Getúlio: do nascimento à ascenção ao poder

27/10/2013 às 21:08 | Publicado em Biografias, Jornalismo Literário, Livros, perfis e biografias | Deixe um comentário

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Gostei de ler Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930), do jornalista cearense Lira Neto. O livro é o primeiro de uma trilogia que promete biografar, de forma jornalística e objetiva, a vida de Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954).

Pontos Fortes:

1.  Bem escrito:  O primeiro capítulo serve como exemplo (e dos bons) de Jornalismo Literário.

2. Boa pesquisa: Ao longo de dois anos e meio, o jornalista vasculhou de cartas pessoais a marchinhas sobre Getúlio, fazendo também muitas entrevistas sobre ele.

3. Familiaridade com o tema: Lira Neto cobriu política por anos, tendo domínio sobre a temática.

Pontos Fracos:

1. Leitura arrastada: a mão do escritor está bem mais leve que em padre Cícero, que lançou em 2009. Ainda assim, às vezes o texto se prende em muitos detalhes, que podem não interessar a todos os leitores.

2. Vida pública em detrimento da pessoal: embora o subtítulo seja anos em formação, e à semelhança da biografia sobre o padre Cícero, o fato é que a obra pende mais para o homem público do que para o privado.

Noves fora, mesmo quem não é fã de biografias de políticos provavelmente gostará da obra.

A Companhia das Letras disponibiliza um trecho da obra em http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12979.pdf

Monica Martinez

Avaliação

**** Leitura  Recomendável

Título: Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882 – 1930)
Autor: Lira Neto
Formato: 16 x 23
Páginas:  664
Editora: Companhia das Letras

Quando sobreviver é preciso

16/09/2013 às 21:54 | Publicado em Jornalismo Literário, Literatura, Livros, Memórias, Resenhas | Deixe um comentário

Gostei de ler “O que os cegos estão sonhando”, de Noemi Jaffe. O livro é dividido em duas partes. A primeira traz o diário de Lili Jaffe, na época Stern, no período de 1944 a 1945. Esta parte registra o período passado como prisioneira dos nazistas em Auschwitz. Hoje com 86 anos, Lili narra de forma comoventemente singela o cotidiano do terrível campo de extermínio, onde trabalhou na cozinha dos prisioneiros, bem como quando foi salva pela Cruz Vermelha e levada à Suécia — onde redigiu o diário que hoje se encontra no Museu do Holocausto em Jerusalém.

Chama a atenção a solidariedade praticada mesmo sob extrema vigilância, como quando levou quinino para um conhecido doente ou quando assumiu a culpa pelo roubo de um pouco de margarina em nome das três primas que com ela estavam. Acima de tudo, impressiona a aceitação dos fatos: “Não tínhamos medo do alarme, porque da morte não tínhamos medo, apenas do sofrimento” (p. 32). Como um rochedo, Lili parece aguentar as tormentas de um modo quase zen, como se não houvesse o que fazer senão agir com humanidade num ambiente desumano, enquanto esperava o turbilhão passar. E ele felizmente passou.

A segunda parte traz as reflexões da filha, a professora de literatura e crítica literária da Folha de S. Paulo Noemi Jaffe, sobre o diário da mãe, bem como as impressões dela e da filha, Leda, sobre a visita que fizeram em 2009 a Auschwitz. Mesmo depois de passar a vida ouvindo o relato materno (ela é nascida em 1962), Noemi ainda se impressiona com a força moral da mãe. Deve ser difícil se comparar, dia após dia, com um rochedo.

Monica Martinez

Avaliação

**** Leitura  Recomendável

Título: O que os Cegos estão Sonhando
Autor: Noemi Jaffe
Formato: 14 x 21
Páginas:  240
Editora: 34

A arte de reportar – perfis e outros escritos da The New Yorker

26/10/2011 às 15:08 | Publicado em Livros, perfis e biografias, Resenhas | Deixe um comentário

Dentro da Floresta (Companhia das Letras, 2006) é um dos seis livros escritos pelo jornalista David Remnick, o editor atual da revista The New Yorker (lançada em 1925, a publicação teve seletos cinco editores até agora, Remnick incluso).

Antes de comentar um livro, gosto de lê-lo e deixar passar um tempo, para que o conteúdo, digamos, assente dentro de mim. Tenho a sensação de que degustar uma leitura é algo muito próximo de saborear um bom vinho ou sentir um perfume de qualidade.

Em ambos, há aquela nota inicial, que nos faz gostar da obra de cara ou deixá-la na cabeceira à espera de um momento mais propício para leitura. Com suas 575 páginas, Dentro da Floresta ficou certo tempo me espiando, até que eu achasse que era hora de me debruçar sobre seu conteúdo.

O livro consiste em 23 perfis que Remnick escreveu para a The New Yorker, acrescido do posfácio de João Moreira Salles, o mentor da revista piauí! – ele também um refinado escritor de perfis.

Durante a leitura, há aquelas notas prazerosas que emergem ao saborear um bom tinto, quando se consegue identificar o terroir, isto é, os rastros da terra, do ar, da água, enfim, do meio ambiente que fazem o conteúdo de cada garrafa única. Neste caso, sentimos o repórter que trabalhou por anos no The Washington Post, aquele olhar atento de quem sabe que é a partir da pesquisa e da apuração que um bom texto emerge. Neste contexto, um dos destaques do perfil do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair  é a constrangedora entrevista concedida a dois apresentadores mirins de um programa de televisão de variedades. O perfil, escrito em 2005, não por acaso é intitulado A Campanha do Masoquismo.

Há que se mencionar que em outros perfis de políticos, sobretudo os muito distantes da realidade brasileira, poderão considerados enfadonhos pelo leitor brasileiro médio.  Claro que não o de Vladimir Putin, aqui magistralmente descrito como um sujeito visto pelo povo russo como um cara normal, que faz o que pode. Alias, é nítida a familiaridade que ele tem com a região (ele foi correspondente do Post na União Soviética até 1991 e ganhou um Pulitzer em 1994 pelo livro Lenin´s Tomb).

Mais recentemente tenho me fixado no efeito residual que a leitura de uma obra propicia. Como um vinho especial que deixa uma marca inesquecível.  Esta marca pessoal de Remnick, neste livro, se faz notar pelos perfis de boxeadores e escritores.

