Meia-noite em Paris

05/08/2011 às 16:21 | Publicado em Sem categoria | Deixe um comentário

O perfil mais memorável que já li de Woody Allen foi escrito pela jornalista brasileira Teté Ribeiro para a Serafina, a revista semanal do jornal Folha de S. Paulo. Publicado em maio de 2009, ficamos face a face a face com o cineasta: “Ele usa os mesmos óculos de aros pretos de sempre, mas os cabelos estão mais brancos e mais ralos no cocoruto. (…) Noto que ele chacoalha um pouco a cabeça entre uma pergunta e outra, e isso me deixa triste. Por quanto tempo ainda poderemos usufruir do imenso luxo de ter um filme novo do Woody Allen para ver por ano”.

Pois é, em 2011 não só pudemos nos dar a este luxo, como ainda nos regalar com Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris), certamente um dos melhores filmes de um cineasta que tem produção tão vasta que tem uma página exclusivamente dedicada à sua cinegrafia na Wikepedia.

O protagonista, o escritor Gil – como sempre o alter ego de Allen –, é interpretado por Owen Wilson. Ele viaja para a cidade de seus sonhos, Paris, com a noiva e os endinheirados pais dela. Gil está bem de vida, escrevendo roteiros para Hollywood, mas frustra-se por achar que não está sendo o escritor que poderia ser. Sim, a ideia de ter seu próprio grande romance ronda a mente dele.

Woody não nos explica como isto acontece – o que aliás não faz falta alguma ao filme –, mas de uma forma mágica Gil voltará aos loucos anos 1920 e conhecerá os artistas da geração perdida que estavam fazendo história em Paris na época. Para citar apenas escritores, ficamos com F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, que, não querendo ler o romance do jovem para não correr o risco de ficar com inveja, o encaminha para ninguém menos que Gertrude Stein (numa ótima interpretação de Kathy Bates).

Referências ajudam a decodificar o filme, como a cena en passant pela livraria Shakespeare and Company, aberta no Quartier Latin em 1919 por Sylvia Beach, que emprestava livros a pobretões anônimos como Hemingway e tornou-se um ponto de encontro de intelectuais, como William S. Burroughs e James Joyce. Também tem seu charme saber que a guia do museu é Carla Bruni – a atual esposa do presidente da França, Nicolas Sarkozy.

O curioso do filme é que aceitação dos limites e desafios do presente superam a vontade nostálgica de permanecer no passado. É aprender o que for possível com ele e seguir em frente. Lição que, aliás, parece ter sido bem aprendida por Allen, que não se prende aos louros e segue em sua abençoada cadência produtiva a cada ano – ou, como bem precisou Teté Ribeiro, enquanto tivermos sorte.

Monica Martinez

Jornalismo Literário para todas as idades

01/08/2011 às 10:11 | Publicado em E-Books, Jornalismo Literário, Livros | Deixe um comentário

A princípio endereçado para um público jovem, Jornalismo Literário para Iniciantes certamente agradará profissionais em início ou a pleno vapor na carreira, bem como interessados em escrever bem em geral.

Neste contexto, Jornalismo Literário é o texto elaborado com qualidade. Não é a forma mais conhecida do jornalismo, que tem como carro-chefe os relatos noticiosos, nem a mais praticada. Mas, certamente, é a mais cobiçada por jornalistas-escritores e leitores que querem se aprofundar em algum assunto de seu interesse.

O autor é referência na área desde 1993, quando publicou Páginas Ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Lima não está falando apenas do jornalismo romântico praticado na primeira metade do século XX, quando inspirados autores buscavam nas redações o ganha-pão mais imediato. Ele é mestre nos autores contemporâneos, sobretudo americanos, aqueles que publicam hoje livros-reportagem que serão transformados em filmes pelos grandes estúdios amanhã.

A obra é facilmente adquirida pelo sistema online do Clube dos Autores, que há pouco tempo lançou a prática opção de e-book (que tem a vantagem do preço mais acessível).

Ficha técnica

Avaliação
**** Ótima Leitura

Título: Jornalismo Literário para Iniciantes

Editora: Clube de Autores
Autor: Edvaldo Pereira Lima
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 148.

Um manto vermelho cobre a cidade

22/06/2011 às 4:08 | Publicado em Monica Martinez | Deixe um comentário
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O texto abaixo integra o projeto 3Meia5:

25 de Maio, Um manto vermelho cobre a cidade

São 5h15. O despertador toca. Eu gosto de acordar cedo – desde que tenha ido dormir cedo. Ouço um plec – o entregador de jornais acaba de passar e jogar a edição do dia no quintal. Desço para preparar o café. Lá fora, os pássaros ainda estão silenciosos e o céu escuro não permite saber como será o dia. O aroma invade a cozinha, enquanto descasco o mamão e faço algumas torradas.

Ouço os demais despertadores da casa tocando, um por um, e os sons conhecidos de camas rangendo, portas batendo, comentários nem sempre bem humorados sendo trocados. Logo todos estão na mesa da sala, falando animada, mas brevemente, sobre o dia.

Outros plecs se seguem, de portas sendo chaveadas, portas de carro batendo, portões travando. Morar nos arredores de São Paulo tem seus charmes, mas o inconveniente da procissão matinal que segue em direção à cidade para trabalhar. Cada minuto desperdiçado em casa significa quilômetros de congestionamentos.

Mas esta manhã a cidade flui surpreendentemente bem.  Não há motoqueiros pelo chão, batidas, nem ambulâncias zunindo pelo caminho. Enquanto dirijo penso no que farei hoje. Um papelzinho deixado propositadamente no banco do passageiro ajuda a registrar as tarefas. Levei anos para desenvolver este método, que não é muito sofisticado, mas funciona bem. Logo a mente está livre para fazer haicais. O sol está surgindo e, como não chove há alguns dias, há uma camada vermelha espessa cobrindo o horizonte.

            Um manto vermelho

            A se erguer com o sol –

            Manhã de outono

Acho mágico ficar construindo histórias em 17 sílabas – embora os haicais verdadeiramente bons sejam difíceis de acontecer. Às vezes eles nascem por si mesmos, como o acima. Outros levam meses para amadurecer. Recentemente eu estava pensando numa teoria sobre a natureza dos haicais. Num primeiro nível haveria os descritivos, que sugerem uma imagem, uma situação, uma cena. Num segundo nível, mais elevado, estariam os relacionais, que sugerem de forma muito interativa uma sensação, uma lembrança, uma emoção. Quanto mais elas forem universais, mais o leitor é tocado. Para mim, os haicais mais comoventes são aqueles que falam das questões inexoráveis da vida: o nascer, a finitude e a efemeridade de tudo. E, claro, da insensatez deste nosso mundo coisa, com seu individualismo e consumismo exacerbados.

