadas o trarão – até o que se pode considerar como

futuro previsível – com absoluta precisão à rampa oeste da

Ponte George Washington. Nove da manhã. Um dia de semana.

O tráfego é uma aula grosseira de física de partículas.

Ele arrebenta, como enxurrada, vindo de suas fontes alimentadoras

em Chicago, Cheyenne, Sacramento, passando

pelos altos atalhos escuros da soleira – ou sill – conhecida

como Palisades Sill. Uma jovem, a pé, é pressionada contra

o muro de rochas pelo ribombo das jamantas – Com

Weimar Bulk Transportation, Fruehauf Long Ranger.

O rosto é nórdico, os olhos são marrons escuros e latinos –

heranças de avós dos extremos da Europa. Ela usa botas de

montanhas, jeans. Carrega um martelo de geólogo. O que

os caminhoneiros parecem notar, porém, é sua juventude,

sua longa cabeleira norueguesa dourada; e eles flertam com

ela apertando as buzinas que soam como agulhas em seus

ouvidos. O nome dela é Karen Kleinspehn. Ela é geóloga,

estudante de pós-graduação prestes a terminar o doutorado

e não tem nenhuma dúvida que ela e a estrada e a rocha sob

os seus pés, e a ponte enorme e sua espantosa cidade – aliás,

quase todo o Canadá e os Estados Unidos continentais e

o México, para completar – estão majestosamente movendo-

se em direção aos caminhões. Ela não veio aqui, porém,

para avaliar os movimentos tectônicos, embora Deus sabe

que ela poderia, já que o “sill” é, em teoria, uma prova dos

eventos que criaram o Atlântico.2

 

Para Lima (2008, p. 365), “a soberba abordagem de McPhee a um tema

aparentemente tão intragável como esse começa em território distante

do mundo conhecido da maioria dos leitores: a deriva dos continentes”.

O que poderia eventualmente parecer chato e distante a um leitor não

iniciado nas artes da Geologia, se apresentado com os jargões da área,

ganha matizes da era da incerteza.

 

Imediatamente, porém, o autor traduz o que isso significa:

é um milagre – senão arrogância – utilizarmos com precisão

uma invenção humana disseminada como absolutamente

verdadeira nos bancos escolares, impregnada na nossa

cultura como certeira, aceita sem questionamento.

 

Finalmente, analisa Lima, McPhee (1966 apud LIMA 2008, p. 365)

integra a questão ao cotidiano do leitor:

Essa invenção, a das coordenadas geográficas, é o cartão

de visitas que John nos apresenta. Através dela, quase sem

perceber, somos conduzidos para um ponto específico do

nosso planeta, numa certa manhã, e colocados diante de uma

ponte que recebe um fluxo contínuo e pesado de carros.

Nesta intersecção entre ciência e narrativas contemporâneas, Cremilda

Medina lembra que “a ciência é um sistema de dúvidas; a ideologia,

certezas. O diálogo entre saberes especializados e sabedorias humanas

favorece a posição científica da dúvida”. (MEDINA, 2003, p. 56)

Finalmente, Lima (2008, p. 365) chama a atenção para a maestria da

escrita de McPhee na construção de cenas:

 

Como um cineasta habilidoso ao começar um filme de longa

metragem, McPhee vai descortinando com maestria o

cenário que nos aguarda, gradativamente guiando o nosso

olhar para os elementos que o compõem. Os veículos

trafegam sobre uma base de rochas e ali, inesperadamente,

nos deparamos com uma bela mulher batendo martelo

em pedra, indiferente às provocações dos caminhoneiros

que passam, mas não imune ao barulho ensurdecedor do

ambiente. A loira atraente é a narradora da história que o

autor tem a contar, onde o pequeno e o grande, o perto e o

distante, o antigo e o novo integram-se como num processo

interativo dinâmico e esclarecedor. De súbito, aquele mundo

da história geológica e termos difíceis já não é mais estranho.

