Capa sobre criatividade da revista Época

09/08/2010 às 9:09 | Publicado em Criatividade | 1 Comentário
Capa da revista Época de 2 de agosto de 2010 – edição 637 p. 90 a 96
30/07/2010 19:38
Procuram-se criativos
A criatividade se tornou a qualidade mais desejada no mercado de trabalho. O que fazer para aumentar a sua
Francine Lima, Nelito Fernandes e Anna Carolina Lementy

Lembre-se da última boa ideia que lhe ocorreu. Ela pareceu vir do nada, durante o banho? Você deixou que ela escorresse pelo ralo e não pensou mais nela? Ou anotou, contou aos amigos e imaginou como aplicá-la em sua vida? Se você é alguém que tem ideias originais, do tipo que assustam um pouco sua família, e gosta de tentar colocá-las em prática, chegou sua hora: esses pensamentos borbulhando em sua cachola podem valer um emprego novo, um aumento ou mais negócios. Se você não se acha dos mais criativos, ânimo. Nas próximas páginas, vamos lhe dar boas razões para acender as lâmpadas aí dentro e mostrar como fazer isso. O motivo vem de pesquisas recentes feitas com os maiores contratadores do mundo.

 Uma dessas pesquisas, feita pela prestadora de serviços tecnológicos IBM com os principais executivos de 1.500 empresas, de vários países, revelou que eles consideram a criatividade o fator crucial para o sucesso atualmente. Para que suas empresas consigam driblar as dificuldades e aproveitar as oportunidades, precisam de gente com ideias novas. Outra pesquisa, feita pela consultoria de administração de pessoal Korn/Ferry, com 365 dirigentes de grandes empresas só na América Latina, chegou à mesma conclusão: a habilidade de criar o novo e o diferente é a mais desejada por mais da metade dos dirigentes (56%). Ficou à frente de capacidades fundamentais, como saber tomar decisões complexas e conduzir equipes rumo a resultados. A essa altura, seria razoável perguntar por que as companhias simplesmente não treinam seus funcionários e fornecedores para ser mais criativos ou não saem por aí oferecendo aos criativos mais dinheiro. A resposta: elas tentam, mas chegaram à conclusão de que treinar ou encontrar gente criativa não é tão simples.

 Os dirigentes entrevistados pela Korn/Ferry consideram a criatividade a habilidade mais rara de encontrar e também a mais dura de ensinar dentro dos ambientes de trabalho tradicionais (embora seja possível aumentar essa capacidade com o ambiente e os métodos certos, como veremos adiante). Além disso, há indícios de que as pessoas altamente criativas estejam ficando mais raras. Uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que, ao contrário dos quocientes populacionais de inteligência (Q.I.), que crescem a cada geração, a criatividade vem caindo. O fenômeno foi observado pelo pesquisador Kyung Hee Kim, do College of William & Mary (uma importante universidade pública nos EUA). Ele avaliou testes de criatividade feitos desde 1958 e aplicou um deles há dois meses a 300 mil americanos, adultos e crianças. Segundo o cientista, as notas vinham subindo até 1990. De lá para cá caíram, especialmente entre crianças pequenas.

 Ser criativo não é só ter ideias originais – é pensar em como torná-las realidade

Se você acha que já tem o perfil ou quer passar a se encaixar nele, ainda há um ponto que precisa saber antes de começar a ajeitar o currículo. “Criar”, tanto para os altos executivos entrevistados quanto para os cientistas que estudam o funcionamento do cérebro, é um conceito mais profundo do que “ter ideias diferentes”. Está mais para “ter ideias diferentes e utilizáveis, e ter o impulso de realizá-las”. “Criativo”, por essa visão, não é aquele sujeito maluquinho, cheio de pensamentos vibrantes e caóticos, mas pouco prático. O verdadeiro criativo trabalha. Ele pensa em como implementar as ideias e conhece os limites do mundo real, como escassez de material, dinheiro ou tempo – mesmo que seja para chutá-los para o alto.

 Outras qualidades profissionais seguem em alta: ética, comunicação fluida, capacidade de análise, poder de inspirar equipes. Por que a criatividade se tornou mais desejada que todas? Nos países ricos, há o cenário do momento: uma crise que ameaça destruir as empresas menos espertas e pouco flexíveis. Pensando no planeta, incluindo o Brasil, sabemos que o mundo ficou, a um só tempo, menos previsível para quem vende e mais generoso para quem compra. Há abundância de oferta de produtos e serviços, que tendem a se tornar mais baratos. Mais empresas competem com maior eficiência por consumidores mais exigentes. As companhias precisam cortar custos e oferecer novidades de forma acelerada. O jeito velho de trabalhar não produz novidades na velocidade desejada. Vai se destacar quem conseguir criar mais e criar bem.