O manto vermelho vai se dispersando. “Será que os outros motoristas também o notam?”, penso. Fico algo zen, o que, por algum motivo inexplicável, me leva a pegar as pistas que fluem melhor, a me desviar dos obstáculos. Uma vez li em algum lugar que quando a gente se mantém neste estado mental é como se formasse uma redoma protetora à nossa volta. “Será que isso tem alguma evidência científica?”, é a pergunta que me ocorre.

Faz pouco tempo que descobri que amo o início do outono – eu nem prestava atenção nele. Não há as chuvas ferozes do verão, tampouco o frio do inverno ou a secura do começo da primavera. Deve ser a tal da sabedoria que, dizem, surge depois que a gente faz 40 anos. Não me sinto particularmente mais sábia em nada, contudo. Ao contrário. A cada dia descubro que sei menos do que gostaria ou deveria saber. O outono é lindo também por que logo o período letivo se encerrará. Mais uma vez. Logo outros alunos chegarão em ondas, sempre da mesma idade, 17, 18 anos.

Me ocorre que nunca tive o sonho de ser professora. Escrever sim, tanto que fui jornalista daquelas de redação por mais de 20 anos. Ainda me lembro da confusão das redações, das pretinhas — as teclas das máquinas de escrever –, com seu barulho característico e os copos descartáveis de café frio ao lado que iam sendo sorvidos aos poucos. Mas ser professora foi algo que a vida me levou a ser, de mansinho. No começo eu achava que era algo transitório. Hoje não sei mais. A cada dia, contudo, sinto uma imensa gratidão aos alunos. Por algum motivo inexplicável, ensinar me humanizou. E também me fez descobrir onde acaba minha paciência…

O sol se ergue de vez. Ligo o rádio e tudo volta ao normal, com as notícias das barbaridades que são cometidas, todos os dias, há milênios. Suspiro. Felizmente, em algumas horas, estarei no meu quilo japonês favorito.  As melhores coisas da vida, vamos descobrindo pelo caminho, são as mais simples.

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Monica Martinez é jornalista, pesquisadora da área de Comunicação Social, professora universitária, haicaista e, a cada dia mais, escritora.

Para ler os demais textos, clique aqui.

Honra teu pai, de Gay Talese: uma história de pais e filhos

09/06/2011 às 10:53 | Publicado em Gay Talese, Jornalismo Literário, Livros | Deixe um comentário

Um dos livros mais marcantes para mim foi O Poderoso Chefão, de Mário Puzzo. Talvez porque fosse um livro para adultos que eu, na época, não deveria estar escondendo em caixas de sapato debaixo da cama para lê-lo à noite, depois que todos fossem dormir. Talvez porque é bem escrito. Talvez porque seja sobre descendentes de italianos, como eu. Talvez simplesmente porque eu goste de ler. Eu não sei o motivo, mas sei que senti a mesma sensação de estar diante de uma grande obra ao ler Honta Teu Pai, de Gay Talese, lançado este ano pela Companhia das Letras (a edição anterior, de 1971, chamada Honrados Mafiosos, só podia ser garimpada em sebos).

Mas é um livro diferente. Mais do que contar a história das vendetas dos imigrantes sicilianos que foram para os Estados Unidos, a obra é um tratado sobre a relação entre pais e filhos.

O protagonista, Bill, é filho de Joseph Bonanno, que controlava uma das cinco famílias de Nova York. Em vez de integrar-se à sociedade, como os demais integrantes da geração nascida na América, ele opta por manter-se nos, digamos, negócios escusos do pai. É por meio dos reveses que Bill enfrenta que acompanhamos o ocaso da Máfia naquele país. Tudo no melhor estilo de Jornalismo Literário.

O curioso é que o livro já adianta uma tendência que o escritor estadunidense Gay Talese adotaria: ao invés de dedicar-se às celebridades no auge da carreira, ele sempre deu preferência aos personagens que estão no ocaso ou em momentos difíceis da vida.

Hoje, quase 80 anos, Gay Talese dedica-se à escrever a história de seu matrimônio com a editora Nan.

Texto: Monica Martinez
Foto: divulgação.

Abaixo, o trecho inicial do livro, divulgado pela Companhia das Letras.

Trecho

parte I
o desaparecimento

1.
Os porteiros de Nova York sabem que uma pessoa pode ver demais e por
isso a maioria deles adquiriu uma extraordinária capacidade de visão seletiva:
sabem o que devem ver e o que ignorar, quando é conveniente ser bisbilhoteiro
ou, ao contrário, displicente; se ocorrem acidentes ou discussões bem na
frente de seus edifícios, a maior parte das vezes estão lá dentro e nada veem; e,
quando ladrões fogem pelo saguão, quase sempre estão procurando um táxi
para alguém. Um porteiro pode desaprovar suborno ou adultério, mas, ainda
assim, está invariavelmente de costas quando o síndico passa uma propina ao
fiscal do Corpo de Bombeiros, ou quando um morador cuja mulher está fora
entra com uma moça no elevador. Não pretendo com isso acusar os porteiros
de hipocrisia ou covardia, mas tão somente dar a entender que eles sabem
perfeitamente, por instinto, que é bem melhor não se meter, e conjecturar que
talvez eles tenham aprendido, pela experiência, que a pessoa não ganha nada
por ser testemunha ocular das coisas feias da vida ou das loucuras da cidade.
Sendo assim, não é de estranhar que na noite em que Joseph Bonanno, um dos
chefes da Máfia em Nova York, foi agarrado por dois capangas diante de um
luxuoso edifício de apartamentos na Park Avenue, perto da rua 36, pouco depois da meia‑noite de uma chuvosa terça‑feira de outubro, o porteiro estivesse conversando com o ascensorista no saguão e nada tivesse visto.

Tudo aconteceu com incrível rapidez. Voltando de um restaurante, Bonanno
desceu de um táxi depois de seu advogado, William P. Maloney, que
saiu correndo na frente, sob a chuva, para resguardar‑se embaixo do toldo.
Nesse momento, os pistoleiros surgiram da escuridão, puxando Bonanno pelos
braços em direção a um automóvel. Bonanno tentou se livrar, mas não
conseguiu. Encarou os homens, furioso e perplexo — desde o tempo da Lei
Seca não era tratado com tanta brutalidade, e daquela vez quem o maltratara
fora a polícia, porque ele se recusara a responder a certas perguntas. Desta vez
estava sendo brutalizado por homens de seu próprio mundo, dois grandalhões
de sobretudo e chapéu preto, um dos quais lhe disse: “Vamos, Joe, meu chefe
quer ver você”.

