Meditação e a escrita criativa

11/04/2011 às 9:07 | Publicado em Escrita Criativa, Meditação | Deixe um comentário

Breve ou longa, uma sessão prévia de meditação pode ajudar o processo de escrita. Do ponto de vista neurológico, o que ocorre é o “desligamento” de certas áreas cerebrais e a ativação de outras.

Segundo o médico brasileiro Roberto Cardoso, autor de Medicina e Meditação, (Editora MG), há diminuição da ação do córtex pré-frontal, área responsável pelo planejamento e tomada de decisões.

O autor, ligado ao grupo de estudo de meditação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que há também redução de atividade do lobo parietal, responsável pelo senso de orientação espacial e temporal.

Outros estudos, como o desenvolvido por Andrew Newberg, professor do Departamento of Radiologia do Hospital da University of Pennsylvania, EUA, sugerem aumento da atividade do lobo frontal, associado à concentração e atenção. Os estudos do professor Newberg foram feitos com tomografias tomadas de monges budistas em profundo estado meditativo.

Veja abaixo a íntegra da entrevista dada sobre o assunto pelo médico brasileiro ao caderno Equilíbrio, da Folha de S. Paulo:

Por Monica Martinez

Criar e editar: as duas fases da escrita na visão do escritor português Gonçalo Tavares

24/09/2010 às 7:39 | Publicado em Criatividade, Escrita Criativa, Literatura | Deixe um comentário

Nascido em Angola em 1970, o escritor português Gonçalo Tavares decidiu só começar a publicar quando completasse 30 anos. Desde então, já lançou 25 títulos, a começar pelo O Livro da Dança.

O tempo parece ser um aliado em seu trabalho, no sentido de que deixa amadurecer bastante uma obra antes de liberá-la para o papel. Em termos de escrita criativa, ele primeiro dedica-se ao processo de criação para, muito depois, rever e editar a escrita.

Veja parte da entrevista que ele concedeu a Sissa Frota, na revista Cult de julho:

(..) O que eu estou a fazer neste momento, se calhar, vai sair daqui a seis ou sete anos, e o que vai sair agora é algo que eu escrevi há alguns anos e que estou agora a rever. Portanto, o que eu faço é escrever, deixo muito tempo e depois é que volto ao texto e corto. (…) Esse distanciamento temporal dá certo treino de distância. A minha segunda fase de cortar é mesmo com muito juízo crítico, como leitor quase, um leitor que pode interferir e, portanto, não tenho piedade nenhuma nem compaixão pelo meu trabalho. Eu tenho por regra nunca publicar nada depois de ter acabado de escrever”.

Revista Cult. no 148. Julho/2010. Ano 13, p. 26 e 27.

Perfil criativo sobre Washington Olivetto

10/05/2010 às 18:51 | Publicado em Escrita Criativa, perfis e biografias | Deixe um comentário

O texto de Christian Carvalho Cruz, publicado no caderno Aliás de domingo, 9 de maio de 2010, no jornal O Estado de S. Paulo, decididamente é criativo. Não se esperaria menos, aliás, de um perfil sobre um dos mais destacados publicitários brasileiros. Por isso, Christian se saiu bem da saia justa que deve ter sido a tarefa, que foi desempenhada com estilo e muita espirituosidade. O perfil está abaixo, na íntegra, e o link é http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,quero-ser-washington-olivetto,548944,0.htm