 Um exemplo é a arquiteta Sarah Torquato, mineira de 25 anos. Em quatro anos, ela passou de estagiária a coordenadora de lançamentos na construtora MRV. Desde que começou a estagiar, Sarah depositou no banco de ideias da empresa 40 sugestões de como substituir materiais de construção por alternativas mais baratas, das quais 15 foram adotadas. Ninguém contribuiu tanto. Suas recompensas pelas ideias chegaram a R$ 40 mil, dinheiro com que deu entrada num apartamento aos 24 anos. Como uma pessoa tão jovem pode ser tão produtiva? Sarah diz que muitas vezes acordava de madrugada com uma inspiração, anotava a ideia num caderninho e voltava a dormir (leia dicas para aumentar a criatividade). “Fico ligada em tudo, o tempo todo”, diz. Alguns amigos a criticaram pela quantidade de sugestões. “Muita gente dizia: pare de dar ideias, a MRV já está rica.” A empresa diz ter distribuído R$ 1 milhão em prêmios para os funcionários por ideias que lhe economizaram R$ 80 milhões. Há ingredientes parecidos nas histórias do engenheiro químico Marcos Aurélio Detilio, que ofereceu sugestões de economia de energia aos clientes da empresa de engenharia e tecnologia Chemtech, em que trabalha, e conseguiu três promoções em quatro anos; ou de Arnaldo Gunzi, de 31 anos, que adaptou modelos matemáticos para melhorar o deslocamento de técnicos de telefonia no Recife e ganhou a oportunidade de trabalhar na Austrália; ou da chefe de cozinha Carole Crema, de 37 anos, uma das responsáveis por iniciar no Brasil a moda dos cup cakes, os bolinhos confeitados feitos em formas individuais. Criatividade é essa capacidade de ver possibilidades que os outros não enxergam e contribuir com algo original e útil.

 CAMINHO NOVO
O empresário e DJ Renato Ratier em sua casa noturna, a D-Edge, em São Paulo. Se seguisse o roteiro familiar, ele seria pecuarista

 PRÊMIOS DA EMPRESA
A arquiteta Sarah Goulart numa obra em Belo Horizonte. Ela acordava no meio da noite com ideias novas, anotava e voltava a dormir

Embora prezem tanto a criatividade, a maioria das empresas não a apoia. “Muitas, infelizmente, cerceiam a criatividade”, diz Marco Antônio Lampoglia, diretor da consultoria Active Educação e Desenvolvimento Humano. A estratégia mais usada é a dos brainstormings, reuniões em que a equipe joga ideias à vontade. Em geral são mal conduzidos e não trazem bons resultados. Segundo Sofia Esteves, psicóloga e presidente da DMRH, consultoria de recursos humanos, o profissional criativo tende a se afastar de ambientes conservadores. Ele quer mais participação em vez de só cumprir ordens. Ainda que a empresa não esteja de todo preparada para o profissional criativo, ele tem mais chances de brilhar.

 Há dois movimentos cruciais para o modo de pensar criativo: a divergência – ampliar perspectivas, fazer associações diferentes, recorrer a conceitos novos – e a convergência – o foco nas aplicações práticas das novidades (leia o quadro abaixo). Os menos criativos recorrem a respostas conhecidas. Os mais criativos ousam com respostas alternativas, nem sempre bem-vistas. A mente criativa enxerga similaridades onde os outros só veem diferença. A boa notícia é que é possível mudar nosso padrão de pensamento. Algumas formas de soltar a criatividade: buscar analogias, deixar que a mente se perca em pensamentos e procurar novas experiências.

 Estudar sempre ajuda, pois amplia o repertório de informações que você pode recombinar. “A criatividade tem menos a ver com um dom e mais com a forma como você absorve as informações e as conecta”, diz o publicitário formado em história Flávio Cordeiro, sócio-proprietário da Binder Visão Estratégica, no Rio de Janeiro. Quem observa um criativo em atividade fica tentado a tratar essa habilidade genericamente como inteligência. Mas há diferenças.

