Hugh Laurie, de House, e a distração como ferramenta da criatividade

03/01/2011 às 10:03 | Publicado em Criatividade, Neurociências | Deixe um comentário

Hugh Laurie, do seriado estadunidense House

Reportagem da Folha de S. Paulo de ontem, 2/1/2011. A meu ver, o ponto tocado pelo repórter especializado em Jornalismo Científico, Ricardo Bonalume Neto, tem a ver com o processo de distanciamento do problema por um determinado tempo, dando ao cérebro humano a possibilidade de rearranjar as informações disponíveis de uma forma diferente, mais criativa. Segue abaixo a matéria, na íntegra (o link, para assinantes, é http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd0201201101.htm).

Com um abraço,

Monica Martinez

Pessoas distraídas são mais criativas

Quem se deixa perturbar por estímulos externos tem maior capacidade de resolver problemas que os mais concentrados

Tendência a dispersão e a fazer associações inusitadas é comum a criativos e a pessoas com esquizofrenia

RICARDO BONALUME NETO
DE SÃO PAULO

Quem diria: se distrair pode ser a melhor maneira de resolver um problema difícil de forma criativa.
“Distração” costumava ter uma conotação negativa em estudos médicos; por exemplo, pesquisas que mostram o maior risco de causar um acidente de carro ao se distrair falando ao celular.
Mas trabalhos recentes têm demonstrado que a distração está vinculada à criatividade, especialmente na hora de resolver problemas complexos.
Só que até certo ponto: em excesso, distração combina com esquizofrenia -um distúrbio psíquico que pode incluir alucinações, delírios e fuga da realidade.
Como a distração ajuda a ser criativo e produzir soluções? Para muita gente, a prática de “dar um tempo”, “fazer uma pausa no trabalho”, costuma fazer a resposta para um problema surgir de repente, como mágica.
É só assistir ao seriado “House” (Universal) para entender como funciona.
O médico Gregory House e sua equipe são escalados para diagnosticar e tratar apenas os casos mais cabeludos.
O enredo tem uma fórmula básica. Eles passam três quartos do programa raciocinando logicamente sobre sintomas, tratamentos e causas de doenças.
Mas só no fim do episódio, quando House se distrai ou tem a atenção chamada para algo bizarro, que uma resposta “clica” no seu cérebro.

EVOLUÇÃO
Ignorar estímulos irrelevantes ao nosso redor é uma conquista da evolução biológica. Um animal que presta atenção a tudo e caminha pelos prados distraído acaba não percebendo o predador até que seja tarde demais.
Essa capacidade de abstrair o ruído inútil é chamada de inibição latente.
Esquizofrênicos têm inibição latente muito reduzida; prestam atenção a tudo, e por isso, paradoxalmente, fogem da realidade. Mas esse traço também caracteriza pessoas saudáveis e altamente criativas.
Um estudo feito pela equipe de Fredrik Ullén, do Instituto Karolinska, da Suécia, publicado na revista científica “PLoS One”, apontou que os cérebros dos esquizofrênicos e o dos criativos têm um sistema semelhante do neurotransmissor dopamina.
Produzida em várias partes do cérebro, a dopamina tem funções na transmissão do impulso elétrico entre as células nervosas, notadamente na cognição, motivação e nos mecanismos de punição e recompensa.
“A teoria da dopamina e esquizofrenia vê o distúrbio como uma forma extrema de criatividade”, diz Adam Galinsky, da Escola Kellogg de Administração da Universidade Northwestern, EUA.
O pesquisador explica que a dopamina tende a alterar processos cognitivos, de modo que as associações são mais soltas e as categorias conceituais são ampliadas.
“Isso pode facilitar a criatividade, mas também levar a padrões de pensamento desorganizados e anomalias de percepção.”
Galinsky e colegas fizeram testes de associação com 94 voluntários que tinham que identificar uma quarta palavra vinculada a três outras.
Alguns passavam por distrações, outros não. Os distraídos identificaram sequências de letras como palavras válidas mais rápido.
O estudo foi publicado na revista “Psychological Science” e afirma que o processo de solução de problemas inclui tanto a distração quanto um período de pensamento consciente, sem o qual o problema não tem como ser racionalmente resolvido.

