Uma história real por Phillip Roth

12/10/2012 às 11:12 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

O subtítulo Uma História Real” me chamou a atenção. Escrito por Phillip Roth, um dos grandes escritores estadunidenses da contemporaneidade, parecia ser uma boa opção de leitura. Comprei Patrimônio e o trouxe para casa, onde ficou na cabeceira de minha cama até surgir a oportunidade de leitura.a História Real” me chamou a atenção.

Em poucas palavras, a obra trata do período em que o escritor acompanha o pai, Herman, então com 86 anos, em sua luta contra um tumor cerebral.

Como se sabe, a prosa de Roth é impecável. Nascido em 1933 em Newark, Estados Unidos, ele é filho de imigrantes judeu e se tornou conhecido por pertencer à escola do romance judaico-americano na qual se inserem escritores como Saul Bellow – Nobel de Literatura de 1976.

Quem conhece o trabalho do cineasta estadunidense Wood Allen sabe a profundidade das reflexões feitas sobre a questão da identidade dos judeus dos Estados Unidos. Diferente da visão carinhosa com que Allen descreve as idiossincrasias que vê desenrolar à sua frente, Roth é conhecido pela abordagem mais ácida. Enfatizada, aliás, pela racionalidade característica dos povos anglo-saxões.

Esta visão crítica é bastante prestigiada, tanto que em junho deste ano Roth foi agraciado com o prêmio Príncipe Astúrias da Literatura pelo conjunto de seu trabalho, que temem O Complexo de Portnoy (1969), um de seus marcos. Naquela época, descrever uma cena de masturbação e caprichar nos monólogos era romper um paradigma literário.

Isto posto, não espere verter lágrimas ao ler o livro. Elas não cairão. De forma impecável, Roth vai dissecando o comportamento do seu genitor, faz questão de registrar toda e qualquer ação em que ele próprio é o protagonista, em particular aquela em que os intestinos do pai se soltam e ele tem de limpar o banheiro de cima a baixo. Aliás, o tal do legado ao qual o título se refere é este: “Ali estava o meu patrimônio: não era o dinheiro, não os telefins, não a tigela de barbear, mas a merda” (p. 141).

Há, portanto, gente que achará a leitura demasiadamente incômoda, até porque Roth não incentiva o pai a fazer a cirurgia para extração do tumor recomendada pelo médico, que poderia não salvá-lo, mas ao menos melhorar sua qualidade de vida. Ou piorá-la de vez, é verdade, afinal os especialistas não estavam seguros do que aconteceria. A medicina não é uma ciência exata.

Eu tenho duas estantes nas quais coloco livros. A primeira são os que usarei em aulas e pesquisas científicas. Na segunda acomodo os livros que não gostei muito, mas que sei que são importantes. Patrimônio decididamente ficará nesta segunda. Bem escrito demais para ser dado embora, mas inquietante o suficiente para permanecer lá, de tocaia, a me lembrar de como pode ser boa uma anti-história de sucesso. Como o tumor de Herman Roth, que a família decidiu não remover.

Decididamente, para me confortar, agora vou ler Noites Azuis, da escritora estadunidense Joan Didion. A batalha com a morte é a mesma – só que no caso dela foi do marido e, posteriormente, da filha. Só que o envolvimento da história – dela e nosso – é outro, bem outro.

Monica Martinez

Avaliação

* Você decide.

Título: Patrimônio
Autor: Phillip Roth
Tradução: Jorio Dauster
Formato: 14 x 21 cm

Páginas: 192

Editora: Companhia das Letras

Saiba mais sobre o autor

Em 1997, Philip Roth ganhou o prêmio Pulitzer por Pastoral americana. Em 1998, recebeu a National Medal of Arts na Casa Branca e, em 2002, conquistou a mais alta distinção da American Academy of Arts and Letters, a Gold Medal in Fiction. Recebeu duas vezes o National Book Award e o National Book Critics Circle Award, e três vezes o prêmio PEN/Faulkner. Complô contra a América foi premiado pela Society of American Historians em 2005. Roth recebeu dois prestigiosos prêmios da PEN: O PEN/Nabokov (2006) e o PEN/Saul Bellow (2007). E, em 2011, ganhou o Man Booker International Prize. É o único escritor americano vivo a ter sua obra publicada em edição completa pela Library of America.