Faz sentido para o aqui e o agora. Descobrimos belezas

insuspeitas. E entendemos, especialmente se conhecemos

Nova York e New Jersey, o laborioso trabalho construtivo

da Natureza oculto nos penhascos que dão um charme todo

especial ao panorama descortinado da ilha de Manhattan.

 

O tempo profundo, claro, não é o único na compreensão da realidade,

ainda que seja o mais esquecido atualmente. O historiador francês Fernand

Braudel (1902-1985), um dos expoentes da Nova História Francesa

3, defende a ideia de que, no mar, há três camadas históricas e não apenas

uma única. Segundo esta ideia, a superfície representaria os acontecimen

tos cotidianos, mais rápidos e buliçosos; o leito do mar representaria as

décadas, que mudam mais lentamente e, portanto, são mais fáceis de serem

percebidas pelo sujeito histórico; já as profundas camadas marítimas,

abissais, representam as grandes transformações sociais que levam séculos

ou mesmo milênios para ocorrerem e, consequentemente, serem notadas.

O historiador francês sintetiza sua visão: “Assim chegamos a uma decomposição

da história em planos escalonados. Ou, se quisermos, no tempo

da história, de um tempo geográfico, de um tempo social, e de um tempo

individual”. (BRAUDEL, 1978, p. 15)

 

Norval Baitello também ressalta a relevância deste tempo em relação

à escrita: “O tempo lento da escrita é o tempo que não apenas permite a

reflexão mas também a retrospecção. E, com isso, abre as portas para uma

outra escrita, a escrita da história”. (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 82-83)

Ou como ele diz em seu livro A era da iconofagia:

Com a escrita e seus precursores (as imagens gravadas sobre

suportes duráveis) impõe-se o homem sobre a morte e seu

tempo irreversível, vencendo simbolicamente seu maior e

mais poderoso adversário. O grande trunfo da escrita não

é a velocidade, mas a lentidão que permite cifrar e decifrar

enigmas. O tempo lento da escrita e da leitura permite alongar

a percepção do tempo da vida.

 

A aplicação desta noção do tempo profundo, lento, contudo, demanda

outro aporte teórico para sua compreensão e prática: a cultura do ouvir.

 

O som na práxis e reflexão jornalísticas

 Para percebermos as perspectivas da cultura do ouvir no contexto da

área da Comunicação, bem como suas aplicações possíveis, é vital estudarmos

a questão do som. No desenvolvimento do ser humano, por exemplo,

o ouvir é o sentido que primeiro se manifesta. Para compreender a

importância do ouvir na perspectiva ontogenética, Christoph Wulf, do

Centro Interdisciplinar para Antropologia Histórica da Universidade Livre

de Berlim, explica que já aos quatro meses e meio o feto tem condições

de reagir a estímulos acústicos, uma vez que o ouvido se desenvolve antes

da vista. Segundo ele, o ouvir é condição prévia para que se desenvolvam

os sentimentos de segurança e pertencimento. “No ambiente sonoro,

muito antes das palavras com significados específicos, um bebê percebe o

timbre da voz, o seu tom, a sua articulação, fundamentais na relação com

os interlocutores”. (WULF, 2002)

 

A repetição de determinados sons do ambiente familiar, em formas de

ritos sempre renovados, com os mesmos rumores e os mesmos tons de

voz, favorece a ambientação do bebê em uma rede de sons. Na escuta de si

mesmo e na escuta do outro, “o ouvido desenvolve um papel fundamental

na constituição da subjetividade e da sociabilidade”. (WULF, 2002, p. 463)

As repetições linguísticas ritualizadas e articuladas em ritmos, bem como

as imitações dos sons conhecidos, estimulam a capacidade mimética.