Monica Martinez

Christian Carvalho Cruz

Quero ser Washington Olivetto

O que vai na cabeça do publicitário que virou sonho de consumo

08 de maio de 2010 | 15h 13 Se você fosse o Washington Olivetto não seria um sujeito charmoso. Você vestiria paletó de veludo cotelê branco sobre uma camiseta com o São Jorge e o dragão estampados. Levaria um pente flamengo no bolso. E teria as manhas de sacá-lo na frente dos outros para domar a cabeleira (cada vez mais) branca, (cada vez mais) escassa em cima e (cada vez menos) volumosa atrás. Carregaria seus pertences – celular, carteira, CDs, moedas soltas e a agenda do dia impressa em uma folha de papel reciclado – numa pastinha preta com zíper que só não pode ser chamada de pastinha de office-boy porque é uma Louis Vuitton. Usaria também uns óculos que vou te contar: aros pretos enormes, grossões, escondendo metade do rosto. Aos 58 anos, se fosse o Washington Olivetto, o publicitário mais premiado do Brasil, considerado o cara que pôs a propaganda brasileira na rota do reconhecimento internacional, você pareceria ter saído de um clipe do Roxy Music, só que sem a purpurina. Caminharia com a malemolência de ombros do Bryan Ferry, sabe?, aquele rebolar com a parte de cima do corpo, meio new-wave / meio hip-hop. E, apesar de tudo, se você fosse o Washington Olivetto, que diabos, ia estar assim de gente babando pelo seu… charme. É que você, caso fosse ele, teria um baita charme interior: um treco que aconteceria a toda hora dentro da sua efervescente cabeça e algumas pessoas traduzem por “criatividade” ou “genialidade”.

Em parte por causa desse negócio de charme interior, que originou campanhas inesquecíveis como a do primeiro sutiã da Valisère, a do garoto Bom Bril, a do Casal Unibanco, a do jeans Staroup e a do cachorrinho da Cofap, a agência americana McCann Erickson iria te propor uma fusão entre as operações dela no País e as da sua W/, fundada em 1986 e que um dia foi parar na boca do Jorge Benjor como W/Brasil. Se fosse o Washington Olivetto você toparia, e aí nasceria a WMcCann, uma coisa boa para ambas as partes, como disseram no mercado. A McCann, antigamente a maior em solo nacional, inventora do Repórter Esso e dona de contas internacionais gigantes (Chevrolet, Coca-Cola, L’Oreal, Microsoft, American Airlines, HP, Mastercard…), amargou em 2009 uma 11ª. posição no ranking Ibope Monitor, que mede quanto as agências compram de espaço publicitário por ano. A W/, que por muito tempo não quis se associar a uma multinacional – porque se você fosse o Washington Olivetto não admitiria ver a sua inicial engolida pelos gringos – ficou só no 43º. lugar. Juntas, elas saltam para o 8º. A McCann ganha charme criativo para dar e vender (mais vender do que dar, claro) e maior aproximação com clientes nacionais para voltar a crescer; Olivetto ganha uma senhora estrutura para poder se “eternizar na história da propaganda”, aspas dele, e se aposentar bonito daqui a sete anos, quando fizer 65 – e então ir curtir uma de embaixador criativo da firma na América Latina e no Caribe.

Então, caso fosse ele, você estaria assumindo na nova WMcCann o cargo de chairman, o homem da cadeira, chefão. E transformaria a simples instalação dessa cadeira num vaivém danado dentro do prédio da agência, na zona sul de São Paulo, seu novo local de trabalho. De cara, te ofereceriam o terceiro andar, perto dos outros chefões – o presidente Fernando Mazzarolo e o presidente executivo da holding McCann Worldgroup na América Latina, Luca Lindner. O lugar é mais ajeitado, tem carpete, divisórias de madeira e cadeiras de palhinha. Mas se fosse o Washington Olivetto você recusaria. Ofegante, subiria e desceria escadas, olharia tudo, até concluir que o melhor lugar para ficar é o segundo pavimento, no departamento de criação, “junto da galera”, separado dos mídias por um longo hall de elevador. Da salinha escolhida, à esquerda de quem entra, você pediria para tirar todas as paredes de vidro, deixar tudo aberto – para não parecer “o exibido inalcançável dentro do aquário”, pois já tem “o ego abastecido até demais”. Na decoração, iria querer só a bandeira do Brasil que há anos enfeita a recepção da W/, e em matéria de luxo, exigiria apenas um chuveiro por perto. Dos troféus que conquistou, entre eles os 49 Leões do Festival de Cannes, você, se fosse o Washington Olivetto, não iria querer levar nenhum. Alguém até sugeriu que deixasse pelo menos dois deles como peso de papel na mesa nova: o Leão de Ouro pelo reclame do primeiro sutiã e o Grand Prix do Clio pelo filme Sete Dias, da revista Época. Mas se fosse o Washington Olivetto você diria “não, nem esses”. Contaria que a famosa “lixeira de prêmios” da W/ foi recentemente desativada e os mais de 300 troféus que ficavam meticulosamente jogados dentro daquela espécie de aterro sanitário chique foram parar num guarda-volumes.

