No rastro centenário de Roald Amundsen

06/02/2012 às 18:11 | Publicado em Jornalismo Literário, Narrativas de Viagem | Deixe um comentário

São Paulo, Domingo, 29 de Janeiro de 2012

CAPA revista serafina

Uma aventura no fim do mundo

por ivan finotti, do polo sul

Treze viajantes e nossos dois enviados especiais chegam ao polo Sul  cem anos depois de o primeiro grupo botar os pés no último lugar da terra

Tínhamos esquiado 12 quilômetros. Ainda faltavam oito e mais um dia inteiro. Tentei dormir, mas estava cansado demais. Levantei e fui até a barraca verde dos guias. Lá dentro, Rick e Dirk haviam preparado uma cozinha interessante. A tenda era sustentada por uma estaca central. Em torno dessa estaca, ficavam dois fogareiros. E, ao redor de todo esse centro, eles cavaram um fosso circular de forma que você podia enfiar o pé nele e sentar em volta. A neve retirada do fosso era a que iria virar água nas chaleiras.

O dia era 13 de dezembro de 2011 e tínhamos um plano: chegar à marca do polo no dia seguinte, refazendo os passos do explorador norueguês ?Roald Amundsen (1872-1928), o primeiro a atingir o local, cem anos atrás.

Nossa viagem havia começado cinco dias antes, no Chile. Rick Sweitzer, o dono e guia da empresa turística norte-americana Polar Explorers, reuniu a turma em Punta Arenas, extremo sul do continente americano, para uma rodada de pisco sour.

Meu grupo é formado por 17 pessoas. Além dos dois guias, eu e o fotógrafo João Wainer viemos a trabalho. Os outros são magnatas, industriais, financistas, negociantes de petróleo, milionários em geral. Cada um pagou US$ 52,5 mil (R$ 92 mil) por oito dias na Antártida, sem contar o voo para o Chile, os exames médicos e os seguros obrigatórios. ?Esses 13 turistas, sendo duas mulheres, podem passar férias em qualquer lugar do mundo. Preferiram encarar uma viagem desconfortável, mas com uma recompensa rara: ser um dos poucos seres vivos a visitar este lugar.

Um deles, o norte-americano Daniel Pena, 66, veio se casar. Trouxe sua mulher, Sally Hall, 48, e um de seus funcionários, William Smith, 41, que fez um curso pela internet especialmente para poder oficializar o casamento no gelo. Daniel é um gigante de 100 kg e de quase 1,90 m, daquele tipo a que você obedece sem pensar, só de ouvir a voz de trovão. Um cara singular: comprou um castelo na Escócia para jogar golfe (“O esporte foi inventado lá”), escreveu o livro “Your First 100 Million” (“Seus Primeiros Cem Milhões”, não lançado no Brasil) e carregou para a Antártida seis quilos de vitaminas (“Tomo 120 pílulas por dia: vitaminas A, B, C, D, E, zinco, cálcio, magnésio, minerais, suplementos etc. Por isso não pareço ter 66 anos”).

A japonesa Mieko Kugizaki tem 73 anos e parece tê-los. Apoia-se numa bengala desde que fez uma cirurgia para recompor a bacia há alguns anos. Em uma excursão agregada à nossa, Mieko trouxe (e pagou pela viagem de) um guia exclusivo, que também serve de tradutor. “No ano passado, fui para o polo Norte. Para 2012, reservei uma passagem num avião espacial que sai da atmosfera.” O tíquete custa US$ 200 mil e a viagem dura apenas duas horas, com direito a quatro minutos de gravidade zero. O marido nunca a acompanha. “Ele tem medo”, sorri.

O texano James Ryffel, 52, trabalha com imóveis e ergue shopping centers nos Estados do Texas, ?do Arizona e da Georgia. Às vezes, fica com eles. “Tenho cerca de 45”, conta. Jim Finley, 55, é do ramo do petróleo. Possui 900 torres extratoras, espalhadas por 13 Estados norte-americanos. James (quatro filhos) e Jim (três) são amigos há 15 anos, assim como suas mulheres e as crianças. Há ainda Jim Johnson, 50, que constrói prédios comerciais no Colorado. Hospitais, hotéis e escritórios estão em sua lista, mas a demanda nos EUA levou sua empresa a se especializar em… cadeias. “Estamos concluindo nossa 16ª prisão”, diz. Os três foram juntos ao polo Norte em 2009, quando aquela região comemorou os seus cem anos de conquista.

RUMO À ANTÁRTIDA

Dois dias depois daqueles pisco sours em Punta Arenas, embarcamos num avião de carga russo ?IL-76, aparentemente caindo aos pedaços. As poltronas não reclinam, a porta do único banheiro não tranca e não há cabine separando os passageiros da área de carga. A tripulação veio com o aparelho após o desmantelamento da União Soviética: são todos russos e parecem vilões do 007. Na hora do lanche, cada um dos passageiros se levanta e monta seu próprio sanduíche de pão de forma, presunto e maionese, apoiado num isopor no chão. E pensar que pelo menos quatro desses meus colegas têm aviões particulares em seus países de origem.

“O importante de uma viagem dessas é fazer você apreciar as coisas básicas, como a água, o ar, um abrigo do frio”, resume Avantika Dalmia, 35, filha de um industrial na Índia, que comemora os 15 anos de seu casamento com Puneet Dalmia, 39. “Minha família está nas áreas de cimento, açúcar, eletricidade e cerâmicas industriais”, conta o marido. ?Coisas básicas.

O trunfo desse avião é que ele consegue descer em locais não asfaltados, como a pista de gelo azul da Antártida, onde pousa 3.000 km e quatro horas depois. Logo estamos em Union Glacier, base da empresa que opera os aviões antárticos, tomando sopa de legumes num barracão aquecido. E, surpresa, servem vinho chileno, tinto e branco.