Segundo Wulf (2002, p. 463), através de variações imitativas o bebê

começa a falar e a compreender; com a possibilidade de se “fazer ouvir,

adquire uma nova competência social graças a qual sua personalidade pode

se desenvolver”. (MENEZES, 2008, p. 162)

 

A questão do som é tão poderosa na espécie humana quanto na formação

de um indivíduo. Tanto que encontramos ecos fortes das experiências

sonoras provindos do plano do mito. O mais conhecido, talvez, seja o mito

bíblico da criação narrado no primeiro capítulo do Gênesis. A narrativa

convida o leitor a cultivar a memória de que Deus, no espaço de seis dias,

cria paulatinamente todo o universo, concluindo com o ser humano criado

à sua imagem e semelhança.

 

O mito associado ao som que aqui se destacará é relacionado a este

poderoso processo criativo narrado pelo mitólogo estadunidense Joseph

Campbell (2000, p. 122-123):

 

Uma das mais surpreendentes imagens de amor que eu

conheço é persa – uma representação mística persa de Satã

como o mais leal amante de Deus. Vocês devem ter ouvido

a velha lenda de como, quando Deus criou os anjos, ele

ordenou que não prestassem culto a mais ninguém exceto a

ele próprio; mas então, ao criar o homem, ele lhes ordenou

que se curvassem em reverência a essa que era a mais

nobre de suas obras, e Lúcifer recusou-se – como sabemos,

devido ao seu orgulho. No entanto, de acordo com essa

leitura muçulmana, sua atitude foi devida ao fato de amar

e adorar Deus tão profunda e intensamente que ele não

podia inclinar-se diante de mais nada. E é por isso que ele

foi lançado no Inferno, condenado a existir ali para sempre,

apartado de seu amor.

Ora, diz-se que de todas as dores do Inferno, a pior não é

o fogo nem o mau cheiro, mas a privação eterna da visão

beatífica de Deus. Quão infinitamente doloroso, pois, deve

ser o exílio desse grande amante, que não poderia levá-lo

nem mesmo sob o comando da própria palavra de Deus,

a inclinar-se perante qualquer outro ser!

Os poetas persas perguntaram: “Por qual poder Satã é sustentado?”

E a resposta que encontraram é esta: “Pela memória

do som da voz de Deus quando ele disse: “Afaste-

se”. Que imagem dessa intensa agonia espiritual que é,

simultaneamente, o êxtase e a angústia do amor!

 

Na dimensão mítica, portanto, o som da expressão “Vá para o inferno”

é tão poderoso que sustenta nas trevas a vida do inimigo do mais destacado

personagem da mitologia do Oriente Próximo.

 

Na passagem da mentalidade mítica para a histórica, há paulatinamente

um esvaziamento do poder na transmissão oral da narrativa em detrimento

da escritura, da mesma forma que houvera antes um esvaziamento do

conteúdo religioso na esfera dos mitos. Em A Letra e a Voz, o historiador

literário e medievalista suíço Paul Zumthor (1993, p. 155) estuda o

fenômeno:

 

Até por volta do século XII, a escritura é o único veículo

do saber mais elevado: o poder passa pela voz. A partir dos

séculos XII e XIII, a relação se inverte: ao escrito, o poder; à

voz, a transmissão viva do saber. Mas na virada dos séculos

XV e XVI, ou até XVI e XVII, nenhum desses dois feixes

de forças e de valores conseguiu eliminar inteiramente o

outro. Não se pode deixar de estar aí a poesia comum a todas

as redes de comunicação constitutivas de um estado da

cultura.

 

O valor do som, no entanto, parece diminuído desde então, no contexto

da sociedade da imagem. Na visão de Baitello Junior (2005, p. 99):

 

Se fizermos uma avaliação sobre o que vale mais hoje: a palavra

ou o documento? O que custa mais caro, a televisão

ou o rádio? O que tem maior valor, o que se fala ou o que

se publica? – em todas as esferas da atividade e da cultura

contemporâneas detecta-se um predomínio do visual sobre

o auditivo. Na vida e no trabalho acadêmico, tem mais peso

quem escreve um livro do que quem dá bons cursos.

