A cidade mais alemã do Brasil

02/09/2011 às 13:58 | Publicado em Jornalismo Literário, Narrativas de Viagem, Textos de alunos, Turma do Curso de Jornalismo Literário, Turmas do Curso de Redação Criativa | 8 Comentários
O estilo enxaimel, destaque da cidade

 Pomerode é linda! A cidade foi fundada em 1861, quando algumas famílias vindas da província da Pomerânia, no norte da Alemanha, se instalaram ao longo do rio do Testo, no médio Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Quando o Campeonato Mundial de Futebol foi sediado pela Alemanha, em 2006, muitas reportagens aconteceram também nesse encanto de lugar.

 Desmembrada de Blumenau em 1959, Pomerode mantém o fascínio de uma pequena comunidade, com pouco mais de 25 mil habitantes. A forte influência alemã se preserva em seus costumes, como a dedicação ao trabalho, o respeito à fé religiosa, as sociedades de caça e de tiro, as danças folclóricas, as bandinhas e as delícias culinárias que só são encontradas na cidade.

 A arquitetura enxaimel é um destaque à parte. Nesta técnica de construção, as paredes são feitas com hastes de madeira encaixadas, sendo que os vãos resultantes são preenchidos por pedras ou tijolos. A famosa Rota do Enxaimel, o maior acervo de edificações nesse estilo fora da Alemanha, consiste de 70 casas ao longo do trajeto de paisagem bucólica, que torna o passeio pela região inesquecível.

 A maioria dos moradores fala em alemão, língua que também é ensinada nas escolas. Isso fez com que durante o último Censo, realizado em 2010, o recenseador tivesse de falar e escrever com desenvoltura o idioma para realizar bem o seu trabalho. Por isso, ela é sempre referida como a cidade mais alemã do Brasil! Muitas das pessoal da melhor idade que moram lá, aliás, falam, e muito mal!, o português. Tanto que desenvolveram um dialeto próprio, o Plattdeutsch, falado até hoje principalmente quando os mais velhos querem falar a respeito de algo que os filhos não podem saber.

 É nesse pedacinho germânico que moram meus sogros, cunhados e toda a família do lado materno do meu marido. Seu avô, Rodolpho Achterberg, e sua avó, Anna Achterberg (que dá nome a rua onde toda a sua família mora), nasceram ali e ajudaram na colonização de Pomerode. Minha sogra, Lisellotte, conta que na época da Segunda Guerra Mundial eles precisaram queimar muitos livros para fugir às perseguições feitas aos judeus. Por isso, tornaram-se luteranos. É por isso que na cidade é mais comum ver igrejas dessa religião do que católicas ou evangélicas.

 Pomerode possui um parque industrial bem diversificado, com destaque para indústrias de confecção e porcelana, como a Karsten e a Porcelanas Schmidt.

 Bem ao lado de Blumenau, a cidade recebe muitos turistas por ocasião da Oktoberfest e também no mês de janeiro, durante a Festa Pomerada, que dura o mês todinho. Se for para lá nessa época, poderá apreciar a música de bandinha tradicional, bailes, danças folclóricas e gastronomia típica. Também há concursos de culinária e competições tradicionais da antiga Pomerânia, com destaque para a Exposição Agro-Industrial. Em julho tem a Festa do Rei do Tiro Municipal e, em novembro, a da Rainha. Em alguns dos 16 clubes, as festas do Rei e da Rainha do Tiro Municipal são realizadas nos fins de semana.

 Gostosuras pomeranas

Meus sogros e minha cunhada moraram praticamente a vida toda aqui em São Paulo, com uma ida para lá por ocasião da doença da avó do meu marido. Por isso, desde sempre, pude conhecer as delícias de Pomerode: a linguiça defumada feita de maneira artesanal; a cuca alemã, bolo com farofa crocante (a receita está logo abaixo); o Strudel, torta doce, sendo a mais conhecida de maçã, o Apfelstrudel; o Mohn Brötchen, pãozinho redondo polvilhado com semente de papoula; e o Hering Brot, pão de forma com sardinha, margarina e ovo cozido.