Na segunda-feira passada, se fosse o Washington Olivetto você estaria resfriado. E um Washington Olivetto resfriado tem um lenço de pano dentro da pastinha de contínuo para assoar o nariz. No corre-corre daquele dia, talvez não percebesse o jeito meio abobalhado que olhavam para você, como se estivessem diante do Brad Pitt ou da Angelina Jolie. Talvez não notasse também que, no departamento de criação, os mais jovens corriam para o Twitter para postar coisas como “a lenda chegou” e “momento tiete, W. O. aqui”. Aliás, você não teria um Twitter, porque diria que desde 2001 não gosta de ser seguido. Pois é. Você, se fosse o Washington Olivetto, teria sido raptado e passado 53 dias num cubículo de 1 m x 2,30 m com luz acesa e música alta 24 horas por dia. Mais tarde iria dizer que apagou tudo da memória, mas na verdade evitaria pronunciar a palavra “sequestro” e se referiria só “àquele episódio” ou “àquela história que aconteceu comigo”.

Mas, voltando à segunda-feira, entre uma assoada e outra de nariz, você teria parado para cumprimentar o seu Hélio dos Anjos, garçom gente boa há mais década na McCann, que se aproximou com o carrinho de café e, apesar de ter visto você uma única vez, mandou: “Olhaí seu Uóshito, sem açúcar e no copo de vidro, como o senhor gosta”. Logo depois, porém, ao ser apresentado ao seu Antonio Fava, o supervisor da manutenção do prédio (“33 anos de publicidade nas costas, 30 só na Salles/Publicis”), não ligaria o nome à pessoa. O seu Fava era aquele que envergava a camisa e o boné do Corinthians no sábado 1º de maio, quando rolou uma feijoada para integrar as equipes das duas agências. Figuraça, o seu Fava. Palmeirense do Bexiga, verde até os ossos, mas vestiu de preto e branco “pra agradar e dar as boas-vindas pro homi”. A propósito, se você fosse o Washington Olivetto, a feijoada teria sido a sua tarde de Barack Obama, como disse o Milton “Cebola” Mastrocessario, um dos diretores de criação da nova WMcCann: “Porra, no discurso, ele falou ‘bom dia’ e já foi aplaudido”, contou, com seu jeitão meio tímido. “Me sinto como se trabalhasse na IBM e chegasse o Steve Jobs para ser meu colega”, comparou o Cebola, querendo explicar a o que representa o casamento da “força do negócio da McCann” com a “ousadia da W/”.

À moda do chefe. Esse tipo de coisa abasteceria demasiadamente o seu ego, caso você fosse o Washington Olivetto. E você admitiria isso. O curioso é que, apesar da autorreferência obstinada e de seu currículo oficial, feito por “alguém” na W/, ter 30 vezes as palavras “mais”, “maior” e “melhor” em 156 linhas, se fosse o Washington Olivetto, você não seria um arrogante. Nem se tivesse virado prato nos cardápios dos restaurantes Rodeio (lá o Hambúrguer Olivetto custa R$ 68) e Antiquarius (Bacalhau à Olivetto por R$ 150). E nem se soubesse que na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) tem um professor de criação, o Ruy Sanches, que manda os alunos inventarem uns anúncios e diz assim: “Como é que vocês escreveriam se fossem o Washington Olivetto?” O Ruy explica: “É para destravá-los, fazê-los ser mais coloquiais. Afinal, esses meninos entram na faculdade de propaganda querendo ser o Washington Olivetto”.