Um de meus novos amigos, o norte-americano Anton Valukas, passa com uma garrafa térmica e oferece: é uísque “single malt”. Anton é um advogado de 68 anos, nomeado pela Justiça dos EUA em 2008 para investigar a falência do banco Lehman Brothers. Hoje, comanda uma firma de 500 advogados e sempre quis vir à Antártida. “Acabo de me divorciar e achei que era a hora. Liguei para a agência e disse: ‘Tenho 68 anos, faço duas horas de bicicleta por dia. Tenho condições de ir” É evidente que Anton está em muito melhores condições físicas do que eu. Aos 41, eu havia passado todo o ano de 2011 adiando meu ingresso em uma academia. Acabei me inscrevendo um mês antes da viagem e fiz exercícios apenas no dia da matrícula. Um check-up completo na primeira semana de dezembro, porém, atestou que eu e João Wainer estávamos saudáveis o suficiente para o desafio.

Aproveito para entrevistar um dos reis do aço de Chicago, Dave Nelsen, 53. Descubro que ele tem 30 carros antigos, todos Chevrolet. “Dezenove são Corvettes, sendo eles de 1953, 57, 59, dois de 63, três de 67, 68, 69, 72, 78, 90, 01, 08, 09 e 2012”, recita, na ponta da língua, mas pulando dois exemplares. Embalados pelo uísque, conversamos sobre a agradável sensação de dirigir Corvettes pelas ruas de Chicago (em sonho, no meu caso). Pisei na Antártida há apenas três horas e já estou rodeado de copos, garrafas e chegados milionários. Deveria ter trazido meus cigarros…

Passamos três dias no acampamento Union Glacier, aguardando tempo bom para voar ao polo Sul. Ainda estamos a mil quilômetros de lá, e os ?aviões não conversam muito bem com gelo e neve. É impossível voar por instrumentos, já que a aparelhagem não consegue medir a água solidificada tão bem como se fosse terra. Me acostumo a usar dentifrício em pó (a pasta dental congelaria) e a escrever com lápis (a tinta ficaria dura).

Uma cadeia de montanhas negras, salpicadas de neve branca, cercam nossas barracas coloridas, nos lembrando a todo instante de que estamos num lugar único. Mas o mais marcante no acampamento é a discrepância entre o banheiro e o orgulho que o pessoal que trabalha lá sente dele. Realmente, outrora devia ser duro, porque “agora temos privadas”, vangloriam-se. Mas não têm descarga. E é preciso separar sólidos e líquidos para facilitar o manejo posterior, já que tudo isso voará para ser descartado no Chile. Não há água corrente. Banho, portanto, nem pensar. Pergunto a Daniel Pena, o dono do castelo, como ele enfrenta a dura experiência do banheiro. “Sou o primeiro a acordar e faço tudo antes de todo o mundo.” Fica a dica.

RUMO AO POLO

A primeira coisa que acontece quando você pisa na região polar é  seu nariz começar a escorrer. A 35 abaixo de zero, o muco congela e cada gota vira ?uma miniestalactite que te alfineta por dentro das narinas. Havíamos acabado de descer com o pequeno DC-3 na pista de gelo azul próxima ao polo Sul, tão assustados com as histórias de necroses causadas pelo frio que cobrimos todos os milímetros do corpo com o máximo de tecido disponível. A temperatura é de 35 graus negativos. Estou encapotado como uma cebola, com cinco camadas de roupa. Um exagero, percebo em dois minutos.

Nove turistas de nosso grupo, inclusive eu e João, havíamos escolhido esquiar os últimos 20 quilômetros em direção ao polo. Os dois guias nos acompanhariam. A intenção era chegar à marca no dia seguinte, 14 de dezembro, mesma data de Amundsen em 1911. Passei os primeiros minutos dessa nova jornada me perguntando o que fazia ali. Xingando a situação, coloquei meus esquis, prendi o trenó no cinturão e comecei a puxar. Cada um de nós dez carregava um trenó igual, de 15 kg a 25 kg, entre roupas, saco de dormir, comida, chocolate, barracas, fogareiros etc.

Logo senti o dedão do meu pé direito gelado. Pensei em trocar as meias, mas vi que seria impossível. O simples ato de beber um gole de água exigia voltar com o esqui de ré até emparelhar com o trenó, dobrar os dois joelhos, quase sentando (o esqui te impede de levantar o calcanhar), tirar as luvas externas, achar um lugar para colocá-las sem derrubá-las na neve, abrir a mochila, achar a garrafa, abri-la, beber sem se desequilibrar nessa posição dos infernos e, quando acabar, fazer tudo de novo ao contrário. Enquanto isso, a expedição caminha e você vai ficando para trás. Trocar de meia, portanto, estava fora de cogitação.

Vale dizer que nossa esquiada não tem nada a ver com estações recreativas como Bariloche ou Aspen. Não deslizávamos pela neve, já que não existem descidinhas no planalto do polo Sul. Estávamos caminhando, levantando um esqui após o outro e dando passos. Era como andar de pé de pato na praia. João sofria mais que eu porque, além do trenó, tinha o equipamento fotográfico pendurado no corpo -e precisava parar para fotografar de vez em quando. Logo se formaram dois grupos. Atrás, andávamos eu, os amigos texanos James Ryffel e Jim Finley e Arjun Gupta, 51, um indiano morador da Califórnia que se especializou em bancar novas empresas no Vale do Silício e depois vendê-las. Já fez isso com 61 delas.

Quinze minutos depois, meu dedão já se aquietou, mas os dedos da mão esquerda passaram a doer demais. Estavam em processo de congelamento, certeza absoluta. A sensação era de quente, não de frio. Parecia que tinha colocado os dedos na boca de um fogão. Reclamei para o guia Dirk Jensen, mais amigável que Rick. Ele arrancou minha luva externa e a de baixo. Disse que era só frio, nada demais, mas reclamou que estavam muito apertadas. “É preciso espaço para o ar. É o ar quente que mantém sua mão aquecida.” Coloquei saquinhos de aquecedores químicos dentro das luvas, mas, 15 minutos depois, a dor tinha aumentado.