Bonanno, um homem vistoso e grisalho, de 59 anos, nada respondeu.
Saíra naquela noite sem guarda‑costas e desarmado, e mesmo que a avenida
estivesse cheia de gente não teria pedido socorro, pois considerava aquilo um
assunto pessoal. Tentou recuperar a dignidade, pensar com clareza enquanto
os homens o conduziam pela calçada, os braços já dormentes por causa
da força com que os apertavam. Tremia sob a chuva fria e o vento, sentindo‑a
penetrar através do terno de seda cinza, e nada enxergava na neblina
que tomava conta da Park Avenue, exceto as lanternas de seu táxi, que desaparecia na direção do Central Park, nem nada ouvia além da respiração
ofegante dos homens que o puxavam. De repente, às suas costas, Bonanno
escutou os passos rápidos e a voz de Maloney, que gritava: “Ei, que diabo
está acontecendo?”.

Um dos pistoleiros virou‑se e avisou: “Deixe para lá, volte!”.

“Vão embora”, respondeu Maloney, ainda correndo. Era um homem de
sessenta anos, de cabelos brancos, e agitava os braços. “Ele é meu cliente!”
Uma bala de automática foi disparada para o chão, perto de Maloney. O
advogado parou, recuou e por fim escondeu‑se na entrada de seu edifício. Os
homens empurraram Bonanno para dentro de um sedã bege estacionado na
esquina da rua 36, com o motor ligado. Bonanno deitou‑se no chão, como lhe
havia sido ordenado, e o carro partiu em direção à avenida Lexington. Foi
então que o porteiro foi ter com Maloney na calçada, chegando tarde demais
para ver qualquer coisa. Posteriormente declarou que não tinha escutado tiro
nenhum.

* * *
Bill Bonanno, um homem alto e corpulento de 31 anos, cujo cabelo escuro
cortado à escovinha e a camisa de colarinho abotoado indicavam o universitário que ele fora na década de 1950, mas com um bigode recém‑cultivado para ajudar a ocultar sua identidade, estava num apartamento escassamente mobiliado do Queens. Escutou com atenção a campainha do telefone. Mas não atendeu.

O telefone tocou mais três vezes, parou, tocou novamente e parou. Era o
código de Labruzzo. Ele devia estar numa cabine telefônica, dando sinal de
que retornara ao apartamento. Ao chegar ao edifício, Labruzzo repetiria o sinal
na campainha do saguão e o jovem Bonanno apertaria outra campainha
para soltar a tranca da porta. Depois Bonanno esperaria, de arma em punho,
olhando pelo olho mágico para ter certeza de que era Labruzzo quem saía do
elevador. O apartamento mobiliado que os dois homens dividiam ficava no
último andar de um edifício de tijolinhos num bairro de classe média e, como
a porta do apartamento dava para o fim do corredor, podiam observar todos
os que entravam e saíam do único elevador, sem ascensorista.
Essas precauções estavam sendo tomadas não somente por Bill Bonanno
e Frank Labruzzo, mas também por dezenas de outros membros da organização
de Joseph Bonanno, que durante as últimas semanas vinham se escondendo
em apartamentos semelhantes no Queens, no Brooklyn e no Bronx. Era
uma época de tensão para todos eles. Sabiam que a qualquer momento poderia
ocorrer um confronto com quadrilhas rivais, dispostas a matá‑los, ou com
agentes do governo, que desejavam prendê‑los e interrogá‑los a respeito dos
boatos de vendetas e conspirações violentas que circulavam pelo mundo do
crime. O governo havia concluído recentemente, em grande medida com base
em informações obtidas através de telefones grampeados e dispositivos eletrônicos, que até mesmo os chefões da Máfia estavam envolvidos nessa dissensão interna, e que Joseph Bonanno, chefe poderoso havia trinta anos, era o pivô da controvérsia. Outros chefes suspeitavam que ele era demasiado ambicioso ou que desejava aumentar — às custas deles, talvez sobre seus cadáveres — a influência que já exercia em várias partes de Nova York, do Canadá e do sudoeste dos Estados Unidos. A recente promoção de seu filho, Bill, ao terceiro posto da hierarquia da organização também era vista com alarme e ceticismo por alguns líderes de outras organizações, bem como por membros da própria organização Bonanno, que reunia cerca de trezentos homens no Brooklyn.

No mundo do crime, Bill Bonanno era visto mais ou menos como um
tipo excêntrico, um privilegiado que havia estudado numa escola secundária
e numa universidade particulares, cujas atitudes e métodos, embora não deixassem de revelar coragem, tinham alguma coisa do espírito rebelde de um
ativista universitário. Parecia impaciente com o sistema, não se impressionando com as maneiras indiretas e a finesse do Velho Mundo que faziam parte da tradição da Máfia. Dizia o que pensava. Não mudava de tom ao se dirigir a um mafioso mais graduado e não perdia a autoconfiança juvenil nem mesmo quando usava o anacrônico dialeto siciliano que aprendera quando menino, com o avô, no Brooklyn. O fato de medir 1,88 metro, pesar mais de noventa quilos e ter uma postura ereta e raciocínio rápido aumentava bastante a impressão que causava com sua presença e conferia substância à alta opinião que fazia de si mesmo — a de que era igual ou melhor que qualquer um dos homens a que estava ligado, com a possível exceção de seu pai. Perto dele, Bill parecia perder um pouco de sua segurança, tornando‑se mais calado, hesitante, como se o pai estivesse testando severamente cada uma de suas palavras e pensamentos. Parecia distante e formal em relação ao pai, não tomava mais liberdades do que teria com um estranho. Mas era também atento às necessidades do pai, parecendo ter muito prazer em agradá‑lo. Era evidente que o pai lhe infundia muita admiração e respeito e, embora sem dúvida ele o tivesse temido quando criança (e talvez ainda temesse), também o adorava.
Durante as últimas semanas, em nenhum momento ele estivera longe de
Joseph Bonanno, mas na noite anterior, sabendo que o pai queria jantar sozinho com seus advogados e dormir no apartamento de Maloney, Bill Bonanno passou uma noite tranquila no apartamento com Labruzzo, vendo televisão, lendo os jornais e esperando uma comunicação. Sem que soubesse exatamente por quê, estava meio nervoso. Talvez uma das razões fosse a matéria que lera no Daily News, segundo a qual a vida para os mafiosos estava cada vez mais perigosa e que o velho Bonanno planejara, pouco tempo atrás, o assassinato de dois chefes rivais, Carlo Gambino e Thomas (Brown Três‑Dedos) Lucchese, plano que teria falhado porque um dos pistoleiros traiu Bonanno e avisou uma das vítimas. Mesmo que isso fosse pura invencionice, baseada talvez em conversas captadas pelo fbi entre subalternos da Máfia, Bill estava preocupado com a publicidade dada ao assunto, pois sabia que aquilo poderia intensificar a suspeita que realmente existia entre as várias quadrilhas que controlavam a contravenção (jogos de azar, corretagem de apostas em cavalos, agiotagem, lenocínio, contrabando e venda de proteção). Poderia ainda despertar protestos de políticos, provocar uma vigilância mais rigorosa da polícia e resultar em maior número de intimações dos tribunais.