RADAR
Estudos feitos com universitários nos EUA e no Canadá pela equipe de Shelley H. Carson, do Departamento de Psicologia de Harvard, mostraram que aqueles que se distraem facilmente, com o “radar ligado” para tudo em torno, são mais criativos: os mais criativos tinham sete vezes menos inibição latente.
O estudo original, publicado em 2003, foi replicado depois. “Dois outros laboratórios testaram a baixa inibição latente e descobriam que está associada com criatividade. Nós também estamos continuando os testes”, afirma Carson.
“Há um corpo substancial de pesquisa que indica que a esquizofrenia está associada com inibição latente baixa e também com deficits na memória de trabalho”, continua o pesquisador.
Para Carson, comentando o estudo de Galinsky, a pessoa criativa é capaz de permitir, temporariamente, que o excesso de distrações seja canalizado em percepção consciente, para fazer conexões entre os estímulos.
“Mas a pessoa tem a capacidade de alternar entre estados do cérebro para exercitar maior controle cognitivo e realmente formular e acessar essas conexões”, afirma o pesquisador.

Duas coisas por vez

28/07/2010 às 5:11 | Publicado em Gestão de tempo, Neurociências | Deixe um comentário

Nunca lemos tanto. Aliás, lemos tanta coisa atualmente que, às vezes, é somente após semanas, quando o material já foi digerido e algo continua fresco na mente, percebemos o que é realmente importante.

Foi o que aconteceu com uma coluna da neurologista Suzana Herculano-Houzel publicada em 13 de julho. A docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desmonta a noção de que é produtivo fazer mais do que duas coisas ao mesmo tempo — algo do que nós, mulheres em particular, temos tanto orgulho. De fato, do ponto de vista evolutivo, não se sabe se por motivos biológicos ou culturais — provavelmente por conta de ambos –, o lado feminino da espécie aprendeu a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Trata-se do famoso fritar o peixe e espiar o gato. Algo como dar o peito para o bebê e ler um livro sobre puericultura enquanto se responde às mensagens mais importantes ao computador.

Una-se à isso o estímulo ao ativismo frenético da contemporaneidade e o avanço tecnológico, com suas formidáveis redes sociais, e está formado o quadro da confusão. Certa vez  ouvi de uma pessoa que, no trabalho, ficava conectada às múltiplas redes e ia digitando um ok aqui e ali para os amigos e clientes saberem que estava presente. Como não sabia o que os outros estavam compartilhando, ocorre que de fato a pessoa não estava presente. Confesso que fiquei com dó, pois me pareceu que a pessoa não era assertiva o suficiente para estabelecer limites e deixar claro o tempo que tinha para cada atividade, para cada amigo. O resultado era uma invasão do espaço pessoal e a angústia por não dar conta do recado.  Ao se fazer presente o tempo inteiro, sem estar realmente ali, se tornava um fantasma virtual.

Ao ler a coluna de Herculano-Houzel, tive a prova de que precisava para uma inquietação antiga. Se antes me orgulhava de fazer várias coisas ao mesmo tempo, agora tenho certeza de que é melhor fazer uma por vez, bem feita na medida do possível. No máximo, quando necessário, duas. Afinal, mais do que isso o cérebro não dá conta e o resultado é que as tarefas entram em fila, como no painel de controle de uma impressora.

Pode parecer prosaico, mas um passo por vez nos faz avançar em segurança, com risco menor de cair. E se o tombo vier, é mais rápido sacudir a poeira e ir em frente.

Abaixo, o artigo na íntegra, para futuras referências.