Ficar a 30 graus negativos enquanto se vai do hotel para o restaurante é uma coisa, mas ficar o tempo todo a 30 graus negativos era outra bem diferente. Lembrei-me da passagem de “Solar” (2010), de Ian McEwan, em que o protagonista, que está numa viagem semelhante, faz xixi ao ar livre no polo Norte e acha que seu pênis congelou. O risco de ficar quieto me pareceu grande demais e, quando reclamei pela terceira vez, Dirk me deu suas luvas externas e ficou sem. Salvou minha mão (acho) e parte do meu humor (certeza).

DIFICULDADES

Minutos depois, uma moto de neve se aproximou, com um dos funcionários do acampamento. Trazia uma lata de combustível, que tinha ficado para trás. Rick gritou para todos: “Se alguém quiser desistir, é agora”, oferecendo a garupa. Jim Finley se adiantou: “Não estou me dando bem com estes esquis, as botas ficam torcendo o tempo todo e talvez eu não esteja gostando muito disso”. Invejei, de verdade.

Após algum tempo, já me equilibrava sem esforço no esqui (nunca havia visto um na vida). Mesmo assim, estava no fim da fila. Arjun e James Ryffel iam comigo, mas os dois paravam um bocado para ganhar fôlego. Estávamos a quase 3.000 m de altitude. Respirar fica mais difícil; há menos oxigênio no ar. A partir do oitavo quilômetro, o cansaço tornou-se insuportável. O trenó parecia cada vez mais pesado. Para não perdermos tempo, nem havíamos almoçado naquele dia. Comecei a sentir frio, apesar do exercício constante, e coloquei mais uma jaqueta. Senti que me aproximava do esgotamento quando, em vez de fincar os espetos para ajudar no equilíbrio sobre os esquis, comecei a usá-los como muletas, jogando meu peso sobre eles a cada passo. De 50 em 50 metros, parávamos durante um ou dois minutos, curvados sobre nós mesmos, mãos no joelho, arfando.

Quando o primeiro grupo finalmente parou, sete horas depois do início, eles estavam uns 500 metros à nossa frente. Venci dolorosamente os últimos passos e desabei em cima do meu trenó. O islandês Bjarn Ármannsson, 43, estava bem à vontade. Com quatro filhos e quatro empresas (chocolate, gás propano, armazenamento de dados e seguros), o maratonista acostumado com o gelo de seu país ajudou os guias a montar as barracas. Como ele, Jim Johnson, Dave Nelsen e Anton Valukas mantinham a energia e o bom humor. Apesar disso, Anton me disse depois: “Enfrentei desafios físicos em vários lugares do mundo, mas este foi o dia mais brutal da minha vida”.

Entrei na barraca e João estava no mesmo clima de sofrimento. “Como fomos nos meter nessa?”, indagou, e adormeceu instantaneamente. Eram 22h, mas o maldito sol nunca se punha, portanto, nem dava para perceber… Não há noite no verão antártico. O sol está lá o tempo todo, a uma altura de 30 graus em relação ao horizonte. Passa o tempo todo rodopiando sobre nossas cabeças. Às vezes, quando o tempo abre, o sol brilha e o céu fica tão azul quanto o de uma praia do Nordeste. Mas, quando está nublado, a vastidão de neve lisa que domina a região do polo, sem montanhas ou colinas, se encontra no horizonte com o céu embaçado e tudo se transforma numa massa branca sem fim.

Deixei João dormindo e entrei na barraca verde que os guias haviam erguido para cozinhar, aquela com um fosso no meio. De repente, aquela tortura toda começou a fazer sentido. Dava para ver a felicidade daqueles homens ao redor do fogo, cortando nacos de salame de um centímetro de espessura e tomando cappuccinos instantâneos, satisfeitos consigo mesmos, a milhares de quilômetros de distância de seus funcionários, mansões, mulheres, filhos e outros dramas.

Havia pacotes e mais pacotes de comida desidratada, tipo carne com arroz, mas eles preferiram beliscar linguiças e tortilhas com queijo. Era como o clube do Bolinha dos gibis, uma casinha onde menina não entra. Estavam quase todos lá, inclusive ?James Ryffel, que parecia exausto, não conseguiu comer nada e logo foi se deitar. Ele sentia os efeitos da altitude e, naquela noite, mal conseguiria descansar, teria náusea, calafrios e enjoos. Já Arjun, meu outro companheiro do grupo de trás, nem sequer apareceu para o salaminho.

O POLO

Na manhã seguinte, voltei para a fila da caminhada como se estivesse andando na prancha de um navio pirata, pronto para o abate. Mas o dia acabou não sendo tão ruim quanto o primeiro: o cansaço deixara de ser novidade. Após quatro quilômetros, entramos numa área de pesquisa da estação norte-americana. Os guias comandaram um desvio à esquerda, até encontrarmos a estrada, para vencer os últimos quatro quilômetros seguindo as marcas de pneu. Mas James Ryffel não desviou junto com a gente. Estava tão esgotado que, apesar de ser o último da fila, não percebeu a mudança de rota. O islandês Bjarn teve que ir buscá-lo e, a partir de então, puxar também o seu trenó.

Chegamos ao polo momentos antes do casamento de Daniel e Sally. Casaram-se entre as bandeiras dos EUA e do Reino Unido (ela é inglesa) que circundam a marca cerimonial do polo Sul. Todos brindamos com vodca. Era 14 de dezembro, o mesmo dia de Amundsen, há cem anos. Havia noruegueses por toda parte, inclusive o primeiro-ministro do país, Jens Stoltenberg, que participou de uma cerimônia para 500 pessoas, um recorde no lugar.

Aqui e ali, eu revia os colegas de nossa expedição que não haviam participado da caminhada. A senhora Mieko, apoiada em sua bengala, e seu guia particular vindo do Alasca. O casal Dalmia, da Índia. E Peter Lui, 53, um chinês interessado numa distinção bem específica: ser o primeiro escoteiro de Hong Kong a estar no polo Sul. “Há alguns anos, um escoteiro inglês veio. Ou eu teria sido o primeiro do mundo”, lamentou.

