Getúlio: do nascimento à ascenção ao poder

27/10/2013 às 21:08 | Publicado em Biografias, Jornalismo Literário, Livros, perfis e biografias | Deixe um comentário

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Gostei de ler Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930), do jornalista cearense Lira Neto. O livro é o primeiro de uma trilogia que promete biografar, de forma jornalística e objetiva, a vida de Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954).

Pontos Fortes:

1.  Bem escrito:  O primeiro capítulo serve como exemplo (e dos bons) de Jornalismo Literário.

2. Boa pesquisa: Ao longo de dois anos e meio, o jornalista vasculhou de cartas pessoais a marchinhas sobre Getúlio, fazendo também muitas entrevistas sobre ele.

3. Familiaridade com o tema: Lira Neto cobriu política por anos, tendo domínio sobre a temática.

Pontos Fracos:

1. Leitura arrastada: a mão do escritor está bem mais leve que em padre Cícero, que lançou em 2009. Ainda assim, às vezes o texto se prende em muitos detalhes, que podem não interessar a todos os leitores.

2. Vida pública em detrimento da pessoal: embora o subtítulo seja anos em formação, e à semelhança da biografia sobre o padre Cícero, o fato é que a obra pende mais para o homem público do que para o privado.

Noves fora, mesmo quem não é fã de biografias de políticos provavelmente gostará da obra.

A Companhia das Letras disponibiliza um trecho da obra em http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12979.pdf

Monica Martinez

Avaliação

**** Leitura  Recomendável

Título: Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882 – 1930)
Autor: Lira Neto
Formato: 16 x 23
Páginas:  664
Editora: Companhia das Letras

A arte de reportar – perfis e outros escritos da The New Yorker

26/10/2011 às 15:08 | Publicado em Livros, perfis e biografias, Resenhas | Deixe um comentário

Dentro da Floresta (Companhia das Letras, 2006) é um dos seis livros escritos pelo jornalista David Remnick, o editor atual da revista The New Yorker (lançada em 1925, a publicação teve seletos cinco editores até agora, Remnick incluso).

Antes de comentar um livro, gosto de lê-lo e deixar passar um tempo, para que o conteúdo, digamos, assente dentro de mim. Tenho a sensação de que degustar uma leitura é algo muito próximo de saborear um bom vinho ou sentir um perfume de qualidade.

Em ambos, há aquela nota inicial, que nos faz gostar da obra de cara ou deixá-la na cabeceira à espera de um momento mais propício para leitura. Com suas 575 páginas, Dentro da Floresta ficou certo tempo me espiando, até que eu achasse que era hora de me debruçar sobre seu conteúdo.

O livro consiste em 23 perfis que Remnick escreveu para a The New Yorker, acrescido do posfácio de João Moreira Salles, o mentor da revista piauí! – ele também um refinado escritor de perfis.

Durante a leitura, há aquelas notas prazerosas que emergem ao saborear um bom tinto, quando se consegue identificar o terroir, isto é, os rastros da terra, do ar, da água, enfim, do meio ambiente que fazem o conteúdo de cada garrafa única. Neste caso, sentimos o repórter que trabalhou por anos no The Washington Post, aquele olhar atento de quem sabe que é a partir da pesquisa e da apuração que um bom texto emerge. Neste contexto, um dos destaques do perfil do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair  é a constrangedora entrevista concedida a dois apresentadores mirins de um programa de televisão de variedades. O perfil, escrito em 2005, não por acaso é intitulado A Campanha do Masoquismo.

Há que se mencionar que em outros perfis de políticos, sobretudo os muito distantes da realidade brasileira, poderão considerados enfadonhos pelo leitor brasileiro médio.  Claro que não o de Vladimir Putin, aqui magistralmente descrito como um sujeito visto pelo povo russo como um cara normal, que faz o que pode. Alias, é nítida a familiaridade que ele tem com a região (ele foi correspondente do Post na União Soviética até 1991 e ganhou um Pulitzer em 1994 pelo livro Lenin´s Tomb).

Mais recentemente tenho me fixado no efeito residual que a leitura de uma obra propicia. Como um vinho especial que deixa uma marca inesquecível.  Esta marca pessoal de Remnick, neste livro, se faz notar pelos perfis de boxeadores e escritores.