Os sistemas de avaliação são todos fundados sobre a escrita,

que pertence ao reino da visualidade, a mesma escrita

que nasceu das formas mais arcaicas de conservação de

informação. […]

 

A cultura e a sociedade contemporâneas tratam o som como

forma menos nobre, um tipo de primo pobre, no espectro

dos códigos da comunicação humana. Por isso a minha

pergunta se não estamos nos tornando surdos intencionais?

Surdos que ouvem. Surdos que têm a capacidade de ouvir,

mas que não querem ouvir, não tem tempo ou então não

dão atenção ao que ouvem? Literalmente não dão ouvidos

ao que de fato ouvem?

 

Baitello Junior defende que na contemporaneidade estamos assolados

pela cultura do ver, imersos numa era da iconofagia, em que o sentido

da visão está tão sobrecarregado de imagens que paradoxalmente não

mais conseguimos enxergar a realidade à nossa frente. Segundo ele, há

a demanda de se resgatar “uma nova cultura do ouvir. E de uma outra

temporalidade. E de um novo desenvolvimento da percepção humana

para as relações profundas, para os nexos profundos, para os sentidos e

para o sentir”. (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 109)

 

O trabalho do jornalista Nelson Araújo

 

Haveria, portanto, algum espaço mediático ou algum profissional contemporâneo

nos ambientes audiovisuais, ocupado não apenas com suas

instâncias mais superficiais, mas igualmente com esta contraparte jornalística

profunda, que engloba tanto o contexto teórico da cultura do ouvir

quanto o instrumental técnico das entrevistas de profundidade? Temos experiências

relevantes de entrevistas dialógicas, como estudadas e praticadas

laboratorialmente por Cremilda Medina (1990)?

 

Depois de dois anos de investigações (MARTINEZ, 2009; 2010) sobre

a temática, observamos o exemplo do jornalista Nelson Araújo, do programa

Globo Rural, enquanto uma produção de excelência que se insere

no escopo acima.

 

Araújo é paulista da cidade de Ribeirão Preto, tendo nascido em 20 de

novembro de 1951. É o primogênito de uma família de agricultores, tendo

tido desde cedo contato com o campo. Começou a trabalhar aos oito anos.

Sou fruto da primeira geração de bóias-frias criada em 1945

quando os fazendeiros dispensaram muitos trabalhadores

rurais devido às leis trabalhistas criadas pelo então presidente

Getúlio Vargas. Meu pai arranjou emprego de leiteiro e eu

acordava às duas da manhã para ajudá-lo a entregar leite em

Ribeirão Preto. (ARAÚJO, 2010)

 

Em 1967, com 16 anos, por conta de sua bela voz, de seu amor à música

e pela necessidade financeira, conseguiu seu primeiro emprego, como

locutor de noticiário em uma emissora de rádio local. Formou-se em

Letras e no início dos anos 1970 já trabalhava em um jornal de sua cidade

natal. Neste época, como ele diz, “foi atropelado por um fenômeno que se

instalou no jornal concorrente: a equipe formada por Zé Hamilton Ribeiro

e Sérgio de Souza, ex-jornalistas da revista Realidade, que buscavam no

interior do Estado espaços mais livres de atuação que não encontravam

na capital premida pela ditadura militar.” Ao redor de 1976, atuou como

assessor de imprensa na prefeitura municipal de Ribeirão Preto. Não

gostou. “Pude ver toda a sordidez do mundo político”. Arriscou-se na

vida de docente em curso de jornalismo em Bauru, ensinando semiótica

por meio de livros como Análise Estrutural da Narrativa do francês Roland

Barthes. “Mas achava aborrecido ter de repetir as aulas e dava um trabalhão

preparar material novo para cada uma delas”.