Há gente bem diferenciada circulando por aqui. Um senhor norueguês de 60 anos, chamado Asle T. Johansen, conta que veio esquiando com dois colegas desde a costa, por mais de mil quilômetros, durante 40 dias, usando roupas e equipamentos idênticos aos de Amundsen. “Matamos 30 renas para juntar a pele necessária para os casacos, luvas etc.” Outro é Jann Pettersen, 78, neto do carpinteiro da expedição vitoriosa de 1911. Passeia exibindo o relógio de ouro que Amundsen em pessoa ofereceu a seu avô.

E o norte-americano aposentado Don Parrish está caminhando em volta da marca polar, uma, duas, dez, 20 vezes. Parrish, 67, é o quarto homem mais viajado do planeta. Já esteve em 787 lugares dos 872 listados pelo site Most Travelled People (pessoas mais viajadas). “Mas também sou sócio de um clube de circum-navegações e aqui tenho a oportunidade de dar várias voltas no globo.” É isso mesmo, Don está dando microvoltinhas ao redor da Terra em torno do eixo do polo Sul, andando só dez metros a cada círculo. “Decidi circum-navegar cem vezes, em homenagem aos cem anos. Mas, para não haver risco de errar na conta, dei 110 voltas.”

O comportamento de Don me chama a atenção para duas questões específicas do último lugar da Terra. Caminho até o polo, paro exatamente na marca e respiro profundamente. Se eu der um passo para a frente, irei para o norte. Até aí, tudo bem. Mas aqui, ao contrário de todos os outros lugares do planeta, se eu der um passo para trás, também estarei indo para o norte. Qualquer passo que eu dê em qualquer direção será para o norte. Então, me dou conta de outra situação: um passo à direita me coloca no dia 15 de dezembro, 8h horário da Nova Zelândia. Mas, ali, naquele fim de mundo, onde todas as latitudes e fusos horários se encontram, um passo à esquerda me leva para o dia anterior: 14 de dezembro, 20h no horário do Chile.

Volto para o refeitório, onde estão meus colegas de expedição. Arjun dormiria cerca de 20 horas para se recuperar do cansaço. James, cerca de 15. Jim Finley comenta que pretende voltar no ano que vem. “Sinto que falhei.” James Ryffel diz ao amigo: “Se você precisar vir, voltarei com você”. Os outros turistas apenas aguardam o tempo abrir para poder voar de volta ao acampamento, depois ao Chile e aí cada um para sua vida. Enquanto isso, passam o tempo no refeitório jogando Banco Imobiliário, com dinheiro de mentira.

Dos diários dos exploradores

LEIA TRECHOS DOS CADERNOS QUE ROALD AMUNDSEN E ROBERT FALCON SCOTT ESCREVERAM EM 1911 E 1912

Roald Amundsen (1872-1928)

19/10/1911

” Finalmente partimos. Atrelamos os cachorros, 13 para cada um dos quatro trenós. De repente, parte do chão se abriu ao nosso lado e expôs um terrível abismo -grande o suficiente para engolir todos nós. Todos se salvaram.

24/10/1911

Dia de descanso. Armamos um depósito para a volta com 200 kg de carne processada para os cachorros, 30 litros de combustível, duas latas de biscoito e três unidades completas de comida para 100 dias. Levamos conosco cinco focas, 15 kg de filé, uma caixa de carne para cachorro e oito pacotes de chocolate.

10/11/1911

Avanço magnífico sobre terreno liso. Os cachorros chegaram a galopar. Tempo excelente.

20/11/1911

Chegamos ao platô polar, a ?3.000 metros de altitude. Foi um dia duro, especialmente para os cães: 24 de nossos bravos companheiros receberam o pagamento amargo da morte. Ao chegarmos ao platô, eles foram baleados e eviscerados. Amanhã, vamos tirar suas peles. Ainda temos 18 -os melhores. Nós os dividimos em três times de seis.

4/12/1911

Vi a lua. Acho que nunca tinha visto a lua e o sol da meia-noite ao mesmo tempo.

14/12/1911

Conseguimos. Cravamos nossa bandeira no polo Sul geográfico. Graças a Deus. Eram 15h. Chegamos com três trenós e 17 cães e fizemos nossa refeição celebratória: um pequeno pedaço de foca para cada um. Depois de amanhã iremos embora com dois trenós. Vamos deixar um para trás e também uma tenda com a bandeira norueguesa.

3/2/1912

Comoção geral. Chegamos de volta e havia dois navios, em vez de apenas nosso solitário Fram. O outro é o inglês Terra Nova. Eles foram excepcionalmente amigáveis. Ficamos todos resfriados após encontrarmos os ingleses.”

Robert Falcon Scott (1868-1912)

17/1/1912

” O polo. Sim, mas sob circunstâncias bem diferentes das esperadas. Passamos um dia horrível. Oh, Deus!

8/1/1912

Encontramos uma tenda e o registro de que cinco noruegueses estiveram aqui… Agora devemos encarar 1.300 km de volta, arrastando coisas.

17/2/1912

Dia terrível. Depois do almoço, com Edgar Evans sumido, voltamos para procurá-lo. Fiquei chocado com sua aparência. Estava de joelhos, com as roupas desarrumadas, mãos sem luvas e congeladas e um olhar selvagem. Morreu serenamente às 12h30.

16 ou 17/3/1912

Estou perdido nas datas, mas acho que hoje é 17. No almoço de anteontem, o pobre Titus Oates disse que não poderia continuar. Ele suportou sofrimentos intensos por semanas sem reclamar. Dormiu esperando não acordar ontem, mas acordou. Havia uma nevasca. Ele disse: “Vou dar uma volta, devo levar algum tempo”. Saiu e não o vimos mais.

21/3/1912

Estamos a 18 km do depósito desde anteontem à noite; tivemos que ficar parados ontem por causa da forte tempestade de neve. Hoje temos uma vã esperança: Wilson e Bowers irão ao depósito atrás de combustível para o fogareiro.

22 e 23/3/1912

Não conseguimos sair. Amanhã é nossa última chance.