Trecho da obra (disponibilizado no site da editora)

1. Muito bem, o que voce acha?

Meu pai havia perdido a maior parte da visão no olho direito

ao chegar aos oitenta e seis anos, mas, fora isso, parecia gozar

de uma saúde excepcional para um homem de sua idade,

quando um medico da Florida diagnosticou, erroneamente, que

ele sofria da paralisia de Bell, uma infecção virótica que causa

um torpor, em geral temporário, num dos lados da face.

A paralisia se manifestou, de forma súbita, um dia após ele

ter voado de Nova Jersey para West Palm Beach a fim de passar

os meses de inverno num apartamento cujo aluguel ele dividia

com uma contadora aposentada de setenta anos, Lillian Beloff,

que morava no andar acima do dele em Elizabeth e com quem

se envolvera romanticamente um ano depois da morte de minha

mãe, em 1981. No aeroporto de West Palm, ele havia se sentido

tão bem que nem se preocupou em pedir a ajuda de um carregador

(ao qual, alem do mais, seria obrigado a dar uma gorjeta),

levando ele mesmo as malas da área de entrega de bagagens até

a fila de taxi. E então, na manha seguinte, viu no espelho do banheiro

que metade de seu rosto já não lhe pertencia. O que na

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véspera se assemelhava a ele exibia agora as feições de um estranho

— a pálpebra inferior do olho ruim cedera, revelando a parte

interna; a bochecha daquele lado ficara frouxa, sem vida, como

se o osso que a sustentava houvesse sido removido, enquanto

os lábios não eram mais retos, passando a formar uma linha diagonal

no meio do rosto.

Com a mão, ele empurrou a bochecha direita, pondo-a de

volta onde estivera na noite anterior e mantendo-a ali enquanto

contava ate dez. Fez isso várias vezes naquela manhã — e nos

dias que se seguiram —, porém, ao largar a bochecha, ela voltava

a desabar. Tentou se convencer de que deitara do lado errado

na cama, de que a pele havia simplesmente amassado durante o

sono, mas achava mesmo e que tinha tido um derrame. Seu pai

ficara inutilizado após sofrer um acidente vascular no início da

década de 1940 e, quando ele próprio envelheceu, me disse muitas

vezes: “Não quero ir como ele foi. Não quero ficar jogado numa

cama daquele jeito. Esse e o meu maior medo. Contou-me

que costumava ver o pai no hospital bem cedo pela manhã, a caminho

do escritório no centro da cidade, e ao voltar para casa a

tarde. Duas vezes ao dia, acendia cigarros e os colocava na boca

do pai e na segunda visita sentava-se ao lado da cama e lia para

ele as notícias do jornal em iidiche. Imobilizado e impotente, contando

apenas com os cigarros para confortá-lo, Sender Roth durou

ainda quase um ano, e, até que um segundo derrame o liquidasse

numa noite em 1942, meu pai, duas vezes ao dia, sentava-se

ao lado dele e o observava morrer.

O médico que disse a meu pai que ele sofria da paralisia de

Bell assegurou que em pouco tempo a maior parte do torpor facial,

senão todo ele, iria desaparecer. E, nos dias seguintes, esse

prognóstico foi confirmado por três vizinhos no vasto condomínio

onde ele alugara o apartamento, os quais haviam tido o mesmo

problema e se recuperado. Um deles precisou esperar quase

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quatro meses, porém certo dia a paralisia tinha sumido tão misteriosamente

como surgira.

A dele não desapareceu.

