A arte de reportar – perfis e outros escritos da The New Yorker

26/10/2011 às 15:08 | Publicado em Livros, perfis e biografias, Resenhas | Deixe um comentário

Dentro da Floresta (Companhia das Letras, 2006) é um dos seis livros escritos pelo jornalista David Remnick, o editor atual da revista The New Yorker (lançada em 1925, a publicação teve seletos cinco editores até agora, Remnick incluso).

Antes de comentar um livro, gosto de lê-lo e deixar passar um tempo, para que o conteúdo, digamos, assente dentro de mim. Tenho a sensação de que degustar uma leitura é algo muito próximo de saborear um bom vinho ou sentir um perfume de qualidade.

Em ambos, há aquela nota inicial, que nos faz gostar da obra de cara ou deixá-la na cabeceira à espera de um momento mais propício para leitura. Com suas 575 páginas, Dentro da Floresta ficou certo tempo me espiando, até que eu achasse que era hora de me debruçar sobre seu conteúdo.

O livro consiste em 23 perfis que Remnick escreveu para a The New Yorker, acrescido do posfácio de João Moreira Salles, o mentor da revista piauí! – ele também um refinado escritor de perfis.

Durante a leitura, há aquelas notas prazerosas que emergem ao saborear um bom tinto, quando se consegue identificar o terroir, isto é, os rastros da terra, do ar, da água, enfim, do meio ambiente que fazem o conteúdo de cada garrafa única. Neste caso, sentimos o repórter que trabalhou por anos no The Washington Post, aquele olhar atento de quem sabe que é a partir da pesquisa e da apuração que um bom texto emerge. Neste contexto, um dos destaques do perfil do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair  é a constrangedora entrevista concedida a dois apresentadores mirins de um programa de televisão de variedades. O perfil, escrito em 2005, não por acaso é intitulado A Campanha do Masoquismo.

Há que se mencionar que em outros perfis de políticos, sobretudo os muito distantes da realidade brasileira, poderão considerados enfadonhos pelo leitor brasileiro médio.  Claro que não o de Vladimir Putin, aqui magistralmente descrito como um sujeito visto pelo povo russo como um cara normal, que faz o que pode. Alias, é nítida a familiaridade que ele tem com a região (ele foi correspondente do Post na União Soviética até 1991 e ganhou um Pulitzer em 1994 pelo livro Lenin´s Tomb).

Mais recentemente tenho me fixado no efeito residual que a leitura de uma obra propicia. Como um vinho especial que deixa uma marca inesquecível.  Esta marca pessoal de Remnick, neste livro, se faz notar pelos perfis de boxeadores e escritores.

Remnick registra o ocaso da paixão estadunidense pelo boxe, que produziu obras primorosas como o livro A Luta, de Norman Mailer, e perfis magistrais como o de Gay Talese, Joe Louis: o rei na meia idade (do livro Fama & Anonimato, ambos da Companhia das Letras). O livro de Remnick traz um perfil de Tyson, claro, mas destaco o sobre o treinador de boxe Teddy Atlas, talvez porque ele fuja do estereótipo do herói e seja apresentado como um mortal comum.

Como não poderia deixar de ser, Remnick perfila escritores. Entre eles, Philip Roth – atualmente considerado o principal escritor sênior estadunidense. Mas destaco o perfil feito de Don DeLillo, onde este filosofa sobre a notícia como a narrativa de nosso tempo.

Na ótima resenha de Dentro da Floresta feita para o jornal The New York Times, o escritor estadunidense Pete Hamill começa citando Ezra Pound que, em ABC of Reading, de 1934, dizia que “Literature is news that stays news”. Algo como literatura é notícia que permanece uma novidade. Ou seja, toca-se aqui no ponto central que une jornalismo e literatura, deixando ambos com aquele toque atemporal que encanta pessoas de todos os tempos. Seria como degustar um vinho mais do que especial.

Não é fácil escrever um texto de não ficção, bem apurado, que não seja apenas lido com prazer, mas que cative um espaço no coração e na memória do leitor. Em alguns casos Remnick consegue o feito. Por outro lado, a vantagem de uma coletânea de perfis é que o leitor fica muito à vontade para fazer sua própria seleção, concordando e, por que não, discordando do resenhista. Esta liberdade de escolha, aliás, não tem preço.

Confesso que não entendi o título, o tal Dentro da Floresta. O original, proposto pela decana Lilian Ross, é muito melhor: Reporting – Writings from The New Yorker. Ross, para quem não se lembra, é autora de Filme, também publicado na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras – livro que inspirou novos jornalistas como Truman Capote.

Monica Martinez

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