 O teste de Q.I., Quociente Intelectual, mede habilidades mentais ligadas ao raciocínio lógico, à habilidade com cálculos e à visão espacial. É pouco útil para medir a criatividade. Uma pessoa com Q.I. acima de 100 (a média) pode ser espertíssima e não ser muito criativa. No livro Fora de série – Outliers (editora Sextante, 2008), Malcolm Gladwell relata que Poole e Florance, dois estudantes do ensino médio na Inglaterra, ambos com alto Q.I., tiveram resultados muito diferentes num teste de divergência, um dos mais comumente usados para medir criatividade. O teste consistia em listar a maior quantidade de usos que imaginassem para um tijolo. Poole descreveu cinco funções, algumas bem-humoradas, como “para segurar o cobertor no lugar, coloque um tijolo em cada canto da cama”. Florence ficou com “construir coisas” e “lançar”. Demonstrou capacidade de dar respostas rápidas, mas convencionais. Em situações complexas, sem respostas conhecidas, gente como Poole tende a levar vantagem.

 Isso não significa que criatividade e raciocínio lógico caminhem separados. “Quando o Q.I. é alto, normalmente também é alto o quociente de criatividade”, diz a Ph.D. em psicopatologia experimental Shelley Carson, da Universidade Harvard. Especializada na relação entre criatividade e saúde mental, ela ajudou a formular o teste mais difundido hoje para medir criatividade entre profissionais de alto desempenho, como cientistas e artistas premiados.

 Também varia de pessoa para pessoa o jeito de criar. Um modelo de avaliação criado nos anos 90 por pesquisadores liderados pela psicóloga Ruth Richards, da Universidade Saybrook, nos Estados Unidos, atribui notas de 0 a 5 à atividade criativa no trabalho. A nota máxima vai para o inventor que tem ótimas ideias e não sossega enquanto não as realiza. No nível um pouco abaixo, há os que têm muitas ideias, mas menos energia para implantá-las, e há os que têm poucas ideias, mas muita disposição e capacidade de persegui-las.

 O potencial criativo também pode ser favorecido pelo ambiente. Às vezes é preciso mudar de ares, como fez Renato Ratier, filho de fazendeiros de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. A família de Ratier imaginava que ele trabalharia no agronegócio. Ele chegou a cursar zootecnia, Direito e administração, mas não se sentia realizado. Numa viagem à Califórnia, encantou-se com a riqueza cultural e decidiu estudar design lá. Na volta, abriu vários negócios, entre eles uma casa noturna em que tocava música eletrônica em vez de sertaneja. Ratier hoje se divide entre Campo Grande (onde moram sua mulher e os filhos) e São Paulo, para onde levou a D-Edge, considerada um dos clubes noturnos mais badalados do mundo. Ratier poderia ter seguido no agronegócio, mas evitou um bloqueio clássico à originalidade, que é a tentativa de se encaixar no que é socialmente adequado. “Nós censuramos nossos pensamentos. Os ‘maus pensamentos’ nem sequer vêm para a mente consciente”, diz Shelley Carson. Com essa censura, deixamos de acessar ideias originais. Para reverter esse processo danoso, ela sugere “desligar” algumas partes censoras do cérebro. Numa pesquisa de 2004, Shelley mostrou que existe uma correlação forte entre alto Q.I. (20% a 30% acima da média), baixa inibição latente (filtragem de estímulos, saber escolher quais informações devemos levar em conta ou ignorar) e alta criatividade.

 ESTUDO, SEMPRE
O publicitário Flávio Cordeiro em sua agência, no Rio. Ele se formou em história e duvida que criatividade seja um “dom”

Essa pesquisa ajuda a entender uma descoberta recente. Em maio, pesquisadores da Universidade Karolinska, na Suécia, encontraram semelhanças no funcionamento do cérebro de pessoas criativas e no de pessoas esquizofrênicas ou que tenham histórico de esquizofrenia na família. Uma das características do esquizofrênico é a falta de inibição latente – ele tem dificuldade de distinguir entre o que pensa e o que ouve e costuma fazer associações bizarras entre assuntos que a maioria não relaciona.

 No livro Seu cérebro criativo, com lançamento previsto no Brasil para 2011, Shelley descreve sete estados cerebrais que, segundo ela, favorecem pensamentos originais. Entre eles estão o estado de conexão (um tipo de “atenção desfocada” após o estudo de temas complexos, que facilita conectar conceitos díspares), o de visualização (que aproveita imagens, metáforas e pensamento não verbal para identificar padrões) e o de fluxo (em que o pensamento avança numa tarefa criativa, sem interrupção, como um músico improvisando). “Novas descobertas da ciência sugerem que, com treinamento, podemos manipular a ativação de padrões cerebrais e formar novas conexões”, diz.