Logo ele perdeu a audição no ouvido direito. O medico da

Florida examinou o ouvido e mediu a perda auditiva, dizendo-

-lhe que aquilo nada tinha a ver com a paralisia de Bell. Era apenas

algo que acontecia com a idade — ele provavelmente vinha

perdendo a audição no ouvido direito de forma tão gradual quanto

perdera a visão no olho direito, embora só então houvesse reparado

naquilo. Na consulta, quando papai perguntou quanto

tempo ainda teria de esperar ate a paralisia de Bell desaparecer,

o medico disse que, em casos como o dele, em que ela se prolongava

tanto, às vezes nunca desaparecia. De acordo com o médico,

ele devia se dar por muito satisfeito: a não ser por um olho cego,

um ouvido surdo e uma metade de rosto paralisado, ele era tão

saudável quanto um homem vinte anos mais moco.

Quando eu lhe telefonava aos domingos, ficava claro que,

devido a queda da boca, ele pronunciava mal as palavras, tornando-

se difícil entender o que dizia: as vezes soava como alguém

que acabara de sair da cadeira do dentista ainda sob os

efeitos da novocaína. Quando tomei um avião para visitá-lo na

Florida, fiquei surpreso ao ver que ele talvez não fosse capaz de

falar mais nada.

“Muito bem”, ele disse no vestíbulo do meu hotel, onde eu

me encontrara com ele e Lil para jantarmos, “o que você acha?”

Essas foram suas primeiras palavras, enquanto eu ainda me abaixava

para beijá-lo. Ele estava afundado ao lado de Lil num sofá

de dois lugares com forro alcatifado, mas me encarava para que

eu pudesse ver o que tinha acontecido. No último ano, passara a

usar de vez em quando uma venda preta para evitar que a luz e

o vento irritassem seu olho cego, e essa venda, somada à bochecha

e a boca caídas, bem como ao fato de haver emagrecido um

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bocado, o havia transformado horrivelmente: em cinco semanas,

desde que o vira pela ultima vez em Elizabeth, ele se tornara

um velho alquebrado. Difícil acreditar que somente uns seis

anos antes, no inverno seguinte a morte de mamãe, quando dividia

o apartamento de Bal Harbour com seu velho amigo Bill

Weber, ele não encontrara dificuldade em convencer as viúvas

ricas do prédio (as quais tinham se interessado imediatamente

pelo gregário senhor recém-enviuvado que usava um paletó novo

riscado de azul e branco e calcas pastel) que acabara de fazer

setenta anos, embora toda a família houvesse se reunido no verão

anterior em minha casa de Connecticut para comemorar seus

oitenta anos.

Durante o jantar no hotel, comecei a entender como a paralisia

de Bell impunha limites que iam alem dos efeitos sobre

suas feições. Ele agora so conseguia beber usando um canudinho,

pois de outra forma o líquido escorria pela metade paralisada

de sua boca. E comer exigia um esforco grande a cada mordida,

acompanhada de muita frustração e vergonha. Após manchar a

gravata com sopa, ele aceitou com relutância que Lil lhe amarrasse

um guardanapo em volta do pescoço, já tendo outro no

colo para proteger as calcas tanto quanto possível. Às vezes Lil

usava seu próprio guardanapo para remover, contra a vontade

dele, um pedaço de comida que caíra da boca e ficara grudado

no queixo sem que papai notasse. Frequentemente, ela o lembrava

de por menos comida no garfo e tentar mastigar um volume

menor do que estava acostumado. “Esta bem”, ele murmurava,

olhando desconsolado para o prato, “esta bem, já entendi”,

e depois de duas ou três garfadas se esquecia disso. Comer se

transformara numa provação deprimente, por isso ele tinha perdido

tanto peso e parecia pateticamente subnutrido.

O que tornava tudo ainda mais difícil e que a catarata em

ambos os olhos havia avançado nos últimos meses, fazendo com

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que ate mesmo a visão no olho bom ficasse embaçada. Durante

vários anos, meu oftalmologista em Nova York, David Krohn,

vinha monitorando a evolução das cataratas de papai e sua perda

gradual de visão; quando, em marco, ele voltou de sua estada

infeliz na Florida, foi a Nova York pedir a David que removesse

a catarata do olho bom. Incapaz de fazer qualquer coisa acerca

da paralisia de Bell, estava especialmente ansioso para que alguma

providência fosse tomada a fim de lhe devolver a visão. No

entanto, ao final da tarde seguinte a consulta, David me telefonou

para dizer que relutava em operar o olho do meu pai antes

que exames complementares determinassem a causa da paralisia

facial e da perda de audição. Ele não estava convencido de que

se tratava da paralisia de Bell.