Remnick registra o ocaso da paixão estadunidense pelo boxe, que produziu obras primorosas como o livro A Luta, de Norman Mailer, e perfis magistrais como o de Gay Talese, Joe Louis: o rei na meia idade (do livro Fama & Anonimato, ambos da Companhia das Letras). O livro de Remnick traz um perfil de Tyson, claro, mas destaco o sobre o treinador de boxe Teddy Atlas, talvez porque ele fuja do estereótipo do herói e seja apresentado como um mortal comum.

Como não poderia deixar de ser, Remnick perfila escritores. Entre eles, Philip Roth – atualmente considerado o principal escritor sênior estadunidense. Mas destaco o perfil feito de Don DeLillo, onde este filosofa sobre a notícia como a narrativa de nosso tempo.

Na ótima resenha de Dentro da Floresta feita para o jornal The New York Times, o escritor estadunidense Pete Hamill começa citando Ezra Pound que, em ABC of Reading, de 1934, dizia que “Literature is news that stays news”. Algo como literatura é notícia que permanece uma novidade. Ou seja, toca-se aqui no ponto central que une jornalismo e literatura, deixando ambos com aquele toque atemporal que encanta pessoas de todos os tempos. Seria como degustar um vinho mais do que especial.

Não é fácil escrever um texto de não ficção, bem apurado, que não seja apenas lido com prazer, mas que cative um espaço no coração e na memória do leitor. Em alguns casos Remnick consegue o feito. Por outro lado, a vantagem de uma coletânea de perfis é que o leitor fica muito à vontade para fazer sua própria seleção, concordando e, por que não, discordando do resenhista. Esta liberdade de escolha, aliás, não tem preço.

Confesso que não entendi o título, o tal Dentro da Floresta. O original, proposto pela decana Lilian Ross, é muito melhor: Reporting – Writings from The New Yorker. Ross, para quem não se lembra, é autora de Filme, também publicado na coleção Jornalismo Literário da Companhia das Letras – livro que inspirou novos jornalistas como Truman Capote.

Monica Martinez

Jornalismo Literário para todas as idades

01/08/2011 às 10:11 | Publicado em E-Books, Jornalismo Literário, Livros | Deixe um comentário

A princípio endereçado para um público jovem, Jornalismo Literário para Iniciantes certamente agradará profissionais em início ou a pleno vapor na carreira, bem como interessados em escrever bem em geral.

Neste contexto, Jornalismo Literário é o texto elaborado com qualidade. Não é a forma mais conhecida do jornalismo, que tem como carro-chefe os relatos noticiosos, nem a mais praticada. Mas, certamente, é a mais cobiçada por jornalistas-escritores e leitores que querem se aprofundar em algum assunto de seu interesse.

O autor é referência na área desde 1993, quando publicou Páginas Ampliadas – o livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. Lima não está falando apenas do jornalismo romântico praticado na primeira metade do século XX, quando inspirados autores buscavam nas redações o ganha-pão mais imediato. Ele é mestre nos autores contemporâneos, sobretudo americanos, aqueles que publicam hoje livros-reportagem que serão transformados em filmes pelos grandes estúdios amanhã.

A obra é facilmente adquirida pelo sistema online do Clube dos Autores, que há pouco tempo lançou a prática opção de e-book (que tem a vantagem do preço mais acessível).

Ficha técnica

Avaliação
**** Ótima Leitura

Título: Jornalismo Literário para Iniciantes

Editora: Clube de Autores
Autor: Edvaldo Pereira Lima
Formato: 14 x 21 cm
Páginas: 148.

Honra teu pai, de Gay Talese: uma história de pais e filhos

09/06/2011 às 10:53 | Publicado em Gay Talese, Jornalismo Literário, Livros | Deixe um comentário

Um dos livros mais marcantes para mim foi O Poderoso Chefão, de Mário Puzzo. Talvez porque fosse um livro para adultos que eu, na época, não deveria estar escondendo em caixas de sapato debaixo da cama para lê-lo à noite, depois que todos fossem dormir. Talvez porque é bem escrito. Talvez porque seja sobre descendentes de italianos, como eu. Talvez simplesmente porque eu goste de ler. Eu não sei o motivo, mas sei que senti a mesma sensação de estar diante de uma grande obra ao ler Honta Teu Pai, de Gay Talese, lançado este ano pela Companhia das Letras (a edição anterior, de 1971, chamada Honrados Mafiosos, só podia ser garimpada em sebos).

Mas é um livro diferente. Mais do que contar a história das vendetas dos imigrantes sicilianos que foram para os Estados Unidos, a obra é um tratado sobre a relação entre pais e filhos.

O protagonista, Bill, é filho de Joseph Bonanno, que controlava uma das cinco famílias de Nova York. Em vez de integrar-se à sociedade, como os demais integrantes da geração nascida na América, ele opta por manter-se nos, digamos, negócios escusos do pai. É por meio dos reveses que Bill enfrenta que acompanhamos o ocaso da Máfia naquele país. Tudo no melhor estilo de Jornalismo Literário.

O curioso é que o livro já adianta uma tendência que o escritor estadunidense Gay Talese adotaria: ao invés de dedicar-se às celebridades no auge da carreira, ele sempre deu preferência aos personagens que estão no ocaso ou em momentos difíceis da vida.

Hoje, quase 80 anos, Gay Talese dedica-se à escrever a história de seu matrimônio com a editora Nan.

Texto: Monica Martinez
Foto: divulgação.

Abaixo, o trecho inicial do livro, divulgado pela Companhia das Letras.