A intimação judicial era agora mais temida do que anteriormente no mundo
da contravenção devido a uma nova lei federal segundo a qual um suspeito
teria de depor quando chamado a fazê‑lo, desde que o tribunal lhe concedesse
imunidade, ou se arriscaria a uma condenação por desacato à justiça.
Isso tornava imperativo que os homens da Máfia se mantivessem pouco visíveis para evitar intimações a cada vez que os jornais noticiavam alguma coisa.

A nova lei também dificultava que os líderes da Máfia controlassem os passos
de seus homens, pois, como tinham de ter muito cuidado, nem sempre estavam
onde deveriam estar na hora marcada para cumprir alguma missão; muitas
vezes não conseguiam receber, em cabines telefônicas designadas e em horários precisos, comunicações combinadas com seus chefes que desejavam saber como iam as coisas. Numa sociedade secreta em que a precisão era fundamental, o novo problema das comunicações estava acabando com os nervos já tensos de muitos chefes.

Mais progressista do que a maioria das outras “famílias”, devido aos métodos
empresariais modernos adotados pelo jovem Bonanno, a organização
Bonanno até certo ponto resolvera o problema de comunicação mediante um
código de número de toques de campainha e também com a utilização de
um serviço de recados telefônicos. A família Bonanno talvez fosse a única a
usar esse tipo de serviço. O contrato fora feito em nome de um fictício sr.
Baxter, codinome de Bill Bonanno, e estava ligado ao telefone da casa de uma
tia solteira de um dos membros da organização, que mal falava inglês e era
quase surda. Durante todo o dia vários membros chamavam o serviço e se
identificavam por meio de codinomes, deixando mensagens cifradas com as
quais confirmavam que estavam bem e que os negócios seguiam normalmente.
Uma mensagem com a sigla ibm — “aconselho que você compre mais
ibm” — significava que Frank Labruzzo, que já trabalhara para a ibm, estava
entrando em contato. Se a mensagem falava em “monge”, identificava outro
membro da organização, um homem de cabeça tonsurada que muitas vezes
ocultava sua identidade em público usando um hábito de frade. Qualquer referência a “vendedor” indicava um dos capitães de Bonanno que trabalhava
também como vendedor de joias, e “flor” designava um pistoleiro cujo pai era
florista na Sicília. “Sr. Boyd” era um membro cuja mãe morava na rua Boyd,
em Long Island, e uma referência a “charuto” identificava certo membro que
estava sempre com um charuto na boca. Joseph Bonanno era conhecido no
serviço de recados como “sr. Shepherd”.
Frank Labruzzo tinha saído do apartamento que dividia com Bill Bonanno
a fim de ligar para o serviço de recados de um telefone público nas vizinhanças,
e também para comprar os vespertinos, para saber se havia acontecido
alguma coisa de especial. Como de costume, saiu com seu cão, que ficava
com eles no apartamento. Bill Bonanno tinha sugerido que todos os membros
da organização que se achavam escondidos tivessem cachorros nos apartamentos.
Embora no começo isso lhes tornasse difícil conseguir alojamentos,
uma vez que alguns senhorios faziam objeção a animais, mais tarde os homens
concordaram que um cão os tornava mais alertas a sons nos corredores, além
de ser um companheiro útil quando tinham de sair — um homem com um
cachorro despertava poucas suspeitas na rua.
Bonanno e Labruzzo gostavam de cães, o que era uma das muitas coisas
que tinham em comum e contribuíam para viverem bem no pequeno apartamento.
Frank Labruzzo era um homem calmo e bonachão de 53 anos, um
tanto atarracado, que usava óculos e cujo cabelo escuro começava a branquear. Era membro graduado da organização de Joseph Bonanno, de quem era parente afim — a irmã de Labruzzo, Fay, era casada com Joseph Bonanno e mãe de Bill Bonanno; além disso, Labruzzo estava ligado ao sobrinho de uma
maneira diferente do pai. Não havia entre os dois nenhuma tensão, nenhum
problema de competição, de ciúme. Labruzzo, que não era movido por uma
avassaladora ambição pessoal, nem era impetuoso como Joseph Bonanno ou
inquieto como o filho, contentava‑se com sua posição secundária no mundo,
que via como um lugar muito maior do que qualquer um dos dois Bonanno
parecia julgar que fosse.
Labruzzo tinha feito curso superior e se dedicara a várias ocupações, nenhuma
por muito tempo. Além de trabalhar para a ibm, administrara uma loja,
vendera apólices de seguro e fora agente funerário. Em certa época possuíra,
em sociedade com Joseph Bonanno, uma agência funerária no Brooklyn, per-
to do quarteirão onde nascera, no centro de um bairro em que milhares de
sicilianos haviam se instalado no começo do século. Fora ali que o velho Bonanno cortejara Fay Labruzzo, filha de um próspero açougueiro que fabricara vinho durante a Lei Seca. O açougueiro orgulhou‑se de ter Bonanno como genro, embora a data do casamento, em 1930, tivesse de ser adiada por treze meses devido a uma guerra entre centenas de sicilianos e outros italianos recém‑chegados — entre os quais Bonanno — que davam continuidade a desavenças provincianas, transplantadas para os Estados Unidos, mas que tinham origem longínqua nas antigas aldeias montanhesas que só haviam abandonado fisicamente. Esses homens trouxeram para Nova York suas velhas rixas e costumes, suas amizades, medos e suspeitas tradicionais, e não só se consumiam nessas coisas como as transmitiam aos filhos e, às vezes, aos filhos dos filhos. E entre tais herdeiros havia homens como Frank Labruzzo e Bill Bonanno, que, em meados dos anos 1960, uma época de foguetes e viagens espaciais, travavam ainda uma guerra feudal.