29/03/1912

O vendaval continua, desde o dia 21. No dia 20, tínhamos combustível para duas xícaras de chá e comida para dois dias. Todos os dias desde então estamos prontos a avançar para o depósito a 18 km, mas fora da tenda a cena é a de um redemoinho. Não acho que possamos mais esperar por algo melhor. É uma pena, mas acho que não posso mais escrever.

R. Scott

Um último registro: Pelo amor de Deus, cuide de nosso povo.”

Magnatas da neve

conheça Alguns dos aventureiros que estiveram no polo sul

Jim Johnson, 50

Constrói prisões no Arizona e, há dois anos, acampou no polo Norte durante o centenário de lá

Arjun Gupta, 51

Indiano, que mora na Califórnia, investiu em 61 novas empresas do Vale do Silício, para vendê-las depois

Dave Nelsen, 53

Tem 19 Corvettes e outros 11 Chevrolets. Tornou-se único dono da empresa da família ao comprá-la de 40 parentes

James Ryffel, 52

Dono de 45 shoppings em três Estados norte-americanos, sofreu efeitos da altitude e do cansaço

Anton Valukas, 68

Jurista nomeado para investigar o escândalo do Lehman Brothers, comanda empresa de 500 advogados

Jim Finley, 55

Proprietário de 900 torres de petróleo nos EUA, largou a caminhada de 20 km após as primeiras duas horas

Bjarn Ármannsson, 43

O islandês, que possui empresas de chocolate e gás propano, é maratonista e venceu os 20 km como se fossem um passeio

Evolucão do Equipamento

Compare as roupas e os apetrechos usados hoje com aqueles da época da conquista do polo

Em 1911, o norueguês Roald Amundsen e o inglês Robert Falcon Scott empreenderam uma corrida dramática pela conquista do polo Sul. Amundsen venceu, e Scott e sua equipe morreram congelados na volta.

Confira nestas páginas o equipamento usado por eles na ocasião e os avanços tecnológicos que permitem uma viagem mais segura hoje.

transporte

Do Chile para o acampamento Union Glacier, viaja-se no russo IL-76 (1). Depois, até o polo, usa-se o DC-3 (2)

Amundsen usou o Fram (3). Scott foi com o Terra Nova (4)

MEIAS

Alternam materiais que mantêm a temperatura, deixam o pé seco e trazem conforto. A canela tem um reforço, já que essa parte fica o tempo todo esfregando no limite da bota

De quatro a seis pares de meias de lã eram usados ao mesmo tempo

LUVAS

São de material corta-vento e recheadas com penas de ganso. As luvas para caminhada (6) são como as de boxeador, sem separações, para os dedos aquecerem uns aos outros. Para montar barracas, trocam-se pelas luvas de trabalho (5). Luvas base são usadas o tempo todo

Primeiro vinha a luva comum, feita de lã  (7). Sobre ela eram usadas as de pelo de rena, sem dedos e largas (8)

na cabeça

Chapéu (9), capuz (10 e 12), máscara de nariz (11) e pescoceira (13) contam com proteção corta-vento

O gorro era feito de pele de rena. Já o cachecol e o capuz eram de lã. O uso das renas foi inspirado em uma pesquisa com os esquimós do Alasca, que usavam outro animal de pelos grossos: lobo. A excursão de Robert Scott apostou exclusivamente na lã

ÓCULOS

Um óculos de sol comum (15), com boa proteção UV, é fundamental. Para mais tempo exposto ao ar livre, usam-se os óculos de esqui (14), que também protegem o rosto do frio

Eram modelos para esqui com lentes amareladas, que protegiam dos raios UV. Para minimizar os riscos de cegueira, a equipe preferia viajar com o sol às costas e descansar quando a incidência seria direta nos olhos

PRIMEIRA CAMADA

Cueca, blusa (16) e calça justinhas, feitas de tecido sintético bem leve e com uma tecnologia que não retém a umidade (tudo que é úmido pode congelar). As mais caras têm um truque antiodor: íons de prata na composição do tecido, que impedem a proliferação das bactérias -importante porque usa-se a mesma roupa vários dias seguidos

Cada explorador costumava viajar carregando três conjuntos de cueca, ceroula e camiseta de manga comprida, tudo feito de flanela fina

SEGUNDA CAMADA

A jaqueta (17) e a calça (22) são de um tecido sintético chamado fleece. Espécie de moletom felpudo, que repele a água, expandindo-a pelo tecido e forçando sua evaporação. É feito de PET, igual às garrafas plásticas de refrigerante, e pode ser reciclado

Os viajantes levavam dois suéteres de lã, um com gola comum e outro com gola comprida, mais um par de calças de veludo

TERCEIRA CAMADA

De fleece 300 (18 e 21), mais grossa que as anteriores, de fleece 100. A ideia é usar ambas as camadas quando estiver muito frio, apenas o 300 quando o frio baixar e só o 100 quando esquentar mais

Composta por uma calça e uma jaqueta (com gorro) de gabardine, um tecido mpermeável que ajuda a barrar o vento. Ela podia ser substituída por calça e jaqueta feitas de pele de foca, mais grossa, ou de rena

quarta CAMADA

É a armadura corta-vento. São três microcamadas de tecidos sintéticos, que permitem que a transpiração saia, mas nada entre. Têm zíperes à prova d’água embaixo do braço e ao longo das pernas, para que você deixe entrar um ventinho se estiver com calor. O blusão (19)tem capuz e a calça, suspensórios (20).