 A ciência do cérebro tem evoluído muito desde que a tecnologia permitiu monitorar nossa atividade mental. Cientistas da Rede de Pesquisa da Mente, em Albuquerque, Novo México, nos EUA, estão mapeando o cérebro para saber que impulsos bioquímicos e reações físicas ocorrem durante atividades criativas. O estudo, com 65 pessoas até o momento, sugere que a criatividade perfaz caminhos tortuosos. “Quando se trata da inteligência, o cérebro parece uma rodovia que nos leva do ponto A ao ponto B”, diz Rex Jung, professor assistente do departamento de neurocirurgia da Rede. “Nas regiões do cérebro relacionadas à criatividade, parece haver várias rotas alternativas com desvios interessantes e retornos.” Já se sabe que sonhar acordado regularmente facilita o processo criativo para todo mundo.

 O criativo deixa a mente viajar com o mínimo possível de censura, até que várias ideias boas tenham surgido, para só então verificar sua viabilidade. “Para a criatividade, você precisa que sua mente divague”, afirma Jonathan Schooler, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara. “Mas também precisa ser capaz de perceber que está divagando e capturar a ideia quando ela aparece. O criativo passa do pensamento divergente para o convergente, liberta-se para depois se enquadrar.” Isso é completamente diferente de ser espontâneo, amalucado ou relapso. “Criatividade sem disciplina é um barco sem leme”, diz o escritor Paulo Coelho, que capturou milhões de fãs no mundo com sua mistura de autoajuda e misticismo. “O vento é a criatividade. Você vai manejando a vela.” Além de dedicação, diz o escritor, criar também depende de uma disposição para o risco e para se expor à rejeição. “Você tem de sair de sua zona de conforto. Ser criativo não significa que você vai ser bem-sucedido. O criativo é criticado porque ele faz diferente, e muitas vezes é ridicularizado”, diz Coelho.

 A coragem de abraçar o ridículo pode ser uma arma criativa. Naturalmente desastrada, Daniella Giusti Adnet vivia fazendo troça de si mesma diante da família. Tornou-se a humorista Dani Calabresa. As risadas que ouvia inspiraram o desejo de se profissionalizar. Mas até criar com desenvoltura diante da plateia, em shows ao vivo lotados e na MTV, ela passou muito tempo sentada, escrevendo textos e pensando em personagens. “Hoje, chego ao palco, jogo uns assuntos e vou enlouquecendo com a plateia. Essa é a parte mais gostosa: arriscar sem medo”, diz. Expor-se e improvisar num palco não é para quem se sente preso às convenções. “Muitas mulheres não têm coragem de largar a vaidade e se expor ao ridículo, coisa que eu adoro fazer.”

 Não é só nos palcos (ou nas empresas) que a criatividade ajuda a ter sucesso. Sem ela, a espécie humana não teria dominado a linguagem – a capacidade de criar e manipular símbolos. Nesse sentido, não existe ser humano que não seja criativo. Mas, dados os desafios da vida moderna – relacionar-se com pessoas muito diferentes entre si, deparar com problemas inesperados na educação dos filhos, seduzir a pessoa amada –, é natural que o prêmio aos mais criativos seja maior. Como afirma James Kaufman, diretor do Instituto de Pesquisa do Aprendizado na Universidade do Estado da Califórnia: “Os criativos tendem a ser mais felizes”.

Link: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI159267-15228,00-PROCURAMSE+CRIATIVOS.html

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Profissão Herdeiro

02/08/2010 às 10:15 | Publicado em Autores | Deixe um comentário

Vale a pena conferir a matéria da Revista Época sobre a questão dos herdeiros e o mercado editorial:

16/07/2010 17:42
Profissão: herdeiro
Por que as famílias de escritores se ocupam em dificultar o legado de obras como as de Oswald e Graciliano
Norma Couri

Famílias, eu vos detesto. A antologia que acaba de sair na França com esse título é uma coleção de casos vividos por Emmanuel Pierrat, especialista em propriedade intelectual. O que pode ser pior para um fã de Jorge Luis Borges do que não encontrar suas obras pela coleção Pléiade porque a reedição foi bloqueada pela viúva do autor, Maria Kodama? E a frustração dos leitores de Jean Giono que não poderão ler as 3 mil páginas de sua correspondência com a amante Blanche Meyer, proibida pelos sucessores? 