Monica

São Paulo, terça-feira, 13 de julho de 2010
   
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SUZANA HERCULANO-HOUZEL suzanahh@uol.com.br

Uma coisa de cada vez


Como diria Lavoisier, dois pensamentos não ocupam o foco de atenção do cérebro ao mesmo tempo


VOCÊ ACHA que dá para dirigir e falar ao celular ao mesmo tempo, ou responder a e-mails prestando atenção à reunião?
Pois não dá, e a culpa não é da internet ou da tecnologia, que colocam cada vez mais informações dividindo a mesma tela do computador.
Por uma limitação intrínseca do cérebro, tudo o que conseguimos fazer é dividir nossa atenção ao longo do tempo, alternando entre um objetivo e outro, mas sempre dando atenção a uma coisa de cada vez. Como diria Lavoisier, dois pensamentos não ocupam o foco de atenção do cérebro ao mesmo tempo.
Por outro lado, dois objetivos até conseguem ocupar o cérebro simultaneamente.
Não a mesma parte do cérebro, é verdade.
Segundo pesquisa recente da equipe de E. Koechlin, quando decidimos alternar entre duas tarefas julgadas importantes, regiões nos lados direito e esquerdo do córtex pré-frontal dividem o trabalho, uma cuidando do objetivo da vez (ler o jornal), de um lado, e a outra mantendo ativa a representação da tarefa em espera, do outro lado do cérebro (não deixar o leite ferver), sob a supervisão da parte mais frontal do córtex, que gerencia o esforço de alternar entre a execução atenta de tarefas.
Quer experimentar? Em www.cerebronosso.bio.br/multitask você pode testar sua habilidade de fazer duas coisas “ao mesmo tempo”, ou seja, dar atenção alternadamente a um de dois objetivos.
Comece usando as setas esquerda e direita do teclado para equilibrar uma bola.
Fácil, certo? Logo surge uma segunda tela, onde você deve usar as setas para cima e para baixo, com a mesma mão, para desviar de um ponto em movimento. Passar nos dois testes ao mesmo tempo requer um bocado de esforço pré-frontal para alternar a atenção entre os dois objetivos, mas ainda dá.
E então… surge uma terceira tarefa na tela, a executar com a outra mão. A essa altura, é preciso sorte para sobreviver mais que alguns segundos no jogo. Se por puro acaso você chegar à quarta tarefa simultânea, duvido que dure por muito tempo.
Por quê? Koechlin, novamente, explica: com apenas dois hemisférios confrontados com um terceiro objetivo simultâneo, o córtex se vê obrigado a abandonar um deles e cuidar apenas dos dois que considerar mais importantes. Três coisas ao mesmo tempo, nem pensar!


SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora de “Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor” (ed. Sextante) e do blog www.suzanaherculanohouzel.com

Criatividade na perspectiva das neurociências

18/05/2010 às 15:50 | Publicado em Criatividade, Neurociências | Deixe um comentário

Interessante a leitura do artigo publicado no The New York Times, traduzido pela Folha de S. Paulo em 17 de maio, que traz algumas informações sobre como as neurociências estão conceituando a questão da criatividade a partir de novas pesquisas. Boa leitura!

São Paulo, segunda-feira, 17 de maio de 2010
 
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 Estudos do cérebro tentam decifrar a mente criativa