Não tinha

QUINTA CAMADA

Usada quando a pessoa não está se exercitando, é formada por um blusão e uma calça recheadas de pena de ganso. Versões mais baratas usam penas de pato

Não tinha

trenós

Na nossa expedição, cada um puxou um trenó com uma mochilona, com cerca de 20 kg

Amundsen usou a força dos cães (23). Scott tentou usar pôneis e trenós motorizados (24). Acabou tendo que usar homens

GARRAFAS

Uma térmica (25), uma de plástico para água fria (26) e uma terceira para fazer xixi sem sair da barraca, com funil para as meninas (idêntica à 26). Caneca de metal para manter a temperatura (27)

De metal

BOTAS

De borracha dura, recheadas com lã (28). Aguentam até -70°C. Acoplada, há uma botinha interna feita de mistura de lã e tecidos sintéticos. Surpreendentemente confortável

Feitas sob medida (29), eram largas, para comportar muitas meias, tinham cobertura de pele de rena e um suporte de madeira preso por correias, para facilitar as caminhadas na neve

AQUECEDORES DE MÃO

Saquinho (30) com um pó “mágico” que, uma vez sacudido, produz óxido ?de ferro e libera calor por horas. Serve pra ficar segurando, dentro da luva

Não tinha

REMÉDIO

O Diamox é uma droga que alivia os efeitos da altitude ao ajudar a metabolizar o escasso oxigênio nas alturas

Vinho ajudava a afastar o frio

localização

O GPS indica a posição com uma margem de erro de até 20 m. Substitui o astrolábio (invenção do século 4º a.C.), a bússola (séc. 3º a.C.), o sextante (séc. 17) e o giroscópio (séc. 19)

Amundsen usava uma versão do sextante (31) presa a um dos trenós. Parecido com uma roda de bicicleta, ele apontava latitude e longitude com margem de erro de 250 m

KIT SONO

Além do saco de dormir com pena de ganso, usa-se um saco de malha que aumenta a temperatura em até 15 graus (32). Um colchão de ar inflável (31) é o ponto de contato com o gelo e uma camada de borracha aluminizada garante o isolamento térmico. Capas de alumínio (33 e 34) são usadas em emergências

As barracas eram duplas e escuras, cobertas por uma capa de gabardine. Os sacos de dormir também eram duplos

COMIDA

Desidratada, basta acrescentar água, fechar o pacote e esperar cinco minutos. Há escolhas como carne cozida na cerveja preta

A equipe de Amundsen (tanto homens quanto cães) comia focas e pinguins caçados no caminho. Os cães mais fracos eram sacrificados e comidos por homens e cachorros sobreviventes. Os cães de Scott eram alimentados com peixe desidratado, que estragava com facilidade. Muitos morreram de fome e foram usados como alimento pelos sobreviventes

SACO DE COCÔ

É isso mesmo, ninguém pode fazer necessidades e deixá-las na Antártida. Um saco cheio de um pó que transforma as fezes em sólido seco é exigido nas viagens ao local. Os organizadores das expedições se encarregam de transportar os restos para a civilização

O dilema da Antártida

Reinaldo José Lopes editor de Ciência e Saúde da Folha

Continente gelado vive situação inusitada: o buraco na camada de ozônio, localizado em cima dele, o protege das consequências mais dramáticas do aquecimento solar

Se você viajar entre 10 km e 50 km em direção ao céu, em qualquer lugar do planeta, vai chegar na camada de ozônio, um gás produzido quando os raios ultravioletas, vindos do Sol, se encontram com o oxigênio que a gente respira. As moléculas de ozônio (O3) são formadas por três átomos de oxigênio; as de oxigênio (O2) têm dois. E, apesar de ser gerado pelos raios ultravioletas, o ozônio equivale a um filtro solar planetário, absorvendo a radiação.

Bem em cima da Antártida, o continente em que fica o polo Sul, foi descoberto um rombo na camada de ozônio em 1985, que continuou aumentando até 2006, quando atingiu seu tamanho máximo, 27,5 milhões de quilômetros quadrados (área equivalente a três brasis). A causa mais provável do buraco é a emissão de compostos chamados CFCs, sigla para clorofluorcarbonos, usados até a década de 1980 em ar-condicionados e sprays. Paradoxalmente, no entanto, o enfraquecimento do ozônio acima da Antártida protegeu, até agora, o continente gelado dos efeitos mais severos do aquecimento global. Salvar o planeta não é fácil, mas destruí-lo também não. A luta contra o buraco na camada de ozônio, uma das maiores (e únicas) histórias de sucesso do ambientalismo global, caminha para tapar o rombo até o fim deste século. O problema, contudo, é o provável efeito colateral dessa vitória: o aumento da temperatura no interior da Antártida e, por tabela, dos níveis dos oceanos, graças ao gelo derretido extra que chegará ao mar.

Mas manter o buraco aberto pelo bem de Copacabana não é uma opção. O rombo antártico só tem um efeito resfriador local, e os gases que atacam o ozônio também provocam aquecimento quando se pensa no planeta como um todo -isso sem falar nos riscos à saúde humana. É preciso achar outro caminho para resolver o dilema.

A história da interação entre o ozônio e o clima da Antártida, que os cientistas estão desvendando em detalhes nos últimos anos, é um exemplo de como o clima da Terra é controlado por conexões que fogem do senso comum e de como perturbá-las leva a resultados insuspeitos.

POLUENTE E ESCUDO

Aqui embaixo, no nível do solo, não interessa a ninguém ter contato com o ozônio. A substância é bem mais instável que o oxigênio que respiramos. Essa instabilidade faz com que o O3 se “quebre” com mais facilidade, e o produto dessa quebra pode reagir com as moléculas do organismo, atrapalhando o funcionamento delas. Por isso o ozônio é considerado um poluente.

No ar de uma grande cidade, ele surge a partir de reações envolvendo radiação ultravioleta -trazida o tempo todo pela luz do Sol- e os gases liberados por indústrias ou pelo escapamento dos carros. O ozônio assim criado tem efeitos sérios sobre os pulmões quando inalado, por exemplo -asmáticos que o digam.

Mas, na estratosfera, o ozônio é necessário. Sem essa linha de defesa, todos os seres vivos receberiam taxas elevadíssimas de radiação. Em humanos, um dos resultados desse tipo de dano ao material genético é o câncer. Foi justamente essa a palavra mágica responsável pelo sucesso indiscutível do Protocolo de Montréal, acordo internacional assinado em 1987 cujo objetivo é reverter a fresta aberta na armadura atmosférica por certos compostos criados pelo homem.