Freud já estudava as lutas familiares depois da morte do pai e o impulso de retomar o lugar vago. Não acontece apenas no terreno psíquico nem só na França. O bibliófilo José Mindlin dizia que familiares de escritores deviam ostentar no cartão de visita a profissão “herdeiro”. Não é justo colocar no papel do carrasco apenas as famílias. O próprio Pierrat reconhece que editoras são especialistas em ultrapassar limites. Na guerra travada por trás das estantes, o leitor nem desconfia por que esse ou aquele autor evaporou-se de repente. 

Agora que Pagu revive com uma fotobiografia e exposição na Casa das Rosas, em São Paulo, um lado da família cuida de não respingar na mítica avó nenhum petardo da batalha travada pelos herdeiros do ex-marido de Patrícia Galvão, Oswald de Andrade. Filho dos dois, Rudá de Andrade morreu em janeiro de 2008 como inventariante, mas Marília, filha de Oswald com sua última mulher, Antonieta, disse a ÉPOCA que agora ocupa essa função. Marília exige 75% dos direitos autorais e de publicação, porque assume os 50% da mãe, que se suicidou, e os 25% do único irmão, Paulo Marcos, morto num desastre. Dos muitos casamentos de Oswald nasceram quatro filhos: os dois de Antonieta, o primogênito, Nonê, casado com Adelaide, ainda viva, e Rudá, casado algumas vezes, com três herdeiros. A obra do genial Oswald passa por esse intrincado labirinto familiar, já que a viúva de Rudá, Halina Kocubej, e seu filho Rudazinho foram surpreendidos com um testamento de Oswald encontrado por Marília legando 50% dos direitos a sua mãe. 

“Minha tia derrubou um triunvirato de 40 anos – meu pai, Adelaide e ela dividiam tudo”, diz Rudazinho. “Meu pai reviveu Oswald na Editora Globo na década de 1990. Mas agora meus irmãos Gilda e Cláudio, de seu primeiro casamento, estão ao lado da minha tia, contra mim e minha mãe. Não nos falamos, os contratos ficam truncados, implicam até com o inventário da Pagu. As obras vão sumir, a gente não pode deixar que aconteça com Oswald o que aconteceu com Graciliano e Lobato.” 

Por mais de 60 anos, um impasse judicial impediu novas edições das obras de Monteiro Lobato

A pesquisadora Maria Eugênia Boaventura, autora da bela biografia de Oswald, O salão e a selva, lastima a remexida num inventário que não fechou. “Desde a morte de Oswald se sucedem gerações de filhos de várias mulheres que não se entendem e pouco conviveram com ele – em 1954, Marília tinha 8 anos”, diz. “Só se reedita o que constava no contrato. A biografia do Oswald seria inviável hoje.” 

Graciliano morreu um ano antes de Oswald. A família em pé de guerra levou mais de 50 anos para fechar o inventário. Os filhos da herdeira Heloísa, Clara e Ricardo, brigavam entre si e não se entendiam com a mãe e a irmã mais velha, Luiza, casada com James, irmão de Jorge Amado. Clara e Ricardo morreram em 1992 sem se falar. A inventariante passou a ser a filha de Clara, a psiquiatra Luciana Ramos, hoje com 54 anos. 

“A família se desagregou quando eu tinha 10 anos. Quando fiz 18, minha mãe rompeu com a mãe dela, minha avó Heloísa, viúva de Graciliano. Uns ficaram de um lado, outros partiram para a briga, e eu lutei para criar um instituto em que todo mundo opinasse, mas não deu certo”, diz Luciana Ramos. “Vovô tinha filhos do primeiro casamento que eram desprezados pela vovó, a segunda mulher. Quando tomei pé da situação, discordei dos pagamentos da Record. Foi muita disputa, até tia Luiza fazer uma sociedade. Fui a única que não entrou, a editora tem de me pedir permissão para tudo. Havia interesse de estrangeiros em filmar a obra do vovô e um projeto de memorial pelo Niemeyer. A confusão familiar impediu contratos importantes. A briga é para ser a encarnação do vovô na Terra.” 