 O prato mais tradicional é o marreco recheado, além é claro das especialidades alemãs como as salsichas e o joelho de porco. De sobremesa, a deliciosa torta de ricota. Desde que conheci a feita lá, nunca encontrei outra igual em nenhuma parte do Brasil. E olhe que tenho procurado em toda padaria que entro e até nas melhores delicatéssens paulistanas.

 Estive muitas vezes lá, por ocasião de festas que variavam de batizados, casamentos e confirmações, evento religioso protestante que ocorre por ocasião dos 15 anos do jovem e, por isso mesmo, é feita uma festa à altura da grandiosidade da ocasião, como se fosse uma festa de debutante.

 Em todas vezes, sem exceção, não me preparei para comer tanto (e ai de você se não o fizer! É pior que xingar a mãe de alguém!). Pratos típicos misturam-se a todas as especialidades de carnes de boi, porco, carneiro, frango, marreco e alguns peixes, preparadas de todas as maneiras possíveis, além de todas as guarnições existentes na face da Terra. Cerveja ou chope muito gelado e sucos e refrigerantes também. De sobremesa, um pouco de tudo que a região oferece e mais todas as gostosuras, como tortinhas de morango, bolos de todos os recheios e coberturas e, claro, para completar todas as refeições pomeranas, uma bela e grande xícara de café com leite. Café beeem fraco, que fique claro! Quando vamos para lá, durante as visitas às casas de parentes (temos de ir a todas da Rua Anna Achterberg, sem nos esquecermos de ninguém) eles nos preparam o que chamam de “café de paulista”, mais forte. Amém!

 Cuca da Lisellotte – receita legítima alemã de Pomerode

 Ingredientes

1 xícara (chá) de margarina sem sal

1 xícara (chá) de açúcar

2 ovos – bater as claras em neve

2 xícaras (chá) de farinha de trigo

1 xícara (chá) de leite

1 colher (sopa) de fermento em pó

Modo de fazer

Misture todos os ingredientes na batedeira e as claras em neve por último, até a massa ficar homogênea. Despeje na assadeira untada

 Farofa doce

 Ingredientes

1 xícara (chá) de açúcar

1 e 1/2 xícara (chá) de farinha de trigo

100 gde margarina sem sal

1 colher (sopa) de fermento em pó

Baunilha

Noz moscada

Raspas de casca de laranja

 Modo de fazer

Despeje todos os ingredientes em uma tigela e mistura com as mãos, joga por cima da massa pronta. Asse em forno pré-aquecido por 30 minutos.

Curiosidades pomeranas

  • O bairro onde a família Achterberg mora fica uns 7 Km distante do centro. O ônibus passa em três horários por lá: pela manhã, uma vez e duas à tarde. Perdeu, vá a pé. Ou de bicicleta, um meio de transporte muito comum que, nos últimos anos, vem dando lugar á motocicleta.
  • Ali perto existe uma única mercearia, daquelas à moda antiga, de secos e molhados. Por isso, o padeiro que possui padaria no centro vai até o bairro, chamado de Testo Alto, vez ou outra na semana. Ele dirige uma Kombi antiga, na qual leva de tudo um pouco. É possível também fazer encomendas antecipadas por telefone.
  • Todos os dias, às 5 horas, a “moça do leite” passa pela rua pedalando sua bike. No bagageiro, os litros e mais litros de leite tirados há poucas horas de suas vaquinhas e envazados diretamente para o consumo. Como a maioria das pessoas ainda está dormindo nesse horário, ela deixa o litro cheio em um cachepô, no murinho da varanda, e leva o vazio, devidamente limpo, esterilizado e personalizado.
  • Outro hábito dos moradores, principalmente dessa rua da nossa família, é deixar os sapatos do lado de fora e calçar um chinelo limpo para circular dentro de casa. Isso acontece porque a rua ainda não é asfaltada e, principalmente quando chove, fica tudo enlameado.
  • A maioria das casas não possui portão e um lindo jardim sempre enfeita a entrada.
  • A população é formada por praticamente 90% de pessoas loiras de olhos azuis, mas já se observa a presença de outras mais morenas.
  • A convivência é ótima e a hospitalidade, a despeito de tudo o que se fala a respeito de alemães, é muito calorosa. Se existe um pessoal para lá de animado, são os pomeranos! Tudo é motivo de festa!
  • Todos, sem exceção, ouvem a rádio Pomerode e lêem o jornal da cidade. Teve uma ocasião que fomos para lá de carro, que havíamos comprado na cidade paulista de Sorocaba, onde mora a minha família. Lá pra hora do almoço ouvimos o locutor: “Nossa cidade tem recebido turistas de várias partes do Brasil. Ontem mesmo, na praça da prefeitura (jamais dizem o nome que batiza o local), pudemos observar carros de vários lugares, tinha um inclusive de Sorocaba, interior de São Paulo”. Foi gargalhada geral, e os telefonemas dos familiares se estenderam até a noite.
  • Ah, e o sotaque! É muito bonitinho! Eles jamais pronunciam uma palavra que contenha dois erres, sempre é como se ela tivesse apenas um. O prato típico da região, por exemplo, é ‘mareco recheado e uma garafa de cerveja”… Liebelich!