 

Em 1980, depois de ter atuado como repórter, redator e correspondente de

jornais como O Globo, foi convidado a trabalhar na Rede Globo de Televisão,

fazendo reportagens para vários telejornais. Encantou-se. “A câmera é um

instrumento poderoso, pois permite desenvolver várias linguagens: a gestual,

a musical, a visual, a gráfica, até a do silêncio”. A carreira universitária foi

deixada de lado, mas o telejornalismo cotidiano ainda não era o que queria.

“Não é de minha natureza ficar apontando defeitos”.

 

Em 1986 foi transferido para a TV Globo de São Paulo e, quatro anos

depois, para o programa Globo Rural. “Tive a felicidade de que aqui minha

carreira ganhou um trilho”. Humberto Pereira, editor-chefe do programa

desde que foi criado, em 1980, diz em depoimento concedido por correio

eletrônico, que Nelson Araújo é um artesão. “Como jornalista, nasceu

artesão e vai morrer artesão. Justamente no Globo Rural ele tem campo

para exercer essa virtude”.

 

Do ponto de vista da práxis jornalística, este trabalho artesanal é dividido

em três partes: a seleção cuidadosa da pauta, a coleta de informações e

a edição do material. Durante a seleção da pauta, amparado em muita

pesquisa, ele busca manifestar suas visão sobre um dado tema. “O

Globo Rural não é um programa de debates, mas posso dizer o que penso por

meio das minhas matérias”. Aprovada a ideia, parte para a colheita de

informações, quando vai a campo. Nesse momento, segundo suas palavras,

ele é o “repórter curioso, enxerido”. Quem está acostumado com suas

reportagens percebe que ele ouve com extrema atenção seu interlocutor,

estabelecendo um diálogo profundo com suas fontes. Uma vez bateu em

retirada, como se diz na linguagem do interior paulista, ao notar que um

fazendeiro estava humilhando um funcionário. Não ficou para conferir

o resultado. Justificou-se e simplesmente partiu com a equipe. Quando

volta à redação, torna-se o editor que procura dar corpo e consistência

ao material colhido. “Tem gente que trabalha com um modelo. Eu não

consigo fazer assim. A reportagem vai me dizendo o que ela é – não parto

de nada pré-concebido”.

 

A edição criteriosa do material é parte integrante de seu método de

construção da reportagem. Em uma pequena sala na redação, ele assiste

os CDs gravados com as entrevistas e transcreve cuidadosamente fala

por fala para o papel. Ao final, tem uma apostila com, dependendo do

material apurado, cerca de cem folhas digitadas, que manda encadernar

com espiral. A partir daí, para montar a matéria, Araújo não volta mais à

gravação original, recorrendo apenas à sua apostila.

 

Faz parte do modelo do programa uma apresentação prévia da reportagem

editada para toda a equipe, na quarta-feira que antecede o

domingo no qual será veiculada. Neste momento, críticas e sugestões são

incorporadas. Não há unanimidade, em particular no quesito que o torna

tão único no jornalismo brasileiro: o uso de poesia nas reportagens.

 

Como se sabe, a escolha da palavra exata faz toda a diferença na construção

poética. A também jornalista Maria Antonia Demasi (2010), hoje

na TV Gazeta, com quem Nelson está unido há mais de 20 anos, conta

que Araújo escreve suas reportagens em casa. Ao redigi-la, ele mune-se

de vários dicionários, procurando neles as palavras perfeitas. Caso sinta-se

bloqueado, recorre ao violão – que, segundo ela, toca muito bem. Embora

não se considere um poeta, ele explica que não se trata de usar o verso pelo

verso. Além da sensibilidade pessoal, também há técnica ali. “Descobri que

a sonoridade da redondilha maior, de sete sílabas, fica perfeita no vídeo”.

Redondilhas, é melhor explicar, são estrofes de quatro versos, onde o

primeiro rima com o último e o segundo com o terceiro.

