Ética e escrita criativa

05/04/2010 às 10:07 | Publicado em Ética | 1 Comentário

Não é a apenas a estética que o jornalista ou escritor deve ter em mente ao planejar uma obra criativa. Há uma preocupação muito grande também com a atuação ética. O jornalista estadunidense Mark Kramer, por exemplo, aponta os pactos claros com fontes e leitores no que se refere à exatidão da coleta de informações como um elemento importante (Kramer, 1995). Aliás, é um ponto fundamental do Jornalismo Literário, uma vez que a parte mais conhecida desta modalidade de prática jornalística – o Novo Jornalismo – ficou marcada nos anos 1960 pela desconfiança quanto à fidelidade das apurações.

Em pleno século 21, é natural que as discussões tenham avançado neste quesito. É o caso de Edvaldo Pereira Lima, o ex-docente do programa de pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e um dos idealizadores da ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário). Em sua proposta, revista em 2008, além da questão da criatividade, Lima enfatiza a importância da responsabilidade social.  

Para mim, a expressão mais sintética e lúcida sobre o assunto continua sendo a do jornalista Cláudio Abramo: “Sou jornalista, mas gosto mesmo é de marcenaria. Gosto de fazer móveis, cadeiras, e minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista – não tenho duas. Não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão.” (Abramo, 1988: 109).

Quando se une a questão ética à estética, basta acrescentar um terceiro pilar a essa tríade sólida da escrita criativa: a técnica. Mas aí já é outro post.

Para saber mais:

ABRAMO, Cláudio. A regra do jogo. São Paulo: Cia das Letras, 1988.

KRAMER, Mark. Breakable Rules for Literary Journalists. In: SIMS, Norman; KRAMER, Mark. Literary Journalism: a new collection of the best american nonfiction. Nova York: Ballantine Books, 1995, p. 21-34.

LIMA, Edvaldo Pereira. Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. São Paulo: Manole, 2008.

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A mentira não compensa

01/02/2010 às 8:10 | Publicado em Ética, Escrita Criativa | Deixe um comentário

Há um limite para se escrever de forma criativa?

Acredito que sim. A resposta para esta questão é uma palavra bem curta, mas muito profunda: ética.

Talvez o maior alerta  sobre o assunto continue sendo o vivido nos Estados Unidos em 2003, quando o tradicional jornal The New York Times demitiu Jason Blair ao descobrir que boa parte das reportagens por ele escritas continha viagens e entrevistas inventados ou, no mínimo, plagiados.

Na edição de janeiro de 2010 da revista Serafina, da Folha de São Paulo, o jornalista brasileiro Sérgio D´Ávila faz uma garimpagem preciosa porque nos permite saber o que aconteceu com o jornalista americano. Pela leitura dá para garantir que a mentira em jornalismo não compensa. Veja o texto na íntegra e comente se concorda comigo:

JAYSON BLAIR

O homem que colocou em xeque a credibilidade do “New York Times” é encontrado na Virginia

por SÉRGIO DÁVILA, em Washington

A VOLTA DE JAYSON

Serafina encontra ex-repórter mentiroso do “New York Times” trabalhando como “consultor para vida”

Quando Jayson Blair pediu para remarcar novamente a sessão de fotos para a Serafina, a outra jornalista daqui de casa me sugeriu em tom de blague que eu perguntasse a ele: “Jayson, posso confiar em você?”. Para quem não se lembra, o ex-repórter norte-americano era uma jovem aposta do “New York Times” que ascendia em ritmo recorde na redação até ser pego inventando reportagens, entrevistas e viagens e plagiando textos. Foi demitido em 2003, num dos piores golpes à imagem do respeitado diário norte-americano.
Uma comissão independente, instalada no mesmo ano pela direção do jornal para averiguar o tamanho do estrago, descobriu que 36 das 73 reportagens de assuntos nacionais escritas por Blair entre outubro de 2002 e sua demissão traziam problemas. O resultado da investigação foi publicado na primeira página do jornal de 11 de maio de 2003, num texto dez vezes maior que o tamanho desta coluna, em que os autores diziam que o escândalo era “um ponto baixo nos 152 anos de existência do jornal”.
No ano seguinte, Blair escreveu um livro de memórias, “Burning Down My Masters’ House – My Life at the New York Times” (Queimando a Casa de Meus Senhores – Minha Vida no New York Times, New Millennium Press), em que acusa o jornal de racismo e atribui parte de seus problemas à bipolaridade de que dizia sofrer então. Dois anos depois, o livro tinha vendido 4.000 cópias, um número modesto para os padrões do mercado editorial norte-americano.
Localizei Jayson Blair trabalhando em Ashburn, na Virginia, Estado vizinho a Washington, como “consultor para vida” (“life coach”, no original), especializado em “avaliação de carreira, doença do deficit de atenção, transtorno invasivo do desenvolvimento, doenças do humor e doenças de abuso de substâncias”. Hoje com 33 anos, ele atende clientes e tem dado palestras para plateias interessadas nesses assuntos, que não necessariamente fazem a ligação do guru com o ex-jornalista do passado.
No final de 2009, ele começou a ensaiar voos mais altos. Fez uma palestra sobre ética no jornalismo a alunos de uma universidade de comunicação, levando US$ 3.000, segundo relatos de locais. O título era “Lições Aprendidas”. Um dos presentes disse que ele deveria ter resumido seu conselho a uma frase: “Não seja Jayson Blair”. Falei com Blair depois disso. Ele insistiu que a conversa fosse por e-mail. “Jayson prefere esse meio porque limita os potenciais erros de tradução”, disse seu assessor de imprensa, Ted Faraone.
Perguntei por que ele fez o que fez, qual o tamanho do estrago que julgava ter causado no “New York Times” e à credibilidade da mídia em geral, se ele se arrependia, se ele sentia falta do jornalismo e se ele sabia de outras pessoas ainda em ação fazendo o que ele fazia. “Eu estava doente, com problemas mentais, e também, separadamente, perdi meu sistema de navegação moral. Não estou em posição de julgar o estrago ao jornal. Arrependo-me. Sinto muita falta do jornalismo. E também não quero abrir velhas feridas e julgar outros.”
Perguntei qual o futuro do jornalismo, na opinião dele. “Não tenho certeza. Sou otimista como leitor e como telespectador.” Perguntei como ele se recriou nessa nova carreira, se era bem-sucedido, se as pessoas o reconheciam e se, quando isso acontecia, era uma vantagem ou desvantagem. “Um psicólogo clínico viu meu trabalho de liderar grupos de apoio no norte da Virginia e me convocou a me juntar a sua prática. Sinto-me bem-sucedido. As pessoas me reconhecem, às vezes. Isso não tem virtualmente nenhum impacto negativo, e um impacto muito positivo em clientes e outros que se sentem confortados pelo fato de eu saber como é chegar ao fundo do poço e que a recuperação não é só parte de contos de fadas.”
Perguntei se as pessoas têm de confiar nele para seguir seus conselhos e se elas confiam. “Sim, elas têm. E, sim, frequentemente elas confiam.” Perguntei se ele votou em Barack Obama e o que achava de sua gestão até agora. “Eu prefiro manter minha opinião política privadamente.”Por fim, perguntei se ele já tinha ido ao Brasil. “Não, mas irei em breve. Em maio, na verdade.”
Foi a única vez que ele usou a última palavra.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/serafina/inde31012010.htm

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