Trecho

parte I
o desaparecimento

1.
Os porteiros de Nova York sabem que uma pessoa pode ver demais e por
isso a maioria deles adquiriu uma extraordinária capacidade de visão seletiva:
sabem o que devem ver e o que ignorar, quando é conveniente ser bisbilhoteiro
ou, ao contrário, displicente; se ocorrem acidentes ou discussões bem na
frente de seus edifícios, a maior parte das vezes estão lá dentro e nada veem; e,
quando ladrões fogem pelo saguão, quase sempre estão procurando um táxi
para alguém. Um porteiro pode desaprovar suborno ou adultério, mas, ainda
assim, está invariavelmente de costas quando o síndico passa uma propina ao
fiscal do Corpo de Bombeiros, ou quando um morador cuja mulher está fora
entra com uma moça no elevador. Não pretendo com isso acusar os porteiros
de hipocrisia ou covardia, mas tão somente dar a entender que eles sabem
perfeitamente, por instinto, que é bem melhor não se meter, e conjecturar que
talvez eles tenham aprendido, pela experiência, que a pessoa não ganha nada
por ser testemunha ocular das coisas feias da vida ou das loucuras da cidade.
Sendo assim, não é de estranhar que na noite em que Joseph Bonanno, um dos
chefes da Máfia em Nova York, foi agarrado por dois capangas diante de um
luxuoso edifício de apartamentos na Park Avenue, perto da rua 36, pouco depois da meia‑noite de uma chuvosa terça‑feira de outubro, o porteiro estivesse conversando com o ascensorista no saguão e nada tivesse visto.

Tudo aconteceu com incrível rapidez. Voltando de um restaurante, Bonanno
desceu de um táxi depois de seu advogado, William P. Maloney, que
saiu correndo na frente, sob a chuva, para resguardar‑se embaixo do toldo.
Nesse momento, os pistoleiros surgiram da escuridão, puxando Bonanno pelos
braços em direção a um automóvel. Bonanno tentou se livrar, mas não
conseguiu. Encarou os homens, furioso e perplexo — desde o tempo da Lei
Seca não era tratado com tanta brutalidade, e daquela vez quem o maltratara
fora a polícia, porque ele se recusara a responder a certas perguntas. Desta vez
estava sendo brutalizado por homens de seu próprio mundo, dois grandalhões
de sobretudo e chapéu preto, um dos quais lhe disse: “Vamos, Joe, meu chefe
quer ver você”.

Bonanno, um homem vistoso e grisalho, de 59 anos, nada respondeu.
Saíra naquela noite sem guarda‑costas e desarmado, e mesmo que a avenida
estivesse cheia de gente não teria pedido socorro, pois considerava aquilo um
assunto pessoal. Tentou recuperar a dignidade, pensar com clareza enquanto
os homens o conduziam pela calçada, os braços já dormentes por causa
da força com que os apertavam. Tremia sob a chuva fria e o vento, sentindo‑a
penetrar através do terno de seda cinza, e nada enxergava na neblina
que tomava conta da Park Avenue, exceto as lanternas de seu táxi, que desaparecia na direção do Central Park, nem nada ouvia além da respiração
ofegante dos homens que o puxavam. De repente, às suas costas, Bonanno
escutou os passos rápidos e a voz de Maloney, que gritava: “Ei, que diabo
está acontecendo?”.

Um dos pistoleiros virou‑se e avisou: “Deixe para lá, volte!”.

“Vão embora”, respondeu Maloney, ainda correndo. Era um homem de
sessenta anos, de cabelos brancos, e agitava os braços. “Ele é meu cliente!”
Uma bala de automática foi disparada para o chão, perto de Maloney. O
advogado parou, recuou e por fim escondeu‑se na entrada de seu edifício. Os
homens empurraram Bonanno para dentro de um sedã bege estacionado na
esquina da rua 36, com o motor ligado. Bonanno deitou‑se no chão, como lhe
havia sido ordenado, e o carro partiu em direção à avenida Lexington. Foi
então que o porteiro foi ter com Maloney na calçada, chegando tarde demais
para ver qualquer coisa. Posteriormente declarou que não tinha escutado tiro
nenhum.

* * *
Bill Bonanno, um homem alto e corpulento de 31 anos, cujo cabelo escuro
cortado à escovinha e a camisa de colarinho abotoado indicavam o universitário que ele fora na década de 1950, mas com um bigode recém‑cultivado para ajudar a ocultar sua identidade, estava num apartamento escassamente mobiliado do Queens. Escutou com atenção a campainha do telefone. Mas não atendeu.

O telefone tocou mais três vezes, parou, tocou novamente e parou. Era o
código de Labruzzo. Ele devia estar numa cabine telefônica, dando sinal de
que retornara ao apartamento. Ao chegar ao edifício, Labruzzo repetiria o sinal
na campainha do saguão e o jovem Bonanno apertaria outra campainha
para soltar a tranca da porta. Depois Bonanno esperaria, de arma em punho,
olhando pelo olho mágico para ter certeza de que era Labruzzo quem saía do
elevador. O apartamento mobiliado que os dois homens dividiam ficava no
último andar de um edifício de tijolinhos num bairro de classe média e, como
a porta do apartamento dava para o fim do corredor, podiam observar todos
os que entravam e saíam do único elevador, sem ascensorista.
Essas precauções estavam sendo tomadas não somente por Bill Bonanno
e Frank Labruzzo, mas também por dezenas de outros membros da organização
de Joseph Bonanno, que durante as últimas semanas vinham se escondendo
em apartamentos semelhantes no Queens, no Brooklyn e no Bronx. Era
uma época de tensão para todos eles. Sabiam que a qualquer momento poderia
ocorrer um confronto com quadrilhas rivais, dispostas a matá‑los, ou com
agentes do governo, que desejavam prendê‑los e interrogá‑los a respeito dos
boatos de vendetas e conspirações violentas que circulavam pelo mundo do
crime. O governo havia concluído recentemente, em grande medida com base
em informações obtidas através de telefones grampeados e dispositivos eletrônicos, que até mesmo os chefões da Máfia estavam envolvidos nessa dissensão interna, e que Joseph Bonanno, chefe poderoso havia trinta anos, era o pivô da controvérsia. Outros chefes suspeitavam que ele era demasiado ambicioso ou que desejava aumentar — às custas deles, talvez sobre seus cadáveres — a influência que já exercia em várias partes de Nova York, do Canadá e do sudoeste dos Estados Unidos. A recente promoção de seu filho, Bill, ao terceiro posto da hierarquia da organização também era vista com alarme e ceticismo por alguns líderes de outras organizações, bem como por membros da própria organização Bonanno, que reunia cerca de trezentos homens no Brooklyn.