Pode se dizer que o buraco na camada de ozônio está perto da estabilidade, mas a recuperação ainda vai demorar, devido à longa persistência dos derivados dos CFCs na atmosfera. A normalização do buraco antártico deve acontecer, no mínimo, em torno de 2070. Talvez depois.

A cidade mais alemã do Brasil

02/09/2011 às 13:58 | Publicado em Jornalismo Literário, Narrativas de Viagem, Textos de alunos, Turma do Curso de Jornalismo Literário, Turmas do Curso de Redação Criativa | 8 Comentários
O estilo enxaimel, destaque da cidade

 Pomerode é linda! A cidade foi fundada em 1861, quando algumas famílias vindas da província da Pomerânia, no norte da Alemanha, se instalaram ao longo do rio do Testo, no médio Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Quando o Campeonato Mundial de Futebol foi sediado pela Alemanha, em 2006, muitas reportagens aconteceram também nesse encanto de lugar.

 Desmembrada de Blumenau em 1959, Pomerode mantém o fascínio de uma pequena comunidade, com pouco mais de 25 mil habitantes. A forte influência alemã se preserva em seus costumes, como a dedicação ao trabalho, o respeito à fé religiosa, as sociedades de caça e de tiro, as danças folclóricas, as bandinhas e as delícias culinárias que só são encontradas na cidade.

 A arquitetura enxaimel é um destaque à parte. Nesta técnica de construção, as paredes são feitas com hastes de madeira encaixadas, sendo que os vãos resultantes são preenchidos por pedras ou tijolos. A famosa Rota do Enxaimel, o maior acervo de edificações nesse estilo fora da Alemanha, consiste de 70 casas ao longo do trajeto de paisagem bucólica, que torna o passeio pela região inesquecível.

 A maioria dos moradores fala em alemão, língua que também é ensinada nas escolas. Isso fez com que durante o último Censo, realizado em 2010, o recenseador tivesse de falar e escrever com desenvoltura o idioma para realizar bem o seu trabalho. Por isso, ela é sempre referida como a cidade mais alemã do Brasil! Muitas das pessoal da melhor idade que moram lá, aliás, falam, e muito mal!, o português. Tanto que desenvolveram um dialeto próprio, o Plattdeutsch, falado até hoje principalmente quando os mais velhos querem falar a respeito de algo que os filhos não podem saber.

 É nesse pedacinho germânico que moram meus sogros, cunhados e toda a família do lado materno do meu marido. Seu avô, Rodolpho Achterberg, e sua avó, Anna Achterberg (que dá nome a rua onde toda a sua família mora), nasceram ali e ajudaram na colonização de Pomerode. Minha sogra, Lisellotte, conta que na época da Segunda Guerra Mundial eles precisaram queimar muitos livros para fugir às perseguições feitas aos judeus. Por isso, tornaram-se luteranos. É por isso que na cidade é mais comum ver igrejas dessa religião do que católicas ou evangélicas.

 Pomerode possui um parque industrial bem diversificado, com destaque para indústrias de confecção e porcelana, como a Karsten e a Porcelanas Schmidt.

 Bem ao lado de Blumenau, a cidade recebe muitos turistas por ocasião da Oktoberfest e também no mês de janeiro, durante a Festa Pomerada, que dura o mês todinho. Se for para lá nessa época, poderá apreciar a música de bandinha tradicional, bailes, danças folclóricas e gastronomia típica. Também há concursos de culinária e competições tradicionais da antiga Pomerânia, com destaque para a Exposição Agro-Industrial. Em julho tem a Festa do Rei do Tiro Municipal e, em novembro, a da Rainha. Em alguns dos 16 clubes, as festas do Rei e da Rainha do Tiro Municipal são realizadas nos fins de semana.

 Gostosuras pomeranas

Meus sogros e minha cunhada moraram praticamente a vida toda aqui em São Paulo, com uma ida para lá por ocasião da doença da avó do meu marido. Por isso, desde sempre, pude conhecer as delícias de Pomerode: a linguiça defumada feita de maneira artesanal; a cuca alemã, bolo com farofa crocante (a receita está logo abaixo); o Strudel, torta doce, sendo a mais conhecida de maçã, o Apfelstrudel; o Mohn Brötchen, pãozinho redondo polvilhado com semente de papoula; e o Hering Brot, pão de forma com sardinha, margarina e ovo cozido.

 O prato mais tradicional é o marreco recheado, além é claro das especialidades alemãs como as salsichas e o joelho de porco. De sobremesa, a deliciosa torta de ricota. Desde que conheci a feita lá, nunca encontrei outra igual em nenhuma parte do Brasil. E olhe que tenho procurado em toda padaria que entro e até nas melhores delicatéssens paulistanas.

 Estive muitas vezes lá, por ocasião de festas que variavam de batizados, casamentos e confirmações, evento religioso protestante que ocorre por ocasião dos 15 anos do jovem e, por isso mesmo, é feita uma festa à altura da grandiosidade da ocasião, como se fosse uma festa de debutante.

 Em todas vezes, sem exceção, não me preparei para comer tanto (e ai de você se não o fizer! É pior que xingar a mãe de alguém!). Pratos típicos misturam-se a todas as especialidades de carnes de boi, porco, carneiro, frango, marreco e alguns peixes, preparadas de todas as maneiras possíveis, além de todas as guarnições existentes na face da Terra. Cerveja ou chope muito gelado e sucos e refrigerantes também. De sobremesa, um pouco de tudo que a região oferece e mais todas as gostosuras, como tortinhas de morango, bolos de todos os recheios e coberturas e, claro, para completar todas as refeições pomeranas, uma bela e grande xícara de café com leite. Café beeem fraco, que fique claro! Quando vamos para lá, durante as visitas às casas de parentes (temos de ir a todas da Rua Anna Achterberg, sem nos esquecermos de ninguém) eles nos preparam o que chamam de “café de paulista”, mais forte. Amém!