E tinha razão de não estar. Harold Wasserman, o médico

de meu pai em Nova Jersey, providenciou ali mesmo a ressonância

magnética solicitada por David e, ao receber os resultados do

laboratório, me chamou no começo da tarde para transmitir o

diagnóstico. Papai tinha um tumor cerebral, segundo ele “um

tumor bem grande”; conquanto as imagens da ressonância não

permitissem a distinção entre um tumor benigno ou maligno, Harold

disse que “de toda forma, esses tumores são fatais”. O próximo

passo consistia em consultar um neurocirurgião para precisar

de que tipo de tumor se tratava e o que caberia fazer, se e que

havia algo a ser feito. “Não estou otimista”, disse Harold, “e acho

que você também não deve ficar.”

Consegui levar papai ao neurocirurgião sem lhe contar o

que a ressonância magnética já revelara. Menti, dizendo que os

exames não haviam mostrado nada, mas que David, por excesso

de zelo, queria obter uma ultima opinião sobre a paralisia facial

antes de remover a catarata. Nesse meio-tempo, mandei que as

imagens do exame de ressonância fossem entregues no hotel Essex

House, em Nova York. Claire Bloom e eu estávamos morando lá

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provisoriamente, enquanto procurávamos um apartamento —

planejávamos encontrar um lugar em Manhattan depois de passarmos

dez anos dividindo nossa vida entre a casa dela em Londres

e a minha em Connecticut.

Na verdade, mais ou menos uma semana antes que as imagens

do cérebro de papai e o relatório do radiologista houvessem

chegado ao hotel num enorme envelope, Claire tinha voltado a

Londres para ver a filha e acompanhar as reformas em sua casa,

além de se encontrar com o contador que a auxiliava numa arrastada

negociação com as autoridades fiscais inglesas. Como ela

vinha sentindo uma falta imensa de Londres, a visita de um mês

tinha por objetivo permitir não apenas que ela cuidasse dessas

questões praticas, mas também que matasse as saudades da cidade.

Suponho que se o tumor houvesse sido descoberto mais cedo,

quando Claire se encontrava comigo, a preocupação com papai

não teria sido tão extraordinariamente intensa, e — pelo menos

à noite — eu não teria ficado tão deprimido com a doença dele

quanto fiquei por estar sozinho. No entanto, mesmo naquela

época me pareceu que a ausência de Claire — bem como o fato

de que eu, por estar num hotel e me sentir desenraizado, não conseguia

escrever — era uma circunstancia auspiciosa: sem nenhuma

outra responsabilidade, eu podia me dedicar a ele por inteiro.

Estar sozinho também me possibilitava expressar toda a emoção

que eu sentia sem necessidade de assumir uma postura máscula,

madura ou filosófica. A sós, eu chorava quando me dava

vontade de chorar, e nunca essa vontade foi tão grande como

quando tirei do envelope a série de imagens do cérebro dele —

não porque eu fosse capaz de identificar com facilidade o tumor

que lhe invadia o cérebro, mas simplesmente porque se tratava

do cérebro dele, do cérebro do meu pai, daquilo que o fazia pensar

da forma curta e grossa com que pensava, falar da forma enfática

com que falava, raciocinar da forma emotiva com que ra-

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ciocinava, decidir da forma impulsiva com que decidia. Aquele

era o tecido que produzira seu conjunto de infindáveis preocupações

e por mais de oito décadas sustentara sua teimosa autodisciplina,

a fonte de tudo que me havia frustrado tanto como

filho adolescente, a coisa que comandara nossos destinos nos tempos

em que ele era todo-poderoso e ditava os propósitos da familia

— tudo isso agora estava sendo comprimido, deslocado e

destruido devido a “uma grande massa localizada predominantemente

na região dos ângulos cerebelopontinos e das cisternas

prepontinas. Ha uma extensão da massa na direção do sino cavernoso

direito cingindo a carótida…” Eu não sabia onde encontrar

os ângulos cerebelopontinos ou as cisternas prepontinas, mas

tomar conhecimento, no laudo do radiologista, de que a artéria

carótida estava circundada pelo tumor foi como ler sua sentença

de morte. “Ha também uma destruição aparente do ápice

petroso direito. Verifica-se um deslocamento substancial posterior

e a compressão da ponte e do pedúnculo cerebelar direito

por essa massa…”