No mundo do crime, Bill Bonanno era visto mais ou menos como um
tipo excêntrico, um privilegiado que havia estudado numa escola secundária
e numa universidade particulares, cujas atitudes e métodos, embora não deixassem de revelar coragem, tinham alguma coisa do espírito rebelde de um
ativista universitário. Parecia impaciente com o sistema, não se impressionando com as maneiras indiretas e a finesse do Velho Mundo que faziam parte da tradição da Máfia. Dizia o que pensava. Não mudava de tom ao se dirigir a um mafioso mais graduado e não perdia a autoconfiança juvenil nem mesmo quando usava o anacrônico dialeto siciliano que aprendera quando menino, com o avô, no Brooklyn. O fato de medir 1,88 metro, pesar mais de noventa quilos e ter uma postura ereta e raciocínio rápido aumentava bastante a impressão que causava com sua presença e conferia substância à alta opinião que fazia de si mesmo — a de que era igual ou melhor que qualquer um dos homens a que estava ligado, com a possível exceção de seu pai. Perto dele, Bill parecia perder um pouco de sua segurança, tornando‑se mais calado, hesitante, como se o pai estivesse testando severamente cada uma de suas palavras e pensamentos. Parecia distante e formal em relação ao pai, não tomava mais liberdades do que teria com um estranho. Mas era também atento às necessidades do pai, parecendo ter muito prazer em agradá‑lo. Era evidente que o pai lhe infundia muita admiração e respeito e, embora sem dúvida ele o tivesse temido quando criança (e talvez ainda temesse), também o adorava.
Durante as últimas semanas, em nenhum momento ele estivera longe de
Joseph Bonanno, mas na noite anterior, sabendo que o pai queria jantar sozinho com seus advogados e dormir no apartamento de Maloney, Bill Bonanno passou uma noite tranquila no apartamento com Labruzzo, vendo televisão, lendo os jornais e esperando uma comunicação. Sem que soubesse exatamente por quê, estava meio nervoso. Talvez uma das razões fosse a matéria que lera no Daily News, segundo a qual a vida para os mafiosos estava cada vez mais perigosa e que o velho Bonanno planejara, pouco tempo atrás, o assassinato de dois chefes rivais, Carlo Gambino e Thomas (Brown Três‑Dedos) Lucchese, plano que teria falhado porque um dos pistoleiros traiu Bonanno e avisou uma das vítimas. Mesmo que isso fosse pura invencionice, baseada talvez em conversas captadas pelo fbi entre subalternos da Máfia, Bill estava preocupado com a publicidade dada ao assunto, pois sabia que aquilo poderia intensificar a suspeita que realmente existia entre as várias quadrilhas que controlavam a contravenção (jogos de azar, corretagem de apostas em cavalos, agiotagem, lenocínio, contrabando e venda de proteção). Poderia ainda despertar protestos de políticos, provocar uma vigilância mais rigorosa da polícia e resultar em maior número de intimações dos tribunais.

A intimação judicial era agora mais temida do que anteriormente no mundo
da contravenção devido a uma nova lei federal segundo a qual um suspeito
teria de depor quando chamado a fazê‑lo, desde que o tribunal lhe concedesse
imunidade, ou se arriscaria a uma condenação por desacato à justiça.
Isso tornava imperativo que os homens da Máfia se mantivessem pouco visíveis para evitar intimações a cada vez que os jornais noticiavam alguma coisa.

A nova lei também dificultava que os líderes da Máfia controlassem os passos
de seus homens, pois, como tinham de ter muito cuidado, nem sempre estavam
onde deveriam estar na hora marcada para cumprir alguma missão; muitas
vezes não conseguiam receber, em cabines telefônicas designadas e em horários precisos, comunicações combinadas com seus chefes que desejavam saber como iam as coisas. Numa sociedade secreta em que a precisão era fundamental, o novo problema das comunicações estava acabando com os nervos já tensos de muitos chefes.

Mais progressista do que a maioria das outras “famílias”, devido aos métodos
empresariais modernos adotados pelo jovem Bonanno, a organização
Bonanno até certo ponto resolvera o problema de comunicação mediante um
código de número de toques de campainha e também com a utilização de
um serviço de recados telefônicos. A família Bonanno talvez fosse a única a
usar esse tipo de serviço. O contrato fora feito em nome de um fictício sr.
Baxter, codinome de Bill Bonanno, e estava ligado ao telefone da casa de uma
tia solteira de um dos membros da organização, que mal falava inglês e era
quase surda. Durante todo o dia vários membros chamavam o serviço e se
identificavam por meio de codinomes, deixando mensagens cifradas com as
quais confirmavam que estavam bem e que os negócios seguiam normalmente.
Uma mensagem com a sigla ibm — “aconselho que você compre mais
ibm” — significava que Frank Labruzzo, que já trabalhara para a ibm, estava
entrando em contato. Se a mensagem falava em “monge”, identificava outro
membro da organização, um homem de cabeça tonsurada que muitas vezes
ocultava sua identidade em público usando um hábito de frade. Qualquer referência a “vendedor” indicava um dos capitães de Bonanno que trabalhava
também como vendedor de joias, e “flor” designava um pistoleiro cujo pai era
florista na Sicília. “Sr. Boyd” era um membro cuja mãe morava na rua Boyd,
em Long Island, e uma referência a “charuto” identificava certo membro que
estava sempre com um charuto na boca. Joseph Bonanno era conhecido no
serviço de recados como “sr. Shepherd”.
Frank Labruzzo tinha saído do apartamento que dividia com Bill Bonanno
a fim de ligar para o serviço de recados de um telefone público nas vizinhanças,
e também para comprar os vespertinos, para saber se havia acontecido
alguma coisa de especial. Como de costume, saiu com seu cão, que ficava
com eles no apartamento. Bill Bonanno tinha sugerido que todos os membros
da organização que se achavam escondidos tivessem cachorros nos apartamentos.
Embora no começo isso lhes tornasse difícil conseguir alojamentos,
uma vez que alguns senhorios faziam objeção a animais, mais tarde os homens
concordaram que um cão os tornava mais alertas a sons nos corredores, além
de ser um companheiro útil quando tinham de sair — um homem com um
cachorro despertava poucas suspeitas na rua.
Bonanno e Labruzzo gostavam de cães, o que era uma das muitas coisas
que tinham em comum e contribuíam para viverem bem no pequeno apartamento.
Frank Labruzzo era um homem calmo e bonachão de 53 anos, um
tanto atarracado, que usava óculos e cujo cabelo escuro começava a branquear. Era membro graduado da organização de Joseph Bonanno, de quem era parente afim — a irmã de Labruzzo, Fay, era casada com Joseph Bonanno e mãe de Bill Bonanno; além disso, Labruzzo estava ligado ao sobrinho de uma
maneira diferente do pai. Não havia entre os dois nenhuma tensão, nenhum
problema de competição, de ciúme. Labruzzo, que não era movido por uma
avassaladora ambição pessoal, nem era impetuoso como Joseph Bonanno ou
inquieto como o filho, contentava‑se com sua posição secundária no mundo,
que via como um lugar muito maior do que qualquer um dos dois Bonanno
parecia julgar que fosse.
Labruzzo tinha feito curso superior e se dedicara a várias ocupações, nenhuma
por muito tempo. Além de trabalhar para a ibm, administrara uma loja,
vendera apólices de seguro e fora agente funerário. Em certa época possuíra,
em sociedade com Joseph Bonanno, uma agência funerária no Brooklyn, per-
to do quarteirão onde nascera, no centro de um bairro em que milhares de
sicilianos haviam se instalado no começo do século. Fora ali que o velho Bonanno cortejara Fay Labruzzo, filha de um próspero açougueiro que fabricara vinho durante a Lei Seca. O açougueiro orgulhou‑se de ter Bonanno como genro, embora a data do casamento, em 1930, tivesse de ser adiada por treze meses devido a uma guerra entre centenas de sicilianos e outros italianos recém‑chegados — entre os quais Bonanno — que davam continuidade a desavenças provincianas, transplantadas para os Estados Unidos, mas que tinham origem longínqua nas antigas aldeias montanhesas que só haviam abandonado fisicamente. Esses homens trouxeram para Nova York suas velhas rixas e costumes, suas amizades, medos e suspeitas tradicionais, e não só se consumiam nessas coisas como as transmitiam aos filhos e, às vezes, aos filhos dos filhos. E entre tais herdeiros havia homens como Frank Labruzzo e Bill Bonanno, que, em meados dos anos 1960, uma época de foguetes e viagens espaciais, travavam ainda uma guerra feudal.