 Pontos turísticos

  • A arquitetura encanta por todas as partes da cidade. Vale a pena andar a pé, de carro ou alugar charretes em frente ao Jardim Zoológico de Pomerode. A cidade é tão pequena que você não vai demorar nada! Por falar no Zoo, saiba que é um dos mais antigos do Brasil – foi inaugurado em 1932. Atualmente, mantém aproximadamente 600 animais de mais de 120 espécies.
  • Visite o Museu Pomerano, o Museu Ervin Kurt Theichmann e o grande número de construções em estilo enxaimel, todas cuidadosamente preservadas.
  • Conheça a Praça Jorge Lacerda e o Centro de Arte e Artesanato, que expõe e comercializa peças em madeira, palha, pintura em porcelana, bordado, crochê e bonecas típicas, além de geléias, licores e biscoitos caseiros.
  • Se você curte a natureza, destine um dia para visitar o Morro da Turquia, de onde se descortina uma bonita vista panorâmica de Pomerode e que é ideal para a prática de asa-delta e parapente. Outro passeio imperdível são as cascatas Cristalina e do Hauth.
  • Se você gosta de um bom chope artesanal, a dica é visitar a Cervejaria Schornstein. Fundada em junho de 2006, está sediada em um prédio tombado pelo patrimônio histórico, com cerca de 50 anos de existência. A chaminé de 30 metros de altura de tijolos maciços é sua principal referência e está na logomarca e no significado do nome da fábrica. De tão bom que é o chope feito ali, a Cervejaria Schornstein expandiu sua atuação para o mercado paulista, inaugurando uma segunda fábrica na cidade de Holambra, no interior do Estado.
  • Em Pomerode, visite o bar da fábrica, Schornstein Kneipe. Os dois locais (em Santa Catarina e São Paulo) servem petiscos tradicionais das culinárias holandesa e alemã e ainda sugerem harmonizações gastronômicas para cada tipo de chope. Além de conhecer os bares de fábrica, as pessoas têm a possibilidade de conhecer o seu processo de produção por meio de uma visita monitorada às fabricas, que inclui a degustação dos produtos – pilsen natural, pilsen cristal, weiss, pale ale, bock e imperial stout – tirados direto do tanque. Prosit!

Maria Helena Bellini, autora do texto, é aluna do curso de Jornalismo Literário ministrado pela professora Monica Martinez no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo em agosto/setembro de 2011. A fotografia é de uma ex-aluna de graduação, Selma Tronco, que desenvolveu trabalho de conclusão de curso de Comunicação Social sobre a cidade pela FIAMFAAM.