Remnick registra o ocaso da paixão estadunidense pelo boxe, que produziu obras primorosas como o livro A Luta, de Norman Mailer, e perfis magistrais como o de Gay Talese, Joe Louis: o rei na meia idade (do livro Fama & Anonimato, ambos da Companhia das Letras). O livro de Remnick traz um perfil de Tyson, claro, mas destaco o sobre o treinador de boxe Teddy Atlas, talvez porque ele fuja do estereótipo do herói e seja apresentado como um mortal comum.

Como não poderia deixar de ser, Remnick perfila escritores. Entre eles, Philip Roth – atualmente considerado o principal escritor sênior estadunidense. Mas destaco o perfil feito de Don DeLillo, onde este filosofa sobre a notícia como a narrativa de nosso tempo.

Na ótima resenha de Dentro da Floresta feita para o jornal The New York Times, o escritor estadunidense Pete Hamill começa citando Ezra Pound que, em ABC of Reading, de 1934, dizia que “Literature is news that stays news”. Algo como literatura é notícia que permanece uma novidade. Ou seja, toca-se aqui no ponto central que une jornalismo e literatura, deixando ambos com aquele toque atemporal que encanta pessoas de todos os tempos. Seria como degustar um vinho mais do que especial.

Não é fácil escrever um texto de não ficção, bem apurado, que não seja apenas lido com prazer, mas que cative um espaço no coração e na memória do leitor. Em alguns casos Remnick consegue o feito. Por outro lado, a vantagem de uma coletânea de perfis é que o leitor fica muito à vontade para fazer sua própria seleção, concordando e, por que não, discordando do resenhista. Esta liberdade de escolha, aliás, não tem preço.

Confesso que não entendi o título, o tal Dentro da Floresta. O original, proposto pela decana Lilian Ross, é muito melhor: Reporting – Writings from The New Yorker. Ross, para quem não se lembra, é autora de Filme, também publicado na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras – livro que inspirou novos jornalistas como Truman Capote.

Monica Martinez

A arte do perfil

09/05/2011 às 10:50 | Publicado em perfis e biografias, Teoria sobre Narrativas em Jornalismo | Deixe um comentário

Ao mexer em arquivos antigos reencontrei um texto de 2008 sobre perfis escrito pelo Sérgio Vilas Boas. Aproveito, portanto, para postá-lo aqui, pois vale a pena lê-lo (quem ainda não o conhece) ou relê-lo (para quem já o havia visto e quer refrescar a memória).

Com um abraço,

Monica Martinez

A arte do perfil *
Sergio Vilas-Boas **

Um dos gêneros mais nobres do Jornalismo Literário, o perfil é um tipo de texto biográfico sobre uma – uma única – pessoa, famosa ou não, mas viva, de preferência. Texto biográfico não significa exatamente biografia, que é outro gênero. Nem tudo o que é biográfico é biografia, aliás. A biografia é uma composição superdetalhada de vários “textos” biográficos (facetas, episódios, convivas, pertences, legados, o feito, o não-feito etc.). Enquanto um biógrafo se detém em um extenso conjunto de inputs, o autor de um perfil se concentra em apenas alguns aspectos do personagem central.

O personagem central – assim é melhor que “perfilado” (palavra horrível) – é a razão de ser de um perfil. Se a individualidade fosse banida do mundo e os humanos não passassem de robôs programáveis, sem estilo nem identidade, o gênero perfil simplesmente não existiria. O perfil se atém à individualidade, mas não ao individualismo vulgar.

Embora andem colocando a palavra perfil antes de qualquer coisa por aí, o fato é que não existe perfil de cidade, perfil de bairro, perfil de um edifício, perfil de época. Sinto muito, mas perfil é de um ser humano. Cada ser humano tem um perfil, assim como cada perfil só pode ser sobre um ser humano – um sujeito singular que pode eventualmente estar vivendo em um edifício, num bairro, numa cidade e numa certa época.