 

Finalmente, Araújo defende que uma das funções do repórter é propiciar

ao telespectador um repertório para que ele entenda melhor o

tema e, para isso, quanto maior a bagagem do jornalista sobre o universo

abordado, mais fácil será explicá-lo para os interlocutores que assistem o

Globo Rural

 

A reportagem especial buriti

 

Do ponto de vista empírico, o corpus deste trabalho é Buriti, reportagem

especial que ocupou os quatro blocos do programa da edição comemorativa

de número 1500, exibida em 22 de março de 2009. No contexto da televisão,

trata-se de um espaço enorme, quase 1 hora, neste sentido sendo maior do

que muitos documentários contemporâneos.

 

O motivo da escolha é o pioneirismo da reportagem, que mescla prosa

e poesia. O autor já havia cometido a ousadia tempos antes, em 1991, em

outra reportagem televisiva, O Pequinizeiro, também narrada em versos.

Entendemos que a reportagem pode ser considerada uma experiência

do que acima estudamos como tempo profundo. Faz parte da proposta

do programa Globo Rural a contextualização caprichada. Logo de início, o

repórter cumpre sua função de relatar as origens históricas e geográficas

do tema.

 

O buriti é uma palmeira nativa das Américas Central e do Sul. No Brasil,

ele ocorre, basicamente, na região de cerrado. Tem larga distribuição

por dez estados do Brasil Central, Centro-oeste e parte do Sudeste.

 

Além da grande importância econômica e social, o buriti é vital para a

vereda, o caminho das águas no sertão. (ARAÚJO, 2009a)

Em seguida, Araújo usa da poesia para situar a localização das veredas

ao telespectador: “Prende a suspiração / Cena assim tão linda / Palmeira

que não se finda / Em 40 quilômetros de extensão. Esta é a vereda do gibão

/ Quase no ponto do mapa / Em que três Estados dão a mão. Minas, Goiás

e Bahia / Onde o cerrado enfeita o chão”. (ARAÚJO, 2009a)

 

Depois de sabermos que o local abordado encontra-se no norte de

Minas Gerais, onde o Estado está mais próximo da Bahia, Araújo insere a

entrevista do professor Altair Barbosa, da Universidade Católica de Goiás,

campus de Goiânia, que há 40 anos estuda o cerrado. Araújo mergulha no

tempo geológico para explicar a complexidade ambiental do fenômeno das

veredas:

 

A aula é sobre os depósitos subterrâneos de água chamados

de aqüíferos. Os principais são o Guarani, o Urucuia

e o Bambui. Eles se encontram no coração do cerrado, a

quina do telhado no Planalto Central. Da vertente sul, brotam

as águas da bacia Paraná; a leste, as que alimentam o

São Francisco; ao norte, os que alimentam parte da Bacia

Amazônica.

Formados há milhões e milhões de anos, os aqüíferos são

continuamente reabastecidos pelas chuvas. O solo poroso

do cerrado facilita a infiltração. Cheio, o aqüífero vaza pelas

nascentes, garantindo a água dos rios mesmo no longo

período seco. E a água iria embora rapidamente se não

fosse uns reguladores, umas válvulas com que a natureza

presenteou o cerrado: são as veredas. Essas áreas alagadiças

onde se destaca o palmeiral […]

‘Os buritizais e as veredas são basicamente da mesma idade

do cerrado, ou o capítulo inicial da história do cerrado’,

explica Altair Barbosa, professor da Universidade Católica

de Goiás.

Segundo o professor Altair, essa espécie de buriti das veredas,

que leva o nome científico de “mauritia flexuosa”, pode

estar no grupo dos seres vivos mais antigos do planeta. Viria

lá da remota, longínqua da formação do cerrado.