Aos dois homens parecia absurdo e extraordinário que nunca tivessem
conseguido escapar aos costumes estreitos do mundo de seus pais, tema que
haviam discutido durante as muitas horas de confinamento, analisando‑o em
geral em tons de brincadeira e despreocupação, embora às vezes com tristeza
e até amargura. “É, somos vendedores de rodas de carroças”, dissera Bonanno
uma vez, suspirando, e Labruzzo concordara: eram homens modernos, mas
perdidos no tempo, alimentando velhos rancores. Isso era estranho sobretudo
no caso de Bill Bonanno: deixara o Brooklyn ainda muito jovem para estudar
em internatos do Arizona, sendo criado fora da família, aprendendo a montar
a cavalo e a ferrar gado, saindo com moças louras, filhas de fazendeiros; mais
tarde, como estudante na Universidade do Arizona, comandara um pelotão de
cadetes do rotc que hasteava a bandeira americana a cada jogo de futebol,
antes da execução do hino nacional. O fato de ter subitamente trocado o ambiente universitário pelo precário mundo de seu pai em Nova York devia‑se a uma série de bizarras circunstâncias, talvez fora de seu controle, talvez não.

Um passo importante para isso fora decerto seu casamento, em 1956, com Rosalie Profaci, uma bela morena de olhos escuros, sobrinha de Joseph Profaci, o importador milionário que era também membro da comissão nacional da Máfia. Bill Bonanno conheceu Rosalie Profaci quando ela era ainda muito jovem
e estudava com a irmã numa escola conventual no estado de Nova York. Na-
quela época tinha uma namorada no Arizona, uma moça americana descontraída e um tanto rebelde; embora Rosalie fosse atraente, era também recatada e reservada. Os dois encontraram‑se muitas vezes, durante os meses de verão e nas férias, em grande parte por causa de seus pais, que eram amigos íntimos e cuja aprovação era expressada de maneiras sutis, sempre que Rosalie e Bill conversavam ou simplesmente sentavam‑se um perto do outro em salas
com muita gente. Numa grande reunião de família, meses antes do noivado,
Joseph Bonanno levou sua filha Catherine, de 21 anos, para um canto e lhe
perguntou o que pensava da possibilidade de Bill vir a se casar com Rosalie.
Catherine Bonanno, uma moça de espírito independente, pensou um momento
e respondeu que pessoalmente gostava muito de Rosalie, mas não julgava
que ela fosse a moça indicada para Bill. Faltava‑lhe a necessária firmeza
de caráter para aceitar Bill como ele era e poderia vir a ser, disse, e estava prestes a dizer mais alguma coisa quando, de repente, sentiu um forte tapa no
rosto. Caiu para trás atônita, perplexa, rompeu em lágrimas e saiu correndo.

Nunca vira o pai tão furioso, com os olhos fuzilando daquela maneira. Mais
tarde ele tentou consolá‑la, desculpar‑se a seu modo, mas ela se manteve distante durante dias, embora entendesse agora, como não tinha percebido antes, o desejo do pai de que o casamento se realizasse. Era um desejo compartilhado pelo pai e pelo tio de Rosalie. E se concretizaria no ano seguinte, um acontecimento que Catherine Bonanno sempre encararia como um casamento arranjado pelos pais.

A cerimônia, em 18 de agosto de 1956, foi espetacular. Mais de 3 mil convidados compareceram à recepção na sala de baile do Hotel Astor, em Nova
York, depois da cerimônia religiosa no Brooklyn, e nenhuma despesa foi poupada para abrilhantar a ocasião. Para o baile foram contratadas orquestras de fama e artistas como os Four Lads e Tony Bennett. Um distribuidor de bebidas do Brooklyn mandou de presente um caminhão de champanhe e vinho;
vieram da Califórnia, pela Pan American, milhares de margaridas, a flor predileta de Rosalie e que na época não havia em Nova York. Além de homens
de negócios convencionais, políticos e religiosos, a lista de convidados incluía
todos os chefes da contravenção. Lá estavam Vito Genovese e Frank Costello,
que pediram e receberam mesas discretas junto à parede. Lá estava Albert
Anastasia (que no ano seguinte seria assassinado na barbearia do Hotel Park-
-Sheraton), bem como Joseph Barbara, cuja recepção para quase setenta…

Convite: 19 de março de 2011 a partir das 18h

15/04/2011 às 10:08 | Publicado em Criatividade, Livros | 1 Comentário

O avanço do e-book

23/02/2010 às 10:34 | Publicado em Livros | Deixe um comentário

Uma entrevista com o dono da livraria Cultura, Pedro Herz, publicada na Ilustrada de domingo da Folha de S. Paulo, faz duas observações interessantes sobre o mercado do livro digital.