O perfil tem grande relevância como produção jornalística, mesmo que meses ou anos depois da publicação do texto o personagem central tenha mudado suas opiniões, conceitos, atitudes e estilos de vida. Paciência. Não há por que sofrer com o fato de que até as convicções são mutantes. A durabilidade de um texto-perfil, na verdade, está na capacidade do autor de trabalhar bem as cristas e vales inerentes à trajetória humana.

Perfis têm aparecido ocasionalmente em periódicos (mas não apenas em periódicos) há mais de um século. Mas foi a partir da década de 1930 que jornais e revistas começaram a apostar mais neles. No início, os personagens mais retratados eram os olimpianos do mundo das artes, da política, dos esportes e dos negócios. Esperava-se que a matéria lançasse luzes sobre a fase atual, o comportamento, os valores, a visão de mundo e alguns episódios da vida da pessoa para que sua personalidade e atitudes pudessem ser compreendidas num contexto maior.

Com esse espírito, os perfis se tornaram marca registrada de revistas norte-americanas como The New Yorker, Esquire, Vanity Fair, Harper’s e Atlantic, entre outras. No Brasil, O Cruzeiro e Realidade também o valorizaram em suas épocas áureas. Acho interessantes em Realidade os textos de Luiz Fernando Mercadante sobre Oscar Niemeyer (jul./1967) e Francisco Matarazzo Sobrinho (out./1967);  e o do recém-falecido psicoterapeuta Roberto Freire sobre o jovem Roberto Carlos (nov./1968).

O time de bons autores de perfis é enorme. É o caso de você procurar algo de Lincoln Barnett, Joseph Mitchell, Janet Flanner, Lilian Ross, Calvin Trillin, Susan Orlean, David Remnick, John McPhee e muitos outros. Vários praticantes do New Journalism, período áureo do Jornalismo Literário, na década de 1960, honraram o gênero. Entre todos, o mais representativo é certamente Gay Talese, por sua segurança, delicadeza e versatilidade.

Talvez pelo espaço que até hoje tem reservado aos perfis, a New Yorker (fundada em 1925) ficou com o crédito de “principal difusora”. O grande passo da New Yorker nessa direção foi a contratação de Joseph Mitchell no final da década de 1930. Mitchell retratou estivadores, índios, operários, pescadores e agricultores. Está entre os maiores jornalistas literários de todos os tempos. Os dois textos que escreveu sobre o folclórico, boêmio e pirado Joe Gould são primorosos.

Lincoln Barnett, repórter da Life entre 1937 e 1946, é outro cara memorável. Barnett contribuiu muito para a consolidação do perfil como modalidade jornalística. Na única coletânea em livro que publicou – The World We Live In: Sixteen Close-Ups (1951) -, ele comenta por que e como escreveu alguns de seus principais textos. Segundo Barnett, o autor de perfis tem de se preocupar com “a transitoriedade dos atributos”, diferentemente de um biógrafo trabalhando com um morto.

Inspirado em Barnett e Mitchell, pergunto: quem merece um perfil? Antes de tentarmos responder, tome nota de algumas dicotomias muito em voga nestes tempos de culto patológico à celebrização fácil. Primeiro, a idéia de conhecido versus desconhecido. Mas, afinal, a pessoa é conhecida de quem? É anônima para quem? Segundo, o comum versus o incomum. Mais produtivo talvez seja você admitir que o comum e o incomum habitam toda e qualquer pessoa. Terceiro, o simples versus o complexo. Quem já conheceu uma pessoa não-complexa levante a mão!

E, por último, o rotineiro versus o mirabolante. Ah, eis o ponto: o problema de narrar não é do personagem, e sim do autor. Decisivo para que o narrar biográfico (perfil, no caso) seja bom ou ruim não é o personagem em si e sim a competência do autor em lidar com o personagem e com a narrativa. Escapismo dizer que o personagem é isso, aquilo, fraco, simples, comum; que a história dele/dela é boba, sem graça, igual. O problema de narrar com qualidade é sempre, sempre do autor. De ninguém mais.

Condição sine qua non em um perfil, portanto, é a interação do autor com o personagem, seja quem for. Você deve estar pensando: “Ah, mas o Gay Talese fez aquele antológico perfil do Frank Sinatra (Esquire, abril de 1966) sem falar com o Frank Sinatra”. Certo, certo. Mas considere que Talese queria muito falar com o Frank, e foi o Frank quem se recusou; no mais, cite, se for capaz, outro perfil (antológico) em que o autor não interagiu com o sujeito em foco.