Por PATRICIA COHEN
Enumere em um minuto todos os usos criativos para um tijolo que conseguir imaginar.
A questão é parte de um clássico teste de criatividade, algo que os cientistas estão tentando pela primeira vez mapear no cérebro. Eles esperam descobrir precisamente quais compostos bioquímicos, impulsos elétricos e regiões foram acionados quando, digamos, Picasso pintou “Guernica”. Usando tomografias por ressonância magnética (MRI), os pesquisadores estão monitorando o que ocorre no cérebro de pessoas durante tarefas criativas.
Mas as imagens dos sinais brilhando nos lóbulos frontais levaram os cientistas a reexaminar a própria forma como a criatividade é mensurada em laboratório.
“Criatividade é meio como pornografia -você reconhece quando vê”, disse Rex Jung, da Rede de Pesquisas da Mente, em Albuquerque (EUA). Jung, professor e pesquisador- assistente do Departamento de Neurocirurgia da Universidade do Novo México, disse que sua equipe está fazendo a primeira pesquisa sistemática sobre a neurologia do processo criativo, incluindo sua relação com a personalidade e a inteligência.
Como muitos pesquisadores nos últimos 30 anos, Jung se baseava numa definição comum de criatividade: a capacidade de combinar novidade e utilidade em um contexto social particular.
No entanto, conforme o estudo da criatividade se expande para incluir a neurologia cerebral, alguns cientistas questionam se essa definição padrão e os testes para ela ainda fazem sentido. John Kounios, psicólogo da Universidade Drexel, de Filadélfia, argumenta que o padrão “sobreviveu à sua utilidade”.
“A criatividade é um conceito complexo, não uma coisa única”, disse ele, acrescentando que os pesquisadores do cérebro precisaram dividi-la em suas partes integrantes.
Kounios, que estuda a base neurológica do entendimento, define a criatividade como sendo a capacidade de reestruturar a própria compreensão de uma situação de uma forma não óbvia.
Todo o mundo concorda que não existe uma mensuração única para a criatividade. Os exames de QI, embora polêmicos, são considerados ainda um teste confiável para ao menos certo tipo de inteligência, mas não há um equivalente quando se trata da criatividade.
O laboratório de Jung usa uma combinação de medições como equivalentes para a criatividade. Um deles é o Questionário de Realizações da Criatividade, que convida as pessoas a relatar suas próprias aptidões em dez campos, como artes visuais, música, escrita criativa, arquitetura, humor e descoberta científica.
Outro é um teste de “pensamento divergente”, uma medição clássica desenvolvida pelo psicólogo J.P. Guilford. Nele, a pessoa é orientada a apresentar funções “novas e úteis” para um objeto familiar, como um tijolo, um lápis ou uma folha de papel.
A equipe de Jung também apresenta situações estranhas. Imagine que as pessoas pudessem mudar de sexo instantaneamente, ou que as nuvens tivessem cadarços. Quais seriam as implicações?
Em outra avaliação, a pessoa tem de descrever o sabor do chocolate, ou escrever uma legenda para um cartum humorístico.
As respostas são usadas para gerar o que Jung chama de “Índice Composto da Criatividade”. Os testes de Jung se baseiam naqueles criados por Robert Sternberg, um dos principais pesquisadores da inteligência nos EUA e o homem parcialmente responsável pela definição padrão de criatividade.
Sternberg usa testes semelhantes na Universidade Tufts, de Massachusetts, onde investiga como as pessoas desenvolvem e dominam habilidades.
Ele explicou que sua equipe pede que as pessoas pensem no que teria acontecido, digamos, se a negra Rosa Parks tivesse cedido seu assento a um homem branco quando aquele motorista de ônibus de Montgomery mandou que ela se mudasse (episódio emblemático, em 1955, da luta pela igualdade racial nos EUA), ou se Hitler tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial.
Quanto a Jung, sua pesquisa tem produzido resultados surpreendentes. Um estudo com 65 pessoas sugere que a criatividade prefere caminhos mais lentos e sinuosos que a inteligência.
No caso da inteligência, explicou Jung, “o cérebro parece ser uma super-rodovia eficiente, que o leva do ponto A para o ponto B”.
“Mas nas regiões do cérebro relacionadas à criatividade parece haver muitas estradinhas auxiliares com desvios interessantes e pequenas vicinais sinuosas”, agregou.
John Gabrieli, professor de neurociência cognitiva do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), adverte que sempre há uma lacuna entre o que ocorre no laboratório e no mundo real. “Parece que ser criativo é ser algo para o qual não temos um teste.”

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