Tem uma coisa que você não deveria ter, se fosse ele: pudor de repetir e repetir as suas boas sacadas, que são boas mesmo – “se eu dormir só 5 horas por noite acordo com insuportável bom humor”, “minha ambição é fazer propaganda que entre para a cultura popular, porque aí o consumidor vira mídia”, “prego a volta da criatividade embasada, mas espontânea, contra a mediocridade teorizada”, “nunca estou totalmente trabalhando ou totalmente me divertindo, misturo as duas coisas o tempo todo” e mais uma porção de etcs. Por outro lado, haveria grandes sacadas de campanhas sua que se repetiriam quase sozinhas. “O primeiro Valisère a gente nunca esquece”, por exemplo. Hoje, quem joga no Google “o primeiro+nunca esquece” recebe 2,18 milhões de citações adaptadas: “o primeiro piolho a gente nunca esquece”, “o primeiro Viagra…”, “o primeiro chifre…”, “o primeiro Bukowski…”, “o primeiro terremoto…” Bom, se fosse ele você teria que aprender a se reinventar, porque hoje não te deixariam colocar uma menina de 11 anos, seios rapidamente ao léu, para vender sutiã TV. “É, o mundo ficou muito chato”, você diria, caso ele fosse.

O mais importante: para ser o Washington Olivetto você teria que torcer pelo Corinthians. E ter ficado triste pra chuchu na última quarta, com a eliminação do time na Libertadores. Não a ponto de perder o charme na hora de consolar, por e-mail, o filho mais velho, Homero, 37 anos, que estava no estádio: “Somos corintianos, coisa bem maior do que ganhar ou não essa Libertadores que mais parece um Desafio ao Galo em castelhano. Triste, um pouco; brocha, nunca!” Aos gêmeos Antônia e Theo, de 6 anos, diria que o Timão venceu o jogo e pronto.

Agora, se você não fosse o Washington Olivetto, mas fosse o Nizan Guanaes (outro que os alunos da ESPM querem ser), e uma entrevistadora do canal Multishow te perguntasse se existe um Pelé na publici…, você teria de responder rápido, sem esperar o fim da pergunta: “Uóshitolivetto, maior publicitário de todos os tempos. Ninguém se comparou a Uóshitolivetto. Em um ano, e eu estava lá para ver, ele ganhou oito Leões em Cannes. Nossas relações nem sempre foram as melhores, em boa parte por coisas infantis, um filho tem sempre a necessidade de rejeitar o pai. Mas ele é o melhor”.

A mentira não compensa

01/02/2010 às 8:10 | Publicado em Ética, Escrita Criativa | Deixe um comentário

Há um limite para se escrever de forma criativa?

Acredito que sim. A resposta para esta questão é uma palavra bem curta, mas muito profunda: ética.

Talvez o maior alerta  sobre o assunto continue sendo o vivido nos Estados Unidos em 2003, quando o tradicional jornal The New York Times demitiu Jason Blair ao descobrir que boa parte das reportagens por ele escritas continha viagens e entrevistas inventados ou, no mínimo, plagiados.