Como eu estava sozinho e nada me inibia, não fiz o menor

esforço para me defender de coisa alguma enquanto as imagens

de seu cérebro, fotografado de todos os ângulos, se espalhavam

pela cama do hotel. Talvez o impacto não tivesse sido tao forte

quanto se eu estivesse segurando aquele cérebro em minhas

mãos, porem foi bem parecido. A vontade de Deus um dia irrompera

numa sarça ardente e, de modo não menos milagroso,

a vontade de Herman Roth fora gerada ao longo de todos aqueles

anos pelo órgão bulboso que eu tinha diante de mim. Eu havia

visto o cérebro de meu pai, tudo e nada fora revelado. Um

mistério muito, muito próximo do divino: o cérebro, mesmo que

de um mero corretor de seguros aposentado que havia completado

apenas o curso primário na escola da Décima Terceira Avenida

em Newark.

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* * *

Meu sobrinho Seth levou papai ate Millburn para ver o

neurocirurgião, o dr. Meyerson, no consultório que mantinha

no subúrbio. Eu arranjara para que ele fosse atendido lá, e não no

Hospital Universitário de Nova Jersey, imaginando que a mera

localização do consultório do médico no hospital, que me disseram

ficava na ala ontológica, o alertaria para o fato de estar com

câncer, quando tal diagnostico não havia sido feito e ele ainda

nem sabia que tinha um tumor. Dessa forma, não ficaria apavorado,

ao menos por algum tempo.

Quando, depois, conversei com o dr. Meyerson pelo telefone,

ele me disse que um tumor como o de papai, localizado na

frente do tronco cerebral, era benigno em cerca de noventa e

cinco por cento dos casos. Segundo Meyerson, possivelmente o

tumor vinha crescendo ao longo dos últimos dez anos, mas o surgimento

recente da paralisia facial e a surdez no ouvido direito

sugeriam que “num prazo relativamente curto”, como ele disse,

“a coisa vai piorar”. Contudo, ainda era possível remove-lo cirurgicamente.

Explicou que setenta e cinco por cento dos pacientes

operados sobreviviam e acusavam melhora, dez por cento morriam

na mesa de cirurgia e outros quinze por cento morriam pouco

após a intervenção ou ficavam em situação pior.

“Se ele sobreviver”, perguntei, “como sera a convalescença?”

“Difícil. Vai ficar numa clinica para convalescentes durante

um mês — talvez dois ou três meses.”

“Quer dizer, um inferno.”

“É duro”, ele disse, “mas se nada for feito pode ser pior.”

Como eu não queria lhe transmitir as notícias de Meyerson

por telefone, na manhã seguinte, quando liguei para papai por

volta das nove da manhã, disse que iria visitá-lo em Elizabeth.

“Então é ruim mesmo”, ele disse.

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“Vou até aí e conversamos sobre isso.”

“Eu estou com câncer?”, ele me perguntou.

“Não, não está.”

“Então é o que?”

“Tenha paciência por mais uma hora e, quando eu chegar

aí, explico qual e exatamente a situação.”

“Quero saber agora.”

“E só mais uma hora, menos de uma hora”, insisti, convencido

de que era melhor para ele esperar, por mais assustado que

estivesse, do que eu contar sem rodeios pelo telefone e deixá-lo

sozinho, em estado de choque, até minha chegada.

