Reflexões sobre as teorias em jornalismo

17/11/2010 às 3:52 | Publicado em Comunicação, Eventos, Jornalismo, Pesquisa | Deixe um comentário

Os desafios da pesquisa em jornalismo: interdisciplinaridade e transdisciplinaridade –, foi o tema do 8º Encontro da Associação de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor),  realizado este ano de 8 a 10 de novembro de 2010 em São Luís, no Maranhão.

Durante o encontro ficou claro que a discussão do tema passa pela questão de o jornalismo constituir ou não uma disciplina, uma vez que parte dos teóricos da área entende que o jornalismo é parte integrante da área de Comunicação Social, compartilhando os saberes teóricos com outras habilitações, como Publicidade e Propaganda e Relações Públicas. Área que, por sua vez, faz parte do contexto maior das Ciências Sociais Aplicadas.

A questão não é puramente teórica, uma vez que se constituir solidamente como uma disciplina permite uma possibilidade maior de obter financiamentos para pesquisa – os projetos que demandam recursos junto às agências de fomento disputam verbas junto a disciplinas estabelecidas há mais tempo, como a física, a história e a medicina, por exemplo.

Os palestrantes internacionais tinham visões diferentes, porém de certa forma complementares sobre o assunto. Na quarta-feira, 10 de novembro, o professor Martin Löffelholz, do Institute of Media and Communications Science da Ilmenau University of Technology, da Alemanha, lembrou que há muitas disciplinas e espaço para que elas se combinem entre si para possibilitar novas perspectivas, mas que todas as metodologias usadas em jornalismo provêm de outras áreas do conhecimento.

O professor Martin tem um trabalho interessante no qual tenta criar um sistema de classificação para as diversas teorias usadas na área de Comunicação. “Alguns dizem que há falta de foco nesta área, pois teorias antigas não são substituídas, continuando a ser usadas, e não há um núcleo claro de ideias teóricas. Contudo, penso que isso ocorre devido à complexidade dos problemas que tratamos, o que cria a necessidade de muitas abordagens”.

Já Stuart Allan, professor de Jornalismo da The Media School da Bournemouth University, em palestra realizada na terça-feira, 9 de novembro, falou que nos encontramos em uma época de testar os limites das disciplinas. Um exemplo: “A história é muito importante para ser deixada apenas para os historiadores”, disse Allan, autor de 15 livros, sendo o mais conhecido News Culture  (Maidenhead and New York: Open University Press).

Para o professor da universidade inglesa, que tem formação em sociologia e interesse especial em jornalismo cidadão e cobertura de crises, conflitos e guerras, no início nem ciências hoje consagradas como a sociologia tiveram aceitação unânime. “Na verdade, foram precisos 70 anos para que os sociólogos e suas teorias fossem aceitos”, disse.

Por Monica Martinez

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Comunicação, déficit de atenção e mídia digital

27/10/2010 às 16:26 | Publicado em Comunicação, Tecnologia | 5 Comentários

 Ontem tive a oportunidade de participar de dois eventos importantes. O primeiro, no campus Liberdade da FMU, foi uma palestra do psiquiatra Leandro Thadeu Garcia Reveles, do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (Sepia) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Os transtornos baseados na tríade desatenção, impulsividade e hiperatividade – conhecidos como TDAH – são a especialidade do médico.

Quase ao término da palestra, Reveles lembrou que o mundo digital é altamente danoso para as crianças e adolescentes que sofrem com o problema – que atinge 5 a 7% da população mundial. “O hiperfoco – todos os sentidos voltados para algo externo – propiciados por computadores e videogames são uma praga para quem tem TDAH”, alerta o especialista.

