Jogo dos 20 clichês

27/08/2009 às 11:31 | Publicado em Escrita Criativa | Deixe um comentário

Uma graça o texto de hoje feito pelo jornalista Ivan Finotti sobre o lançamento do livro O Pai dos Burros, no qual Humberto Werneck nos alerta sobre 4 500 lugares-comuns que todo jornalista e escritor deveria evitar. 

A missão era falar do lançamento. Mas, com muito bom humor, Finotti usa no próprio texto 20 frases feitas, começando com o “surrados clichês” do título. Fica o convite: encontre as frases e limpe seu texto na medida do possível de pragas como “subir para cima” , “descer para baixo” e “encarar de frente”, entre outras.

25/08/2009

08h36

Dicionário traz surrados clichês para todos os gostos

IVAN FINOTTI
da Folha de S.Paulo

É de tirar o chapéu. A faraônica obra “O Pai do Burros – Dicionário de Lugares-Comuns e Frases Feitas”, de Humberto Werneck, vai cair como uma bomba na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, onde o autor estará autografando hoje à noite.

O livro, ao qual não se consegue largar, traz 4.500 surrados clichês, divididos em 2.000 verbetes, reunidos nos últimos quarenta anos pelo combativo jornalista. Werneck não brinca em serviço. Sempre que ouvia uma pérola, anotava num guardanapo. Ou melhor: pérola não, mas uma “antipérola”, como ele prefere.

Sim, porque quem não vive da língua de Camões pode ficar até vivamente impressionado com as frases feitas. Os lugares-comuns travestem-se de sabedoria dos antigos e podem dar a impressão de que aquele indivíduo está fazendo bonito e falando difícil como um comendador. No fundo, porém, são apenas clichês que lhe saem da boca pra fora (é o caso clássico do jogador de futebol).

Werneck cita em seu prefácio uma ideia luminosa da socióloga e cientista política alemã Hannah Arendt: “Clichês, frases feitas, adesão a códigos de expressão e conduta convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de proteger-nos da realidade (…)”.

É curioso procurar as palavras que mais se prestam ao lugar-comum. Há, por exemplo, “tempo” (30 frases feitas no dicionário), “vida” (35; confira no quadro à esquerda) ou “mão”, com nada menos que 47 registros: mão na roda, meter a mão, de mãos abanando, com uma mão atrás e outra na frente, lavar as mãos e passar a mão.

Em resumo, os clichês são uma tragédia; o livro é um excelente manual de como não fazer um texto e o título “O Pai dos Burros” se revela uma injustiça clamorosa para com os dicionários.

O texto acima foi composto com 20 frases feitas tiradas do livro e, se o leitor não captou a brincadeira, é porque o tiro saiu pela culatra (21 frases, agora) e demos com os burros n’água (22)

O PAI DOS BURROS – DICIONÁRIO DE LUGARES-COMUNS E FRASES FEITAS
Autor: Humberto Werneck
Editora: Arquipélago
Quanto: R$ 29 (208 págs.)
Lançamento: hoje, às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/ 3170-4033)

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Pela volta dos textos e leituras surpreendentes

13/08/2009 às 11:28 | Publicado em Escrita Criativa | Deixe um comentário

Na segunda-feira, dia 10 de agosto de 2009, entre as matérias do The New York Times selecionadas e traduzidas para o português no encarte da Folha de S. Paulo, estava um interessante ensaio de Damon Darlin.

Darlin é editor de tecnologia do jornal e escreve de São Francisco. No ensaio “Em Busca de Boas Surpresas” ele diz que a “era digital está acabando com o ´serendipidy´– palavra inglesa que designa descobertas casuais e positivas”.

Para o jornalista, hoje em dia tudo o que precisamos chega a nós filtrado e examinado graças aos poderosos mecanismos de busca atuais. Aliás, em sua passagem pelo Brasil, o escritor estadunidense Gay Talese já chamava a atenção para o fenômeno. Para Talese, quando lemos uma edição na íntegra de um jornal, vemos o que gostamos e o que não estamos tão interessados assim. É nesse ponto que podem surgir histórias inéditas e interessantes.

Promover a serendipidade é vital para criar textos criativos e até para desfrutar de uma vida melhor. Aliás, a palavra serendipidade, como explica o mitólogo estadunidense Joseph Campbell em O Poder do Mito, provém de Serendipa, o nome pelo qual era conhecido o Sri Lanka. Numa história antiga passada naquele país, algumas pessoas saíam a passeio e se deparavam com vários episódios surpreendentes pelo caminho. Como se espera de uma boa narrativa.

Posts de Saramago

03/08/2009 às 8:51 | Publicado em Autores | Deixe um comentário

Como apreciadora de narrativas de viagem, não é por acaso que as duas obras que mais aprecio do escritor José Saramago sejam O Conto da Ilha Desconhecida e A Viagem do Elefante (ambos da Cia das Letras). Aliás, a palestra de lançamento deste livro recente do escritor, feita em São Paulo no Sesc Pinheiros, foi inesquecível.

Agora, motivada pelo lançamento pela mesma editora de O Caderno: textos escritos para o blog, setembro de 2008 a março de 2009, tenho prestado mais atenção ao diário virtual do escritor.

Antes de mais nada, vale a pena a leitura do livro. Mesmo com o surgimento do rádio, do cinema, da televisão e finalmente da internet, não há nada que se compare a desfrutar a leitura de um bom livro.

Mas também é uma delícia ter a possibilidade de ler um texto fresquinho como o que Saramago escreveu sobre o colombiano Gabriel García Márques em 3 de agosto, no qual cria duas categorias de escritores. Os que abrem novos caminhos na literatura e os que seguem as trilhas abertas.

Segue um trechinho:

Gabriel García Márquez usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado “realismo mágico” por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem anos de solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de cinquenta páginas. Necssitava pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de orientar-me nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu.

Não é um charme ler um original de Saramago ainda com um pequenino erro de digitação? (Necssitava, faltando um e). Para apreciá-lo na íntegra, acesse http://caderno.josesaramago.org

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