Difícil, não? Talvez você encontre algum em um obituário, seção muito valorizada na imprensa anglo-saxônica. Mas as seções de obituários são (têm de ser) sobre mortos. Sobre um morto, tudo é possível. Já morreu mesmo. Sobre um vivo, não. E é exatamente aí (na vida presente) que reside a arte do perfil – arte no sentido de um fazer tal que quando faz, altera o fazer, pois não é uma fórmula.

Para fazer um bom perfil (aprendi isso com meus próprios erros) é preciso pesquisar, conversar, movimentar, observar e refletir. Você tem de pesquisar os contextos socioculturais da pessoa; conversar com ela e com os convivas dela; movimentar-se com ela por diversos locais, evitando o simples “de frente” (pingue-pongue trivial transformado depois em texto corrido); tem de observar as linguagens verbais e não-verbais da pessoa; e examinar com carinho as reflexões que ela lhe oferece sobre o passado, mas também, e principalmente, sobre a fase atual.

Autores que ficam paradões diante do personagem só fazendo “perguntas intelectuais às vezes irrespondíveis” talvez devam reavaliar seus métodos. Os perfis só podem elucidar, indagar, apreciar a vida num dado instante, e são mais atraentes quando atiçam em nós reflexões sobre aspectos universais da existência, como vitória, derrota, expectativa, frustração, amizade, solidariedade, coragem, perda, separação etc.

Os perfis cumprem um papel importante que é exatamente gerar empatias no leitor. Empatia é a preocupação com a experiência do outro, a tendência a tentar sentir o que sentiria se estivesse nas mesmas situações e circunstâncias do outro; compartilhar as alegrias e tristezas do outro; imaginar as situações do ponto de vista do outro. Acredito que a escrita do perfil também pode levar ao autoconhecimento do próprio autor, e não apenas do leitor.

O Brasil está engatinhando em termos de Jornalismo Literário. E a maioria das produções do tipo perfil, aqui, ainda é meio rasa. Mas bons sinais já podem ser captados na revista Piauí, como nos ótimos textos produzidos por João Moreira Salles sobre o ex-presidente FHC (nº 11) e sobre o jornalista futebolístico Paulo Vinícius Coelho, o PVC (nº 17). A recém-lançada Brasileiros ainda patina, mas investe bem, e em breve saltará do perfil basicão para o perfil rico, ao estilo JL.

Outro bom ateliê de perfis é coordenado pela Academia Brasileira do Jornalismo Literário (ABJL), ONG da qual sou co-fundador. A maioria das produções de nossos alunos estão disponíveis no textovivo.com.br. Outras estão no livro Jornalistas Literários (Summus, 2007), que organizei. Não é uma coletânea só de perfis, mas, entre os incluídos, destaco dois encantadores: Marcos Faerman (falecido jornalista literário) por Isabel Vieira e Marino Streck (pescador do litoral catarinense) por Manuela Colla.

Quando prima pela humanização, com tudo o que isso implica, o texto-perfil é irresistível. Humanizar não é um mistério, não. O primeiro passo para humanizar é evitar pensamentos binários do tipo “santo ou demônio”, “algoz ou vítima”, “melancólico ou eufórico”…

Em vez de formular hipóteses, entre no mundo da pessoa sem preconceitos; conheça-a em suas grandezas, fraquezas e rotinas; freqüente os lugares que ela freqüenta; capte sua visão de mundo e suas marcas de temperamento. Não fique preso a abstrações (dados curriculares, números, performances). Mais importante é o que os personagens e seus convivas exprimem de dentro para fora. Ops, importantíssimo: não idealize ninguém. As pessoas são o que são. E que assim sejam.

* Publicado na revista Especial Biblioteca EntreLivros / Literatura x Jornalismo, edição n.11, ago/2008.

* Escritor e professor; autor de “Perfis” e “Biografismo: Reflexões sobre as Escritas da Vida” (Editora Unesp, 2008), entre outros. Co-fundador da ABJL e editor do portal TextoVivo. Site-blog: http://www.sergiovilasboas.com.br.