Aos dois homens parecia absurdo e extraordinário que nunca tivessem
conseguido escapar aos costumes estreitos do mundo de seus pais, tema que
haviam discutido durante as muitas horas de confinamento, analisando‑o em
geral em tons de brincadeira e despreocupação, embora às vezes com tristeza
e até amargura. “É, somos vendedores de rodas de carroças”, dissera Bonanno
uma vez, suspirando, e Labruzzo concordara: eram homens modernos, mas
perdidos no tempo, alimentando velhos rancores. Isso era estranho sobretudo
no caso de Bill Bonanno: deixara o Brooklyn ainda muito jovem para estudar
em internatos do Arizona, sendo criado fora da família, aprendendo a montar
a cavalo e a ferrar gado, saindo com moças louras, filhas de fazendeiros; mais
tarde, como estudante na Universidade do Arizona, comandara um pelotão de
cadetes do rotc que hasteava a bandeira americana a cada jogo de futebol,
antes da execução do hino nacional. O fato de ter subitamente trocado o ambiente universitário pelo precário mundo de seu pai em Nova York devia‑se a uma série de bizarras circunstâncias, talvez fora de seu controle, talvez não.

Um passo importante para isso fora decerto seu casamento, em 1956, com Rosalie Profaci, uma bela morena de olhos escuros, sobrinha de Joseph Profaci, o importador milionário que era também membro da comissão nacional da Máfia. Bill Bonanno conheceu Rosalie Profaci quando ela era ainda muito jovem
e estudava com a irmã numa escola conventual no estado de Nova York. Na-
quela época tinha uma namorada no Arizona, uma moça americana descontraída e um tanto rebelde; embora Rosalie fosse atraente, era também recatada e reservada. Os dois encontraram‑se muitas vezes, durante os meses de verão e nas férias, em grande parte por causa de seus pais, que eram amigos íntimos e cuja aprovação era expressada de maneiras sutis, sempre que Rosalie e Bill conversavam ou simplesmente sentavam‑se um perto do outro em salas
com muita gente. Numa grande reunião de família, meses antes do noivado,
Joseph Bonanno levou sua filha Catherine, de 21 anos, para um canto e lhe
perguntou o que pensava da possibilidade de Bill vir a se casar com Rosalie.
Catherine Bonanno, uma moça de espírito independente, pensou um momento
e respondeu que pessoalmente gostava muito de Rosalie, mas não julgava
que ela fosse a moça indicada para Bill. Faltava‑lhe a necessária firmeza
de caráter para aceitar Bill como ele era e poderia vir a ser, disse, e estava prestes a dizer mais alguma coisa quando, de repente, sentiu um forte tapa no
rosto. Caiu para trás atônita, perplexa, rompeu em lágrimas e saiu correndo.

Nunca vira o pai tão furioso, com os olhos fuzilando daquela maneira. Mais
tarde ele tentou consolá‑la, desculpar‑se a seu modo, mas ela se manteve distante durante dias, embora entendesse agora, como não tinha percebido antes, o desejo do pai de que o casamento se realizasse. Era um desejo compartilhado pelo pai e pelo tio de Rosalie. E se concretizaria no ano seguinte, um acontecimento que Catherine Bonanno sempre encararia como um casamento arranjado pelos pais.

A cerimônia, em 18 de agosto de 1956, foi espetacular. Mais de 3 mil convidados compareceram à recepção na sala de baile do Hotel Astor, em Nova
York, depois da cerimônia religiosa no Brooklyn, e nenhuma despesa foi poupada para abrilhantar a ocasião. Para o baile foram contratadas orquestras de fama e artistas como os Four Lads e Tony Bennett. Um distribuidor de bebidas do Brooklyn mandou de presente um caminhão de champanhe e vinho;
vieram da Califórnia, pela Pan American, milhares de margaridas, a flor predileta de Rosalie e que na época não havia em Nova York. Além de homens
de negócios convencionais, políticos e religiosos, a lista de convidados incluía
todos os chefes da contravenção. Lá estavam Vito Genovese e Frank Costello,
que pediram e receberam mesas discretas junto à parede. Lá estava Albert
Anastasia (que no ano seguinte seria assassinado na barbearia do Hotel Park-
-Sheraton), bem como Joseph Barbara, cuja recepção para quase setenta…

A arte do perfil

09/05/2011 às 10:50 | Publicado em perfis e biografias, Teoria sobre Narrativas em Jornalismo | Deixe um comentário

Ao mexer em arquivos antigos reencontrei um texto de 2008 sobre perfis escrito pelo Sérgio Vilas Boas. Aproveito, portanto, para postá-lo aqui, pois vale a pena lê-lo (quem ainda não o conhece) ou relê-lo (para quem já o havia visto e quer refrescar a memória).

Com um abraço,

Monica Martinez

A arte do perfil *
Sergio Vilas-Boas **

Um dos gêneros mais nobres do Jornalismo Literário, o perfil é um tipo de texto biográfico sobre uma – uma única – pessoa, famosa ou não, mas viva, de preferência. Texto biográfico não significa exatamente biografia, que é outro gênero. Nem tudo o que é biográfico é biografia, aliás. A biografia é uma composição superdetalhada de vários “textos” biográficos (facetas, episódios, convivas, pertences, legados, o feito, o não-feito etc.). Enquanto um biógrafo se detém em um extenso conjunto de inputs, o autor de um perfil se concentra em apenas alguns aspectos do personagem central.

O personagem central – assim é melhor que “perfilado” (palavra horrível) – é a razão de ser de um perfil. Se a individualidade fosse banida do mundo e os humanos não passassem de robôs programáveis, sem estilo nem identidade, o gênero perfil simplesmente não existiria. O perfil se atém à individualidade, mas não ao individualismo vulgar.

Embora andem colocando a palavra perfil antes de qualquer coisa por aí, o fato é que não existe perfil de cidade, perfil de bairro, perfil de um edifício, perfil de época. Sinto muito, mas perfil é de um ser humano. Cada ser humano tem um perfil, assim como cada perfil só pode ser sobre um ser humano – um sujeito singular que pode eventualmente estar vivendo em um edifício, num bairro, numa cidade e numa certa época.

O perfil tem grande relevância como produção jornalística, mesmo que meses ou anos depois da publicação do texto o personagem central tenha mudado suas opiniões, conceitos, atitudes e estilos de vida. Paciência. Não há por que sofrer com o fato de que até as convicções são mutantes. A durabilidade de um texto-perfil, na verdade, está na capacidade do autor de trabalhar bem as cristas e vales inerentes à trajetória humana.

Perfis têm aparecido ocasionalmente em periódicos (mas não apenas em periódicos) há mais de um século. Mas foi a partir da década de 1930 que jornais e revistas começaram a apostar mais neles. No início, os personagens mais retratados eram os olimpianos do mundo das artes, da política, dos esportes e dos negócios. Esperava-se que a matéria lançasse luzes sobre a fase atual, o comportamento, os valores, a visão de mundo e alguns episódios da vida da pessoa para que sua personalidade e atitudes pudessem ser compreendidas num contexto maior.