A primeira é a de que “quem não lê livro de papel, não vai ler por causa do livro eletrônico”. A segunda é a de que “jovens leitores são filhos de leitores”.  Parece óbvio, mas o exemplo segue sendo o melhor caminho para estimular filhos e, porque não, alunos na prazerosa arte da leitura.

Abaixo, a íntegra da entrevista, disponível em www.folha.com.br/100495):

21/02/2010

07h42

Ameaça ao livro não é e-reader, mas falta de novos leitores, diz dono da Livraria Cultura

FABIO VICTOR
da Folha de S.Paulo

Numa viagem recente a Nova York, o dono da Livraria Cultura, Pedro Herz, fez um teste: ao andar de metrô pela cidade, observou quantos passageiros portavam e-readers. Em dez dias, encontrou um único leitor com o novo equipamento.

Herz diz já ter visto burburinho semelhante em outros tempos, avalia que tudo não passa de “uma nuvem” e atribui tanto barulho à sede da indústria eletrônica por escoar os novos produtos que cria em velocidade incontrolável. A ameaça real ao futuro do livro, opina, é ausência de novos leitores entre os jovens.

Apesar do ceticismo quanto à nova coqueluche do mercado, ele informa que em março a Cultura passará a vender 150 mil títulos de e-books em suas lojas.

Neste ano, a rede, que tem nove unidades (cinco em São paulo e as outras em Campinas, Recife, Porto Alegre e Brasília), abrirá mais três: Salvador, Fortaleza e uma segunda na capital federal.

Com mais de 3 milhões de títulos em catálogo e 1.400 funcionários (serão mais 400 para as três novas lojas), a Cultura teve faturamento de R$ 274 milhões em 2009, crescimento de 18% em relação a 2008.

Segundo Herz, está mantida a decisão de pôr fim à empresa familiar na terceira geração (ou seja, a de seus filhos) e de abrir em breve o capital. Por ora deu apenas o primeiro passo, se associando no ano passado ao fundo de investimento Capital Mezanino. O fundo tem hoje 16% da empresa e família Herz, 84% –Pedro é o presidente do Conselho de Administração.

Leia a seguir a entrevista que ele deu à Folha num restaurante paulistano.

Folha – Quando a internet surgiu como uma ameaça ao mercado de livros, você começou antes a vender online. Agora, que o livro eletrônico paira como ameaça ao livro de papel, o que a Cultura vai fazer?

Pedro Herz – Em março vamos disponibilizar 150 mil títulos em formatos para e-readers. Eu acho que é uma opção a mais para o leitor. Não vamos vender o hardware, só conteúdo. Os formatos são tantos que pode ser que você compre num formato que o seu leitor [equipamento] não leia. A Amazon fez isso com o Kindle, se você comprar um e-book na [livraria] Barnes & Noble e tem um Kindle, não conseguirá ler. Foi um tiro no pé da Amazon, obrigar o leitor a comprar no seu formato. É o carregador de celular que só serve no seu, uma ideia totalmente superada.

Os formatos são vários, dependerá de como cada editora vai digitalizar seus livros.

Vai ser uma barafunda, porque se você tem um formato e teu e-reader não lê, onde o leitor vai reclamar? É o que está acontecendo um pouco nos EUA, com a MacMillan e a Amazon, mas pela guerra de preços [por discordância sobre o valor dos livros, títulos da editora foram retirados do catálogo da Amazon, mas depois elas chegaram a acordo].

Não sei bem, está tudo muito cru, muito no início, e não sei bem como serão as vendas. Acho que bem pequenas.

Acho o e-reader uma ferramenta fantástica, mas daí a virar o substituto do livro… Já vi esse filme antes, já vi o VHS chegar e dizer que ia acabar com o cinema. Já vi, na Feira de Frankfurt, dizerem que o mundo ia virar CD-ROM, e o mundo não virou CD-ROM. Dois anos depois não se falava nisso, as editoras me falavam: “Pô, perdemos um dinheirão, admitimos um monte de gente e não deu em nada”. A sensação que eu tenho é que a gente está vendo uma nuvem, que vai passar. Pode ser que chova, mas, num curto prazo, não vai acontecer nada.

Folha – O sr. tem e-reader, usa para ler?

Herz – Não, tem um monte na livraria, mas eu não uso.

Folha – E tem um monte para quê?

Herz – Pra conhecer. Eu estive em Nova York há pouco, passei dez dias, e fiquei muito atento a quantas pessoas eu ia ver lendo em e-reader. Gastei mais de US$ 80 em metrô, pra cima e pra baixo. Se eu te disser que vi um único cidadão com um na mão, você acredita? Em dez dias em Nova York, andando de metrô, onde todo mundo lia –ou uma revista, ou um jornal ou um livro–, eu vi uma pessoa com um e-reader. Um detalhe que me chamou a atenção foi que esse leitor lia segurando o aparelho com as duas mãos, e as pessoas que liam livros usavam uma mão apenas. São coisas interessantes. Dos leitores que entrevistei informalmente nas livrarias, 100% disseram que não vão trocar.

Folha – Em que medida o rebuliço em torno do e-reader se deve ao poder de marketing da indústria eletrônica?

Herz – Não só o marketing é tão forte como a indústria, qualquer indústria, tem necessidade de criar modelos novos, seja do que for, e escoar os modelos novos. E existem coisas paradoxais: todo mundo trabalha para ter mais tempo de lazer, aí chega a indústria e desenvolve um computador que é um centésimo de milésimo de segundo mais rápido do que aquele que você tem e tenta te convencer a comprar o desgraçado. Peraí, mas se eu quero ter mais tempo, por que meu computador tem que ser Fórmula 1? Eu não tenho certeza se as pessoas querem essa velocidade toda. Eu troco de carro a cada cinco anos, e sou um cara que ando pouco, quando compro um carro algum amigo já diz: “Esse carro é meu quando você vender”. Se você me perguntar por que que eu troquei, eu não sei te responder direito.