Grandes nomes da dramaturgia brasileira em download gratuito

19/01/2011 às 8:12 | Publicado em E-Books, perfis e biografias | Deixe um comentário

Vale muito a pena acessar o site da Coleção Aplauso da Editora Imprensa Oficial para conhecer as biografias de grandes nomes da dramaturgia brasileira. O espaço é bonito, bem organizado e, o que é melhor: permite download gratuito das obras, tanto em formato texto quanto em arquivo pedefato (PDF). Uma ótima forma, portanto, de analisar bem o livro antes da aquisição, que pode ser feita nas principais livrarias do país ou pelos sites de vendas de livros. O link: www.imprensaoficial.com.br/colecaoaplauso.

Perfil criativo sobre Washington Olivetto

10/05/2010 às 18:51 | Publicado em Escrita Criativa, perfis e biografias | Deixe um comentário

O texto de Christian Carvalho Cruz, publicado no caderno Aliás de domingo, 9 de maio de 2010, no jornal O Estado de S. Paulo, decididamente é criativo. Não se esperaria menos, aliás, de um perfil sobre um dos mais destacados publicitários brasileiros. Por isso, Christian se saiu bem da saia justa que deve ter sido a tarefa, que foi desempenhada com estilo e muita espirituosidade. O perfil está abaixo, na íntegra, e o link é http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,quero-ser-washington-olivetto,548944,0.htm

Monica Martinez

Christian Carvalho Cruz

Quero ser Washington Olivetto

O que vai na cabeça do publicitário que virou sonho de consumo

08 de maio de 2010 | 15h 13 Se você fosse o Washington Olivetto não seria um sujeito charmoso. Você vestiria paletó de veludo cotelê branco sobre uma camiseta com o São Jorge e o dragão estampados. Levaria um pente flamengo no bolso. E teria as manhas de sacá-lo na frente dos outros para domar a cabeleira (cada vez mais) branca, (cada vez mais) escassa em cima e (cada vez menos) volumosa atrás. Carregaria seus pertences – celular, carteira, CDs, moedas soltas e a agenda do dia impressa em uma folha de papel reciclado – numa pastinha preta com zíper que só não pode ser chamada de pastinha de office-boy porque é uma Louis Vuitton. Usaria também uns óculos que vou te contar: aros pretos enormes, grossões, escondendo metade do rosto. Aos 58 anos, se fosse o Washington Olivetto, o publicitário mais premiado do Brasil, considerado o cara que pôs a propaganda brasileira na rota do reconhecimento internacional, você pareceria ter saído de um clipe do Roxy Music, só que sem a purpurina. Caminharia com a malemolência de ombros do Bryan Ferry, sabe?, aquele rebolar com a parte de cima do corpo, meio new-wave / meio hip-hop. E, apesar de tudo, se você fosse o Washington Olivetto, que diabos, ia estar assim de gente babando pelo seu… charme. É que você, caso fosse ele, teria um baita charme interior: um treco que aconteceria a toda hora dentro da sua efervescente cabeça e algumas pessoas traduzem por “criatividade” ou “genialidade”.

Em parte por causa desse negócio de charme interior, que originou campanhas inesquecíveis como a do primeiro sutiã da Valisère, a do garoto Bom Bril, a do Casal Unibanco, a do jeans Staroup e a do cachorrinho da Cofap, a agência americana McCann Erickson iria te propor uma fusão entre as operações dela no País e as da sua W/, fundada em 1986 e que um dia foi parar na boca do Jorge Benjor como W/Brasil. Se fosse o Washington Olivetto você toparia, e aí nasceria a WMcCann, uma coisa boa para ambas as partes, como disseram no mercado. A McCann, antigamente a maior em solo nacional, inventora do Repórter Esso e dona de contas internacionais gigantes (Chevrolet, Coca-Cola, L’Oreal, Microsoft, American Airlines, HP, Mastercard…), amargou em 2009 uma 11ª. posição no ranking Ibope Monitor, que mede quanto as agências compram de espaço publicitário por ano. A W/, que por muito tempo não quis se associar a uma multinacional – porque se você fosse o Washington Olivetto não admitiria ver a sua inicial engolida pelos gringos – ficou só no 43º. lugar. Juntas, elas saltam para o 8º. A McCann ganha charme criativo para dar e vender (mais vender do que dar, claro) e maior aproximação com clientes nacionais para voltar a crescer; Olivetto ganha uma senhora estrutura para poder se “eternizar na história da propaganda”, aspas dele, e se aposentar bonito daqui a sete anos, quando fizer 65 – e então ir curtir uma de embaixador criativo da firma na América Latina e no Caribe.