‘O buriti, junto com as veredas, começaram a se formar por

volta de 65 milhões de anos’, diz o professor. (ARAÚJO,

2009a)

 

À semelhança do jornalista estadunidense John McPhee, tampouco

Araújo emprega jargões complicados. Antes, usa vocabulário próprio do

público que tão bem conhece: “Imagine se o país / feito uma casa de morar

/ tivesse telha assim em quina / modo da água escoar / pois isso que nos

fascina / daqui dessas alturas / tem função de cobertura / é um gigantesco

cantil. Esta é a cumeeira do Brasil”. (ARAÚJO, 2009a)

 

À descrição botânica acresce-se o charme da oralidade regional:

O buriti é de crescimento lento. Se alça do chão não por

um caule, mas, pelas folhas. Pode passar anos para soltar

o tufo de folhagem, primeiro; e levar décadas para expor

todo o tronco e frutificar. Alcança altura média de vinte

e cinco metros. Na coroa do poste, abre as palmas, um

leque gracioso que dá vida à brisa. Às rajadinhas suaves que

encanam na vereda um murmúrio como se fosse de praia.

O coquim do buriti / você já viu um mais / bonitim?

Redondo pro ovalado / tem escama de desenho quadriculado

/ polpa amarela e o caroço amendoado / a castanha que é um

banquete / pros bichos do cerrado.

Buriti é morada / ponto de passagem, de espreita / esconderijo,

restaurante de uma fauna numerosa / especialmente, os

que voam / os papagaios, as maritacas / a maracanã, a jandaia,

a cacué.

E, principalmente as araras / tanto a azul, como a vermelha,

e a Canindé.

Pros bichos que andam no chão / Vereda não é um ambiente

fácil de se entrar, não. (ARAUJO, 2009a)

 

No segundo bloco da reportagem, Araújo assume a “ousadia de tratar

em verso e prosa de um assunto que virou arte nas mãos de João Guimarães

Rosa” (1908-1967), referindo-se, como não poderia deixar de fazer, ao

escritor mineiro autor de

Grande Sertão Veredas.

Infelizmente nem tudo é poesia nesta reportagem. É com visível desolação

que Araújo ouve respeitosamente os causos da destruição das

198 _

Jornalismo e tempo profundo: o trabalho de Nelson Araújo no

Globo Rural

 

veredas,

alavancada na década de 1970 pela política governamental de

ocupação do território, que incentivava o plantio de eucaliptos na área.

E das incongruências na vida do pequeno proprietário local, que vive em

condição de miséria por não poder estabelecer bases autossustentáveis

com o buritizal – sequer tirar folhas verdes para cobrir o telhado, como

seus antepassados faziam. Neste sentido, o jornalista, pró-ativo, entrevista

Rômulo Melo, presidente do Instituto Chico Mendes, que confessa que

neste caso da cobertura “não é necessária uma autorização”. Não fica claro,

no entanto, se o pequeno proprietário teve acesso a esta informação que

melhoraria sua vida. O jornalista finaliza a reportagem especial:

Um grande diz que diz vamos ter com certeza para que as

regras do país levem em conta a natureza tanto da nossa

pobreza e riqueza como dos nossos buritis. Assim, quem

sabe, um dia possa o Grande Sertão: Veredas ter um final

feliz. (ARAÚJO, 2009d)

 

Fica a impressão de que o tempo histórico e social seja ainda insuficiente

para apresentar um relato de preservação ambiental e proteção social, como

uma vida mais digna para os moradores da área. Talvez, neste caso, apenas

o tempo mais extenso e geológico, o denominado tempo profundo, para

propiciar o amadurecimento dos elementos envolvidos, trazendo com ele

a consciência da importância de uma visão mais clara e ações concretas

tanto para o cenário narrado na reportagem como para o aperfeiçoamento

das reportagens na contemporaneidade.