Na edição de janeiro de 2010 da revista Serafina, da Folha de São Paulo, o jornalista brasileiro Sérgio D´Ávila faz uma garimpagem preciosa porque nos permite saber o que aconteceu com o jornalista americano. Pela leitura dá para garantir que a mentira em jornalismo não compensa. Veja o texto na íntegra e comente se concorda comigo:

JAYSON BLAIR

O homem que colocou em xeque a credibilidade do “New York Times” é encontrado na Virginia

por SÉRGIO DÁVILA, em Washington

A VOLTA DE JAYSON

Serafina encontra ex-repórter mentiroso do “New York Times” trabalhando como “consultor para vida”

Quando Jayson Blair pediu para remarcar novamente a sessão de fotos para a Serafina, a outra jornalista daqui de casa me sugeriu em tom de blague que eu perguntasse a ele: “Jayson, posso confiar em você?”. Para quem não se lembra, o ex-repórter norte-americano era uma jovem aposta do “New York Times” que ascendia em ritmo recorde na redação até ser pego inventando reportagens, entrevistas e viagens e plagiando textos. Foi demitido em 2003, num dos piores golpes à imagem do respeitado diário norte-americano.
Uma comissão independente, instalada no mesmo ano pela direção do jornal para averiguar o tamanho do estrago, descobriu que 36 das 73 reportagens de assuntos nacionais escritas por Blair entre outubro de 2002 e sua demissão traziam problemas. O resultado da investigação foi publicado na primeira página do jornal de 11 de maio de 2003, num texto dez vezes maior que o tamanho desta coluna, em que os autores diziam que o escândalo era “um ponto baixo nos 152 anos de existência do jornal”.
No ano seguinte, Blair escreveu um livro de memórias, “Burning Down My Masters’ House – My Life at the New York Times” (Queimando a Casa de Meus Senhores – Minha Vida no New York Times, New Millennium Press), em que acusa o jornal de racismo e atribui parte de seus problemas à bipolaridade de que dizia sofrer então. Dois anos depois, o livro tinha vendido 4.000 cópias, um número modesto para os padrões do mercado editorial norte-americano.
Localizei Jayson Blair trabalhando em Ashburn, na Virginia, Estado vizinho a Washington, como “consultor para vida” (“life coach”, no original), especializado em “avaliação de carreira, doença do deficit de atenção, transtorno invasivo do desenvolvimento, doenças do humor e doenças de abuso de substâncias”. Hoje com 33 anos, ele atende clientes e tem dado palestras para plateias interessadas nesses assuntos, que não necessariamente fazem a ligação do guru com o ex-jornalista do passado.
No final de 2009, ele começou a ensaiar voos mais altos. Fez uma palestra sobre ética no jornalismo a alunos de uma universidade de comunicação, levando US$ 3.000, segundo relatos de locais. O título era “Lições Aprendidas”. Um dos presentes disse que ele deveria ter resumido seu conselho a uma frase: “Não seja Jayson Blair”. Falei com Blair depois disso. Ele insistiu que a conversa fosse por e-mail. “Jayson prefere esse meio porque limita os potenciais erros de tradução”, disse seu assessor de imprensa, Ted Faraone.
Perguntei por que ele fez o que fez, qual o tamanho do estrago que julgava ter causado no “New York Times” e à credibilidade da mídia em geral, se ele se arrependia, se ele sentia falta do jornalismo e se ele sabia de outras pessoas ainda em ação fazendo o que ele fazia. “Eu estava doente, com problemas mentais, e também, separadamente, perdi meu sistema de navegação moral. Não estou em posição de julgar o estrago ao jornal. Arrependo-me. Sinto muita falta do jornalismo. E também não quero abrir velhas feridas e julgar outros.”
Perguntei qual o futuro do jornalismo, na opinião dele. “Não tenho certeza. Sou otimista como leitor e como telespectador.” Perguntei como ele se recriou nessa nova carreira, se era bem-sucedido, se as pessoas o reconheciam e se, quando isso acontecia, era uma vantagem ou desvantagem. “Um psicólogo clínico viu meu trabalho de liderar grupos de apoio no norte da Virginia e me convocou a me juntar a sua prática. Sinto-me bem-sucedido. As pessoas me reconhecem, às vezes. Isso não tem virtualmente nenhum impacto negativo, e um impacto muito positivo em clientes e outros que se sentem confortados pelo fato de eu saber como é chegar ao fundo do poço e que a recuperação não é só parte de contos de fadas.”
Perguntei se as pessoas têm de confiar nele para seguir seus conselhos e se elas confiam. “Sim, elas têm. E, sim, frequentemente elas confiam.” Perguntei se ele votou em Barack Obama e o que achava de sua gestão até agora. “Eu prefiro manter minha opinião política privadamente.”Por fim, perguntei se ele já tinha ido ao Brasil. “Não, mas irei em breve. Em maio, na verdade.”
Foi a única vez que ele usou a última palavra.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/serafina/inde31012010.htm