Com esse espírito, os perfis se tornaram marca registrada de revistas norte-americanas como The New Yorker, Esquire, Vanity Fair, Harper’s e Atlantic, entre outras. No Brasil, O Cruzeiro e Realidade também o valorizaram em suas épocas áureas. Acho interessantes em Realidade os textos de Luiz Fernando Mercadante sobre Oscar Niemeyer (jul./1967) e Francisco Matarazzo Sobrinho (out./1967);  e o do recém-falecido psicoterapeuta Roberto Freire sobre o jovem Roberto Carlos (nov./1968).

O time de bons autores de perfis é enorme. É o caso de você procurar algo de Lincoln Barnett, Joseph Mitchell, Janet Flanner, Lilian Ross, Calvin Trillin, Susan Orlean, David Remnick, John McPhee e muitos outros. Vários praticantes do New Journalism, período áureo do Jornalismo Literário, na década de 1960, honraram o gênero. Entre todos, o mais representativo é certamente Gay Talese, por sua segurança, delicadeza e versatilidade.

Talvez pelo espaço que até hoje tem reservado aos perfis, a New Yorker (fundada em 1925) ficou com o crédito de “principal difusora”. O grande passo da New Yorker nessa direção foi a contratação de Joseph Mitchell no final da década de 1930. Mitchell retratou estivadores, índios, operários, pescadores e agricultores. Está entre os maiores jornalistas literários de todos os tempos. Os dois textos que escreveu sobre o folclórico, boêmio e pirado Joe Gould são primorosos.

Lincoln Barnett, repórter da Life entre 1937 e 1946, é outro cara memorável. Barnett contribuiu muito para a consolidação do perfil como modalidade jornalística. Na única coletânea em livro que publicou – The World We Live In: Sixteen Close-Ups (1951) -, ele comenta por que e como escreveu alguns de seus principais textos. Segundo Barnett, o autor de perfis tem de se preocupar com “a transitoriedade dos atributos”, diferentemente de um biógrafo trabalhando com um morto.

Inspirado em Barnett e Mitchell, pergunto: quem merece um perfil? Antes de tentarmos responder, tome nota de algumas dicotomias muito em voga nestes tempos de culto patológico à celebrização fácil. Primeiro, a idéia de conhecido versus desconhecido. Mas, afinal, a pessoa é conhecida de quem? É anônima para quem? Segundo, o comum versus o incomum. Mais produtivo talvez seja você admitir que o comum e o incomum habitam toda e qualquer pessoa. Terceiro, o simples versus o complexo. Quem já conheceu uma pessoa não-complexa levante a mão!

E, por último, o rotineiro versus o mirabolante. Ah, eis o ponto: o problema de narrar não é do personagem, e sim do autor. Decisivo para que o narrar biográfico (perfil, no caso) seja bom ou ruim não é o personagem em si e sim a competência do autor em lidar com o personagem e com a narrativa. Escapismo dizer que o personagem é isso, aquilo, fraco, simples, comum; que a história dele/dela é boba, sem graça, igual. O problema de narrar com qualidade é sempre, sempre do autor. De ninguém mais.

Condição sine qua non em um perfil, portanto, é a interação do autor com o personagem, seja quem for. Você deve estar pensando: “Ah, mas o Gay Talese fez aquele antológico perfil do Frank Sinatra (Esquire, abril de 1966) sem falar com o Frank Sinatra”. Certo, certo. Mas considere que Talese queria muito falar com o Frank, e foi o Frank quem se recusou; no mais, cite, se for capaz, outro perfil (antológico) em que o autor não interagiu com o sujeito em foco.

Difícil, não? Talvez você encontre algum em um obituário, seção muito valorizada na imprensa anglo-saxônica. Mas as seções de obituários são (têm de ser) sobre mortos. Sobre um morto, tudo é possível. Já morreu mesmo. Sobre um vivo, não. E é exatamente aí (na vida presente) que reside a arte do perfil – arte no sentido de um fazer tal que quando faz, altera o fazer, pois não é uma fórmula.

Para fazer um bom perfil (aprendi isso com meus próprios erros) é preciso pesquisar, conversar, movimentar, observar e refletir. Você tem de pesquisar os contextos socioculturais da pessoa; conversar com ela e com os convivas dela; movimentar-se com ela por diversos locais, evitando o simples “de frente” (pingue-pongue trivial transformado depois em texto corrido); tem de observar as linguagens verbais e não-verbais da pessoa; e examinar com carinho as reflexões que ela lhe oferece sobre o passado, mas também, e principalmente, sobre a fase atual.

Autores que ficam paradões diante do personagem só fazendo “perguntas intelectuais às vezes irrespondíveis” talvez devam reavaliar seus métodos. Os perfis só podem elucidar, indagar, apreciar a vida num dado instante, e são mais atraentes quando atiçam em nós reflexões sobre aspectos universais da existência, como vitória, derrota, expectativa, frustração, amizade, solidariedade, coragem, perda, separação etc.

Os perfis cumprem um papel importante que é exatamente gerar empatias no leitor. Empatia é a preocupação com a experiência do outro, a tendência a tentar sentir o que sentiria se estivesse nas mesmas situações e circunstâncias do outro; compartilhar as alegrias e tristezas do outro; imaginar as situações do ponto de vista do outro. Acredito que a escrita do perfil também pode levar ao autoconhecimento do próprio autor, e não apenas do leitor.

O Brasil está engatinhando em termos de Jornalismo Literário. E a maioria das produções do tipo perfil, aqui, ainda é meio rasa. Mas bons sinais já podem ser captados na revista Piauí, como nos ótimos textos produzidos por João Moreira Salles sobre o ex-presidente FHC (nº 11) e sobre o jornalista futebolístico Paulo Vinícius Coelho, o PVC (nº 17). A recém-lançada Brasileiros ainda patina, mas investe bem, e em breve saltará do perfil basicão para o perfil rico, ao estilo JL.

Outro bom ateliê de perfis é coordenado pela Academia Brasileira do Jornalismo Literário (ABJL), ONG da qual sou co-fundador. A maioria das produções de nossos alunos estão disponíveis no textovivo.com.br. Outras estão no livro Jornalistas Literários (Summus, 2007), que organizei. Não é uma coletânea só de perfis, mas, entre os incluídos, destaco dois encantadores: Marcos Faerman (falecido jornalista literário) por Isabel Vieira e Marino Streck (pescador do litoral catarinense) por Manuela Colla.