Então, caso fosse ele, você estaria assumindo na nova WMcCann o cargo de chairman, o homem da cadeira, chefão. E transformaria a simples instalação dessa cadeira num vaivém danado dentro do prédio da agência, na zona sul de São Paulo, seu novo local de trabalho. De cara, te ofereceriam o terceiro andar, perto dos outros chefões – o presidente Fernando Mazzarolo e o presidente executivo da holding McCann Worldgroup na América Latina, Luca Lindner. O lugar é mais ajeitado, tem carpete, divisórias de madeira e cadeiras de palhinha. Mas se fosse o Washington Olivetto você recusaria. Ofegante, subiria e desceria escadas, olharia tudo, até concluir que o melhor lugar para ficar é o segundo pavimento, no departamento de criação, “junto da galera”, separado dos mídias por um longo hall de elevador. Da salinha escolhida, à esquerda de quem entra, você pediria para tirar todas as paredes de vidro, deixar tudo aberto – para não parecer “o exibido inalcançável dentro do aquário”, pois já tem “o ego abastecido até demais”. Na decoração, iria querer só a bandeira do Brasil que há anos enfeita a recepção da W/, e em matéria de luxo, exigiria apenas um chuveiro por perto. Dos troféus que conquistou, entre eles os 49 Leões do Festival de Cannes, você, se fosse o Washington Olivetto, não iria querer levar nenhum. Alguém até sugeriu que deixasse pelo menos dois deles como peso de papel na mesa nova: o Leão de Ouro pelo reclame do primeiro sutiã e o Grand Prix do Clio pelo filme Sete Dias, da revista Época. Mas se fosse o Washington Olivetto você diria “não, nem esses”. Contaria que a famosa “lixeira de prêmios” da W/ foi recentemente desativada e os mais de 300 troféus que ficavam meticulosamente jogados dentro daquela espécie de aterro sanitário chique foram parar num guarda-volumes.

Na segunda-feira passada, se fosse o Washington Olivetto você estaria resfriado. E um Washington Olivetto resfriado tem um lenço de pano dentro da pastinha de contínuo para assoar o nariz. No corre-corre daquele dia, talvez não percebesse o jeito meio abobalhado que olhavam para você, como se estivessem diante do Brad Pitt ou da Angelina Jolie. Talvez não notasse também que, no departamento de criação, os mais jovens corriam para o Twitter para postar coisas como “a lenda chegou” e “momento tiete, W. O. aqui”. Aliás, você não teria um Twitter, porque diria que desde 2001 não gosta de ser seguido. Pois é. Você, se fosse o Washington Olivetto, teria sido raptado e passado 53 dias num cubículo de 1 m x 2,30 m com luz acesa e música alta 24 horas por dia. Mais tarde iria dizer que apagou tudo da memória, mas na verdade evitaria pronunciar a palavra “sequestro” e se referiria só “àquele episódio” ou “àquela história que aconteceu comigo”.

Mas, voltando à segunda-feira, entre uma assoada e outra de nariz, você teria parado para cumprimentar o seu Hélio dos Anjos, garçom gente boa há mais década na McCann, que se aproximou com o carrinho de café e, apesar de ter visto você uma única vez, mandou: “Olhaí seu Uóshito, sem açúcar e no copo de vidro, como o senhor gosta”. Logo depois, porém, ao ser apresentado ao seu Antonio Fava, o supervisor da manutenção do prédio (“33 anos de publicidade nas costas, 30 só na Salles/Publicis”), não ligaria o nome à pessoa. O seu Fava era aquele que envergava a camisa e o boné do Corinthians no sábado 1º de maio, quando rolou uma feijoada para integrar as equipes das duas agências. Figuraça, o seu Fava. Palmeirense do Bexiga, verde até os ossos, mas vestiu de preto e branco “pra agradar e dar as boas-vindas pro homi”. A propósito, se você fosse o Washington Olivetto, a feijoada teria sido a sua tarde de Barack Obama, como disse o Milton “Cebola” Mastrocessario, um dos diretores de criação da nova WMcCann: “Porra, no discurso, ele falou ‘bom dia’ e já foi aplaudido”, contou, com seu jeitão meio tímido. “Me sinto como se trabalhasse na IBM e chegasse o Steve Jobs para ser meu colega”, comparou o Cebola, querendo explicar a o que representa o casamento da “força do negócio da McCann” com a “ousadia da W/”.