Dada à tarefa que me cabia cumprir, não e de estranhar que,

ao sair da autoestrada em Elizabeth, eu tenha perdido a entrada

que me levaria a North Avenue e diretamente ao prédio de apartamentos

de meu pai a alguns quarteirões de distancia. Em vez

disso, fui parar numa estrada de Nova Jersey que, uns três quilômetros

adiante, ladeava o cemitério onde minha mãe fora enterrada

sete anos antes. Não imaginei que houvesse nada de místico

no fato de eu ter ido parar lá, mas, de qualquer modo, era incrível

ver ate onde me levara uma viagem de carro de vinte minutos

iniciada em Manhattan.

Eu só tinha ido a esse cemitério duas vezes: a primeira, no

dia do funeral de mamãe, em 1981, e a segunda quando levei

papai para visitar o túmulo dela um ano depois. Em ambas as

ocasiões, por ter saído de Elizabeth e não de Manhattan, eu

nem sabia que era possível chegar ao cemitério pela autoestrada.

Se eu estivesse querendo ir de carro ao cemitério naquele dia,

Muito provavelmente teria me perdido no emaranhado de saídas

para o aeroporto de Newark, o porto de Newark, o porto de Elizabeth

e para o retorno ao centro de Newark. Apesar de eu não

estar consciente nem inconscientemente procurando o cemitério

na manhã em que teria de falar com papai sobre o tumor cere-

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bral que o mataria, eu havia percorrido o trajeto mais curto entre

meu hotel em Manhattan e a sepultura de minha mãe, ao lado

da qual ele seria enterrado.

Não queria deixá-lo aguardando por mais tempo do que seria

absolutamente necessário, porem, ao chegar lá, fui incapaz

de seguir em frente como se nada fora do comum houvesse acontecido.

Não esperava aprender nada de novo ao descer do carro

e me postar diante da sepultura de mamãe naquela manhã; não

esperava ser reconfortado ou fortalecido pela lembrança dela, ou

de algum modo me preparar melhor para ajudar papai em seu

sofrimento; nem imaginava que me sentiria fragilizado ao ver o

espaço para a sepultura dele ao lado da dela. O acaso de eu ter

enveredado por uma saída errada me levara ate lá, e tudo que fiz

ao descer do carro e procurar sua sepultura no cemitério foi dobrar-

me a uma forca imperativa. Minha mãe e os outros defuntos

haviam sido levados para lá pela forca imperativa do que, no

final das contas, era um acidente ainda mais improvável — o fato

de um dia terem vivido.

Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos

mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência,

não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao

contemplar o crânio de Yorick. Ha muito pouco para se pensar

ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros

mil vezes”. Num cemitério, a gente costuma se dar conta de

como são limitados e banais nossos pensamentos sobre o assunto.

Ah, pode-se tentar conversar com o morto, caso você acredite

que isso possa ser útil; pode-se começar, como fiz naquela manha,

dizendo: “Muito bem, mamãe…”, porém é difícil não pensar

— mesmo que se tenha ido alem da primeira frase — que

você poderia, do mesmo modo, estar conversando com a coluna

vertebral pendurada no consultório de algum osteopata. Você pode

fazer promessas a eles, pô-los a par das últimas notícias, im-

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plorar que o compreendam, que o desculpem ou que lhe deem

seu amor — ou pode optar por uma abordagem oposta, mais efetiva,

arrancando as ervas daninhas, ajeitando os cascalhos, passando

o dedo pelas letras gravadas na lapide; pode ate se abaixar

e por as mãos diretamente sobre os vestígios deles — tocando a

terra, a terra deles, pode fechar os olhos e recordar-se de como

eram quando ainda estavam a seu lado. Mas nada se modifica

com tais recordações, exceto que os mortos parecem ainda mais

distantes e fora do alcance do que estavam quando você dirigia

o carro dez minutos antes. Se não há ninguém no cemitério para

observá-lo, você pode fazer algumas coisas bem doidas a fim

de conseguir que os mortos pareçam algo mais do que são. Mas,

mesmo que você tenha êxito e se motive suficientemente para

sentir a presença deles, ainda assim ira embora sem eles. O que

os cemitérios provam, ao menos para gente como eu, não é que os

mortos estão presentes, mas que se foram de vez. Eles se foram,

enquanto nós, por enquanto, não fomos. Isso e fundamental e,

embora inaceitável, bem fácil de compreender.

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