Quando prima pela humanização, com tudo o que isso implica, o texto-perfil é irresistível. Humanizar não é um mistério, não. O primeiro passo para humanizar é evitar pensamentos binários do tipo “santo ou demônio”, “algoz ou vítima”, “melancólico ou eufórico”…

Em vez de formular hipóteses, entre no mundo da pessoa sem preconceitos; conheça-a em suas grandezas, fraquezas e rotinas; freqüente os lugares que ela freqüenta; capte sua visão de mundo e suas marcas de temperamento. Não fique preso a abstrações (dados curriculares, números, performances). Mais importante é o que os personagens e seus convivas exprimem de dentro para fora. Ops, importantíssimo: não idealize ninguém. As pessoas são o que são. E que assim sejam.

* Publicado na revista Especial Biblioteca EntreLivros / Literatura x Jornalismo, edição n.11, ago/2008.

* Escritor e professor; autor de “Perfis” e “Biografismo: Reflexões sobre as Escritas da Vida” (Editora Unesp, 2008), entre outros. Co-fundador da ABJL e editor do portal TextoVivo. Site-blog: http://www.sergiovilasboas.com.br.

Convite: 19 de março de 2011 a partir das 18h

15/04/2011 às 10:08 | Publicado em Criatividade, Livros | 1 Comentário

Férias

15/04/2011 às 10:02 | Publicado em Textos de alunos | Deixe um comentário

Homem:  Ah! Finalmente férias. Significa distância enorme do Projeto Acelera, inventado pelo meu maldito chefe na empresa…

Mulher:  Não se esqueça que é por causa dele que você tem férias.

Homem: Tá bom, ta bom… Esqueça o trabalho. Vamos fazer um check list. Não podemos esquecer passaportes, aliás, nenhum documento. E também os cartões de crédito. No mundo, com dinheiro e documento tudo se resolve.  O restante, damos um jeito.

Filha: Mãe!!! Vou levar o urso azul.

Mulher: Melhor não filha. Ocupa muito espaço, você se cansa e no fim sou eu que tenho que carregar.

Filha: Então não vou.

Choro da filha.

Mulher: Ta bom. Mas vai no seu colo.  Se perder  azar o seu.

Continua a mulher:

Benheee!!!!  Você pegou as passagens e as reservas?

Homem: Sim. Estão com o guia das cidades e também com as anotações de dicas dos amigos que já passaram férias lá. Sem dúvida teremos passeios e restaurantes bem interessantes para conhecer.

Vez do filho: Pai  !!!  Vou levar a espada do Jaspion.

Homem: Não pode filho. Vão confiscar no aeroporto.

Filho de novo: Mas o urso dela pode, não é? Sem a espada eu não vou.

Choro do filho.

Homem começa a ter saudades do chefe e vontade de participar do Projeto Acelera na empresa.

Homem prossegue:

Querida, já estamos atrasados. Pegue as malas de mão, as outras eu levo.

Filha repete: Mãe cadê o urso azul?

Filho repete: E a espada do Jaspion?

Mais choro.

Agora do pai e da mãe.

 Carlos Alexandre Farsura é aluno da 16ª. turma do curso de Redação Criativa ministrado pela professora Monica Martinez no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo.

Mapa do inferno

15/04/2011 às 9:51 | Publicado em Textos de alunos | Deixe um comentário

Olhei para o mapa de novo sob a fraca luz do painel do carro, estudando atentamente as linhas que desenhavam aquele labirinto de ruas. Logo me localizei. Acelerei devagar, tentando reconhecer as indicações marcadas no papel. Mas era inútil: definitivamente, o mapa não batia em nada com a realidade ao redor, e eu estava mais perdido do que cachorro em tiroteio (ou seria cego em dia de mudança?), de noite, no meio de uma cidade desconhecida, raspando os últimos litros de combustível do tanque, e paciência já esgotada.

 Sim, lá estava eu, mais uma vez deixado na mão por um mapa. Se eu tivesse que fazer uma lista com as dez coisas que mais me irritam neste mundo (e eu fiz!), com certeza constaria nela pessoas que não sabem desenhar mapas. Estaria logo abaixo do terceiro item da lista, “pessoas que usam toucas em dias quentes”, e acima de “dobradiças que rangem”.

 Nunca, nunca na vida me dei bem seguindo um mapa. Sempre falta uma ruazinha, uma viela secreta, ou a indicação de uma virada suave em algum lugar que desvia completamente o trajeto. Todos querem simplificar os mapas. Mapas, meu amigo, assim como receitas de bolo, não podem ser simplificados. Tire um item, e tudo estará perdido. Aquela ruazinha que você pensou que não faria falta levará o pobre do motorista ao desespero.

 Já passei apuros com diversos tipos de mapas, desde os mais simples, que pretendem te ajudar a chegar até a padaria da esquina, como os mais complexos, para atravessar de uma cidade a outra.

Certa vez, desenharam-me um mapa, sem brincadeira, com um traço, uma única linha atravessando a folha branca de ponta a ponta, perfeitamente desenhada com uma régua e tudo. Me animei. Deve ser fácil chegar ao lugar, é uma reta só. Pela primeira vez na vida não vou me perder de carro ao tentar chegar a um lugar desconhecido. Ledo engano, meu amigo. Aquela linha veio a ser, na verdade, um emaranhado de ruas, túneis, pontes, estradas de terra, pântanos e até uma travessia de balsa. Sim, o caminho era mais tortuoso que o autódromo de Interlagos, mas o sujeito achou por bem que uma linha daria conta do recado. Fui reclamar com o autor do mapa.

 – Você se perdeu? Mas o caminho é tão simples – disse o desgraçado.

– Simples? Fui parar no meio de uma tribo de índios no meio do Pico do Jaraguá! Eu nem sabia que havia índios em São Paulo! Índios, daqueles com cocar, arco e flecha e tanguinha.

– Ah, bem, é que estou tão acostumado com o caminho que pensei que era mais fácil.

 E lá estava eu. Tudo porque resolvi aproveitar as férias para visitar minha tia em Guaratinguetá, interior de SP. Nunca havia ido para o lugar. Para me ajudar, ela me mandou um mapa que mais parecia um retrato da nossa “presidenta” Dilma Rousseff de touca de banho. Assim que entrei na cidade, o primeiro problema: o mapa apontava que eu deveria pegar um viaduto, só não dizia que havia dois viadutos, um do lado do outro. Claro que meu senso de direção me fez pegar o caminho errado, e fui me afundando nas entranhas da cidade.

 Para minha sorte, finalmente avistei um rapaz, pedalando serelepe sua bicicleta com um bolo de feno entre os joelhos. Resolvi pedir informação. Fiz sinal de amizade e perguntei:

 – Por favor, meu bom cidadão. Preciso chegar na rua Ermelina Barata. O senhor sabe me dizer como diabos eu faço para chegar lá?