Na sequência, tive a oportunidade de ouvir uma conferência de um especialista na área de Comunicação, o sociólogo Dominique Volton, em evento realizado na Faculdade Cásper Líbero em parceria com a Aliança Francesa e o Universo do Conhecimento. Pesquisador do prestigiado Centro Nacional da Pesquisa Científica (CNRS), desde 2000 ele dirige um laboratório sobre informação e comunicação naquele instituto. O autor de É Preciso Salvar a Comunicação (Paulus), entre outros títulos, não é otimista quanto à parceria entre mundo digital e os processos comunicativos. “Não é verdade que, quanto mais tecnologia e mais informação, haja mais comunicação. É uma armadilha pensar que o aumento da produção e da velocidade representa um progresso”, adverte. “Há 6 bilhões de pessoas no planeta, destas 5 bilhões têm acesso à televisão e 3 bilhões à internet, e não estamos nos comunicando melhor por causa disto”.

Para Volton, a Comunicação é a grande questão do século 21.  E ela tem dois pontos principais no que tange à globalização. O primeiro é político: as pessoas não compartilham a mesma visão.  A rede estadunidense CNN, diz ele, simplesmente é um paradigma de como a notícia é percebida pela opinião dos norte-americanos. O segundo ponto é cultural: “a biodiversidade existe e deve ser respeitada”. Segundo o sociólogo, a grande questão da comunicação é a descoberta da alteridade. Sim, ele diz, arrancando risadas da plateia, ela não é simples nem mesmo entre casais – o que dirá entre povos. “Já que é complicado entre os homens, multiplicam as técnicas”, ironiza.

Neste contexto da informação rápida e acessível, Volton lembra que é preciso tempo para que um entenda o outro. Para ele, jovens que andam com fones de ouvido, escutando música, agem como autistas. “É como a tirania da câmera digital: quem faz centenas de fotografias digitais não vê a realidade”.

A meu ver, este foi o ponto que uniu ambas as palestras. Tanto o hiperfoco da criança com TDAH quanto a visão do mundo mediada por aparatos virtuais em todas as faixas etárias estão causando um descolamento da realidade. A pesquisa Criança e Natureza, realizada pelos pesquisadores Dorothy e Jeromy Singer, da Universidade de Yale, publicada na edição de 25 de outubro de 2010 da revista Época, é um exemplo. Foram 2 233 entrevistados – mães e filhos de 8 a 12 anos de 11 países, incluindo o Brasil –, sendo que 45% das crianças disseram aprender mais sobre a natureza vendo vídeos, filmes e televisão. Embora 99% dos adultos reconheçam a importância do contato com a natureza, poucos conseguem concretizá-lo na prática. Fenômeno que, segundo a revista, tende a aumentar uma vez que 50% da população mundial atual more em centros urbanos, número que deve saltar para 65% em 2030.

E o que isto tem a ver com jornalismo? Tudo. Neste semestre, por exemplo, fiquei surpresa ao sugerir um exercício simples, no qual os alunos deveriam por 20 minutos sair da classe, observar o ambiente e escrever um relato num texto muito curto, como se fosse para o twitter. Detalhe: tratava-se de uma manhã de inverno excepcionalmente quente, beirando os 30 graus. Resultado: entre os textos, alguns falavam de manhãs frias e chuvosas, como se a idéia pré-concebida de um dia invernal fosse mais forte do que os fatos observados. Livres dos aparatos midiáticos, dos celulares e afins, e baseados apenas em seus sentidos – visão, audição, olfato, tato e paladar –, alguns alunos sentiram dificuldade em fazer uma leitura o mais fiel possível da realidade.

Ora, se isso ocorre num texto livre, o que não estará acontecendo nas coberturas jornalísticas, onde a observação é um dos elementos-chave para a interpretação das complexas mediações simbólicas? Volton, talvez brincando, sugere uma greve aos aparatos virtuais, aos e-mails e câmeras digitais. Bom, nem tanto ao céu – o uso ilimitado – nem tanto a terra (fim aos meios digitais). O próprio sociólogo lembra que os verbos fundamentais em comunicação contemporânea são negociar e coabitar. Neste sentido, talvez a recomendação para uma humanidade que se encontra na adolescência no uso das mídias digitais não seja a de abolir o uso – afinal muito dele é extremamente oportuno –, mas simplesmente o de empregá-las com discernimento. Nada muito diferente, aliás, do que se fazia com o uso do telefone antes do surgimento da internet.

Monica Martinez

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