O que os inovadores têm em comum

05/10/2009 às 11:06 | Publicado em Escrita Criativa | Deixe um comentário

Em sua coluna de domingo, publicada na Folha de S. Paulo em 4/10/2009, o jornalista Gilberto Dimenstein usa o caso de Romero Rodrigues para ilustrar o perfil criativo. Para quem não sabe, o engenheiro formado pela Poli recentemente vendeu parte de sua empresa, o Buscapé (um site comparador de preços), por R$ 342 milhões.

Dimenstein identifica pelo menos três pontos importantes na trajetória desse inovador que, em 1999, teve a ideia ao perceber como era difícil pesquisar preços de produtos na rede.

O primeiro ponto apontado por Dimenstein é a curiosidade, que antecede a intenção de ganhar dinheiro.

O segundo, a boa formação acadêmica (Romero estudou no Visconde de Porto Seguro e entrou na USP).

O terceiro ponto, na visão de Dimenstein decisivo, foi a existência de um mentor. No caso o pai do jovem de 32 anos, por coincidência também Romero de nome e engenheiro de profissão.

Segue a coluna na íntegra:

São Paulo, domingo, 04 de outubro de 2009
 
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GILBERTO DIMENSTEIN

Como surgem inventores. E milionários


Romero Rodrigues transformou sua vocação para a informática em um negócio de US$ 342 milhões


COM O DINHEIRO que ganhava do estágio no Laboratório de Arquitetura e Redes de Computadores (Larc), da Poli, Romero Rodrigues conseguia economizar R$ 100 por mês, às vezes só dava R$ 50, para investir numa experiência em internet.
Com mais três colegas -dois da Poli, um da FGV-, aplicava R$ 300 mensais. Na semana passada, o que sobrou desse passado foram só os três primeiros dígitos. Uma parte da empresa foi vendida a um grupo estrangeiro por US$ 342 milhões.
A ideia surgiu quando eles, em 1999, perceberam que não havia na internet um jeito de comparar preços de produtos vendidos nas lojas. Nascia, assim, o Buscapé.
Perguntei a Romero sobre seu prazer de descobrir coisas. No relato sobre sua vida, dá para perceber o modelo que o ajudou a fazer tanto sucesso em tão pouco tempo -há anos registro casos de inovadores e, quase sempre, noto um padrão que se repete.
Antes que me confundam com escritor de autoajuda, vou logo avisando. Não vou dar uma receita, mas apenas mostrar que os inovadores de destaque têm pontos em comum.

 
Comecei perguntando sobre a infância. Romero lembrou-se da paixão que tinha por um brinquedo chamado “O Alquimista”, que misturava produtos químicos. “Gostava tanto, mas tanto, que economizava cada gota dos vidrinhos. Foi, durante muito tempo, meu maior tesouro.”
Puxando pela memória, ele se lembrou de que tinha mania de desmontar os aparelhos que encontrava pela frente e, depois, remontá-los -o que fazia de seu quarto uma espécie de laboratório. “Nada me seduziu tanto quanto o computador.”
Aos 12, montou, sozinho, em casa, seu primeiro jogo no computador, em que bichos passavam por túneis.