À moda do chefe. Esse tipo de coisa abasteceria demasiadamente o seu ego, caso você fosse o Washington Olivetto. E você admitiria isso. O curioso é que, apesar da autorreferência obstinada e de seu currículo oficial, feito por “alguém” na W/, ter 30 vezes as palavras “mais”, “maior” e “melhor” em 156 linhas, se fosse o Washington Olivetto, você não seria um arrogante. Nem se tivesse virado prato nos cardápios dos restaurantes Rodeio (lá o Hambúrguer Olivetto custa R$ 68) e Antiquarius (Bacalhau à Olivetto por R$ 150). E nem se soubesse que na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) tem um professor de criação, o Ruy Sanches, que manda os alunos inventarem uns anúncios e diz assim: “Como é que vocês escreveriam se fossem o Washington Olivetto?” O Ruy explica: “É para destravá-los, fazê-los ser mais coloquiais. Afinal, esses meninos entram na faculdade de propaganda querendo ser o Washington Olivetto”.

Tem uma coisa que você não deveria ter, se fosse ele: pudor de repetir e repetir as suas boas sacadas, que são boas mesmo – “se eu dormir só 5 horas por noite acordo com insuportável bom humor”, “minha ambição é fazer propaganda que entre para a cultura popular, porque aí o consumidor vira mídia”, “prego a volta da criatividade embasada, mas espontânea, contra a mediocridade teorizada”, “nunca estou totalmente trabalhando ou totalmente me divertindo, misturo as duas coisas o tempo todo” e mais uma porção de etcs. Por outro lado, haveria grandes sacadas de campanhas sua que se repetiriam quase sozinhas. “O primeiro Valisère a gente nunca esquece”, por exemplo. Hoje, quem joga no Google “o primeiro+nunca esquece” recebe 2,18 milhões de citações adaptadas: “o primeiro piolho a gente nunca esquece”, “o primeiro Viagra…”, “o primeiro chifre…”, “o primeiro Bukowski…”, “o primeiro terremoto…” Bom, se fosse ele você teria que aprender a se reinventar, porque hoje não te deixariam colocar uma menina de 11 anos, seios rapidamente ao léu, para vender sutiã TV. “É, o mundo ficou muito chato”, você diria, caso ele fosse.

O mais importante: para ser o Washington Olivetto você teria que torcer pelo Corinthians. E ter ficado triste pra chuchu na última quarta, com a eliminação do time na Libertadores. Não a ponto de perder o charme na hora de consolar, por e-mail, o filho mais velho, Homero, 37 anos, que estava no estádio: “Somos corintianos, coisa bem maior do que ganhar ou não essa Libertadores que mais parece um Desafio ao Galo em castelhano. Triste, um pouco; brocha, nunca!” Aos gêmeos Antônia e Theo, de 6 anos, diria que o Timão venceu o jogo e pronto.

Agora, se você não fosse o Washington Olivetto, mas fosse o Nizan Guanaes (outro que os alunos da ESPM querem ser), e uma entrevistadora do canal Multishow te perguntasse se existe um Pelé na publici…, você teria de responder rápido, sem esperar o fim da pergunta: “Uóshitolivetto, maior publicitário de todos os tempos. Ninguém se comparou a Uóshitolivetto. Em um ano, e eu estava lá para ver, ele ganhou oito Leões em Cannes. Nossas relações nem sempre foram as melhores, em boa parte por coisas infantis, um filho tem sempre a necessidade de rejeitar o pai. Mas ele é o melhor”.

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