 Reproduzo a seguir a explicação do indivíduo, um exemplo de clareza, objetividade e concisão que levarei para toda vida, até que eu morra no bico de um pelicano assassino, conforme previu certa vez uma cigana.

 – O senhor faz seguinte: indo reto por essa estrada, o senhor vai ver uma bifurcação. Pega a da esquerda… Anda até passar uma fábrica de azulejo… Vira pras direita antes do riachim… Vai subir um tantim assim até virar pras esquerda antes de uma sequóia velha… Depois, entra duas direitas depois de uma padaria do lado de um orelhão quebrado… Anda uns mil metro… Aí o senhor sobe um morro, desce o morro, sobe outro morro, dá uma cambalhota e faz o contorno na rotatória onde tem uma vaca pastando… Aí o senhor vai ver uma ponte. Se o senhor cruzar a ponte, é porque errou. Então faz o seguinte, em vez de virar pras esquerda na bifurcação que eu te falei lá no começo, o senhor pega o caminho da direita, cai na estrada e anda uns quinhentos metro até chegar na rua Ermelina Barata. Facim, facim.

 Ouvi atentamente a explicação e, em vez de tentar chegar à casa de minha tia, decidi conferir se a ponte à qual ele se referiu era de madeira ou concreto. E foi assim que me perdi e virei um agricultor.

 Alexander Svelt é aluno da 16ª. turma do curso de Redação Criativa ministrado pela professora Monica Martinez no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo.

Meditação e a escrita criativa

11/04/2011 às 9:07 | Publicado em Escrita Criativa, Meditação | Deixe um comentário

Breve ou longa, uma sessão prévia de meditação pode ajudar o processo de escrita. Do ponto de vista neurológico, o que ocorre é o “desligamento” de certas áreas cerebrais e a ativação de outras.

Segundo o médico brasileiro Roberto Cardoso, autor de Medicina e Meditação, (Editora MG), há diminuição da ação do córtex pré-frontal, área responsável pelo planejamento e tomada de decisões.

O autor, ligado ao grupo de estudo de meditação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que há também redução de atividade do lobo parietal, responsável pelo senso de orientação espacial e temporal.

Outros estudos, como o desenvolvido por Andrew Newberg, professor do Departamento of Radiologia do Hospital da University of Pennsylvania, EUA, sugerem aumento da atividade do lobo frontal, associado à concentração e atenção. Os estudos do professor Newberg foram feitos com tomografias tomadas de monges budistas em profundo estado meditativo.

Veja abaixo a íntegra da entrevista dada sobre o assunto pelo médico brasileiro ao caderno Equilíbrio, da Folha de S. Paulo:

Por Monica Martinez

Música

08/04/2011 às 15:04 | Publicado em Textos de alunos | Deixe um comentário

Acho difícil observar parada, às vezes penso que presto mais atenção se estiver andando. Fiquei com um pouco de dor nas costas porque estava olhando em pé, escorada numa mureta, enquanto minhas amigas estavam sentadas. Ok, não sentei porque não quis. Tinha espaço.

Observei várias coisas e pessoas, e tive a mesma impressão que tenho todos os dias quando olho as pessoas na rua, nas estações ou pela janela do trabalho: que deve existir uma música “universal” tocando baixinho, mas tão baixinho, que ninguém pode escutar, apenas sentir, e, por isso, todos “dançam” em um compasso único, mesmo sem saber.

Digo isso porque observei um senhor fazendo entrega de bebidas. Olhava ele pegando os engradados de latinhas de Coca-Cola e preenchendo o carrinho, colocando os engradados em posições alternadas. Não deixava de imaginar como aquele senhor, que já deve trabalhar há muito tempo nessa função tão cansativa, não tinha tanta força para aquele trabalho, mas mesmo assim o fazia, empurrando o carrinho com as bebidas na direção do seu destino.  Talvez eu tenha tido a impressão de que ele era fraco porque usava óculos. É tão difícil ver pessoas fortes de óculos né? E olha que eu também uso e nem me acho tão fraca. Isso é culpa do Pernalonga[1].

Voltando à dança, achei estranho que ele saísse e deixasse o caminhãozinho com as portas traseiras abertas sem ninguém vigiando. Mas, na verdade, tinha muita gente olhando. Um segurança do estabelecimento estava ali perto. Bom, ficou só por alguns minutos, vestido com seu uniforme e segurando seu rádio. Saiu logo de perto. Talvez porque tenha visto tantas pessoas que achou que o lugar era seguro.

Depois de algum tempo que o senhor de óculos saiu, escutei o som das rodas do carrinho ao longe, vindo por algum caminho, que pelo som, devia ser de paralelepípedos. Sei lá.

Pensei como ele havia sido rápido. Mas aí vi que não era ele e sim outro rapaz, que me parecia menos fraco. Talvez porque não usasse óculos. E aí voltamos pra idéia da dança.

Eles seguiam o ritmo deles, de uma manhã de um sábado ensolarado.

Perto do caminhão onde eles buscavam as bebidas, outro homem, gordinho, acendeu seu cigarro, depois sentou, pegou um celular e viu que nós estávamos paradas, à toa, olhando. No mínimo, ficou se perguntando o que fazíamos olhando sem falar nada. Em algum lugar, notei que pessoas conversavam. Mas não as vi e só conseguia ouvir que falavam, sem entender o que, enquanto observava o ir e vir dos entregadores.

Enquanto isso, pessoas subiam e desciam a rua, preocupadas ou não com suas vidas, sem notar o que acontecia. Até que um rapaz de camiseta preta, oriental, subiu a rua com o olhar fixo na carroceria aberta daquele caminhão sem ninguém vigiando. Ele deve ter pensado o mesmo que eu: “que coragem deixar assim”. E esse pensamento é, com certeza, reflexo dos tempos atuais. Neura! Talvez esse seja um lugar mais seguro mesmo.

Por um instante me distrai pensando nisso, mas outro rapaz desceu correndo, foi até o lugar onde todos conversavam, e logo voltou correndo e sorrindo. Não sei o que fez ou foi fazer. Sei apenas que ele estava com um colete de lã. Que calor!

Mas aí, voltei a imaginar aquela coisa da música e da dança universal. Penso nisso todos os dias e penso como deve ser observar isso lá de cima, como se olhasse um mundo em miniatura.

Christiane Aguiar é aluna da 16ª. turma do curso de Redação Criativa ministrado pela professora Monica Martinez no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo.


[1] A autora faz referência a um desenho animado do coelho Pernalonga, no qual o personagem, ao usar óculos, faz suas artes sem apanhar no final.

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