Marília de Andrade
A filha de Oswald de Andrade exige 75% dos direitos autorais das obras do pai. A descoberta de um testamento gerou uma disputa entre os herdeiros

Luiza Ramos Amado
Única filha de Graciliano Ramos, gere uma empresa com 14 membros criada para administrar os direitos da obra do pai

O ponto final das disputas foi a empresa HG (Herdeiros de Graciliano), com 14 membros, gerida de Salvador por Luiza Amado, de 78 anos, única filha viva, e Ricardo, filho do irmão que morreu. Ela sempre contestou a acusação da irmã Clara de que Ricardo teria publicado o original errado de Memórias do cárcere, já que Graciliano revisava seus textos à mão na mesa cativa da Livraria José Olympio. Clara publicou um livro, Cadeia, contestando a edição póstuma, e desuniu mais a família. Bastava ler o próprio Graciliano para aceitar os múltiplos originais encontrados depois de sua morte. Numa entrevista concedida em 1948 ele explicava: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”. 

Luiza diz que a origem da acusação de Clara era um suposto recado do Partido Comunista para Graciliano alterar o livro: “Se o PCB pediu, garanto que papai nunca obedeceu. Usamos o último original revisado. Os livros já saem pela Record há mais de 30 anos, e refiz o contrato por mais dez, porque assim posso controlar as edições e cuidar de que não falte livro nas prateleiras”. 

Em 2023, os livros de Graciliano cairão em domínio público. A lei determina que a família detenha os direitos por 70 anos depois da morte. Até lá, a editora é a Record. “A Record tem casos de sucesso em herança literária”, e a fórmula, segundo o editor Sérgio Machado, é: “Não entramos no mérito das disputas familiares”. Ele afirma que um bom herdeiro deveria fazer tudo para não desvalorizar o patrimônio, como um prédio mal administrado que só traz prejuízo: “Herdeiro tem complexo de culpa original por receber um dinheiro que não foi ganho por ele. Até o neto da Agatha Christie me disse que pretendia posicionar a avó melhor no mercado com um logotipo feito por ele… Claro que uns herdeiros são gerenciáveis e outros vão ao limite da inviabilidade”. 

Machado afirma que o editor é um psicólogo de plantão. “Até para avisar que o troca-troca de editora desgasta o autor”, diz. Uma vez Paulo Coelho avisou que trocou de editora porque recebeu “um sinal”, simbolizando o além, e Machado, se fazendo de desentendido, perguntou: “Um sinal de quanto?”. Mas há situações em que a troca é necessária, quando um editor adota uma política suicida e mata o autor junto. “É o caso do Monteiro Lobato, que perdeu duas gerações de leitores”, diz. 

Se o pesquisador Vladimir Sachetta não tivesse publicado em 1997 a excelente biografia Furacão na Botocúndia, seriam mais de quatro gerações sem conhecer Lobato. O contrato foi fechado pelo próprio Lobato com a editora Brasiliense três anos antes de sua morte, em 1948, quando a obra completa foi publicada. Depois, nunca mais. A disputa entre a editora e a única neta viva, Joyce, junto com o marido, Jorge Kornbluh, sacrificou Lobato com arrestos de edições inteiras publicadas sem o consentimento de herdeiros e discordâncias sobre que ortografia adotar: a dos anos 40 ou a nova ortografia? Em 2007, mais de 60 anos depois, a família conseguiu levar a obra para a Editora Globo (a mesma que edita ÉPOCA). Da confusão, Danda Prado, editora da Brasiliense, limita-se a dizer: “Herdeiros são muito complicados”. O editor da Globo hoje, Mauro Palermo, lastima que durante dez anos Lobato tenha sumido do mapa, “até de edições do tipo que reunia os 100 melhores”. 

Eduardo Tess Filho
Neto de Aracy, segunda mulher de Guimarães Rosa, chama o escritor de “vovô Joãozinho”. Rosa legou a Aracy os direitos de Grande sertão: veredas

“Depois que passou para a Globo, Lobato foi reoxigenado”, diz Sachetta, o maior conhecedor das obras. “No ano seguinte, Il presidente Nero saiu na Itália pela Controlucce, e a Argentina acaba de lançar Las travessuras de Naricita, com prefácio de Cristina Kirchner, que agradece a ‘Naricita y Perucho, a Emilia y el Visconde, a Anastásia y doña Benita’ por alimentar seus sonhos e utopias.” Prova de que valeu a pena a aposta da então editora de livros infantis da Globo, Lúcia Machado. Ela trabalhou para lançar de uma vez cinco títulos na Bienal. “Foi risco calculado porque o contrato ainda vingava na Brasiliense”, diz Lúcia. “Quadrinizamos alguma coisa, arrumamos outras, em menos de dois anos tínhamos vendido 2 milhões de livros.”Ainda faltavam 14 anos para a obra de Monteiro Lobato cair em domínio público, e essa era a preocupação dos herdeiros. “Tínhamos de deixar a obra arrumada”, diz Kornbluh. 