Folha – Qual a principal desvantagem do livro de papel?

Herz – Imagina um advogado que vai fazer uma audiência no Acre e tem que levar aquela papelada do processo. Um editor de uma grande editora de livros, que recebe 50 livros novos por semana de todo mundo, para resolver se vai publicar ou não, ter isso digitalizado e num voo de 12 horas para a Europa ir dando uma olhada no que interessa ou não. É de uma utilidade fantástica, mas não sei se é a melhor ferramenta para o leitor de livros. E tem outra pergunta que eu faço: fará novos leitores? Quem não lê livro de papel, não vai passar a ler por causa do livro eletrônico. Eu não sei como reagirão os que estão na maternidade.

Acredito que quem faz leitor são os pais, inegavelmente. Os jovens leitores são filhos de leitores. Dificilmente aparece uma criança ou adolescente que não tenha os pais leitores. A grande campanha que na minha opinião deveria ser feita pelo governo é mais ou menos assim: “Se você não lê, como quer que seu filho leia?”. Essa é a pergunta que deve ser feita. Porque os meus filhos “liam” sem ser alfabetizados, pegavam o livro na mão para imitar os meus gestos.

Folha – As vendas de livros pela internet representam quanto do total de vendas da Livraria Cultura?

Herz – É a nossa segunda loja. A primeira é a da Paulista. [As vendas pela internet] representam 16% do faturamento [em 2009].

Folha – Esse índice vem crescendo nos últimos anos?

Herz – Vem, mas as vendas das lojas físicas também.

Folha – Proporcionalmente, qual cresceu mais?

Herz – Não tenho a informação, teria de separar isso, ver quanto a internet cresceu sem abertura de lojas. Vi uma coisa interessante: abri uma loja em Brasília, que vai super bem. A [venda pela] internet na região fez isso [faz com a mão gesto de subida]. É de alguma forma um símbolo de segurança para o comprador. E muita gente usa a internet para pesquisa, e realiza a compra fisicamente. É muito comum você ver o cara chegar na livraria com o que ele imprimiu na internet.

Folha – Li numa reportagem, com dados da Associação Britânica de Livreiros, que houve uma queda de 27% no número de lojas de rua em dez anos no Reino Unido –só em 2009 foram fechadas 102 lojas. É uma tendência inevitável também no Brasil? O sr. tem dados?

Herz – São dados poucos confiáveis, não são representativos do mercado. Nós não somos sócios de nenhuma das entidades de classe. Os números de consumo de livros divulgados no Brasil embutem compras do governo, e eu não sei se são confiáveis.

Folha – Mas uma pesquisa de 2009 encomendada por CBL (Câmara Brasileira do Livro) e Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) fazia a separação entre essas compras…

Herz – Eu não sou fornecedor do governo, não sei se o governo comprou mais ou menos, tenho que acreditar naquilo que dizem. Acho que falta nesta pesquisa um ingrediente que, não sei por que razão, fica fora, que é o fabricante de papel. Quanto foi vendido para publicar livro, que é isento de imposto. Os fabricantes de papel concordam com esse aumento? Houve um aumento de quantas toneladas de papel para livro? Eu não sei.

Folha – Mas o fechamento das chamadas livrarias de rua parece inexorável, as lojas novas que a própria Livraria Cultura abrem são todas em shoppings…

Herz – É, tem uma série de componentes. Por que se prefere o shopping? Por que é mais seguro, facilidade de estacionar. São poucas lojas de rua que oferecem essa comodidade. Numa cidade como São Paulo, onde o transporte público é ruim, você tem que andar não sei quantas quadras para deixar o carro numa loja de rua, o medo toma conta, os pais não deixam os filhos, isso no Brasil. Em Nova York ou Londres é um pouco diferente.

Folha – Como a crise de 2008/2009 atingiu o mercado?

Herz – O mercado eu não sei, a nós não atingiu. Nós crescemos legal, 18%. Acho que a solução continua nos livros, então as pessoas começaram a ler, procurando explicações [para a crise], porque não aconteceu nada de novo, nós já vimos isso outras vezes.

Folha – O sr. vê algum novo nicho a ameaçar as vendas de livros nas livrarias?

Herz – A grande ameaça que existe é a não-formação de novos leitores. As famílias [ricas] que tinham cinco filhos há um século, hoje ou não têm nenhum ou têm um, no máximo dois. O número de leitores cresce pouco, se é que cresce. Se você pegar o universo da classe D, esse pai não tem orgulho nenhum do que faz, nem a mãe. Então a compra de um lápis significa para ele um investimento na educação de um filho. Acho isso extremamente bacana, é um raciocínio válido, mas sabemos que é insuficiente. O apagão do ensino taí, a dificuldade que temos de admitir gente é homérica. A gente aplica testes básicos dos básico de conhecimentos gerais razoáveis. A gente quer que o candidato leia jornais, uma revista, que seja atualizado. Você pergunta para ele quem escreveu “Dom Casmurro”, metade levante e vai embora. E são todos universitários formados. E não sou o único que tem esse tipo de problema. Falei com outros empresários, de outras áreas, que têm exatamente o mesmo problema. Gente que não encontra engenheiros, que não encontra médicos. Veja o resultado do Enem. Está difícil acreditar. Esse crescimento anunciado é sustentado? Ou é um momento de paternalismo que está aí? Estou procurando gente [para as lojas] no Nordeste, tem gente que não quer ser registrada. Perguntamos por que, e dizem: “Ah, porque eu recebo a Bolsa [Família], minha mulher recebe a Bolsa. E a população cresce nesses lugares do Nordeste. E gente esclarecida que pode ter filhos está tendo cada vez menos, se é que está tendo. Conheço casais de amigos, leitores, muito bem casados, felizes, que preferiram não ter filhos.

Folha – O aumento da oferta de livros nos supermercados e expansão do comércio de livros usados online, por exemplo, podem ameaçar as vendas nas livrarias?