 
Como se vê, Romero era um menino curioso e, desde cedo, desenvolveu o encanto pela experiência, encontrando uma vocação.
Aparece aí mais uma característica. O prazer não estava em ganhar dinheiro, mas em produzir novidades. “O dinheiro foi consequência.” Na frente, estava um sonho que, ao contrário das empresas, tem uma contabilidade imaterial guiada apenas pela emoção.

 Dificilmente, ele não iria muito longe se fosse apenas um curioso. Ser criança, afinal, é ser curioso.
Romero frequentou uma das melhores escolas da cidade de São Paulo (Visconde de Porto Seguro), onde teve as primeiras aulas de computação e a chance de mergulhar nos laboratórios. Sem isso, teria dificuldade de entrar na USP e obter uma base teórica sólida para fazer programação na internet.
Sabia, porém, transformar informação que vinha da sala de aula em conhecimento, ou seja, algo prático.

 
Notam-se curiosidade natural, inteligência acima da média para pelo menos uma área (no caso, a computação), boa formação escolar, apoio familiar. Mas falta algo -e, na minha visão, decisivo. Falta o mestre, aquela figura indispensável que ajuda a canalizar a curiosidade.
Quando lhe perguntei sobre os mestres que o estimularam mais, a resposta veio rapidamente: o pai, também chamado Romero. E também engenheiro. Não se incomodava com os aparelhos desconstruídos, espalhados pela casa. Pelo contrário, mostrava-se orgulhoso. “Via o esforço do meu pai em pagar a mensalidade.”

 
Muitos dos colegas de Romero ganharam um carro quando entraram na faculdade. Com ele, foi diferente. O pai raspou as economias para dar-lhe um moderno computador.
Justamente com esse computador que, aos poucos, foi ficando velho, Romero montou o programa de buscas na internet, agora com 50 milhões de usuários -e, com isso, os R$ 300 mensais viraram, na semana passada, US$ 342 milhões.

 
É mais um exemplo a mostrar que nada pode ser mais importante num país do que o estímulo à inovação -é por esse ângulo que se pode medir a tragédia que significa a falta de professores em ciências e a incapacidade de mostrar como a teoria se aplica ao cotidiano.

 PS- Coloquei em meu site (www.dimenstein.com.br) uma parte da minha coleção de entrevistados que se destacaram, alguns deles vivendo duras adversidades -todos sempre têm a história de um mestre para contar.
Alguns exemplos: Gilberto Gil, Fernanda Montenegro, Ziraldo, Maurício de Souza, Miguel Nicolelis, Ruy Ohtake, João Carlos Martins, Fernando Meirelles.

Jogo dos 20 clichês

27/08/2009 às 11:31 | Publicado em Escrita Criativa | Deixe um comentário

Uma graça o texto de hoje feito pelo jornalista Ivan Finotti sobre o lançamento do livro O Pai dos Burros, no qual Humberto Werneck nos alerta sobre 4 500 lugares-comuns que todo jornalista e escritor deveria evitar. 

A missão era falar do lançamento. Mas, com muito bom humor, Finotti usa no próprio texto 20 frases feitas, começando com o “surrados clichês” do título. Fica o convite: encontre as frases e limpe seu texto na medida do possível de pragas como “subir para cima” , “descer para baixo” e “encarar de frente”, entre outras.

25/08/2009

08h36

Dicionário traz surrados clichês para todos os gostos

IVAN FINOTTI
da Folha de S.Paulo

É de tirar o chapéu. A faraônica obra “O Pai do Burros – Dicionário de Lugares-Comuns e Frases Feitas”, de Humberto Werneck, vai cair como uma bomba na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, onde o autor estará autografando hoje à noite.

O livro, ao qual não se consegue largar, traz 4.500 surrados clichês, divididos em 2.000 verbetes, reunidos nos últimos quarenta anos pelo combativo jornalista. Werneck não brinca em serviço. Sempre que ouvia uma pérola, anotava num guardanapo. Ou melhor: pérola não, mas uma “antipérola”, como ele prefere.