“Não chegaremos a saber nada da nossa própria morte”, dizia José Saramago. Quando Guimarães Rosa morreu, em 1967, não imaginava que sua obra seria gerida por alguém que não tem seu sangue, embora carregue um bom quinhão da mulher que ele mais amou. Eduardo Tess Filho é neto de Aracy Guimarães Rosa, segunda mulher com quem se casou enquanto era embaixador em Hamburgo. Foi para “Ara” que ele deixou os direitos de sua obra mais conhecida, Grande sertão: veredas. Os direitos de livros como Sagarana e Corpo de baile são divididos entre Aracy, hoje com 102 anos, e as filhas do primeiro casamento, Vilma e Agnès. “A operação não foi simples,” diz o advogado Tess, que chama Rosa de “vovô Joãozinho”. “O inventário durou 15 anos com idas e vindas. Para fechar, vovó abriu mão de uma parte e formamos um condomínio para a obra não sofrer descontinuidade.” 

Vilma Guimarães Rosa torce o nariz. “O ‘neto’ cria problemas, eu não surrupiei os diários de guerra do meu pai… Ele diz que pedi emprestado à avó dele e nunca devolvi. Mentira, papai me deu no meu aniversário, e um dia pretendo publicar as 208 páginas…” A disputa mantém os originais arquivados. Vilma insiste: “Não somos nós, eu e minha irmã, Agnès, as donas do nome e da imagem de Guimarães Rosa?”. Na antologia dos 100 melhores da Objetiva, Rosa também ficou de fora. O “condomínio” ou parte dele teria exigido R$ 20 mil pela publicação de um conto, o total que os outros 99 autores receberiam da editora. Quem perde é o leitor. 

Joyce Lobato
Filha de Monteiro Lobato. Uma briga com a editora Brasiliense impediu por 60 anos a publicação das obras de seu pai

Cecília Meireles anda desaparecida porque um dos netos, Alexandre Carlos Teixeira, quer trocar a Ediouro por outra editora e reviver a autora nas estantes. Quer transformar em instituto a casa com 10 mil livros onde ela morreu, no Cosme Velho, em 1964. Filho de Maria Mathilde, sobrinho de Maria Elvira, ele vive em litígio com a única filha viva de Cecília, a atriz Maria Fernanda. “Qualquer editora daria tudo para publicar Romanceiro da Inconfidência, Ou isto ou aquilo, mas morre de medo quando vislumbra uma briga familiar”, diz Teixeira. A guerrilha não transparece no exemplar publicado por Teixeira na editora Moderna, As três Marias, com a correspondência trocada da Europa por Cecília e as filhas Maria Elvira Strang, Maria Mathilde Teixeira e Maria Fernanda. Antes de morrer, Maria Mathilde legou ao sobrinho Ricardo Strang, filho da irmã (também morta) Maria Elvira, a parte que lhe cabia no espólio. Com o terço que já possuía da mãe, Ricardo tornou-se o principal herdeiro, com dois terços. 

Teixeira ficou sem direito sobre as edições da obra. Uma de suas irmãs, Fernanda dos Santos, moveu ação questionando a assinatura da mãe no documento que cedia os direitos patrimoniais ao primo, Ricardo Strang. A assinatura foi periciada e considerada autêntica – mas a confusão atrasou a divulgação da obra. “Quem perde é a pobre da minha avó Cecília Meireles”, diz Teixeira. Embora não tenha direitos patrimoniais, ele é o agente literário de Cecília. “Além de me bater com a família, tenho de manter olho aberto nas editoras. Também sou agente literário do Manuel Bandeira, mas com minha avó não consigo a metade do que consigo com ele.” 