 Cuca da Lisellotte – receita legítima alemã de Pomerode

 Ingredientes

1 xícara (chá) de margarina sem sal

1 xícara (chá) de açúcar

2 ovos – bater as claras em neve

2 xícaras (chá) de farinha de trigo

1 xícara (chá) de leite

1 colher (sopa) de fermento em pó

Modo de fazer

Misture todos os ingredientes na batedeira e as claras em neve por último, até a massa ficar homogênea. Despeje na assadeira untada

 Farofa doce

 Ingredientes

1 xícara (chá) de açúcar

1 e 1/2 xícara (chá) de farinha de trigo

100 gde margarina sem sal

1 colher (sopa) de fermento em pó

Baunilha

Noz moscada

Raspas de casca de laranja

 Modo de fazer

Despeje todos os ingredientes em uma tigela e mistura com as mãos, joga por cima da massa pronta. Asse em forno pré-aquecido por 30 minutos.

Curiosidades pomeranas

  • O bairro onde a família Achterberg mora fica uns 7 Km distante do centro. O ônibus passa em três horários por lá: pela manhã, uma vez e duas à tarde. Perdeu, vá a pé. Ou de bicicleta, um meio de transporte muito comum que, nos últimos anos, vem dando lugar á motocicleta.
  • Ali perto existe uma única mercearia, daquelas à moda antiga, de secos e molhados. Por isso, o padeiro que possui padaria no centro vai até o bairro, chamado de Testo Alto, vez ou outra na semana. Ele dirige uma Kombi antiga, na qual leva de tudo um pouco. É possível também fazer encomendas antecipadas por telefone.
  • Todos os dias, às 5 horas, a “moça do leite” passa pela rua pedalando sua bike. No bagageiro, os litros e mais litros de leite tirados há poucas horas de suas vaquinhas e envazados diretamente para o consumo. Como a maioria das pessoas ainda está dormindo nesse horário, ela deixa o litro cheio em um cachepô, no murinho da varanda, e leva o vazio, devidamente limpo, esterilizado e personalizado.
  • Outro hábito dos moradores, principalmente dessa rua da nossa família, é deixar os sapatos do lado de fora e calçar um chinelo limpo para circular dentro de casa. Isso acontece porque a rua ainda não é asfaltada e, principalmente quando chove, fica tudo enlameado.
  • A maioria das casas não possui portão e um lindo jardim sempre enfeita a entrada.
  • A população é formada por praticamente 90% de pessoas loiras de olhos azuis, mas já se observa a presença de outras mais morenas.
  • A convivência é ótima e a hospitalidade, a despeito de tudo o que se fala a respeito de alemães, é muito calorosa. Se existe um pessoal para lá de animado, são os pomeranos! Tudo é motivo de festa!
  • Todos, sem exceção, ouvem a rádio Pomerode e lêem o jornal da cidade. Teve uma ocasião que fomos para lá de carro, que havíamos comprado na cidade paulista de Sorocaba, onde mora a minha família. Lá pra hora do almoço ouvimos o locutor: “Nossa cidade tem recebido turistas de várias partes do Brasil. Ontem mesmo, na praça da prefeitura (jamais dizem o nome que batiza o local), pudemos observar carros de vários lugares, tinha um inclusive de Sorocaba, interior de São Paulo”. Foi gargalhada geral, e os telefonemas dos familiares se estenderam até a noite.
  • Ah, e o sotaque! É muito bonitinho! Eles jamais pronunciam uma palavra que contenha dois erres, sempre é como se ela tivesse apenas um. O prato típico da região, por exemplo, é ‘mareco recheado e uma garafa de cerveja”… Liebelich!

 Pontos turísticos

  • A arquitetura encanta por todas as partes da cidade. Vale a pena andar a pé, de carro ou alugar charretes em frente ao Jardim Zoológico de Pomerode. A cidade é tão pequena que você não vai demorar nada! Por falar no Zoo, saiba que é um dos mais antigos do Brasil – foi inaugurado em 1932. Atualmente, mantém aproximadamente 600 animais de mais de 120 espécies.
  • Visite o Museu Pomerano, o Museu Ervin Kurt Theichmann e o grande número de construções em estilo enxaimel, todas cuidadosamente preservadas.
  • Conheça a Praça Jorge Lacerda e o Centro de Arte e Artesanato, que expõe e comercializa peças em madeira, palha, pintura em porcelana, bordado, crochê e bonecas típicas, além de geléias, licores e biscoitos caseiros.
  • Se você curte a natureza, destine um dia para visitar o Morro da Turquia, de onde se descortina uma bonita vista panorâmica de Pomerode e que é ideal para a prática de asa-delta e parapente. Outro passeio imperdível são as cascatas Cristalina e do Hauth.
  • Se você gosta de um bom chope artesanal, a dica é visitar a Cervejaria Schornstein. Fundada em junho de 2006, está sediada em um prédio tombado pelo patrimônio histórico, com cerca de 50 anos de existência. A chaminé de 30 metros de altura de tijolos maciços é sua principal referência e está na logomarca e no significado do nome da fábrica. De tão bom que é o chope feito ali, a Cervejaria Schornstein expandiu sua atuação para o mercado paulista, inaugurando uma segunda fábrica na cidade de Holambra, no interior do Estado.
  • Em Pomerode, visite o bar da fábrica, Schornstein Kneipe. Os dois locais (em Santa Catarina e São Paulo) servem petiscos tradicionais das culinárias holandesa e alemã e ainda sugerem harmonizações gastronômicas para cada tipo de chope. Além de conhecer os bares de fábrica, as pessoas têm a possibilidade de conhecer o seu processo de produção por meio de uma visita monitorada às fabricas, que inclui a degustação dos produtos – pilsen natural, pilsen cristal, weiss, pale ale, bock e imperial stout – tirados direto do tanque. Prosit!

Maria Helena Bellini, autora do texto, é aluna do curso de Jornalismo Literário ministrado pela professora Monica Martinez no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo em agosto/setembro de 2011. A fotografia é de uma ex-aluna de graduação, Selma Tronco, que desenvolveu trabalho de conclusão de curso de Comunicação Social sobre a cidade pela FIAMFAAM.

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