 

Considerações finais

 

No contexto contemporâneo, como observamos no início deste trabalho,

marcado pela extrema velocidade na apuração e consequente risco

de superficialidade nas reportagens, a atuação de Nelson Araújo como

repórter “curioso e enxerido” ou como “jornalista que nasceu artesão e vai

morrer artesão” merece atenção especial.

Sua postura de escuta atenciosa dos protagonistas das reportagens

permite a construção de cenários sonoros e imagéticos que cultivam o

tempo lento e profundo, vão muito além de simples descrições repletas

de imagens captadas sob regime de urgência e prontas para consumo.

Seu trabalho possibilita, diante da televisão ou dos vídeos disponíveis

na internet, o envolvimento criativo dos interlocutores, muitas vezes

ainda limitadamente chamados de telespectadores, em cenários sonoros

e imagéticos que entrelaçam a postura profissional dos que produzem a

reportagem com os saberes ou sabedorias dos protagonistas entrevistados.

O jornalista, que cautelosamente assiste a todos os CDs gravados durante

a reportagem para dar corpo e consistência ao material colhido,

inspira-se, como observarmos, também em elementos da escritura literária

e redige primorosamente seus textos. Seu trabalho, como na reportagem

Buriti, indica que mesmo no atual contexto de velocidade na produção

de reportagens, há espaço na televisão brasileira para experiências que

possibilitam o acesso ao tempo profundo.

 

Notas

 

1 Mchee’s reputation is substantial, far from a secret. He is a favorite of other writers,

the sort of figure who is so good that he is beyond envying, and in recent years he

 has sold enough books to compel his publisher to reissue all his books in a handsome

 paperback series. His classic account of life in Alaska,

 Coming into the Country,

and his

four books on geology are among his best-sellers. All the same, McPhee’s reputation

 should be greater still. While much of the New Journalism of the sixties and seventies

 has long felt mannered of hysterical in the rereading, McPhee’s work has the quality

 of permanence.

 

 2 

The poles of the earth have wandered. The equator has apparently moved. The

continents, perched on their plates, are thought to have been carried so very far and to

 be going in so many directions that it seems in act of almost pure hubris to assert that

 some landmark of our world is fixed at 73 degrees 51 minutes and 53 seconds west

 longitude and 40 degrees 51 minutes and 14 seconds north latitude – a temporary

 description, at any rate, as if for a boat on the sea. Nevertheless, these coordinates

will, for what is generally described as the foreseeable future, bring you with absolute

 precision to the west apron of the George Washington Bridge. Nine A.M. A weekday

 morning. The traffic is some gross demonstration in particle physics. It bursts from its

 confining source, aimed at Chicago, Cheyenne, Sacramento, through the high dark

 roadcuts of the Palisades Sill. A young woman, on foot, is being pressed up against

 the rockwall by the wind booms of the big semis – Con Weimar Bulk Transportation,

 Fruehauf Long Ranger. Her face is Nordic, her eyes dark brown and Latin – the

 bequests of grandparents from the extremes of Europe. She wears mountain boots,

 bluejeans. She carries a single-jack sledgehammer. What the truckers seem to notice,

 though, is her youth, her long bright Norwegian hair; and they flirt by air horn,

driving needles into her ears. Her name is Karen Kleinspehn. She is a geologist,

a graduate student nearing her Ph.D., and there is little doubt in her mind that she

and the road and the rock before her, and the big bridge and its awesome city – in

fact, nearly the whole of the continental United States and Canada and Mexico to

boot – are in stately manner moving in the direction of the trucks. She has not come

here, however, to ponder global tectonics, although goodness knows she could, the

sill being, in theory, a signature of the events that created the Atlantic.

3 A Nova História Francesa também é conhecida como Escola dos Annales

por estar ligada ao periódico académico Revue des Annales

. A “escola” incorporou métodos de outras áreas das Ciências Sociais como a abertura para os depoimentos orais em adição aos documentos escritos ou oficiais e questinou o foco nas elites e nos conflitos geopolíticos.

 

 

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