A pedido de uma das herdeiras, 12 títulos da obra de Nélson Rodrigues foram incinerados
 
AlexandreTeixeira
Neto e agente literário de Cecília Meireles, não consulta a tia sobre as edições da obra da avó

Há pouco, Teixeira travou uma briga com a editora Aprazível ao impedir a circulação do livro de fotografias de José Medeiros, Olho da rua, que incluía uma foto de Manuel Bandeira em 1936. Ele conversava com o escritor Orígenes Lessa no navio que levaria de volta o embaixador do México no Brasil, Alfonso Reyes. Bandeira faria um poema, …Alfonso Reyes partindo,/E tanta gente ficando… (“Rondó dos cavalinhos”), que não comoveu Teixeira a liberar a foto ou o livro. “Bastava pagar R$ 1.500 pelos direitos de 3 mil exemplares, e não seria nada, o livro teve patrocínio da Lei Rouanet, seria vendido a R$ 170. As editoras não podem passar por cima.” 

“As exigências sempre financeiras dos herdeiros já deixaram Bandeira fora do Museu da Língua, de especial da TV Brasil e de antologias”, disse o colunista Joaquim Ferreira dos Santos, no jornal O Globo. “O livro que agora querem retirar de circulação, de um fundador do fotojornalismo, traz apenas uma foto do poeta, num evento público. Os herdeiros parecem querer apagar Bandeira da memória nacional.” Teixeira endureceu. “Trabalho para o autor e nunca se publicou tanto sobre Bandeira”, disse. 

Carlos Barbosa, editor da Batel, quer distância de herdeiros. Ele era peça-chave na Nova Fronteira quando vivia o drama de publicar Nélson Rodrigues, morto há 30 anos. “O inventário não termina, os herdeiros são seis, de três mulheres diferentes, e fica complicado negociar sem engessar a obra”, diz. Uma dessas filhas nasceu cega, surda e muda, foi reconhecida e mereceu uma comovente crônica de Nélson. Mas agora, além dos seis filhos, são mais três advogados que o editor enfrenta: “O último contrato parecia peça do Nélson, no Fórum com a presença da juíza, herdeiros e advogados, solene como um casamento civil”. 

Até biografias são prejudicadas, como aconteceu com O anjo pornográfico, de Ruy Castro. No livro, ele contestara os documentos da mãe de três filhos que Nélson Rodrigues teve fora do casamento. A filiação de uma delas, Sonia Rodrigues, que controla o espólio, foi comprovada por exame póstumo de DNA. Ela entrou com medida judicial para retirar a obra do pai da editora Companhia das Letras, alegando “alterações” nas edições dirigidas por Castro. “Exigiram incineração das edições de 12 títulos”, afirma Castro. “Por vingança contra mim, processaram a editora e agora lançam na Ediouro livros semelhantes aos que foram queimados.” 

Sonia Rodrigues
Reconhecida por exame de DNA após a morte do pai, a filha de Nélson Rodrigues herdou os direitos sobre a obra do pai

A editora Maria Amélia Mello conta o prazer de conviver com velhos herdeiros que ainda se lembram de José Olympio. “É uma emoção mesmo”, diz. “Alguns filhos e netos choram quando vêm aqui.” José Olympio costumava “salvar” escritores com adiantamentos generosos, e sua editora era ponto dos mais animados encontros literários do Rio de Janeiro. A pesquisadora Nadia Battella Gotlib, autora das biografias de Tarsila (Senac, 2000) e Clarice Lispector (Imprensa Oficial, 2008), lembra que a memória da José Olympio é exceção na praça. “O universo era outro, agora herdeiros viraram executivos e tratam do ‘negócio’ com frieza”, afirma. “Quem consegue fazer biografias autorizadas hoje?” 

Para se proteger, as cinco filhas de três das nove viúvas de Vinícius de Morais tiraram as mães da jogada e gerem elas, desde 1987, a VM Produções Artísticas, o que resultou em shows, peças, livros, discos e o documentário de Miguel Faria Jr. É um caso único. 

Ninguém sabe o que vai acontecer depois da morte de um autor. Quem leu Rei Lear, de Shakespeare, ou assistiu à adaptação do diretor Akira Kurosawa, Ran, tece uma ideia do que vai se passar entre os herdeiros. A escritora Nélida Piñon, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, com 20 livros publicados e sem filhos, arquitetou um plano. “Vou antecipar os direitos em 70 anos, quero minha obra em domínio público quando eu morrer”, diz. “A família, as viúvas, os herdeiros ditos protetores, os que inventam uma felicidade e uma convivência que nunca existiram, são esses que paralisam a obra de uma vida.”
 

O link original: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI155579-15220,00-PROFISSAO+HERDEIRO.html

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