Herz – Minha mãe começou a livraria achando que muito livro valia a pena ser lido e não ser comprado. Ela começou alugando livro. Sou francamente favorável ao comércio de livros usados. E há espaço para todo mundo. A rua da Consolação está cheia de loja de lustres. Peraí, o Brasil é muito grande. Sou francamente favorável. O que eu condeno é que um irmão mais novo não possa aproveitar o livro do irmão mais velho na escola. O que é que mudou na aritmética e na geografia? Por que tem que jogar fora esse livro. Hoje o governo até faz uma campanha para o aproveitamento [do livro didático], extremamente salutar, mas não é só. Por que o livro novo tem que ter um leitor por exemplar? Não tem biblioteca. Um livro, um leitor, é pouco.

Supermercado não me afeta em nada. Eu acho que contribui para a formação do leitor. Eu não quero fazer uma venda, eu quero um cliente. Se ele começar a gostar de ler, o próximo passo daquele que comprou um livro no supermercado será a livraria.

Folha – O que achou da Biblioteca de São Paulo, cujo modelo foi inspirado, segundo a Secretaria Estadual de Cultura, em livrarias tipo megastores?

Herz – O [secretário estadual de Cultura, João] Sayad me falou que eles se inspiraram muito no modelo da [Livraria Cultura da avenida] Paulista, que é um local onde as pessoas ficam. Fiquei orgulhoso. É possível criar um lugar onde as pessoas se entretêm, têm opções para aprender e ver alguma coisa de concreto. A coisa mais bacana que achei é que ela vai funcionar nos fins de semana. Gente, o Brasil é o único país em que as bibliotecas fecham no fim de semana, quando os pais podem levar os filhos.

Folha – Por que a Livraria Cultura resiste a entrar nas entidades de classe?

Herz – Não vejo o porquê. Não vejo muito sentido para as entidades de classe em meu ramo. Não acredito muito no que eles estão fazendo ou fizeram em benefício [do setor].

Folha – Já sofreu represália por isso?

Herz – Não, nunca sofri. E nós nos falamos, numa boa, com a Câmara [Brasileira do Livro], a ANL [Associação Nacional de Livrarias], o sindicato [nacional de editores de livros, o Snel]. A relação é muito cordial. Mas não participo de reuniões, nem de feiras, nem de bienais. Acho que qualquer feira é um lugar de plantio, não de colheita. E as bienais são de colheita, mas é impossível colher alguma coisa na bienal. Todo mundo diz que perde dinheiro. Então está na hora de repensar esse modelo.

E tem coisas de que a indústria não tem interesse. Por que o livro do irmão mais velho não pode ser aproveitado pelo mais novo?

Folha – Numa entrevista em 2006, o sr. afirmou que a indústria editorial era defasada, não tinha visão e não tratava o livro como negócio. Permanece assim?

Herz – Bastante. Quando comecei [a vender livros] na internet [em 1995], a gente desenvolveu um software para as editoras nos mandarem os seus catálogos num formatinho já pronto, txt, com informações básicas (autor, título, sinopse), para alimentar a internet. Se eu te disse que zero respondeu. Tive que fazer tudo eu. Para divulgar o livro de uma editora xis. Ninguém viu o potencial da internet do qual falo há 15 anos. Está tudo pronto lá, autor, página, preço, medidas. Não quero informação confidencial, quero informação que eu não tenha que sacar funcionários para fazer uma coisa que já está pronta. Hoje uma grande queixa dos internautas é a falta de resenhas [sinopses] dos livros. Eu que tenho que fazer a resenha do livro que você editou? Pô, me entrega isso pronto, amigo. Muitas mandam, mas muitas não.

Folha – Qual o cronograma de abertura das novas lojas?

Herz – Brasília será a primeira, entre abril e maio. Fortaleza está marcado para 19 de maio. E Salvador em julho. Estamos procurando um lugar no Rio de Janeiro, mas está dificílimo. Não acho lugar, não tem um espaço. O Rio tem uma geografia que não nos ajuda. O problema de espaço é tão complicado que um prédio encosta no outro. Tenho que chegar ao Rio com a mesma identidade, não posso chegar com um posto de serviços. Preciso de pelo menos 1.800 m2, com um pé direito que permita um mezanino. Não acho nem para discutir o valor.

Folha – De início o sr. resistiu a vender outros produtos e virar megastore. O que mais poderá ser agregado às vendas nas suas lojas?

Herz – Chegamos à conclusão de que o leitor também ouve música e vê filme.

Folha – Mas, por esse raciocínio, esse mesmo leitor assiste a TVs de plasma, compra aparelhos eletrônicos… Significa que outros produtos poderão ser vendidos também?

Herz – Dessa linha não.

Folha – Então de que outra linha?

Herz – Não sei. Temos alguma coisa de produtos educativos, uma pequena parte de Lego. E começamos uma pequena coisa agora [no final do ano passado] com games, mas não hardware.

Livro-reportagem resgata história de explorador da Amazônia

09/01/2010 às 17:44 | Publicado em Livros | Deixe um comentário

Só larguei o livro de David Grann, Z: A Cidade Perdida, depois da segunda leitura. Impossível parar!

O jornalista estadunidense, colaborador da The New Yorker, refaz a rota de um dos últimos exploradores vitorianos, o britânico Percy Fawcett (1867-10925), em sua obsessão de descobrir o Eldorado brasileiro.

Grann faz sua lição de casa direitinho: vasculha os arquivos da Real Sociedade Geógrafica, em Londres, entrevista descendentes de Fawcett e, mais importante, pega um avião para o Brasil e se embrenha no que restou desta parte da selva na época aberta a machete por gente como Fawcett ou o Marechal Rondon.

Da pesquisa, levanta novos dados, visto que Fawcett era muito cioso de sua meta e “maquiava” informações para que outros exploradores não encontrassem o local primeiro.

Já o mergulho na selva permite à Grann sentir na pele – e compartilhar com os leitores – o desafio do britânico. Permite também o fantástico final.

Acima de tudo, vale à pena ressaltar a estrutura primorosa com que ele constrói a narrativa – ponto que em bate-papo com jornalistas da Editora Abril, realizado no final de 2009, ele ressaltou como o principal desafio da obra. Vale lembrar que já está sendo feito um filme baseado no livro, que terá Brad Pitt como o intrépido explorador. Se bem que, segundo Grann durante o evento, bonito como Pitt era mesmo Jack, o filho primogênito de Fawcett que se perde na floresta com ele em 1925.

Contar mais seria tirar o sabor da leitura. A obra é da Companhia das Letras.

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