Sim, porque quem não vive da língua de Camões pode ficar até vivamente impressionado com as frases feitas. Os lugares-comuns travestem-se de sabedoria dos antigos e podem dar a impressão de que aquele indivíduo está fazendo bonito e falando difícil como um comendador. No fundo, porém, são apenas clichês que lhe saem da boca pra fora (é o caso clássico do jogador de futebol).

Werneck cita em seu prefácio uma ideia luminosa da socióloga e cientista política alemã Hannah Arendt: “Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade (…)”.

É curioso procurar as palavras que mais se prestam ao lugar-comum. Há, por exemplo, “tempo” (30 frases feitas no dicionário), “vida” (35; confira no quadro à esquerda) ou “mão”, com nada menos que 47 registros: mão na roda, meter a mão, de mãos abanando, com uma mão atrás e outra na frente, lavar as mãos e passar a mão.

Em resumo, os clichês são uma tragédia; o livro é um excelente manual de como não fazer um texto e o título “O Pai dos Burros” se revela uma injustiça clamorosa para com os dicionários.

O texto acima foi composto com 20 frases feitas tiradas do livro e, se o leitor não captou a brincadeira, é porque o tiro saiu pela culatra (21 frases, agora) e demos com os burros n’água (22)

O PAI DOS BURROS – DICIONÁRIO DE LUGARES-COMUNS E FRASES FEITAS
Autor: Humberto Werneck
Editora: Arquipélago
Quanto: R$ 29 (208 págs.)
Lançamento: hoje, às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/ 3170-4033)

Pela volta dos textos e leituras surpreendentes

13/08/2009 às 11:28 | Publicado em Escrita Criativa | Deixe um comentário

Na segunda-feira, dia 10 de agosto de 2009, entre as matérias do The New York Times selecionadas e traduzidas para o português no encarte da Folha de S. Paulo, estava um interessante ensaio de Damon Darlin.

Darlin é editor de tecnologia do jornal e escreve de São Francisco. No ensaio “Em Busca de Boas Surpresas” ele diz que a “era digital está acabando com o ´serendipidy´– palavra inglesa que designa descobertas casuais e positivas”.

Para o jornalista, hoje em dia tudo o que precisamos chega a nós filtrado e examinado graças aos poderosos mecanismos de busca atuais. Aliás, em sua passagem pelo Brasil, o escritor estadunidense Gay Talese já chamava a atenção para o fenômeno. Para Talese, quando lemos uma edição na íntegra de um jornal, vemos o que gostamos e o que não estamos tão interessados assim. É nesse ponto que podem surgir histórias inéditas e interessantes.

Promover a serendipidade é vital para criar textos criativos e até para desfrutar de uma vida melhor. Aliás, a palavra serendipidade, como explica o mitólogo estadunidense Joseph Campbell em O Poder do Mito, provém de Serendipa, o nome pelo qual era conhecido o Sri Lanka. Numa história antiga passada naquele país, algumas pessoas saíam a passeio e se deparavam com vários episódios surpreendentes pelo caminho. Como se espera de uma boa narrativa.

Escrita criativa no twitter

18/05/2009 às 12:05 | Publicado em Escrita Criativa | Deixe um comentário

Contar as novidades de forma sintetizada, em não mais do que 140 caracteres, é o desafio lançado pelo twitter, a nova rede social que mais cresce no mundo.

Se você quer testar a ferramenta, aproveite para acessar www.twitter.com/escritacriativa

Você experimenta o twitter e ainda fica sabendo das novidades sobre o tema criatividade e escrita.

Lembro que contribuições para o blog e para o twitter são bem-vindas. Caso queira compartilhar algo de interesse público, encaminhe para análise por email para martinez.monica@uol.com.br

Boa semana,

Monica

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