A visita

01/04/2011 às 17:45 | Publicado em Turmas do Curso de Redação Criativa | Deixe um comentário

Um burburinho de vozes e, de repente, fica tudo escuro. Milhões, bilhões de estrelas aparecem, como há muito não vejo em São Paulo. Cada ponto brilhante me insufla de alegria. Com um pouco de atenção, não é difícil encontrar o Cruzeiro do Sul e as Três Marias… Há quanto eu não os via! A memória dessa imagem quase se perdera no tempo. Remonta à infância, onde estava sempre atenta aos brilhos celestes das noites.

Esmiuçando um pouco mais, consigo visualizar as constelações. Vou logo procurando a de Capricórnio! Que beleza, todo o zodíaco representado pelas estrelas. Mas é preciso ir além, viajar mais longe, ultrapassar os limites da exosfera. Ao aviso do comandante, afixo-me seguramente em meu assento e partimos em direção ao desconhecido. É como se estivesse flutuando. Uma sensação nauseante toma-me por segundos. Ganhamos velocidade e em pouco tempo avistamos a Terra. Linda! Que privilégio poder contemplá-la!

Fascinados, meus olhos percorrem cada “espaço” do Espaço. O Astro-Rei, incandescente, fulgura ao longe. E como é belo todo o seu Sistema! Passamos tão perto da Lua, que quase posso desvendar-lhe os mistérios. Com fulgor no coração, cada respiração é expectativa.

A viagem prossegue, cada planeta, cada história. O grande Júpiter impressiona pelo tamanho, tão maior que a Terra! Súbito, estamos em meio às partículas de pedras e poeira, atravessando os anéis do senhor Rei do Tempo, Saturno. Estico meu braço buscando tocá-las, almejando trazer alguma comigo. Em vão.

Continuamos em frente, se assim pode-se dizer, e aos poucos vamos deixando a Via Láctea! Observando-a de fora é como se fosse uma massa de nuvem formando um gigantesco olho em meio ao negrume do infinito. E o Buraco Negro, então, indizível sensação… misto de nó no estômago e garganta opressa! O que é isso, meu Deus?! Vozes de espanto e admiração. Os demais tripulantes extasiam-se ante tudo quanto vemos. Sinto-me pequena ao ver de tão perto tanta existência ignorada no cotidiano. Centenas de perguntas invadem-me a mente, mas nem sequer consigo atinar qualquer resposta.

E é nesse ínterim que o comandante nos informa que já é hora de retornar, o que é feito em um silêncio quase religioso, por todos.  De volta à troposfera, finda a viagem. Tal qual numa peça de teatro quando termina ou num cinema quando o filme acaba, as luzes se acendem.

Olho em derredor, naquele salão redondo, de teto abobadado, e percebo sutil estado de graça nos semblantes vizinhos, como se o brilho das estrelas estivesse, ainda, refletido em cada olhar. Ao sair do Planetário, no Ibirapuera, anoitece. Olho para o céu e não as vejo. Resultado da “evolução”, que entre luzes artificiais e poluição, nos torna cegos às belezas noturnas da criação.

 Luana Chrispim é aluna da 16ª. turma do curso de Redação Criativa ministrado pela professora Monica Martinez no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo.

13a. turma do Curso de Redação Criativa

22/06/2009 às 12:04 | Publicado em Turmas do Curso de Redação Criativa | Deixe um comentário
Curso ministrado no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo

Curso ministrado no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo

Alunos da 13a. turma do Curso de Redação Criativa, ministrado pela professora Monica Martinez

Ajoelhadas (da direita para a esquerda): Maria Lucia de Paula, Clarissa Chagas Gaiarsa, Carolina Jardim, Amanda de Paula Augusto, Vanessa Riboldi, Rosiris Pereira do Nascimento da Silva e Vania Viana.

Em pé (da esquerda para a direita): Cristiane Castro, Maria Helena Bellini, Talita de Castro Silva, Juliana Granjeia, Leandro Nogueira, Fabiana Cristina Colombo, Karla Mamona, Elizandra Batista de Souza, Gisleine Zarbiette, a docente Monica Martinez, Carla Machado, Carla Cristina Coltro, Débora Magalhães Valente, Vanessa Lemos, Luciene Cimmatti.

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